Edward POV.
Aquela quarta-feira poderia ter começado como qualquer outro dia, se não fosse o fato de que eu veria Isabella novamente e poderia tentar entendê-la, tentar fazê-la falar.
Arrumei-me rapidamente e segui até meu consultório, concentrando-me naquele momento aquele local.
- Eu só queria que minha mãe entendesse que eu cresci... – Amanda, a adolescente que eu atendia disse. – Eu não tenho seis anos mais.
- Discutir com sua mãe não é a solução, Amanda – disse. – Ela só tem medo de perder você, como aconteceu com seu pai e seu irmão.
- Eu sei que ela tem – suspirou. – Mas então, ela deveria procurar algum tipo de ajuda, porque ela não vai me perder.
Amanda era minha última paciente do dia, então assim que ela saiu da minha sala, fui almoçar. Quanto mais cedo eu chegasse à prisão, talvez eu tivesse mais tempo para decifrar Isabella.
Dirigi pelas ruas de Texas, mais uma vez em direção à prisão. Estacionei no mesmo local de sempre e encaminhei-me para a ala feminina.
- Boa tarde, Carl – cumprimentei-o, sorrindo.
- Boa tarde, doutor. – Ele abriu o portão para mim. – Como estão as coisas?
- Está tudo bem. E por aqui?
- As mesmas coisas – deu de ombros.
- Nós nos vemos quando eu estiver saindo. Até mais, Carl.
- Até, doutor Cullen.
Eu já havia pedido mil vezes para Carl me chamar de Edward, mas desisti depois de um tempo. Segui, então, para meu consultório – se é que eu podia chamar aquela sala de consultório –, pronto para mais um dia.
Bella POV.
Não soube dizer em que momento eles decidiram, mais uma vez, me tirarem da solitária e me levarem de volta para a cela. Não me chamaram para ir ao refeitório nem para o pátio e eu não questionei. Era melhor assim.
Meu olho doía e estava inchado, então eu tinha certeza de que estava roxo e horrível. Ninguém fez questão de falar nada, nem de oferecer um remédio. Eu não pedi também.
Quando eu havia ido tomar banho, descobri um hematoma na região do meu estômago. Doía quando eu encostava e só.
- Swan.
Eu olhei para cima, saindo de meus devaneios, apenas para descobrir que uma policial estava ali. Para onde me levariam dessa vez?
- Está na hora de sua sessão com o doutor Cullen – me informou, enquanto eu me levantava confusa.
Eu apenas assenti e deixei que ela me guiasse até seu consultório novamente. Eu não imaginava que fosse voltar para lá, principalmente depois de ficar calada.
Seria mais um dia para fazer isso.
Edward POV.
As horas passavam rápido quando eu estava trabalhando. E agora eu estava aqui, esperando que Isabella passasse por aquela porta, esperando que ela falasse comigo naquele dia.
Escutei o barulho de passos e a porta foi aberta. Fitei Isabella andando até a cadeira, acompanhada de uma guarda, como sempre. Assisti enquanto ela era algemada à cadeira e vi a guarda sair da sala.
- Boa noite, Isabella – murmurei. Esperei um tempo, mas nem a cabeça ela havia levantado, desde que adentrada a sala. – Não vai nem olhar para mim esta noite?
Lentamente ela levantou a cabeça, mostrando o hematoma que ela carregava no rosto.
- O que aconteceu? – perguntei suavemente, mesmo sabendo que eu não teria resposta.
Ela deu de ombros e suspirou. Cruzou os braços no peito e os apertou forte. Ela estava na defensiva.
- Olha, Isabella... – comecei. – Não estou aqui para te julgar nem nada. Estou aqui para que você possa desabafar, para que você possa se sentir melhor.
Esperei mais alguns segundos. Ela ainda não havia falado.
- Você pode confiar em mim – insisti. – Não vai sair daqui o que você falar. Fica somente entre nós dois.
Mas ela não falou. Apenas me fitou com aqueles olhos tristes...
E mais uma vez ela permaneceu calada durante toda a sessão.
Conforme os dias foram passando, eu não havia tido nenhum progresso com Isabella. Ela ainda permanecia calada. Eu falava algumas coisas às vezes, para incentivá-la a falar, nem que fosse um oi, mas não adiantava.
Só que na terceira semana que ela estava indo às sessões, algo mudou.
