CAPÍTULO OITO

Draco riu tão escancarado que até pendeu a cabeça para trás:

— Está brincando, não é?

Hermione permaneceu com uma expressão severa.

— Não, Draco. É sério.

O sorriso dele foi desvanecendo até se reduzir a uma curvatura tênue nos cantos dos lábios.

— Depois de tudo que aconteceu entre nós? Não podemos deter a lava de um vulcão que acabou de explodir!

— Pode parar com os chavões, Draco. Ele ignorou a interferência e prosseguiu:

— Não há volta, Hermione. Entramos num trem de alta velocidade. E só o que podemos fazer é prosseguir na viagem.

— E esperar pela colisão? — devolveu ela, sarcás tica. — Palavras bonitas nem sempre traduzem a ver dade.

— Se quer atitudes então que tal falar sobre o de sempenho sexual fantástico que desfrutamos nos últi mos dias? Não pode negar que foi verdadeiro e espe cial. Por que não devemos prosseguir e receber o presente que a vida está nos oferecendo?

— Porque se trata apenas de sexo, Draco — afirmou ela, e desviou o olhar para fora da janela, observando o motoqueiro entregar uma encomenda na portaria do prédio, em frente ao qual largara a moto. Como ela pôde achar que seria tão fácil descartar Draco? Trata va-se do homem mais cobiçado pelas mulheres da fir ma: o rei do charme e um dos "chefões".

— Isso é estupidez e sabe disso, Hermione. — decla rou ele, com menos charme e mais convicção. — Fi zemos amor. E essas foram suas próprias palavras, lembra-se?

Ela engoliu a saliva e procurou ignorar o comen tário.

— Não adianta, Draco. Já tomei a minha decisão. A linha que separa nossa vida particular do profis sionalismo jamais será quebrada.

— Profissionalismo? — Ele quase berrou de tanta indignação: — Está querendo dizer que pretende jo gar fora nosso relacionamento pessoal por causa de algumas semanas que lhe restam na firma?

Hermione cerrou os dentes com tanta força que até um clique pôde ser ouvido.

— Sim. O tempo é pouco, mas é importante para mim.

Ele suspirou com desalento. Depois tornou a olhar para ela inconformado:

— Não acha um pouco tarde para pensar nisso?

— Nunca é tarde demais para nada — argumentou ela, empinando o nariz. — Foi apenas um caso. Nada mais.

— E mesmo? É assim que considera tudo que vivenciamos neste fim de semana?

Hermione percebeu que os olhos dele faiscavam de fúria. As palavras dela o tinham deixado muito irri tado!

Depois disso, um pesado silêncio se instalou. Ela foi a primeira a fazer menção de se mover, mas antes que alcançasse a maçaneta da porta do carro, ele a surpreendeu com um beijo gentil e carinhoso, apenas roçando os lábios nos dela.

A ternura daquela atitude sem querer baixou a guarda que ela mantinha firme. Como podia? Ela separou os lábios para que ele intensificasse o carinho e deixou escapar um gemido.

Ele, porém, ergueu a cabeça e a fitou com o olhar fuzilante:

— Como espera apagar esse incêndio?

Ela fechou os olhos para evitar que ele presenciasse o desejo novamente desperto e as lágrimas que começavam a brotar.

Por que tinha que ser tão difícil assim? Perguntou-se Hermione, em pensamento.

— Vou sobreviver. Não se preocupe — afirmou ela, com os olhos ainda cerrados. — Não pense que só porque é meu chefe pode comandar a minha vida.

— Ah! Então é isso! O que a aborrece é o fato de eu ser seu chefe?

Na verdade, Hermione já nem sabia mais o que é que realmente a aborrecia. Confusa e atormentada, afundou a cabeça no suporte do encosto do banco.

— Bem, se esse é o problema, poderemos dar um jeito. Posso desligá-la do grupo e, assim, não precisaremos trabalhar diretamente juntos.

