Fora dos portões da escola, o Doutor estava puxando a chave de fenda sônica quando os três chegaram.
- Ah, aqui estão vocês – disse ele.
- O que fazemos aqui?
- Bom, a TARDIS estava na encosta daquela montanhazinha – disse ele apontando.
- Mas então estamos longe! Vamos correr! – disse Harry.
- Ah, isso não é necessário – disse o Doutor e ergueu a chave de fenda. A ponta brilhou, piscou um pouco e apagou. – Oh, vamos lá, sua criança birrenta! Só porque não uso essa função há quinhentos anos não quer dizer que você não vá me obedecer agora – ele bateu nela e ela voltou a funcionar – Sim, agora funcionou.
- O que funcionou? – disse Hermione.
- A TARDIS está vindo.
- O que é uma TARDIS? – disseram todos.
- É minha... carruagem.
- Mas... – começou Rony.
Felizmente, nesse momento a TARDIS veio em alta velocidade, voando loucamente. Se o quarteto não tivesse pulado para os lados, eles teriam sido esmagados pela máquina do tempo.
- OK – disse o Doutor, com a cara cheia de neve. – Nunca mais vou usar a chave de fenda para te chamar. Desculpe – uma pausa. – É claro que eu estou mentindo – falou ele para a caixa azul.
O Doutor entrou primeiro, seguido pelo trio bruxo.
- Melhor, bem melhor – disse ele, acionando um botão no painel de controle. – O aquecedor está ligado, se alguém se importa.
Ninguém estava prestando atenção, pois estavam admirando a imensidão do ambiente, condensada numa pequena caixa azul.
- Sim, é maior por dentro do que por fora. Acreditem, vocês não são os primeiros a ver e se impressionar. Aliás, por que vocês estão impressionados? Podem fazer parecido, que eu sei – disse ele, lembrando-se de ter ouvido falar na bolsinha aparentemente gigantesca de Hermione. – Enfim, não importa.
Ele pegou a moeda de ouro e a pos num pedaço de vidro plano no console. Pegou a chave de fenda e a escaneou, enquanto uma luz vinda de baixo fazia o mesmo.
- Gotcha! – disse ele. – Travei o sinal. Eu podia esperar para saber a localização, mas é melhor partirmos logo. Segurem-se!
- Alguma ideia de para onde vamos? – disse Rony.
- Para qualquer lugar no tempo e no espaço. Esteja pronto, Rony Weasley, pois o Universo é muito maior do que você imagina. Allons-y! – e baixou uma maçaneta, começando a viagem.
- Onde estamos agora? – gritou Hermione.
- No meio do vórtex do tempo – gritou o Doutor.
- Não ouço nada! Que tipo de carruagem é essa? – berrou Rony.
- Vou dar um jeito nisso – a mulher falou. Puxou a varinha.
- Não, não! – disse o Doutor, mas ela já havia gritado "Silencio!"
O barulho da TARDIS silenciou, mas além disso o ar ondulou e passou a tremer ligeiramente.
- Caramba! – o Senhor do Tempo falou e correu para o console. Um grande solavanco jogou todos para frente. Ele se ergueu e apertou um grande botão verde. O ar continuou tremulando. Ele puxou algo parecido com a corda que dá partida a um motor de barco e girou alguns reguladores. Então o ar normalizou.
- O que houve? – disse Harry.
- Magia no meio de uma viagem temporal. Um choque de realidades que não pode acontecer. Nós definitivamente não deveríamos estar aqui. O tecido do espaço-tempo está se rompendo com a nossa presença.
- O que isso quer dizer? – disse o garoto da cicatriz.
- Bom, eu e Rose não somos bruxos, como vocês já constataram. Nós somos de outra realidade...
- Outra realidade? – disse Hermione, com voz crítica. – Parece meio impossível. Parece mais com experimentos do Ministério. Talvez seja feito com vira-tempos e um belo feitiço indetectável de extensão...
O Doutor olhava para a discussão meio perdido. Então se lembrou dos vira-tempos. Um deles havia sido usado no terceiro livro e muitos haviam sido destruídos no quinto. Ele teria de pensar sobre isso. Mas depois. Agora ele tinha que guiar a TARDIS pelo vórtex até o desconhecido.
