CAPÍTULO SETE

Hermione calou a voz da razão que a atormentava e de cidiu aproveitar o fim de semana. Nenhum dos dois tocou no assunto. Depois que ela o impedira de falar o que pretendia, acabou virando um acordo silencioso em que ambos resolveram curtir o agora e deixar para lá o que poderia acontecer mais adiante.

Ela sabia muito bem que ficar um tempo maior só iria complicar ainda mais a situação. Mas estava tão cansada, não só no físico mas também na própria for ça de vontade. Simplesmente não poderia negar a si mesma que o desejo que sentia por ele a estava derro tando. E mesmo assim, insistia em camuflar a verda de. Bastavam dez segundos nos braços dele para es quecer completamente as decisões tomadas interiormente e ceder à tentação de permanecer um pouco mais ao seu lado.

O alarme do relógio de pulso de Draco, posto na pe quena cômoda ao lado da cama, tocou ruidosamente.

— Que droga! — resmungou ele, sem fazer men ção de se levantar. — Preciso ir trabalhar!

O som estridente e a reclamação de Draco desperta ram Hermione, que saindo aos poucos da suave letargia murmurou:

— Eu também. Mas primeiro preciso passar em casa para me vestir apropriadamente.

— Não. Ainda está doente. Descanse o restante do dia. Nos veremos à noite.

Uma tosse incômoda a acometeu bem naquele ins tante.

— Não falei? — ele provocou com um sorriso. Ela puxou o ar para dentro dos pulmões com mais força, para acalmar a crise. Depois, com os olhos marejados pelo esforço, conseguiu teimar:

— A febre passou. É melhor que eu me recupere na minha própria cama.

— Já disse que não — Draco avisou, encerrando o assunto. Estava acostumado a comandar.

— Não posso ficar aqui! — protestou ela mais uma vez.

Draco girou o corpo e aprisionou-lhe os pulsos con tra o colchão. E, espalhando beijos carinhosos sobre o rosto e pescoço delicados, afirmou:

— Não pode ir. Está sem dinheiro, sem roupas e eu estou com as chaves do seu apartamento. — declarou Draco, com o diabólico brilho esverdeado no olhar que sempre a convencia. — Apenas descanse. Mais tarde, conversamos.

Hermione passou a maior parte da manhã dormindo. Precisava recuperar as forças. A tosse havia piora do e o corpo parecia ter sido atropelado por um ôni bus.

Também, não era para menos, depois de um fim de semana tão atribulado!

Lá pelas duas horas da tarde conseguiu despertar completamente. Estava desesperada de fome.

Levantou-se e foi até a cozinha vasculhar o que poderia encontrar para comer. Estava com a porta do refrigerador aberta quando o telefone instalado na parede azulejada tocou. Logo depois, a voz de Draco dis se na secretária eletrônica:

— Sou eu, Hermione. Atenda.

Apressando-se em fechar a porta da geladeira, ela apanhou o fone. A conversa foi rápida. Ele apenas queria saber se ela estava bem. Prometeu chegar em casa o mais cedo que pudesse desligou em seguida.

Com movimentos lentos, Hermione devolveu o fone ao gancho enquanto analisava as palavras que ele dissera: "casa", e ele referira-se com naturalidade. No entanto, o que significava "casa" para ela? Já estava viajando por quase dois anos. Sua passagem de volta para a Nova Zelândia já programada e a licença de permanência em Londres quase expira da. Os amigos que deixara em seu país já planeja vam reuniões para recepcioná-la. Hermione ansiava por isso. Porém, como diz o velho ditado, "o verdadei ro lar é onde está o seu coração". E ela sabia muito bem onde ele estava agora, concluiu com lágrimas nos olhos.

Ela recostou-se no balcão da pia para apoiar o cor po que tremia em suas mãos diante da súbita consci ência das prováveis conseqüências, que enfrentaria por conta do que fizera nos últimos dias.

Ela tentara ficar longe de Draco porque já tinha ex periência do perigo de um romance dentro do ambien te de trabalho. Mas sucumbira aos encantos e ao charme dele, na privacidade daquele apartamento. E com isso, terminara por ficar vulnerável e acabaria ma goada outra vez. Mesmo que, numa hipótese maluca, realmente acreditasse que Draco estava apaixonado por ela ainda havia o fato de sua volta para a Nova Zelândia ser dentro de poucas semanas. Dizer "adeus" o quanto antes seria poupar maiores sofrimentos.

A mãe dela sofrera anos de solidão e dor, após a morte do pai de Hermione, quando ela ainda estava em plena gravidez. E era ainda muito jovem quando tudo aconteceu. Para Hermione, restou a certeza de que perder o homem que se ama, fosse por morte ou separação devido à longa distância, daria o mesmo resultado: so frimento.