As palavras de Draco só fizeram as coisas piorarem. Estava falando igualzinho a McLaggen. Não havia saída. Se permitisse, as coisas se repetiriam da mesma maneira.

— Acha que dessa forma ficaria tudo certo? — argumentou Hermione. — Você decide se deve me desligar do projeto em que o grupo está trabalhando e me encaixar onde achar melhor? E eu tenho que me conformar com a opção de trabalho que escolher para mim? E, tudo isso, por conta de um caso?

— O que espera que eu faça Hermione? Ela encolheu os ombros.

— Não sei. E também não acredito que exista uma solução.

— Então, se é que entendi direito, está me dizendo que enquanto trabalharmos juntos não poderemos ficar juntos?

— Exatamente.

Draco permaneceu pensativo por uns instantes. Depois, concordou:

— Está bem, linda. Faremos do seu jeito.

E aquelas foram as últimas palavras de Draco embora, enquanto abandonava o carro, poderia jurar ter ouvido um murmúrio dos lábios dele, dizendo: Por enquanto.

Draco atravessava o corredor disposto a não tolerar mais aquela situação. O fato de sequer ver Hermione durante dois longos dias o estava matando.

Disfarçou o olhar, com o propósito de não cumprimentar o pessoal do balcão de informação, para não precisar distrair a atenção.

Precisava pensar e aclarar a mente.

Talvez devesse ter tido uma boa conversa com Hermione, antes de tê-la levado para casa, na segunda-feira à noite. Embora ela tivesse deixado evidente que não queria saber de conversa. E, a bem da verdade, nem ele que ria. Deixou as coisas seguirem o ritmo natural. Imagi nava que Hermione estivesse tão mergulhada naquela ma gia quanto ele. Talvez por isso ele não tivesse enxergado o que realmente se passava com ela. Ou teria preferido se acomodar.

Sempre fora uma pessoa segura e confiante. E pela primeira vez na vida, a dúvida o afligia.

De uma coisa, porém, tinha certeza: não estava pre parado para colocar um ponto final no relacionamen to com Hermione. Não agora... Mas, e quanto a ela? Será que estava conseguindo esquecê-lo, como se tivesse desligado uma tomada da eletricidade?

Recusava-se a acreditar nisso, porque no último beijo que lhe dera, antes que ela saísse do carro, sen tiu-a estremecer. Contudo, precisava ter plena certeza de que Hermione ainda o queria.

Obrigou-se a desacelerar o passo ao notar que qua se trombava com as pessoas que caminhavam em sen tido contrário. Assim seria melhor: andando mais de vagar teria mais tempo para esfriar a cabeça. Não poderia, simplesmente, chegar ao departamento onde ela estava e agarrá-la, beijá-la e pedir que lhe respon desse se ainda o desejava. Embora fosse exatamente o que sentia vontade de fazer.

Prosseguindo com os devaneios, Draco analisava que Hermione detestava o fato de trabalharem juntos. E, muito mais, o de ele ser seu chefe. Porém, não se entusias mara quando ele sugeriu desligá-la do grupo de análi se de projetos que ele dirigia.

Por que seria? Ele só estava interessado em tirar as pedras de seus caminhos. Nada mais. E não apenas por sexo. Ela era linda, divertida, inteligente e uma excelente companhia. Gostaria de levá-la aos pontos mais atrativos de Londres e proporcionar-lhe o maior prazer que pudesse: dentro e fora da cama.

O coração descompassou assim que ele se aproxi mou da mesa onde Hermione se acomodava. Ela estava magnífica! Trajando um terninho de saia lisa verme lho, e saltos muito finos e altos. Os cabelos acastanhados e lisos estavam presos, entrançados de maneira clássica e formal. A aparência impecável de uma pro fissional competente.

Ela nem o viu aproximar-se. Somente quando Gina o cumprimentou em voz alta Hermione girou a cabeça e o encarou. O olhar estava frio e distante, mas Draco fi cou feliz em perceber um leve rubor colorir-lhe as faces.

