Bella POV.
Eu estava exausta – muito. Sabia que precisava dormir, descansar um pouco, mas eu já estava quase terminando. Mais um pouco e logo eu poderia ir para casa e ter minhas merecidas férias.
Nem conseguia acreditar que depois daquela noite, eu só voltaria para o serviço dentro de um mês. Eu gostava de trabalhar, quase nunca tirava férias, mas meu chefe, dessa vez, havia praticamente me obrigado a entrar.
- Srta. Swan? – O Sr. Biers, dono da empresa, surgiu na porta, batendo delicadamente antes de entrar. – Já passou do seu horário de serviço, o que está fazendo aqui ainda?
- Só terminando isso aqui, senhor – sorri um pouco. – Mais um parágrafo, o último, e eu vou para casa.
- Certo – assentiu. – Nada mais do que isso, por favor.
- Como o senhor quiser.
Cinco minutos depois, eu desligava o computador e começava a preparar para ir embora, para minhas tão merecidas férias. Deixei tudo na sala organizado e me guiei até a saída, me certificando de deixar tudo trancado. Àquela hora da noite quase ninguém estava na empresa mais, por isso o elevador não demorou a chegar e logo eu estava no meu carro.
A noite estava bem tranqüila e eu sorri ao pensar que não tinha pressa para chegar em casa, porque no outro dia não havia necessidade alguma de eu acordar cedo. Dirigi calmamente, cantarolando uma música qualquer que tocava no rádio.
Ao chegar em casa, tomei um banho longo e quente. E enquanto lavava meu cabelo, tive uma ideia.
Talvez não fosse uma ideia viajar amanhã cedo para visitar meus pais, eu tinha a certeza absoluta que Charlie e Renée iriam adorar isso.
Só não imaginava o quão enganada eu estava.
Edward POV.
Desde que eu me entendia por gente, queria ser psicólogo. Não havia, para mim, nada mais gratificante do que ajudar uma pessoa. E eu me sentia muito bem quando via que um paciente meu estava progredindo. Quando eu via que eles estavam curados.
E parte do meu trabalho era ajudar aqueles que mais necessitavam: os presidiários.
Não concordava muitas vezes com os castigos aplicados pelos guardas, mas entendia que se eles não fizessem isso, a prisão virava uma bagunça.
E era para lá que eu sempre quando tinha horário livre no consultório.
Havia tantos presidiários rebeldes no começo, mas com um pouco de conversa e com o tempo, a mudança – mesmo que fosse mínima – que meia hora provocava neles era algo que me deixava completamente alegre.
E por ser uma prisão mista, eu sempre me dividia, para conseguir atender tanto a homens quanto mulheres. Lidar com os homens, na maioria das vezes, era bem mais difícil, porque eles eram mais agressivos, se escondiam mais atrás de seus problemas. As mulheres, ainda que algumas fossem mais difíceis do que as outras, costumavam confiar mais em mim como profissional.
Não era nenhum conto de fadas trabalhar em uma prisão, mas a pequena sala que eu tinha lá, aos poucos, ia se tornando o refúgio de grande parte dos presos.
- Já está indo, Edward? – Minha mãe apareceu na cozinha, com seu roupão, bocejando. – Ainda está cedo, querido.
- Eu sei, mãe – sorri. – Bom dia. Mas eu já vou indo, porque tenho consultas no meu consultório agora e a tarde eu vou para prisão.
- Entendi – sorriu. Levantei-me e dei um beijo na sua testa. – Até mais, querido.
- Até, mãe.
Como eu tinha um dia bastante agitado, eu às vezes demorava um pouco para ir visitar meus pais. Por isso que dormia lá de vez em quando, mesmo tendo meu próprio apartamento.
A parte da manhã foi bem tranqüila no meu consultório e logo eu estava almoçando. Quando acabei, caminhei até meu carro.
Eu dirigi calmamente pelas ruas de Texas e não demorou muito para que eu chegasse à prisão. Estacionei o carro no lugar de sempre e fui cumprimentando as pessoas, conforme eu adentrava o local.
Hoje era dia de eu ficar na pequena sala que eu tinha no lado feminino. Geralmente não eram muitos os homens que queriam e precisavam falar comigo, então eu ia para lá apenas duas vezes por semana.