Rose e Alvo acordaram num lugar escuro. A moça foi a primeira a se mexer. Alvo despertou logo depois.
- Onde estamos? – disse ele baixinho.
- Não sei – respondeu ela. – Espere um pouco aí, vou tentar explorar o local.
- Deixe-me iluminar o local. Onde está minha varinha?
- Não, Alvo. Não sabemos exatamente onde estamos, não vamos chamar atenção para nós – Alvo seguiu o conselho, porém conferiu no interior das vestes. Sua varinha não estava mais lá.
- Eles a tomaram – ele disse a Rose. Ela não se mostrou surpresa.
- De onde vocês são? – disse uma voz logo atrás deles. Eles se viraram surpresos.
Uma pequena réstia de luz surgiu de algum lugar. Uma voz sussurou:
- Ei, espere! Cecilia, o que o scanner diz?
- Nenhum sinal deles. Podem liberar a luz – respondeu uma voz surpreendentemente jovem.
Então um pote foi tirando debaixo de camadas de pano, onde ardiam chamas azuis e fortes. Elas lançaram uma luz fantasmagórica no local. Um garoto alto e magro pegou o pote e aproximou dos rostos de Rose e de Alvo. Quando passou pelo rosto da mulher, não houve nenhum reconhecimento. Porém, ao passar por Alvo, ele reconheceu o emblema de Hogwarts na roupa dele.
- Ele é de Hogwarts. Somente outra vítima – disse ele para todos. – Qual o seu nome? – ele questionou estendendo a mão.
- Alvo Severo – respondeu o outro, pegando na mão dele.
- O filho de Harry Potter?
Um sussurro percorreu o lugar, o burburinho espalhando a informação como rastilho de pólvora queimando entre o grande grupo de crianças que estava ali.
- Eu sou Matthew. Sou do sétimo ano de Hogwarts. Você é? – ele se inclinou para Rose.
- Rose Tyler. Sou... uma amiga – disse ela, olhando para o neto de James Potter.
- É – ele devolveu o olhar com um sorriso – uma amiga.
Uma garota então saiu do meio do grupo de crianças e jovens que haviam se reunido ao redor da dupla e do pote com fogo. Parecia ter a idade de Alvo, porém era ligeiramente mais alta. Tinha um olhar decidido e nobre. Carregava um aparelho meio desmantelado na mão, mas que piscava e parecia funcionar.
- Sou Cecilia. Era aluna do primeiro ano. Sejam bem-vindos à nossa humilde casa.
Alvo olhou um pouco embasbacado para a menina à sua frente. Então se tocou que todos olhavam para ele.
- Bom... é... Cecilia, certo? Onde... onde estamos? – disse ele tentando se recompor, sem sucesso. Rose colocava a mão na cabeça de desaprovação.
- Ninguém sabe. Só estamos dentro de uma jaula – ela apontou para as barras logo atrás, agora iluminadas pela luz do pote. – dentro de um espaço muito maior.
- Quem são os carcereiros? – questionou Alvo.
- Por incrível que pareça, umas máquinas não muito maiores que nós – disse Matthew.
- Sim, e quem os comanda? – rebateu Rose.
- Nunca vimos. Nunca apareceu. Os únicos que chegamos a ver são essas máquinas, que podem disparar raios mortais, quase como um Avada Kedavra – disse Cecilia. – Usei uns restos de um aparelho que quebrou e que as máquinas descartaram. Consertei e descobri que era um scanner. Posso saber agora se elas estão vindo ou não.
- É, Cecilia é o nosso gênio. Ela também nos apóia muito aqui – disse Matthew, com um sorriso sincero.
Eles teriam continuado conversando, mas um barulho alto veio de algum lugar bem à frente. Todos se retraíram um pouco, porém Rose se adiantou. Agarrou as grades e ouviu atentamente o som que vinha do que parecia ser uma sala bem distante.
- Rose, saia daí. Podem ser as máquinas novamente! – disse Cecilia.
- Ah, não – disse ela com um brilho no olhar. – Não são elas.
- E quem é? – sussurrou Alvo.
- Ninguém – ela se virou, sorrindo. – Só o meu Senhor do Tempo vindo me buscar.