— Podemos ajudá-lo, Draco? — Gina ofereceu. Ele ficou reticente por um momento. Esquecera de forjar uma desculpa para estar ali. Hermione ergueu-se.

— Vou cadastrar estes CDs na biblioteca, Gina. Não demoro. — E, com aquelas palavras, saiu da sala.

Draco ficou sem saber o que fazer. Terminou por ar ranjar uma justificativa qualquer para Gina e, em se guida, saiu no encalço de Hermione.

Não sabia bem onde encontrá-la. O setor onde eram arquivadas as informações era dividido em várias se ções.

Então ela queria esquivar-se da presença dele? Pen sou com um sorriso sarcástico. Não iria ser assim tão fácil...

Recuperando o controle dos sentidos, Draco percor reu a biblioteca até encontrar Hermione num dos setores, entretida com a distribuição dos CDs.

Ele aproximou-se e, posicionando-se ao lado dela, comentou com palavras espaçadas e em tom baixo:

— Para alguém que deseja evitar fofocas, está no caminho contrário.

Hermione sequer se dignou a distrair a atenção do que fazia e respondeu com calma:

— Se está precisando de alguma informação, Gina pode ajudá-lo.

— Não quero nenhuma informação.

— Então...

— É você que eu quero! — Draco interrompeu-a e ficou satisfeito de assistir o efeito de suas palavras. Ela acelerou a respiração.

E, com certeza, não era pelo pouco esforço que es tava fazendo. Não. Era a presença dele que a descon trolava. Aquela química que sempre os atraíra, desde o primeiro dia em que se viram.

Ele se aproximou um pouco mais e ela não se mo veu.

— Senti sua falta — murmurou Draco.

— Por favor...

— Não vou magoá-la. Pode acreditar nisso. — Hermione baixou os cílios e não respondeu.

Ele permaneceu plantado ali, como se esperasse por uma resposta.

De repente Hermione ergueu os olhos e abriu a boca para falar. Draco, porém, intuiu que não iria gostar do que ela se preparava para dizer. E, antes que ela falasse, repousou dois dedos da mão direita sobre os lábios e, quando os retirou, substituiu por um beijo suave. E com mãos firmes, aprisionou-lhe o rosto.

Ela sustentou-lhe o olhar.

Ambos sabiam que em segundos a emoção os leva ria a carícias desvairada. Mas ali não era o lugar e nem o momento adequado.

Draco acabara de descobrir o que tinha ido buscar. A certeza de que ele ainda a atraía. Agora poderia espe rar mais tranqüilo. Não havia razão para não ficarem juntos até que ela partisse para a Nova Zelândia. Só precisava de uma boa e longa conversa, de preferên cia uma que terminasse na cama.

Ele sorriu satisfeito e, antes de sair, incitou-a, com um olhar provocante:

— E só um brinde. Da próxima vez, esperarei que me peça, linda!

O fim de semana com Draco reavivara em Hermione uma chama que ela mantivera apagada por muito tempo. Agora, uma vez acesa, tornava-se difícil controlá-la. Passava os dias pensando nas manobras amorosas, e o impulso de procurá-lo ficava cada vez mais intenso. Ainda bem que o período de 15 dias para a realização da pesquisa intensiva tinha terminado. Caso contrá rio, seria muito complicado ficar com Draco na mesma sala horas a fio.

Enquanto analisava um documento, raciocinava sobre a conduta de Draco. Ele oferecera a oportunidade de transferi-la, caso ela quisesse afastar a imagem de que ele era seu chefe. Também a procurara na frente de Gina e a seguira até a biblioteca.

Até a beijara, sem se incomodar se havia alguém presenciando. MacLaggen jamais correria tal risco. As atitu des dele eram muito diferentes da do outro. Ela não deveria insistir em compará-los. Protestou consigo mesma. O mais sensato a fazer seria agir com menor severidade, acabou por concluir.