- Bom dia, Carl – cumprimentei o guarda. – Como está o dia hoje?
- Como sempre – deu de ombros, abrindo a porta para mim. – Parece que o senhor vai ter uma nova paciente hoje, doutor.
- Sério? – Fazia algum tempo que eu não tinha um paciente novo.
- Ela não está muito a vontade para falar com ninguém daqui, então achamos melhor levá-la até o senhor.
- Certo.
A primeira paciente não era a nova. Achei melhor deixá-la por último, caso necessitasse de ficar algum tempo a mais conversando.
E quando o momento chegou, eu apenas permaneci sentado na minha mesa, esperando que a guarda a trouxesse, como sempre.
Ela entrou algemada, como todas as outras. Sua cabeça estava abaixada, seu cabelo servindo de cortina, então eu não podia enxergar seu rosto.
A guarda a colocou sentada na cadeira de frente para minha mesa e a algemou ali – para a minha segurança, eu sabia. Depois, antes de sair, me entregou sua ficha.
- Então... – Abri a pasta. – Isabella Swan.
Eu olhei para cima, apenas para vê-la me encarando. Seu rosto era de um tom pálido e agora que não estavam tampando seu rosto mais, eu podia ver como seus cabelos castanhos emolduravam seu rosto com perfeição. Seus lábios possuíam um tom rosa, natural.
Mas o que mais me chamou atenção foram os seus olhos; vazios.
Os olhos castanhos mais belos e sem vida que eu havia visto.
Bella POV.
Eu não sabia definir o que vinha sentindo desde que minha vida desmoronara daquele jeito. Dentro daquele local sombrio e pequeno, sentada naquele colchão... Era muito para assimilar.
E agora, enquanto eu era praticamente arrastada, eu ainda não havia conseguido pronunciar uma palavra. Eu ouvia o que as pessoas diziam, entendia e assentia. Mas eu não tinha vontade de dizer nada, de sentir nada, de fazer nada. Para mim, estar ali era como estar em qualquer lugar. Naquele momento, eu não estava ligando para nada.
Fui levada para uma sala, maior do que eu vivia agora. As algemas incomodavam, mas eu sabia que era algo com o qual deveria me acostumar agora. Permaneci calada, imóvel, então, enquanto me algemavam a cadeira.
Eu esperei que a guarda que tinha me trazido saísse, para que eu olhasse para cima. O cara que estava do outro lado da mesa era lindo, de tirar o fôlego, mas isso não fazia diferença para mim, então procurei não me apegar aos detalhes.
- Então... – Ele abriu o que julguei ser minha ficha. Imaginei o que ele pensaria ao ler tudo o que estava escrito ali. – Isabella Swan.
Ele olhou para mim e ficou parado durante alguns segundos. Eu não disse nada, eu mal pisquei.
- O que te traz aqui?
Eu permaneci calada, ainda o encarando.
- Não quer conversar comigo? – ele indagou, alguns minutos depois. Abaixei a cabeça, sem vontade nenhuma de conversar. – Tudo bem, vou permanecer aqui, sinta-se a vontade quando quiser conversar.
Mas o fato era que eu não queria, porque ninguém me entendia, ninguém acreditaria em mim. Então, para que falar?
Eu não sabia dizer quantas horas eram, nem quanto tempo havia passado. Parecia uma eternidade ter que ficar ali, calada. Embora não fosse muito diferente da solitária.
Eu sentia que ele estava olhando para mim, me avaliando, esperando pelo momento em que eu fosse abrir a boca e falar. Só que eu não faria isso, eu não confiava nele. Na verdade, confiança era algo que não existia para mim mais; eu não confiava em ninguém.
- Acho que o nosso tempo acabou... – Olhei para cima e ele sorria um pouco, talvez me convidando para fazer o mesmo. Não fiz, apenas encarei-o, enquanto ouvia a porta sendo aberta e a guarda tirava uma das algemas, me puxando para cima.
- Nos vemos na próxima sessão – ele disse. – Até, Srta. Swan.
Não olhei para trás em nenhum momento enquanto caminhava para fora da sala, sendo praticamente arrastada, mais uma vez.
Não prestei atenção no caminho, não me interessava saber. Apenas suspirei quando me vi trancada mais uma vez, apenas diante de um colchão.
