CAPÍTULO DOIS
Hermione acordou mal-humorada. O sono agitado não lhe permitira descansar. E, ainda por cima, não ouvira o despertador. Preparou uma vitamina com leite e ba nanas e depois de ingerir apenas a metade do copo, saiu apressada. Na hora do almoço faria uma refeição mais completa, pensou.
Quando entrou no escritório, teve a impressão de que todos a olhavam com espanto.
— O que aconteceu ontem à noite? — perguntou Gina, acomodada atrás da mesa de trabalho e sabore ando uma tigela com leite e cereais. O computador estava ligado e processando uma complicada pesqui sa de mercado.
Hermione surpreendeu-se com a pergunta. Imaginava que ela já tivesse ligado para Harry a fim de saber as novidades.
— Não estava muito animada. Fiquei na varanda por algum tempo e depois fui direto para casa. E você? Divertiu-se?
Gina lançou-lhe um olhar especulativo.
— Tenho certeza que está me escondendo alguma coisa.
Hermione corou. Mas, para não dar chance à colega, tor nou a perguntar:
— Divertiu-se muito? Está com uma aparência ra diante!
— Eu? Ao contrário...
— Por quê? As coisas pareciam estar se encaminhando bem. Eu os vi pela janela. Pareciam feitos um para o outro!
Gina a olhou, perplexa.
— Do que você está falando?
— Você e Draco, quem mais? Ele parecia hipnotizado!
— Draco? — indagou Gina com surpresa. — Ele nem mesmo estava lá!
— Como não? Eu o vi com você. Um homem alto, moreno, usando uma jaqueta preta de couro.
— Ah! — exclamou a amiga e depois riu. — Aque le não era Draco. Era o Harry!
Hermione sentiu o chão fugir sob seus pés.
— O homem com quem estava conversando era o Harry?
Gina assentiu com a cabeça.
— Então quem... Oh, Deus! — exclamou, com o coração disparado.
— Quem o quê? — perguntou a amiga, cheia de curiosidade.
O som de vozes no corredor alertou Gina, que se apressou em esconder a tigela de cereais atrás de uma pilha de livros, em num dos cantos da mesa. Hermione posicionou-se atrás da amiga e pôs uma revista no topo da pilha, só para garantir.
Logo depois, um grupo de consultores aguardou na porta, enquanto Neville, o diretor do departamento de pesquisas, entrou na sala.
Com um sorriso cordial ele cumprimentou as duas mulheres e em seguida, dirigiu-se à Gina:
— Lembra-se de Draco? Acaba de retornar de Nova York.
Hermione percebeu o olhar perspicaz do diretor. Afinal, não era surdo. Teria ouvido as inúmeras vezes em que Gina falara sobre o breve regresso de Draco.
Com o olhar curioso, espiou por cima do ombro de Neville, para ver o homem alto que ainda aguardava na porta junto com outros.
— Entre Draco! — pediu Neville e acenou para os demais o seguirem.
Oh, Deus! Não pode ser! Hermione exclamou para si mesma, ao reconhecer o homem com os arrasadores olhos azul-acinzentados, trajando terno e gravata. Era o Harry que conhecera na noite anterior! Ou melhor, Draco! Ela fi cou imóvel, incapaz de dizer qualquer coisa. No en tanto, reparou que ele era ainda mais bonito pela ma nhã, barbeado e com um traje impecável.
Neville prosseguiu apresentando os outros homens. Hermione, porém, sequer tomou ciência dos nomes. As pernas bambeavam tanto que precisou ancorar-se com firmeza no encosto da poltrona giratória, onde Gina estava acomodada.
Por fim, conseguiu manter o controle e exibir um sorriso polido. Quando notou que eles estavam saindo para visitar a base de dados dos terminais da bibliote ca, baixou os olhos e caminhou até a própria baia. Pre cisava sentar-se.
— Eu devia ter lhe contado.
Quando ergueu os olhos deparou com Draco bem perto dela. Assustou-se e e!e sorriu zombeteiro.
