Argo estava numa cadeira bem na frente das portas. O largo corredor era iluminado por archotes poderosos. Se um alfinete caísse no chão ele veria. Tinha uma vassoura em sua mão, que ele julgava muito ameaçadora. Embora não houvesse um largo histórico de alunos fugindo pelos portões principais do castelo, ele gostava de fazer serão ali, guardando-as.

Então um sussurro passeou pelo silêncio mortificado do local. Um barulho de asas. Filch estreitou os olhos para ver melhor ao redor. Um pomo de ouro saltou na escuridão, aquele que Rose havia capturado e que estava sendo usado para despistar o zelador.

- Quem está aí? – disse ele, com voz asmática. – Apareça!

Ninguém respondeu, então ele continuou a olhar para o vazio.

- Malditos pomos... – e saiu correndo para pegá-lo. Do corredor ao lado, Rose e Alvo Severo saíram e entraram no corredor logo à frente. Pararam em frente a um quadro de uma cesta de frutas.

Então Alvo fez cócegas na imagem da pêra, que soltou um risinho. Todo o quadro se deslocou para o lado, revelando um batalhão de elfos domésticos que lavavam louça e limpavam o local. Era surpreendentemente alto, abobadado, com vários fogões e pias dispostos onde houvesse espaço.

- Estamos na cozinha, Alvo. Vamos procurar outro lugar, venha – disse Rose.

- Espere – disse Alvo. – Você parece conhecer daqui, mas George Weasley me ensinou tudo sobre Hogwarts. Ei, Crowps! – disse ele para um elfo que passava.

- Meu senhor Alvo! – ele disse. Seus olhos brilhavam. – O que o senhor deseja hoje? Um belo cálice de suco de abóbora com tabletes de chocolate, como sempre?

- Tabletes de chocolate no suco de abóbora? Isso deve ser nojento! – disse Rose.

- Olha, é muito bom. Um dia vai fazer muito sucesso no mercado de bebidas.

- Lembre-me de não comprar na sua loja se eu voltar aqui.

- É a melhor... Ah, esqueça. Crowps, eu sei que há uma saída aqui que dá perto das estufas. Será que poderia nos levar até ela?

- Ah, meu senhor, o senhor sabe que essa saída é proibida para os estudantes. Você é a segunda pessoa em mais de quinhentos anos a citá-la. Achei que estava esquecida para sempre.

- Precisamos muito – disse Rose.

- Senhorita, perdoe-me a grosseria. Meu nome é Crowps, seu fiel servo.

- Sou Rose. Será que poderia..?

- Bom, confio no senhor Potter, ele é responsável em seus pequenos delitos, se é que isso faz algum sentido. Consegue resolver os problemas em que se mete sem ferir os outros. Mas mesmo assim são tempos perigosos. Tem certeza de que não querem ficar aqui dentro?

- Pode deixar, vamos nos cuidar – disseram a mulher e o menino ao mesmo tempo.

- Certo – disse ele. – Mas terão de me permitir algo.

- O que? – disse Alvo.

- Que eu vá com vocês.

Crowps guiou a dupla pela cozinha depois que eles aceitaram sua condição. Pararam em frente a uma porta mais afastada que tinha somente a metade da altura de Rose, mas era misericordiosamente larga.

- Perdoem-me, senhor e senhorita, mas terão de se abaixar para passar – Puxou uma chave de dentro das vestes sujas e abriu a porta. Ele saiu e pôs a cabeça para dentro. – Era uma saída para o lixo, mas depois que puseram os canos de reciclagem não foi mais usada. E acharam mais fácil deixar a porta do que retirá-la.

- Primeiro as damas, Rose – disse Alvo.

- Ah, nada disso – disse ela com um sorriso.

- Venha primeiro, senhor – disse Crowps, parecendo meio envergonhado. – Deixe a senhorita Rose vir por último.

- Mas onde está seu senso de educação, Crowps? As mulheres sempre passam antes.

- Você não irá ver meu melhor lado tão fácil, seu esperto – disse ela com uma piscadela. – Mas valeu a tentativa.

Então ele entendeu, e suas faces se ruborizaram com uma velocidade alarmante. Ficou de quatro e passou pela porta. Rose fez o mesmo e se ergueu no agradável vento frio da noite. Alvo estava com a cabeça baixa ali perto. Rose se aproximou e deu um tapinha no braço dele.

- Relaxe, Alvo. Você não foi o primeiro a tentar.

- Mas eu não queria...