Eu mantinha um calendário em cima da minha mesa e naquele dia, em especial, ele estava meio virado, de modo que dava tanto para eu ver, quanto para o paciente ver.
Isabella chegou como sempre, a cabeça abaixada e mais uma vez foi algemada à cadeira. Ela suspirou, como sempre, e permaneceu ali, quieta.
- Olá, Isabella – disse, como sempre fazia. Mesmo nunca tendo recebido uma resposta.
Ela olhou em volta da minha sala. Para a estante com os poucos livros, o sofá que havia ali e para minha mesa.
E foi aí que ela mudou.
Suas mãos apertaram a cadeira com força, enquanto seus olhos encheram de lágrimas.
- Isabella? – murmurei, tentando chamar sua atenção. – O que aconteceu?
Eu pensei que ela fosse me ignorar, como sempre, então me surpreendi quando, pela primeira vez, ela falou:
- Hoje minha mãe completaria 46 anos – sussurrou, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos. – Era hoje...
Eu dei uma olhada no calendário. 2 de março.
- Quer me falar sobre isso? – indaguei, querendo me focar naquilo que ela havia dito. Talvez falar sobre a mãe a ajudasse a se abrir comigo sobre outras coisas mais tarde.
- Ela não gostava de fazer aniversários. – Ela forçou um sorriso. – Dizia que a fazia se sentir mais velha... Ela me teve muito cedo, tinha apenas 18 anos...
- Como ela era? – Eu estava impressionado pelo fato de ela estar conversando comigo. Ela tinha uma voz linda.
- Ela era... cheia de vida – sussurrou. – Era minha melhor amiga também...
- Eu tenho cer...
- Eles disseram que eu a matei. – Ela me interrompeu, me encarando. As lágrimas caíam de seus olhos rapidamente. – Eles disseram que eu matei minha mãe e meu pai, mas eu não fiz isso.
Seus lábios tremiam, seus cabelos caíam bagunçados pelo seu rosto. Eu queria acreditar nela, eu sentia essa necessidade de acreditar. E de alguma maneira eu acreditava.
- Mas não adianta eu vir aqui e falar tudo isso, porque ninguém acredita em mim – riu de forma amarga. – Por que eu os mataria? Eu os amo mais que tudo, doutor. Eles eram tudo para mim.
- Por que você não me conta o que aconteceu? – disse suavemente. Eu ainda não conseguia acreditar que ela estava se abrindo comigo.
- De que vai adiantar? – suspirou. – Ninguém acredita, ninguém pode fazer nada. Eu já aceitei isso já. Meus pais eram tudo o que eu tinha, eu os perdi... Que sentido faz lutar e viver agora?
Eu estava prestes a abrir a boca para lhe dar conselhos, quando abriram a porta. Eu nem conseguia acreditar que o tempo tinha acabado logo quando eu tinha conseguido tanto dela.
- Eu posso... – comecei, mas Isabella acenou, sacudindo a cabeça e eu sabia que ela não queria mais falar nada.
Eu teria que esperar até a próxima sessão para conversar com ela novamente.
Bella POV.
Eu não sabia o que havia dado em mim para me abrir com ele daquele jeito. Talvez depois de dias conversando comigo e respeitando meu silêncio, ele se mostrou alguém respeitoso e mais confiável. Ou talvez eu logo estivesse pronta para conversar com ele sobre tudo, mas ver o calendário e descobrir que hoje era aniversário da minha mãe tivesse realmente me deixando mais sensível.
É. Talvez fosse só isso.
Eu permaneci acordada durante muito tempo, pensando em meus pais. Eu sentia falta deles – e muita. Sentia saudade das risadas, do modo que eu sempre me sentia segura em seus abraços.
Era difícil aceitar que eles tinham partido. Não era uma viagem, algo que me impedia de vê-los por causa de alguns quilômetros. Eu não veria nunca mais. Nunca.
E eu não sabia quando sairia daqui, se um dia iria conseguir provar minha inocência.
Suspirei pesadamente, tentando me livrar desses pensamentos. Virei-me de lado no colchão e fechei os olhos, pronta para dormir.
E desejei ter o doutor Cullen para conversar, mais do que nunca.
Quando acordei no dia seguinte, senti vontade de ler. Fazia um tempo que eu não lia, como eu costumava quase todos os dias. E eu sentia falta do meu trabalho também.
Em meio a esses devaneios, me perguntei se teria um emprego caso saísse daqui.
E ri, porque provavelmente ninguém nunca iria querer me empregar.