A forte emoção a fez estremecer. E, por fim, aceitar o fato de que tinha ido longe demais com Draco. Acabara se apaixonando... E agora? O que faria? Perguntou-se em desespero. Ele estava plenamente estabelecido em Lon dres, sua vida, sua carreira e tudo mais. Mesmo que ele estivesse disposto a desistir de tudo, ela jamais permiti ria. Não que isso fosse acontecer, pois, como ele próprio afirmara, romances significavam distrações. Como po deria duvidar que o fim de semana que passaram juntos não significava exatamente aquilo para Draco?

Os pensamentos torturantes prosseguiam fazendo-a sentir-se apavorada e com vontade de fugir dali o mais rápido possível. Contudo, conseguiu controlar-se.

Com uma fruta nas mãos, encaminhou-se para a sala e estacou em frente à estante dos livros. Talvez deves se ler algo para passar o tempo e afastar os pensamen tos indesejáveis. Os programas diurnos da tevê não a interessavam, e se voltasse para a cama não teria um pingo de sono para poder dormir à noite. Apesar de que não seria tão mal assim passar uma noite de insônia, tendo Draco por perto... Sacudiu a cabeça com vi gor. Será que tinha perdido o juízo por completo?, re preendeu a si mesma.

Voltou a prestar atenção nos títulos dos livros. Ne nhum deles a inspirou. Foi então que notou um álbum de retratos no fundo de uma das prateleiras. Culpando-se pela indiscrição, mas não resistindo à curiosida de, apanhou-o e acomodou-se no sofá. Principiou a folheá-lo.

Na primeira foto logo reconheceu Draco com uns dois anos de idade. As próximas prosseguiam em or dem crescente, culminando com uma onde ela o supu nha com mais ou menos dezesseis anos. Admirou-se de ver que as feições bonitas não se alteravam com o passar do tempo. Nem mesmo agora. Os incríveis olhos cinzas e os cabelos loiros permaneciam fascinantes.

Hermione deteve um pouco mais a atenção nas fotogra fias em que ele estava acompanhado dos pais e da irmã. Dava a impressão de uma família feliz e unida.

Ela suspirou fundo.

Como eles poderiam ser felizes juntos com um pas sado tão diferente?

Ela perdera o pai antes de conhecê-lo. Os avós ma ternos expulsaram a filha após saberem da gravidez, devido ao preconceito contra uma mãe solteira. E após o acidente que lhe roubara a mãe, ficara só e infeliz. Para completar, a desilusão com McLaggen.

Será que ela estava fadada a perder sempre as pes soas a quem amava? Perguntou-se com desgosto.

Após passear nervosamente em círculos, até quase formar um buraco no carpete no meio da sala, ela che gou a uma conclusão: precisava afastar-se dele. Os si nais de alerta já não lhe davam o mínimo descanso. Era apenas uma questão de tempo e ele a magoaria, intencionalmente ou não. É claro que Draco lhe proporcionara um fim de semana com o melhor desempenho sexual que jamais imaginara existir, além dos mimos e exce lente humor que a fizera sorrir em tempo integral. Mas aquilo não duraria para sempre e o aconselhável era agradecer, dizer adeus e retornar ao trabalho.

O barulho da chave girando na fechadura da porta de entrada do apartamento a fez seguir para o hall para encontrá-lo. Assim que o viu, notou, com prazer, o brilho luxuriante no modo como a olhou.

Ela estava trajando um dos shorts dele e uma cami sa, desabotoada até a linha da cintura.

— Venha sentar-se no sofá para relaxar. Deve estar exausto!

— Cansado é a última coisa que me sinto — decla rou ele, acomodando-se bem no centro do sofá de três lugares.

Ela baixou o olhar e lhe deu um sorriso amável. Ele retribuiu e intensificou o olhar. Hermione adorava ver aque le brilho extraordinário que ele lançava no momento em que a via.

Draco ergueu uma das mãos para desatar o nó da gravata.

— Hum... hum... — murmurou ela e segurou-lhe o pulso. — Vamos tornar isto mais divertido.

Ele esboçou um sorriso maroto e concordou:

— Está bem. Aqui, você é quem manda!

— Isso mesmo.

Hermione libertou-lhe o pulso e livrou-se dos shorts. Moveu-se para a frente e sentou-se no colo dele.

Draco baixou os olhos e observou-a desatar seu cin to e abrir o zíper da braguilha de sua calça.

— Você realiza todas as minhas fantasias! Sabia? — Ela sorriu. — E mais ainda! — completou, incrédulo.

Hermione beijou-lhe a boca e depois roçou os lábios, con tornando as linhas da mandíbula quadrada e forte.