E eu sabia que seria minha vida daqui para frente – não havia nada que eu pudesse fazer.
Edward POV.
- O que te traz aqui? – indaguei-a, saindo de meus devaneios.
Ela ficou calada, mal piscando, enquanto me encarava.
- Não quer conversar comigo? – Não havia surpresa na minha voz. Geralmente, na primeira sessão, ninguém geralmente era de conversar muito. Mas ficar completamente calado... – Tudo bem, vou permanecer aqui, sinta-se a vontade quando quiser conversar.
Eu pensei que após alguns minutos ela fosse falar algo, qualquer coisa, mesmo que fosse para me xingar. Mas não.
Cinco minutos, dez, quinze... E nada dela falar.
E durante toda a sessão eu observava seus olhos – e eles continuavam vazios, frios.
Eu sabia que podia abrir a ficha da garota e descobrir o que havia acontecido com ela, porque ela estava ali, mas geralmente eu gostava de saber pelos próprios presidiários.
Então permaneci olhando para ela, pronto para ouvir caso ela quisesse falar.
Mas ela não falou.
- Acho que o nosso tempo acabou... – murmurei quando ouvi as chaves da guarda. Sorri um pouco quando ela olhou para cima, esperando que sorrisse de volta, fizesse qualquer coisa.
Mas, mais uma vez, ela não fez.
Assisti a guarda entrando, me cumprimentando com um aceno de cabeça. Acenei de volta, voltando meus olhos para Isabella. Ela permaneceu calada enquanto tiravam a algema e a puxavam para cima.
E eu me dei conta de que ela tinha perdido a vontade de tudo – inclusive de viver.
- Nos vemos na próxima sessão – disse. – Até, Srta. Swan.
Eu a observei se afastar, sem olhar para trás nenhuma vez.
Mas mesmo depois de ir embora, mesmo depois de a porta ser fechada e eu estar livre para partir, permaneci ali, parado. Talvez eu esperasse, no fundo, que ela fosse voltar e me dizer o que estava acontecendo, mesmo sabendo que ela não podia – que isso era impossível.
Me dando conta de que não havia nada que eu pudesse fazer ali, naquele momento. Peguei minhas coisas e rumei para fora da sala, como todos os dias.
- Até a próxima, doutor Cullen. – Carl disse, sorrindo um pouco. – Na próxima vai ser na masculina ou feminina?
- Amanhã vou ficar do outro lado – ri um pouco. – Estarei de volta aqui na quarta, como sempre.
- Certo, eu sempre me esqueço disso. Até quarta, então.
- Até, Carl.
- Ah, doutor Cullen – chamou-me, quando eu estava quase saindo. – Como foi com a novata?
- Ela não falou nada – suspirei. – Vamos ver como ela se sai na próxima sessão.
- Entendi – deu de ombros. – Ela está aqui há quase uma semana e até agora, nada falou.
- Com o tempo, se ela se abrir, poderei ajudá-la.
- Tenho certeza que sim – sorriu.
Eu coloquei uma música qualquer para tocar na volta para casa, apenas para tentar me distrair. Mas eu não conseguia. Eu queria entender o que estava acontecendo com aquela garota.
Dois dias... Dois dias até que eu pudesse me sentar diante dela. E se ela ficasse calada?
Estacionei em casa não muito depois, desligando a música e saindo do carro. Conferi se a garagem estava fechada, ativei o alarme e me dirigi até o meu quarto.
O banho que eu tomei foi longo e relaxante. O sono me atingiu, assim como a fome, então antes que eu me jogasse na cama e só acordasse amanhã, comi alguma coisa, voltando para o quarto logo em seguida.
E assim que fechei meus olhos, eu estava dormindo. Sem sonhos, sem problemas.
Levantei-me cedo naquele dia. Dessa vez eu iria para a prisão na parte da manhã e ficaria o resto do dia no consultório.
Enquanto me arrumava, pensei em como Isabella estaria se saindo. Ela era nova ali e as mulheres costumavam ser um pouco duras.
Pelo resto da manhã, enquanto atendia na prisão, procurei me esquecer desse assunto. E como o último presidiário havia sido transferido para outra prisão e era cedo, aproveitei para ir almoçar com minha mãe.