- Swan.
Eu já me levantei, sem esperar uma ordem nem nada do tipo, porque sabia que era hora de eu ir para refeitório e depois para o pátio. Era assim, todos os dias.
E infelizmente eu só teria uma sessão com Edward no dia seguinte.
Comi sozinha, como sempre. Algumas pessoas ainda mexiam comigo e me enchiam o saco, mas eu as ignorava. Algumas vezes brigas ocorriam e eu sabia que acabaria indo para a solitária. Não que realmente fizesse alguma diferença.
Depois do refeitório, fomos levadas para o pátio. Isolei-me em um canto e suspirei, sentindo o sol batendo em mim.
- Continua sem falar, estranha?
Eu olhei para cima, apenas para ver três mulheres altas e fortes me encarando. Olhei para o outro lado, sem respondê-las, esperando que elas fossem embora, que me deixassem em paz.
Mas elas não fizeram isso.
- Olha aqui... – A morena se aproximou e segurou meu queixo com força, forçando-me a olhar para cima. – Você pensa que pode chegar aqui e achar que pode fazer o que quiser, mas não pode. Então, ou você trata de começar a fazer o que a gente manda ou vai se dar mal.
Eu a encarei, ainda sem dizer nada. Não tinha vindo à prisão para começar a seguir ordem das pessoas.
- Acho que ela não entendeu, Carmen – riu a outra, um pouco menor.
- Talvez ela precise de uma lição... – A terceira riu também, se aproximando.
E eu me vi cercada pelas três.
Não sei em qual momento o primeiro soco me atingiu e nem de que lado ele surgiu, mas sei que ele não foi o único. O segundo e o terceiro vieram logo em seguida, e quando isso não foi o suficiente, chutes começaram a serem distribuídos também.
Em algum momento eu fechei meus olhos. Talvez eu apanhasse até morrer. Foquei-me então na imagem de meus pais, enquanto me entregava à escuridão.
Edward POV.
O dia seguinte transcorreu de forma calma. Eu ainda não havia conseguido acreditar que a Isabella estava falando comigo. Fui para a prisão na parte da manhã, onde lidei com a ala masculina. Pretendia almoçar com meus pais, mas já que a manhã tinha sido agitada, acabei comprando qualquer coisa para comer e indo para o consultório.
Foi uma tarte bem cheia também. Eu pensava que fosse ficar ali até tarde da noite, quando a Sra. Cope, minha secretária, me informou que o último paciente havia cancelado a consulta.
Resolvi ir até a casa dos meus pais, então. Meu pai estava de plantão, então provavelmente minha mãe estava sozinha – ela ficaria feliz de me ver ali um pouco.
Usei a chave que minha mãe fazia questão que eu mantivesse e abri a porta, sorrindo ao encontrar Alice e minha mãe deitadas no sofá.
- Olá, família – cumprimentei-as. Alice levantou primeiro, seguida da minha mãe.
Abracei as duas.
- Você sumiu, filho – murmurou mamãe.
- Desculpe – encolhi os ombros. – Muito trabalho, mãe.
- Você precisa de férias. – Alice disse, enquanto tomava seu suco. – É só o que eu acho.
- Não posso tirar uma agora. Tenho uma paciente na cadeia que começou a se abrir agora, acredito que ela confie em mim.
- Isso é bom, filho – mamãe sorriu. – Sinto muito orgulho de você.
- E a loja, Alice? Como vai?
- Muito bem, obrigada. – Os olhos de minha irmã caçula sempre brilhavam quando ela falava de sua loja. E de Jasper também, claro, embora ela e ele continuassem a negar o que um sentia pelo outro.
Eu me sentei entre as duas no sofá, vendo como Alice mudava de canal sem parar.
Até um chamar minha atenção...
- Volta no jornal, Alice – pedi, assustando-a. Ela me olhou, confusa. – É rápido, prometo.
E eu não conseguia acreditar no que estava vendo.
Uma Isabella diferente; completamente diferente. O jornal estava falando do caso dos pais dela e estavam mostrando uma foto deles.
Ela estava tão diferente e mesmo assim tão igual.
Inclinei-me no sofá sem perceber, para ver a foto melhor. Isabella tinha um sorriso enorme no rosto, enquanto era abraçada pelos seus pais. Ela usava uma calça jeans colada ao corpo, uma blusa de frio preta e tênis All Star. Uma bolsa estava pendurada em seu ombro direito e seus cabelos soltos, emoldurando seu rosto com perfeição. Algumas mechas caíam de forma atrapalhada, talvez pelo fato de ela ter óculos escuros na cabeça. Ela estava linda – muito mais do que linda.