— Vou para casa hoje — murmurou, num dos ouvi dos de Draco, enquanto acomodava os quadris sobre os dele. — E, se não concordar, saio daqui agora mesmo. Quero que me prometa.

— Tenho tudo que você precisa aqui mesmo, linda.

— Eu sei. Mas preciso ir.

— E aonde pretende passar a noite? — perguntou ele, com a voz provocante, e depois lhe cobriu um dos mamilos com a boca aquecida. Ela gemeu, contorcendo as feições. — Esqueceu que eu sei exatamente do que você gosta?

— Está bem... — concordou ela, fechando os olhos.

O fogo entre eles reacendia tão rápido que nem mesmo precisavam de preâmbulos demorados.

A paixão se repetiu ardorosa e tão emocionante quanto se fosse a primeira vez.

Algum tempo depois, ambos jaziam exaustos e sa tisfeitos, estirados no sofá e ainda abraçados. Ele com as roupas amarfanhadas e ela completamente nua.

Quando o corpo se acalmou, Hermione ergueu-se e ves tiu a camiseta.

— Vou para casa, Draco. Mesmo que precise cami nhar descalça e tenha que quebrar os vidros da janela para entrar.

Ele a olhou, estranhando a súbita mudança de hu mor.

— As coisas não podem ser sempre da maneira como você quer. — afirmou ela, desviando o olhar para não encarar o dele.

— Eu quero que fique. — Ela meneou a cabeça. — Vamos falar sobre isso com calma. — sugeriu Draco.

— E o que pretende? Manter-me aqui para sempre como escrava sexual? — devolveu ela com sarcasmo.

Draco não perdeu a veia cômica e riu zombeteiro:

— Até que não é má a idéia!

Hermione ignorou a brincadeira e insistiu:

— Preciso trabalhar amanhã e tenho que aprontar minhas roupas.

— Discordo. Ainda está pálida e exausta.

— E quem disse que ficando aqui eu posso real mente dormir e descansar?

— E se eu prometer não tocá-la? Ela lançou-lhe um olhar cético.

— Olha só quem fala! Da última vez que me pro meteu isso, me agarrou na escada. Nada de acordos, Draco. Quero ir para casa.

Ele encolheu os ombros e suspirou.

— Está bem. Eu a levo depois do jantar.

— Não. Quero ir agora.

— Depois do jantar — repetiu ele. — Sei que não tem nada na geladeira. Lembra-se que eu procurei algo para lhe servir e não encontrei?

Hermione balançou a cabeça, num gesto afirmativo e concordou em esperar.

Durante o jantar, eles quase não se falaram. Ela tentou se alimentar, mas o apetite era pouco. Percebeu que ele a observava o tempo todo.

Algum tempo depois, cruzavam a cidade de Lon dres, em silêncio. O carro de Draco não era um conver sível, mas não deixava de ser chamativo. Porém, era espa çoso e confortável.

Hermione permanecia observando a vista, através da ja nela do veículo. A mente, no entanto, não captava nada do que via de tão entretida na idéia de que deveria afastar-se do homem adorável, que dirigia pensativo.

Ao estacionar o carro em frente ao pequeno edifício em que Hermione morava, ele desligou o motor do veículo.

Hermione não fez menção de descer.

Ambos permaneciam calados.

Draco foi o primeiro a falar.

— Pode dizer, Hermione.

— Dizer o quê?

— O que esteve pensando durante todo o caminho.

Ela direcionou o olhar na direção do motoqueiro que estacionava no outro lado da rua. Então tomou coragem e resolveu falar logo de uma vez.

— Quero agradecer tudo que fez por mim enquanto estive doente.

— E... O que mais?

Draco não parecia disposto a tornar as coisas fáceis para ela.

— Eu realmente estou grata e... também, gostaria de agradecer pelo maravilhoso fim de semana e tam bém...

A voz lhe faltava. Sentia o rosto enrubescer. Era ridículo, mas soava como uma adolescente agradecen do os pais de uma amiga por um passeio qualquer.

— Também... — insistiu Draco. Não lhe dando a mí nima chance de dissimular.

Hermione reuniu toda a coragem que possuía e despe jou logo o que realmente estava pensando:

— Quero dizer que adorei a nossa intimidade. Po rém, esse tipo de relacionamento deverá parar por aqui.

— O quê? — exclamou ele, erguendo a voz.

Ela o fitou diretamente nos olhos e declarou com firmeza na voz:

— A partir de amanhã, voltaremos a ser apenas co legas de trabalho. Nada mais.

Finalmente, Hermione conseguira proferir as palavras fatais. Porém, sentia o coração partir-se em milhões de pedacinhos.