— Devia mesmo! — resmungou.
Com um gesto de protesto, Hermione o encarou furiosa. Recusou-se a reconhecer a atração irresistível que ain da sentia.
— Sinto muito. Não queria enganá-la.
— Mas enganou, não foi? E isso é imperdoável!
Ele olhou para a porta e notou que os consultores já estavam impacientes com a demora dele. Antes de sair, perguntou:
— Acordou com dor de cabeça?
— Claro que não! — Hermione respondeu, irritada. Com uma entonação mais agressiva do que desejava.
Só então notou que os outros a olhavam com sur presa. Gina arregalava os olhos.
— É melhor acompanhá-los — sugeriu Hermione.
— Estive fora apenas por seis meses. Posso encon trar sozinho o caminho da biblioteca.
— Bem... Eu tenho trabalho a fazer.
— Não quero atrapalhar.
Por milagre ela conseguiu retomar o equilíbrio das pernas e acomodou-se em sua mesa de trabalho, pró xima à de Gina. Aborreceu-se pelo fato de ele ainda estar ali e testemunhar que ainda não tinha sequer li gado o computador.
Ele inclinou-se e sussurrou no ouvido dela:
— Até logo, linda. — Em seguida ele abandonou a sala.
Hermione ficou pensativa. Saber que ele trabalhava ali e a posição que ocupava complicava a situação. Não poderia evitá-lo e precisava. Não queria cometer ou tra vez o mesmo erro do passado. E o que faria com os sentimentos que acabavam de aflorar em seu co ração?
Draco permaneceu o tempo todo com um sorriso nos lábios. Mas não era pela apreciação dos novos sistemas de computadores. Mantinha as mãos enfiadas nos bolsos, para impedi-las de correr os dedos pelos cabe los. Era o que sempre fazia quando estava nervoso.
O pensamento escapava-lhe a todo instante e volta va para a sala onde estava Hermione. Ainda bem que ela estava usando calça comprida. Seria uma tortura vê-la de saias e não poder tocar na pele macia das coxas, além das meias. Só de lembrar a sensação o excitava.
Era o primeiro dia como sócio e seus únicos pensa mentos eram para ela. Tinha trabalhado duro para con seguir a posição e a última coisa que pretendia no mundo era perder a atenção por causa de um par de belas pernas.
Também não precisaria agir como se fosse um mon ge. Afinal, não pensava em nada sério no momento. Casamento e filhos não faziam parte dos seus planos. Em primeiro lugar estava seu trabalho. Aliás, sempre fora seu lema nunca envolver-se com alguém do es critório.
Porém, Hermione era uma tentação! E, como imigrante, certamente logo estaria em outro serviço temporário. Talvez até em um país diferente... O ideal para um romance rápido e ardente.
— Conte-me tudo, agora mesmo! — Gina exigiu. Hermione percebeu, pelo olhar da colega, que não po deria mais se esquivar do assunto.
— Pensei que ele fosse o Harry.
— Quem?
— Draco. Pensei que fosse Harry, na festa de ontem.
— Na festa! — exclamou Gina — Ele estava lá?
— Sim. Na varanda.
— E não entrou com ele?
— Não. Decidi ir para casa e ele me ofereceu uma carona.
— E o que aconteceu?
— Nada — respondeu Hermione e demonstrando uma indiferença que estava longe de sentir. Porém, tinha consciência das faces que enrubesciam — Eu... disse que não estava interessada nele.
— O quê?
— Pensei que ele fosse Harry e que você o tivesse mandado para me assediar. Por isso, disse-lhe que não estava a fim de namorar ninguém.
Gina deu uma risada sarcástica:
— Não acredito! Sabia que isso aconteceria! — Hermione franziu as sobrancelhas, formando uma ruga de dúvida entre elas.
— E pensar que pedi a Harry para mantê-la fora do caminho antes que Draco a visse... Era minha única chance!
— O que está dizendo? — Quis saber Hermione, ainda sem entender nada.
Gina deu um suspiro desanimado.