Hermione e Gina encerraram o expediente no mesmo horário e caminharam juntas para o toalete, para re tocarem o visual. Tinham combinado dar uma passa da no costumeiro bar, onde o pessoal do escritório geralmente freqüentava, sobretudo nas noites de sex ta-feira. Ela havia decidido que não passaria as se manas que ainda lhe restavam em Londres fechada no apartamento e se lamuriando. Planejava sair to das as noites e nos fins de semana visitar jardins e museus. Estava determinada a se divertir. Não per mitiria que a lembrança de Draco arruinasse-lhe o humor.

Gina mirou-se no espelho e sacudiu a cabeça para observar o efeito dos cabelos ruivos que se moviam num balanço espetacular.

— Estou bem, Hermione?

— Uma boneca! — admirou Hermione, observando o suéter de lã branca que se ajustava a cada curva do corpo bem delineado. O batom num rosa pálido, em perfeita harmonia de cores com o blush, realçavam os olhos verdes, que brilhavam quase tanto quanto os brin cos de prata.

Gina não pareceu muito satisfeita com a avaliação final da colega:

— Uma boneca parece ter uma conotação angelical. O que desejo saber é se estou sexy!

Hermione gargalhou com as feições indignadas da ami ga.

— Claro que sim, Gina. E quanto a mim? O que acha? — perguntou Hermione, improvisando uma pose de modelo e alisando a blusa de seda negra que acabara de ajeitar por dentro da saia vermelha. Ao mesmo tem po, inclinava a cabeça, deixando os longos cabelos se espalharem sobre o ombro direito.

— Nossa! — exclamou a colega — Você transpira sensualidade por todos os poros!

Hermione sorriu e gesticulou com uma das mãos, ne gando a observação. Mas mesmo achando que a ami ga exagerava, o elogio serviu para elevar-lhe o ego.

A chuva caía intermitente e gelada, enquanto as duas amigas caminhavam apressadas, dividindo a cobertu ra do guarda-chuva de Hermione.

Assim que terminaram de subir os degraus de en trada do bar, Hermione enjoou-se ao aspirar o cheiro forte de perfume, cerveja e vinho. Tudo ao mesmo tempo. Foi aí que decidiu desistir da idéia de afogar as mágo as na bebida. Não seria sensato. Mas, também, não ficaria apenas no suco de abacaxi. Optou por um drinque suave de framboesa, assim que chegaram ao balcão onde as bebidas eram servidas.

Gina decidiu-se por um bom vinho e logo foi arras tada por amigos. Hermione aguardou sua bebida e já ia movimentar-se para seguir a amiga quando avistou Harry que a chamava com um aceno de mão.

O que será que ele queria com tanta insistência? Hermione se perguntava intrigada, enquanto prosseguia na direção de um dos cantos sossegados do salão onde o homem a aguardava.

— Quero lhe mostrar uma coisa. — falou Harry, assim que ela se aproximou.

— Não me diga que vai se declarar para a Gina? — Ele fez um gesto negativo com a cabeça.

— As ações falam mais alto do que as palavras. Vou mostrar a ela como me sinto. — E, para provar o que dizia, puxou a manga da camiseta até a parte superior do braço, exibindo uma recente tatuagem com o nome dela.

Hermione sorriu comovida. Ele gostava mesmo dela. E, com certeza, formavam um bonito par.

— Perfeito, Harry. Agora vá lá e mostre a ela. Mas não esqueça de que as garotas também gostam das palavras ditas ao vivo e em som alto e claro.

Harry agradeceu e saiu todo sorridente, caminhando apressado na direção de onde Gina se encontrava.

Hermione o acompanhou com os olhos. Estava tão distraída que nem percebeu Rony se aproximar.

— O que está fazendo aqui neste canto, tão solitária? Esperando por alguém?

— Ah, não, Rony. Estava conversando com um amigo e... — Ela se interrompeu ao notar que ele não estava prestando atenção no que ela dizia.