Eu simplesmente não conseguia deixar de olhar para ela, nem prestar atenção em seus pais. Era como se tivesse um ímã me conectando diretamente a ela.
E então, eles passaram para outra notícia.
- Edward?
Eu pisquei algumas vezes e respirei fundo. O que estava acontecendo comigo?
- Desculpe – murmurei. – É que essa Isabella de que eles falavam, é minha paciente.
- A que começou a se abrir com você? – Alice indagou. Eu somente assenti. – Ela é bem bonita, não tem cara de assassina.
- Ela me disse que não fez isso – suspirei. – Que ela nunca seria capaz de fazer nada com os pais, que eles eram a única coisa que ela tinha.
- E você acredita nela ou não? – indagou minha mãe.
- De alguma forma, mãe, por mais que pareça estranho, acredito – murmurei. – Ela começou a se abrir só na última consulta e esse sorriso que a gente viu na foto não existe mais. Ela está completamente diferente.
- Você faz bem em não tirar férias agora, querido – mamãe sorriu. – Essa garota precisa de você.
Não me demorei muito na casa de meus pais depois disso. Despedi-me de Alice e da minha mãe e segui para a minha casa.
O banho que eu tomei foi demorado e relaxou um pouco meus músculos. Como havia jantado com minha mãe, fui direto para cama.
E custei a dormir.
A todo o momento, aquela foto de Isabella invadia minha mente.
Acordei cedo no dia seguinte, me preparando para mais um dia de trabalho. Hoje era sexta, o que significava que eu tinha que conversar com Isabella bastante hoje, já que depois, só na segunda.
Atendi meus pacientes pela manhã e segui direto para a prisão, depois de comer alguma coisa.
Como eram muitos presidiários, eu não atendia os mesmos todos os dias, Isabella era a única que tinha o privilégio de me ver três vezes por semana, porque como ela era mais fechada e não falava com ninguém, eu havia pedido para ser assim, para dar a ela mais chances de desabafar.
E agora, mesmo depois de ela ter começado a falar, eu não tinha coragem de falar com as pessoas para fazê-la ser atendida somente uma vez por semana.
Atendi então, minhas pacientes, assim que cheguei à prisão, ansioso pelo último horário.
Mas ao invés dela aparecer, quem apareceu foi Carl.
- O doutor já pode ir – informou-me. – A Isabella se meteu em uma briga feia ontem... Na verdade, se o doutor quer saber, a coitadinha não fez nada, mas sabe como são as coisas por aqui...
- Ela está bem? – murmurei, sentindo meu coração falhar de alguma maneira.
- Vai ficar – sorriu. – Está na enfermaria, descansando. Teve um braço quebrado, muitos hematomas, a coitadinha vai passar algum tempo com dor.
- Entendi. – Levantei-me. – Será que eu posso dar uma passadinha lá, apenas para ver como ela está? Ela estava começando a se sentir mais confortável aqui.
- Por mim, tudo bem.
Eu acompanhei Carl até a enfermaria e a cena que vi foi de partir o coração.
Isabella dormia. Seu rosto não tinha sido muito atingido, havia apenas um corte e uma marca no queixo. Mas seu braço estava em uma tipóia, e o outro, descoberto, apresentava vários cortes, marcas de chutes e socos. E eu imaginei que por baixo da coberta e das roupas, ela estaria pior.
Carl já tinha saído e não havia ninguém ali na enfermaria naquele momento. Algumas outras mulheres provavelmente estavam ali, mas Isabella estava cercada por uma cortina...
Sem saber se era o certo ou errado, me aproximei. Meu braço direito automaticamente se levantou e minha mão acariciou seus machucados.
Um arrepio percorreu meu corpo.
Ela era linda. Mesmo ali, dormindo, os cabelos presos em uma trança, coberta de hematomas...
- Vai ficar tudo bem, Isabella – sussurrei. – Eu prometo isso para você.
E saí dali, antes que fizesse alguma besteira.
N/A: Hiii :33 Obrigada por todos reviews 3 Amando lê-los. E por adicionar aos favoritos também.
Então, Bella finalmente disse alguma coisa, hã?
O que será que acontece agora? (;
Até o próximo.
Baaai ;*