— Ouça, conheço Draco há anos. E ele nunca de monstrou sequer uma ponta de interesse em mim ou em qualquer outra do escritório. Não havia uma só garota no departamento inteiro que não se derretesse por ele — e com uma expressão de desgosto, concluiu: — Tinha esperanças de ter uma chance quando ele visse meu novo visual. Por isso queria que Harry tiras se você de cena!
— Por quê?
A amiga girou os olhos nas órbitas e desabafou:
— Olhe para você mesma! Alta, linda, curvas nos lugares certos. Quantos rapazes daqui não quiseram levá-la para sair e você simplesmente os ignorou? É óbvio que tem toda chance com Draco. Você é tão carismática!
— Carismática?
— Acho que é a única que não percebe isso! — E usando um tom confidente, declarou: — Vi a maneira como ele a olhava. E posso lhe assegurar que nunca o vi fazer isso antes, com ninguém! — Com um sussur ro, finalizou: — Também nunca a vi tão corada!
Hermione apoiou os cotovelos sobre a mesa e massageou as têmporas.
— Carismática? — repetiu em voz baixa.
Não pensava daquele modo, principalmente depois do acontecido na noite anterior. Tinha se comportado como uma mulher "fácil". Até demais! E, mesmo na quela manhã, apenas com a intensidade daqueles olhos extasiantes ele conseguira fazer com que ela perdesse a imagem, que sempre ostentara, de ser uma mulher segura e virtualmente inacessível.
Aquilo não poderia continuar, concluiu em pensa mento. Ele não era Harry. Era sócio da firma, ou seja, um dos chefões. Não queria mais complicações em sua vida. Não depois de ter que abandonar um dos melhores empregos que conseguira... Tudo por causa de um dos donos da empresa.
Por conta do serviço atrasado no departamento em que Hermione trabalhava, todos resolveram emendar o horário de almoço. De modo que, por volta das duas horas da tarde estavam todos exaustos.
— Vou tomar um café. Querem um também? — perguntou Hermione, ansiosa por esticar as pernas.
Neville e Gina ergueram a cabeça ao mesmo tempo e aceitaram com um sorriso ansioso.
— Volto em dez minutos.
Ao chegar à cafeteria, aproximou-se do balcão e fez o pedido. Enquanto se acomodava em uma das banquetas altas, ouviu a conversa entre alguns homens, sentados em uma das mesinhas do bar, e congelou ao reconhecer a voz de Draco. Girando a cabeça na direção das vozes foi possível avistar. Os olhares se cruzaram. E, outra vez, o cinza envenenado daqueles olhos a fascinou, provocando-lhe um calafrio na espinha.
Recuperando a compostura, ela se apressou em tomar o café fumegante que acabara de lhe ser servido e ordenou outros dois para viagem. Assim que o balconista entregou-lhe a encomenda, pagou e ergueu-se.
Para seu alívio, a mesa em que ele estava, acompanhado de dois consultores, encontrava-se vaga. Suspirou e caminhou em direção à saída do estabeleci- mento.
Draco a esperava do lado de fora. Contudo, ela não o viu. E quando ouviu um sussurro ao ouvido, quase derrubou o café que levava.
— Deixe-me ajudá-la.
Ele disse, tirando a embalagem descartável das mãos dela.
Hermione não teve nem tempo de recusar a oferta. Por isso, só lhe restava acompanhar-lhe os passos.
— Não vai mais falar comigo? — perguntou ele, risonho.
— Não. Você me enganou. Devia ter me contado quem era.
— Eu sei. Mas foi bem mais divertido assim. Ela forjou uma expressão zangada:
— Gina nunca irá me perdoar. E eu ainda nem con tei a ela toda a verdade.
— E nem deve. Ela não precisa saber — E dando uma parada intencional, ele perguntou: — Quer jantar comigo?
— Não.
— Um lanche?
— Também não.
— Um café? — Hermione sacudiu a cabeça, com um gesto negativo.
— Por que não?