Ele parecia petrificado com o olhar fixo no dela. Hermione corou. Não entendia bem o que ele estava pretendendo. Segurou o copo com as duas mãos na frente do corpo, num gesto inconsciente de proteção.

— Senti saudade, Hermione. Já estava acostumado a vê-la sentada perto de mim. Sabe que você é uma gata?

Hermione sentiu-se desconfortável. A última coisa que esperava agora era uma investida de Rony. Será que não tinha entendido o "recado" quando a assediara tempos atrás? E, mesmo naquelas duas semanas de trabalho em equipe, ela mal lhe dirigira a palavra. Tinha certeza de que ele sabia que ela se interessava por Draco. O que será que esperava dela? Pensou, preocupada.

Girando os olhos ao redor, procurou por alguém que estivesse próximo, para incluir na conversa. Não havia ninguém. A maioria das pessoas se agrupava próximo ao balcão de bebidas.

Ela levou o copo aos lábios e saboreou um gole do drinque, bem devagar. Tinha esperanças que ele se afastasse ao notar-lhe o desinteresse. Porém, por experiência que tivera em ocasião precedente, sabia que estava lidando com um homem chato e persistente.

— Rony, sinto muito, mas...

— Ora, Hermione! Dê-me uma chance. Vamos sair juntos para jantar. Quem sabe não possa ter uma surpresa agradável? — Ele insinuou, lançando um olhar com a pretensão de seduzi-la.

Ela desviou o olhar e o direcionou para onde estava a amiga. Percebeu que Harry tinha conseguido espantar os dois consultores que antes assediavam Gina. Agora os dois estavam a sós e a conversa parecia ser séria. Então, voltou a encarar Rony e decidiu forçá-lo a ouvir o que tinha a dizer, com a voz firme e determinada.

— Ouça Rony. Eu já o conheço e sei que é uma excelente pessoa. Porém, não estou interessada em nada além da amizade.

Ele franziu o cenho.

— Não está interessada? — Ele repetiu as palavras com uma ênfase tão grande, como se quisesse demons trar que havia algo errado com ela. — Por que não quer namorar ninguém? Tem medo de que descubram algo ruim no seu passado?

Rony deu um passo à frente, quase lhe tocando o corpo, num gesto impertinente.

Hermione ficou tensa. Como ele ousava intrometer-se em sua vida particular? A inesperada arrogância a cho cou.

E, sem que esperasse, dois braços fortes surgiram por detrás dela e a agarraram pela cintura, forçando-a a recuar até encostar-se a uma verdadeira muralha de músculos.

Era Draco!

Não havia melhor momento para que ele apareces se, pensou Hermione, sentindo-se protegida.

— Ela estava me esperando, Rony.

Hermione percebeu o tom irritado na voz de Draco e fi cou contente. Ele estava com ciúme.

Rony recuou um pouco, mas manteve o olhar fir me.

— É. Estou vendo. Mas não se pode culpar um ho mem por tentar. — E, após um último gole do drinque, esvaziando o copo que trazia nas mãos, com um olhar maldoso falou: — Agora entendo porque a retirou do grupo, Draco. Que pena para você, Hermione! Ser deixada de lado no maior contrato que a Franklin já conse guiu. Principalmente, depois de ter ajudado tanto a consegui-lo! — E, após uma pausa intencional para que ela assimilasse o veneno, concluiu: — Agora Draco está livre para se concentrar no mega projeto e ainda tem você como recreação. E enquanto isso a mantém entretida num serviço de mínima importância nos fun dos da biblioteca.

O que é que Rony estava dizendo? Hermione tentava entender. Será que Draco a desligara do projeto e reco mendara um serviço sem importância só para mantê-la livre e à sua disposição?

Uma onda de indignação a invadiu. Draco não pode ria ter feito isso! Será que estaria repetindo o mesmo que McLaggen lhe fizera no passado? Controlando-lhe a carreira e manipulando sua vida para objetivos egoís tas?