- Bom dia – sorri, assim que adentrei a casa. Meu pai assistia TV, junto de Emmett.
- Olá, Edward – meu pai sorriu. – É um milagre te encontrar aqui a uma hora dessas.
- Resolvi vir almoçar com vocês – dei de ombros. – Onde está mamãe?
- Na cozinha com a Rose. – Emmett disse, dando de ombros.
Eu cumprimentei as duas na cozinha e voltei a me sentar na sala, com meu irmão e com meu pai. Fiquei conversando com eles até que minha mãe nos chamasse para almoçar.
Procurei me concentrar naquele momento, não querendo preocupar meus pais, nem chamar a atenção de ninguém. Isabella era minha paciente e eu tinha certeza de que com o tempo, ela ia se abrir.
Eu realmente torcia para que eu estivesse certo, pelo menos.
Despedi de meus pais logo em seguida, seguindo para o meu consultório. Fui cantarolando uma música qualquer.
Durante a tarde, concentrei-me novamente ali. Conselhos e horas de conversas depois, eu me dirigia para casa.
E não conseguia parar de pensar que amanhã veria Isabella.
Mesmo que isso parecesse doentio.
Comi alguma coisa e tomei banho, como sempre. Coloquei apenas minha cueca e me joguei na cama, rezando para que as horas passassem rápido.
E não demorou muito para que eu estivesse dormindo.
Bella POV.
Eu podia ouvir alguns guardas andando do lado de fora da sala, enquanto fitava o teto. Eu sabia que em algum momento eles iriam me transferir para uma cela, mas que eu ficaria sozinha também. Para mim, sinceramente, não fazia muita diferença.
E esse dia chegou, o dia seguinte àquela consulta.
- Swan – murmurou o guarda, logo após abrir a porta. – De pé.
Eu me levantei rapidamente e o segui pelos corredores. As celas começaram a aparecer, as mulheres diziam coisas horríveis, mas eu ignorei todas. Uma única cela pequena estava vazia, então concluí que seria ali que eu ficava.
Fiquei nela durante algumas horas, até que fosse chamada novamente. Agora eu não receberia mais comida como na solitária. Era hora de ir a um refeitório, onde milhares de mulheres estavam.
Não consegui comer. Além de não sentir fome, eu não me sentia a vontade com todos aqueles olhares em minha direção. Em algum momento uma mulher alta – e que parecia se achar a chefe dali – pegou minha comida para ela. Não liguei, não disse nada.
- E aí, não vai falar com ninguém não? – Uma mulher baixa e gordinha indagou-me, quando estávamos no pátio. Tudo o que eu queria era ficar na minha, na minha cela, sozinha.
Não a encarei, assim como não disse nada. Em algum momento ela iria cansar e iria me deixar sozinha.
- Estou falando com você, sua bosta! – Senti meu cabelo sendo puxado para trás e escondi um grito de dor. – Vai falar por bem ou por mal?
Continuei calada. E o que senti em seguida foi um chute no estômago e um soco no rosto.
Dentro de alguns minutos várias pessoas cercavam nós duas. Elas murmuravam algumas coisas, mas tudo o que eu queria era sumir, enquanto permanecia no chão. Cuspi um pouco de sangue e comecei a sentir meu olho direito latejando.
Por que tudo isso tinha que acontecer comigo?
Em algum momento fui arrastada novamente, ainda sentindo dor. Ao invés de ir para minha cela, fui levada novamente à solitária. Eles achavam que eu estava brigando. Não fazia diferença ficar lá ou aqui e aceitei calada. Eles iam achar que eu estava fingindo, como sempre.
Deitei-me no mesmo colchão, sentindo minha garganta apertar e uma vontade incontrolável de chorar.
E pela primeira vez em dias, aceitei essa vontade. Deixei que as lágrimas escorressem silenciosas pelo meu rosto, implorando para que junto com elas levassem toda essa dor que eu sentia.
Só que, na verdade, as lágrimas estavam levando o que eu mais precisava: força.
N/A: Olá, meninas.
Obrigada por todos os reviews e fico feliz que tenham gostado.
Espero que tenham gostado desse capítulo também.
Até o próximo.
Besos ;*