— Não me envolvo com pessoas da firma.
— Nem eu.
— Então por que está insistindo?
— Porque no seu caso posso fazer uma exceção. E quem foi que falou em envolvimento?
Hermione mordeu o lábio inferior. Ele era esperto e malicioso. Mesmo assim, não permitiria que a ven cesse. Draco não era apenas um colega de trabalho. Era um dos maiorais. E sua última experiência lhe custara o emprego e um quinhão de tristeza.
— Não gosto de fofocas no trabalho.
Ele deu uma risada alta e prosseguiu caminhando. Ela o acompanhou.
— Se não gosta de fofocas, por que é que estava me contando sobre Gina e o homem que supunha ser eu?
Ela corou. Sabia que era verdade.
— Estava apenas comentando um fato. E, sem ne nhuma malícia — argumentou.
Ele a olhou pensativo e depois insistiu:
— Prometo que ninguém vai saber.
Hermione sentiu-se tentada por um momento. Mas uma voz interior lhe dizia para ficar o mais longe que pu desse daquele homem.
— Alguém sempre acaba sabendo — afir mou ela.
— E o que os outros pensam importa para você?
— Claro! — exclamou Hermione, franzindo o cenho. A verdade não era bem essa; Sua mãe lhe ensinara a se guir determinadas regras de vida que sempre a acom panharam: agir com dignidade e evitar magoar as pes soas. Assim, ninguém teria razões para julgá-la e poderia viver sua vida independentemente da opinião alheia. Nunca namorar um colega de trabalho era uma das principais normas. Ela sentira, por experiência própria, o resultado de transgredir esse aviso.
— Sabe que o beijo que trocamos foi muito signifi cativo, não sabe?
Ainda bem que não era ela quem segurava o café, pensou. Pois certamente o teria derrubado naquele ins tante. Draco dissera aquelas palavras com tanta ternura que Hermione sentiu vontade de provar aqueles lábios ou tra vez. Mas não devia! Repreendeu-se, mentalmente. Se ele fosse o Harry, seria mais fácil. No entanto, trata va-se de Draco, sendo assim, a situação era outra e o perigo também.
Quando alcançaram o saguão do prédio onde tra balhavam, ela estendeu as mãos para receber a embalagem contendo os copos descartáveis com o café. Draco, porém, sacudiu a cabeça, recusando-se a en tregar-lhe.
No elevador, ele quebrou o silêncio que já durava alguns minutos.
— Está muito quieta, hoje. Na noite passada falava tanto que parecia uma outra pessoa!
Era verdade. Mas na noite passada ela não sabia que ele era o seu chefe.
Prosseguiram calados. De vez em quando os olha res se encontravam. E a atração que havia entre eles era impossível de dissimular.
Quando as portas do elevador se abriram, ela saiu em disparada. Queria afastar-se da presença perturbadora dele o mais rápido possível.
— Ei! Esqueceu o café!
O chamado fez com que estacasse de repente. Pra guejou em pensamento e, girando nos calcanhares, retornou. Draco estava parado no hall, com a embala gem nas mãos, diante do olhar curioso da recepcionis ta a poucos metros de onde estavam.
Hermione aproximou-se e ele lhe passou a bandeja descartável com todo cuidado. As mãos se tocaram na manobra. Ela sentiu como se tivesse sido atingida por um ferro em brasa. Como podia? Perguntou-se em pensamento. Ele era apenas um homem como outro qualquer!
— Obrigada.
— Foi um prazer, linda — respondeu Draco com um largo sorriso. Depois, virou-se e desapareceu pela porta dos fundos do andar.
— Têm um minuto? — perguntou Neville retornando de uma reunião com a Diretoria.
Hermione e Gina giraram as poltronas ao mesmo tempo para poder olhá-lo de frente.
— Estamos designando profissionais para um novo projeto. — E, indo direto ao ponto, esclareceu: — Tra ta-se de um trabalho confidencial para um cliente de grande porte. Será uma jornada de apenas duas sema nas. Estão precisando de uma pesquisadora que seja rápida na digitação. — Sem mais delongas, dirigiu-se a Hermione:
— Querem você. Começa na segunda-feira.