Sentiu que precisava sair dali naquele instante e afas tar-se para o mais longe possível. Insistiu em mover-se, mas os braços de Draco pareciam feitos de aço. Hermione girou a cabeça e a ergueu para encará-lo. Ele, porém, a segurava tão apertado, que tudo que ela conseguia ver era a mandíbula cerrada.

A animosidade entre os homens crescia. Pareciam dois leões esperando o melhor momento para atacar.

Por que Draco teria agido daquela forma? Ela conti nuava a pensar, horrorizada. Apenas para continuar dormindo com ela? As lágrimas da desilusão começa ram a brotar. Ela enfureceu-se e começou a perder o controle. Não se deixaria humilhar outra vez. Não aqui e nem agora.

— A verdade não é assim tão simples, Rony. — Draco falou conciso.

Rony deu de ombros.

— Se é o que diz... — E, lançando um olhar pene trante e ao mesmo tempo insinuante para Hermione, e em seguida saiu apressado.

Draco mantinha Hermione aprisionada.

— Deixe-me ir — implorava ela, com a voz embargada.

— Só depois de conversarmos.

— Não quero conversar. Não temos mais nada a dizer. — Hermione berrou e fincou as unhas nas mãos dele, sem se importar se o estava ferindo.

Draco não cedeu nem um milímetro. Ao contrário. Pressionou-a ainda mais.

Hermione ficou enfurecida. Mais com ela do que com Draco. Pois apesar da atitude indigna dele, ainda se derretia no calor daquele corpo. O magnetismo daquele homem tinha tamanha força que, apesar do coração dilacerado, o corpo ardia de desejo por ele.

— Hermione, quer me ouvir? — gritou ele. — Ou prefe re acreditar no que aquele idiota disse sem esperar pela minha explicação?

— Você me desligou do grupo?

— Sim.

— Isso quer dizer que não estamos trabalhando jun tos. E só pode ter feito isso com a intenção de poder continuar com o nosso caso, não é?

— Não da maneira como está pensando — Draco tentou justificar.

— Eu confiei em você!

— Não tem nada a ver com a gente, Hermione!

— Não existe mais "a gente", Draco.

Será que ela nunca aprenderia? Por que sempre se apaixonava pelos homens errados? Pelos que a manipulavam e somente a viam como objeto de prazer?

Draco estarreceu diante da afirmação dela e sem que rer aliviou a força com a qual a segurava. Hermione apro veitou e libertou-se dele.

Cruzou o salão na direção da porta, com passos rá pidos e decisivos. Espiava ao redor para localizar Gina. Nem sinal dela ou de Harry. Era impossível andar mais rápido. O bar agora estava lotado. E, provavelmente, metade dos freqüentadores tinha assistido à desagra dável cena entre ela e Draco, a julgar pela maneira como a olhavam no instante em que ela passava. A mágoa e a raiva eram tão fortes que Hermione já não se importava mais com o que dissessem.

Antes de alcançar a saída, porém, foi impedida por Isabelle, a moça que trabalhava no balcão de recepção da mesma firma que Hermione:

— O que está acontecendo entre você e Draco? — perguntou a colega de trabalho sem nenhum rodeio.

— Quer mesmo saber, Isabelle? — Hermione perguntou em som alto e sonoro para que todos ao redor ouvissem. Assim satisfaria a curiosidade deles de uma vez por to das: — Tivemos um caso, mas agora está acabado.

— Não está não! — A voz de Draco soou estrondo sa, bem atrás de onde Hermione estava.

Por segundos houve silêncio no bar. Depois, sus surros. E, por fim, uma voz desconhecida saída de um grupo ecoou:

— É isso aí Draco! Pega a garota!

Hermione saiu disparada. Na pressa, deixou o guarda-chuva, sem se deter para procurá-lo. Desceu os de graus da frente do bar e prosseguiu na calçada sentin do o rosto se inundar de lágrimas e também das gotas geladas da chuva que continuaria cair.