- Meu Deus! – gargalhou ela. – Vocês precisam largar um pouco de varinhas e estudar um pouco de como identificar uma brincadeira. Vamos andar.

Durante a caminhada, Crowps se manteve a uma distância respeitável da conversa, mas próximo o suficiente para interferir em algum possível problema.

- Então Alvo, você só precisa se acalmar um pouco às vezes. Se distrair um pouco, para voltar e pensar novamente. Ficará surpreso como novas perspectivas se abrem quando faz isso.

- Entendo. Você me ajudou muito, Rose. Às vezes tenho muito em que pensar, e isso me assusta um pouco. Coisas demais na cabeça.

- Isso só mostra que você tem uma perspectiva mais aberta do mundo. Percebe mais as coisas. E às vezes a solução para entendê-las é esquecê-las por um momento.

- Entendi. Irei me lembrar disso. Vamos entrar?

- Vamos. O Doutor deve estar louco atrás de mim.

Então um brilho verde se materializou e uma silhueta de homem agarrou mulher e menino. Um raio atingiu Crowps, que caiu desmaiado. Os outros desapareceram, deixando somente uma moeda de ouro no chão e alguns raios verdes aparecendo esporadicamente marcando o local.

O Doutor havia acabado de entrevistar o terceiro garoto. Dentre perguntas sobre onde ele havia comprado aquela varinha tão pequena e porque ele não ia atrás de sua namorada que havia saído há muito tempo, ele não havia conseguido muita coisa. Os dados eram os mesmos que eles já sabiam.

- Bom, Doutor – disse Minerva McGonagall. – Acredito que seja isso que tenho para o senhor.

- Está ótimo, diretora. Eu só vou atrás da minha namorada... quer dizer, da Rose. Maldito Finnigan, que ideia!

O Doutor saiu da sala e passou a andar a esmo. Estava complicado saber o que estava acontecendo ali. Parou e se recostou numa janela. Quando olhou para baixo, viu os raios esporádicos lampejando no chão.

- Potter! – ele gritou. – Ataque! – e correu como nunca para os andares inferiores. Deu com os grandes portais da escola. Ativou a chave de fenda sônica e tentou abrir as portas. O ar ondulou e faíscas voaram, porém elas continuaram fechadas. Logo atrás, Potter veio e, com um aceno da varinha, abriu todas.

Eles dispararam pelo gramado até o local. Analisaram tudo, com varinhas e chaves de fenda sônicas. Nada.

- Onde está Rose? – perguntou o Doutor. Com a chave de fenda, depois de ajustar algumas coisas nela, escaneou um círculo de 360°.

- Não está... não está aqui... Não! Vocês não a levaram!

- Como sabe? Ah, perdão, Rony Weasley, senhor.

- Viajantes do tempo... quer dizer... Rose tem uma assinatura diferente. Eu posso lê-la daqui. E não a achei – disse ele, sofrendo.

- Isso... isso é do meu filho! – exclamou Potter. Rony e Hermione se dirigiram ao homem.

- O que é? – disse o ruivo.

- Um galeão.

- Espere. – disse o Doutor. – Galeões são feitos de ouro, certo?

- Sim – disseram os três.

- É um metal puro. Se o desaparecimento aconteceu há pouco tempo, existem traços do elemento de transição... Eu posso rastreá-los... Mas tenho que levar em conta que estou em um novo mundo, em tese... Potter! – ele gritou, com um brilho nos olhos. – Preciso dessa moeda.

- Para que? – disse Hermione.

- Posso rastrear os traços da tecnologia de teletransporte que se dispersa por meio do fluxo temporal... ah, esqueçam. É a única chance que eu tenho de achar Rose e seu filho, Potter.

- Então faça. Tudo o que for possível.

- Venham comigo. Vamos atacar, o que quer que seja. Allons-y!

- Vamos reunir um esquadrão de aurores e...

- Não! – interrompeu o Doutor. – A cada segundo que passa os restos da tecnologia se esvaem da moeda. Preciso chegar a TARDIS o mais rápido que puder – e saiu correndo. – Quem quiser me acompanhar, venha rápido!

Os três amigos se entreolharam.

- Não vou forçar vocês a vir comigo...

- Ah, cale a boca Harry – disse Hermione. – Nós lutamos contra Lord Voldemort juntos. Agora seu filho está em perigo. Acha que não vamos mesmo te ajudar? – ela chutou Rony.

- Aah – disse ele. – Eu não precisava disso, ok? Claro que vamos, Harry.

- Então... vamos correr – e eles dispararam atrás do Doutor.