Hermione ficou paralisada.
— Não poderá trabalhar em dois lugares ao mesmo tempo. Por isso está dispensada do que está fazendo no momento. — Prosseguiu o encarregado do depar tamento, revelando os detalhes finais. — É um grupo pequeno de apenas um dos sócios da firma, dois con sultores e uma pesquisadora, que será você. Deverá ser encarregada da apresentação da proposta e do re latório final. Tudo bem?
Hermione concordou com um gesto de cabeça.
Procurou disfarçar a muito custo o desapontamen to. Estava trabalhando num projeto para uma empresa de Portugal já fazia algum tempo. E além dos benefí cios que recebia, tinha sido prometida pela firma por tuguesa uma cortesia: Um final de semana em Bilbao com todas as despesas pagas. Ela estava muito ansio sa em poder desfrutar esse prêmio. Não teria chance de fazer isso com suas próprias economias. E, tam bém, nem haveria mais tempo.
O visto para trabalhar na Inglaterra estava expiran do e a passagem de volta para a Nova Zelândia já es tava reservada.
— Na segunda-feira poderá ir direto para a sala de reuniões II — avisou Neville — Suas habilidades são excelentes. Tenho certeza de que se sairá muito bem. O próprio "chefão" escolheu você. Trabalhará direta mente com Draco.
No primeiro dia do novo trabalho, Hermione chegou 15 minutos antes do horário combinado.
Ficou surpresa ao notar que era a última a entrar na sala de reuniões.
— Tudo bem, Hermione. Você não está atrasada — Draco tranqüilizou-a, enquanto contornava a imensa mesa de reuniões para cumprimentá-la. — Nós é que começa mos mais cedo para que, quando chegasse, tivesse tra balho a fazer.
Ela assentiu com a cabeça e os olhares se encontra ram. Mas dessa vez ela viu neles apenas interesse pro fissional. Mesmo assim, não pôde impedir que o cora ção se acelerasse e o calor subisse do abdômen até os seios erguidos e fartos.
— Onde está o computador? Preciso checar o aces so ao centro de dados.
Ele gesticulou para a cabeceira da mesa e acompa nhou-a até o lugar onde se encontrava o micro.
— Faremos um desjejum daqui a 15 minutos e de pois discutiremos alguns tópicos do programa. Tudo bem? — perguntou ele cobrindo-a com o cinza do olhar.
Na primeira terça-feira, no final da tarde, os con sultores saíram para recolher alguns dados em uma reunião importante e Hermione ficou a sós com Draco.
O silêncio era total.
Hermione digitava e prestava atenção no monitor. Pre tendia com isso, ignorar a presença dele.
De repente, Draco ergueu-se e espreguiçou os bra ços. O gesto parecia torná-lo ainda mais alto. Ela sa bia que não deveria ficar observando-o. Mas era impossível.
Ele sorriu e determinou:
— Já chega por hoje. O grupo precisa de descanso.
— O grupo? — perguntou ela surpresa. — Estamos apenas nós dois!
No fundo estava receosa de ir embora na compa nhia dele. As memórias da despedida ardorosa em fren te ao prédio onde morava ainda a excitavam.
— A reunião já deve estar terminando. Pedi a Rony e Luna para nos encontrarem no bar assim que esti vessem liberados.
Bem, pelo menos, a sugestão parecia não oferecer muito perigo. Os outros iriam encontrar-se com eles. Além disso, Draco era o chefe. Não havia muita escolha.
Hermione desligou o computador e ele fez o mesmo. Depois ela apanhou seu sobretudo e ajustou o cinto.
Sem perceber, ela apertou demais, adelgaçando a cintura. O que salientava as curvas perfeitas dos qua dris. Pôde perceber que estava sendo observada por olhos repletos de desejo. Por uma fração de segun dos ela inclinou a cabeça para trás, desejando que Draco se aproximasse e lhe beijasse a curvatura do pescoço.