A TARDIS pousou no seu destino. Rony, ao sentir a ausência de solavancos, perguntou:
- Chegamos?
- Sim – disse o Doutor. – O rastreamento nos trouxe até aqui. Rose Tyler e Alvo Severo devem estar por aqui em algum lugar.
- E o que seria "aqui"? – devolveu Harry.
- Não faço ideia – disse o Doutor, distraído, e saiu da máquina.
O trio o seguiu, dando com escuro quase total, a não ser uma pequena fonte de luz que vinha de um grande aposento fechado bem lá na frente. Os raios saiam pela janela e pelas frestas em volta da porta. Eles se esconderam rapidamente. O Doutor ativou a chave de fenda sônica como lanterna e saiu andando.
Eles serpentearam por várias caixas fechadas e abertas, peças que não ficariam deslocadas em uma grande fábrica. Então a ideia de que eles estavam em uma começou a se instalar na cabeça deles.
- Bom, parece que não tem ninguém hostil. Acho que posso usar o rastreador aqui.
- É sério que a gente andou tudo isso para você poder ativar o rastreador? – bufou Rony.
- Rony! – disse Hermione.
A chave de fenda foi ativada e começou a assobiar. O Doutor contornou algumas coisas cobertas com pano até dar de cara com uma grade.
- Opa! Aqui vamos nós. Rose, Alvo, estão ai?
Eles apareceram de repente do escuro, junto com muitas outras crianças.
- Pronto, achamos a sede desses monstros – disse Harry. – Agora só precisamos voltar para a sua "carruagem", Doutor, e trazer um esquadrão de aurores, então...
Porém ninguém soube o que aconteceria depois que os aurores chegassem, pois duas coisas da altura de crianças vieram pelo corredor onde estavam.
- Invasores! Vocês. serão. capturados! E. levados. ao. nosso. aliado. – disseram os dois em sincronia, com uma voz robótica e entrecortada. - "Daleks" – pensou o Doutor.
Potter se adiantou e lançou um feitiço estuporante em um deles. Ele recebeu o impacto e deslizou para trás, mas voltou, sem nenhum dano aparente. Hermione gritou: Expelliarmus! Não houve danos nos robôs. O Doutor se escondeu. O trio continuou atacando as máquinas.
- O que Daleks estão fazendo aqui? – disse ele, enquanto se esquivava de um dos raios que passou perto dele. – Não sejam atingidos pelos raios ou...
- ... vamos morrer? – disse Rony. O Doutor acenou. Rony assentiu. – Acredite, temos experiência com raios.
Relâmpagos voavam e ar deslocado levantava os panos que encobriam as coisas que lotavam o local. Logo um desses panos saiu voando, revelando uma caixa rasa repleta de pistolas. O Senhor do Tempo agarrou uma e pressionou o gatilho. Funcionou. Ele começou a atirar nos Daleks.
Então a arma falhou. O Doutor pegou a chave de fenda e tentou consertá-la. Quando a ativou, um dos Daleks berrou em sua voz mecânica.
- Tecnologia. de. Gallifrey! Elemento. não. autorizado. O. Doutor. está. entre. nós!
- Não! – ele gritou e saiu de seu esconderijo. – Deixem eles vivos! – ele abriu os braços na frente do trio. Deixe todos irem! Eu me entrego!
- Não. – disse o outro. – O. Doutor. tem. que. ser. exterminado. assim. como. as. Crianças. do. Tempo, os. companheiros. do. Senhor. do. Tempo!
- Está dizendo que ele ainda não estava tentando nos matar? – disse Rony.
- Não, ele estava usando uma arma embutida. A perigosa vem agora – disse o Doutor, notando aquilo de repente.
O Dalek estava prestes a disparar seu raio mortal quando uma voz ecoou.
- Não – ela disse, simplesmente. – Traga-os para a construção. Se a máquina dele estiver aqui, vamos ter dado muita sorte – ele riu. O Doutor notou que era um homem, e que conhecia a voz de algum lugar. Mas antes que pudesse pensar mais, comensais da morte vieram e, com as varinhas, apagaram os quatro.
Tudo estava normal, exceto por uma pequena fonte de fumaça na jaula das crianças, que vinha da tranca, convenientemente acertada por um dos raios na briga.