Porém ele simplesmente saiu da sala.
Dentro do elevador, ambos permaneceram em si lêncio. Ela se culpava pelo gesto leviano que tivera. Como podia um simples olhar ter ocasionado tama nho impacto? A tensão sentida no ventre e nos seios foi dilacerante ao perceber a chama sensual naqueles olhos verdes. Por um instante perdera o controle e ago ra pagava por isso. Tinha permitido que ele soubesse o quanto ela o desejava?
Já caminhando pela rua, Hermione estranhou quando passaram direto pelo bar que a maioria do pessoal fre qüentava.
— Não vamos ao Jackson's?
— Vai ser difícil manter nosso grupo unido com tantos amigos por lá. O happy hour é só nosso Hermione.
"Só nosso?" ela perguntou-se em pensamento, e o sangue tornou a ferver.
Draco prosseguiu nas explicações:
— Vamos trabalhar juntos por muitas horas. Preci samos estar unidos o tempo todo. Não podemos arris car falar algo que não devemos. E também precisa mos evitar... distrações.
A ênfase que ele deu na última palavra "distrações" a magoou. Ela não pretendia representar uma "distra ção". Preferiu não discutir. Ele ainda era o chefe.
Draco percebeu a expressão de desgosto nas feições dela. Então, estacou de repente fazendo com que ela também parasse.
— Vou ser honesto com você, Hermione. Sinto uma atra ção enorme desde o primeiro momento em que a vi. Esse sentimento parece crescer ainda mais a cada minuto que passamos juntos — confessou ele, com o rosto corado. — Porém, não posso arriscar um projeto como esse assediando você em vez de concentrar minha aten ção no trabalho. E, acredite, é muito difícil resistir à tentação. É por isso que estou me declarando a você neste instante. Quero saber se sente o mesmo a meu respeito.
Ela podia perceber, vagamente, o trânsito de pesso as na calçada onde estavam parados e o fluir baru lhento do tráfego de ônibus e carros. O tempo parecia ter parado, enquanto ela observava o homem à sua fren te e se perguntava por que não conseguia ser sincera com ele ou consigo mesma. Não queria permitir que nada acontecesse entre eles e, no entanto, minutos atrás, praticamente, pedia por isso. Mas não podia esquecer que ele era seu chefe e, também, não sabia de mais nada a seu respeito. Não podia arriscar.
Finalmente, ela falou:
— Não posso, Draco. Simplesmente, não posso.
Ele deu um passo à frente, quase encostando nela:
— Não pode ou não quer? Sei que é solteira. E tam bém estou certo de que gostou de me beijar.
Negar era impossível. Por isso, ela preferiu o silêncio. Draco deu um longo suspiro.
— Vou tomar seu silêncio como uma negativa. Tudo bem, Hermione. De agora em diante nos concentraremos apenas no trabalho. Quem sabe, quando isso tudo ter minar, poderemos voltar ao assunto.
Ela sentiu as pernas bambearem e as faces esquenta rem. Mas não podia ser escrava dos apelos sensuais. Decidiu controlar-se e executar um excelente trabalho no projeto. Não iria cair nas garras da sedução outra vez.
Draco Malfoy deu mais um dos seus sorrisos arrasa dores e ofereceu-lhe o braço:
— Não fique preocupada. Tudo vai dar certo.
Ela enlaçou o braço oferecido e prosseguiram na caminhada até que Draco a conduziu para dentro de um barzinho aconchegante.
— Você escolhe a mesa, Hermione. Enquanto isso vou pedir os drinques. Qual sabor prefere, maçã ou framboesa?
— Não quero nada que contenha álcool. Vou prefe rir uma limonada, por favor.
— Direto para casa hoje? — ele gracejou. Ela assentiu com a cabeça.
Direto para casa e sozinha, acrescentou mentalmen te. Depois escolheu a mesa que ficava bem no centro do pequeno ambiente. Nada de cantos escuros e pro pícios a romances. Precisava comportar-se de modo profissional. A declaração dele na calçada a surpreen dera, contudo. Embora tivesse confessado a atração que sentia por ela, deixara claro que o trabalho vinha em primeiro lugar.
Além do mais, a considerava uma "distração". E provavelmente era isso mesmo que ela representa va. Não podia esquecer de que a maioria dos casos amorosos que sabia acontecer entre colegas de tra balho não passavam disso, casos. Era apenas uma forma de tornar mais atraentes as longas horas de trabalho.
Draco aproximou-se com um copo em cada mão e escolheu o lugar oposto ao dela.
— Está gostando de trabalhar para a Franklin? — perguntou ele, logo após provarem suas bebidas.
Antes que ela respondesse, o diálogo foi interrom pido pelo toque do celular de Draco. Após alguns se gundos de "sim" e "não", ele desligou o aparelho e a olhou com ar desanimado.
— Era Rony. Ainda está na reunião e disse que precisa da minha assistência.
— Então cancelamos o happy hour. Tudo bem, es tou mesmo cansada. Vou para casa. — E, ameaçou levantar-se.
Draco gesticulou para os copos quase intocados e falou:
— Não podemos desperdiçar o dinheiro da firma. Pelo menos termine seu refresco.
Ela apanhou o copo com as mãos trêmulas e quase terminou o líquido com um só gole.
— Eu a deixei nervosa? — quis saber Draco, com uma expressão astuta.
— Claro que não — respondeu ela, tentando de monstrar segurança. A verdade, é que estava mais do que nervosa. Porém, consigo mesma. Não conseguia controlar a emoção. Não na presença dele. E isso a fazia agir como uma tola.
— A indecisão nos seus olhos diz exatamente o con trário — provocou ele.
— Preciso ir.
— Quer uma carona?
— Melhor não.
— Está bem, Hermione. Mas ainda voltaremos àquele assunto.
Ela saiu apressada do bar e da presença dele. Preci sava respirar. Ninguém merece passar pelo mesmo tormento duas vezes, pensou.
Subiu no ônibus e escolheu um lugar junto à janela. Queria apreciar a vista que tanto a encantava, já que tinha poucas semanas pela frente para desfrutar de Londres.
Porém, os olhos só focavam o vazio, porque os pen samentos se perdiam no passado.
Hermione acreditara cegamente em McLaggen. Um homem experiente e dez anos mais velho do que ela. Sabia exatamente como conquistar-lhe a atenção: flores, presentes, palavras doces e tudo mais. Um romance tão perfeito que ela só tinha visto acontecer em fil mes.
Tinha a certeza de que ele a amava. Até descobrir sobre Lilá, a noiva com quem já havia até marca do a data do casamento!
Quando a verdade veio à tona, é claro que ela sen tiu-se humilhada e também furiosa por nunca ter des confiado. Ele nunca a levara ao apartamento dele. Sem pre se encontravam no dela. Também lhe pedira para manter segredo sobre o relacionamento deles aos co legas de trabalho. Argumentava que, sendo seu chefe, poderiam acusá-lo de favoritismo.
Ela gostaria de tê-lo processado por assédio sexu al, mas estava tão envergonhada em ter representado o papel da "outra" na vida dele que não teve cora gem de se expor daquela maneira. Preferiu pedir de missão e candidatar-se para um serviço temporário em Londres. Precisava afastar-se para recuperar a auto-estima.
E agora lhe aparecia Draco!
Ela não conhecia nada sobre a vida particular dele. Só sabia que em tão poucos dias tinha posto abaixo suas defesas. Tinha um desejo incontrolável de sentir o calor do corpo atlético outra vez. E as mãos imensas deslizando por seu corpo inteiro.
Só não podia arruinar o trabalho do grupo por cau sa da sua loucura. E o único jeito de prevenir isso se ria mantendo distância de Draco, o que a fez decidir por tomar uma postura fria e profissional. Só falaria com ele quando fosse estritamente necessário para o andamento do projeto.