Espiou sobre um dos ombros e percebeu que Draco a seguia de perto:

— Não quero falar com você! — ela gritou, acele rando os passos.

— Hermione espere! Com esses saltos ainda vai cair e se machucar!

— Engana-se. Posso correr uma maratona com eles.

— Pode ser, mas não hoje! — Draco exclamou, no momento em que conseguiu agarrar-lhe um dos bra ços e forçá-la a parar.

Ela tentou se desvencilhar, mas não conseguiu. As pessoas que circulavam na calçada eram obrigadas a contorná-los para poderem prosseguir no caminho. Algumas até gritavam imprecações.

— Ainda está preocupada com o que os outros pen sam, Hermione?

— Sabe de uma coisa Draco? Eu não dou a mínima. O que está me aborrecendo é o fato de imaginar que posso estar sendo usada por você!

Ele arregalou os olhos, com surpresa:

— Ah! Até que enfim um pouco de sinceridade! — E, baixando o olhar, agora com mais calma sugeriu: — O que acha de ignorarmos a audiência e esclarecer mos as dúvidas entre nós?

— Eu prometi a mim mesma que isso não aconte ceria outra vez. Como pude ser tão ingênua?

Draco se manteve calado, esperando que ela termi nasse o desabafo.

— Já deveria prever que terminaria assim — la mentou ela. — Era só questão de tempo.

— Calma, Hermione. Relaxe.

Ela fechou os olhos para forçar-se a não gritar. Não se deixaria manipular pelas palavras dele.

— O que Rony disse nem mesmo chega perto da verdade. Deixe-me explicar o que realmente aconte ceu — insistiu Draco.

Ela tornou a abrir os olhos e notou que ele mantinha os punhos cerrados. E já não demonstrava tanta calma.

— Você está estressada. E, talvez por isso, sendo completamente irracional!

— Não sou irracional — protestou ela, enfatizando a palavra. Não iria permitir que ele a tratasse com o tradicional machismo, relegando a ela o papel de mu lher submissa, dependente e sem razão. Mesmo que isso lhe custasse o emprego.

— Não, não é. Você está irracional! Nem mesmo me escuta!

— Não devia ter tirado vantagem de sua posição de meu chefe!

— Não fiz isso! — exclamou Draco, agora tão furio so quanto ela.

— E o que fez então? Como chama o fato de me desligar do grupo sem nem mesmo me consultar? Tal vez eu me interessasse pelas horas extras de que o pro jeto ainda iria precisar! Poderia contar com mais di nheiro no meu retorno para a Nova Zelândia. Porém, tudo que lhe interessava era manter-me disponível para garantir um sexo satisfatório, não é mesmo?

— Não sabe o que está falando, Hermione. Essa decisão foi tomada antes mesmo do fim de semana que passa mos juntos.

— Antes?

— Sim. Neville me falou sobre o seu interesse no prêmio oferecido pela firma de Portugal. E que era um pro jeto em que você já trabalhava e estava a ponto de termi nar. Seria uma pena perder o fim de semana numa excur são com as despesas pagas e que você tanto queria. Foi Neville quem sugeriu o seu desligamento para poder estar incluída no projeto anterior outra vez. Eu apenas concor dei. Sabia o quanto você gostaria de participar dessa ex cursão. — Ela o olhou, mal contendo a surpresa. — O bônus oferecido pela companhia de Portugal, lembra-se? — Ele repetiu.

Hermione esquecera completamente do almejado prê mio. Envolvera-se de tal forma com Draco que tudo o mais lhe desaparecera da mente. Se isso tivesse acon tecido três semanas antes estaria dando pulos de ale gria. Agora, já não a entusiasmava tanto.

Diante do silêncio dela, Draco prosseguiu espuman do de raiva:

— O que acho é que estava louca para arranjar uma briga. E até mesmo desconfio da razão. — E após res pirar fundo, terminou: — Quer que eu me afaste de você? Tudo bem. Mas pelo menos seja honesta. Não se esconda atrás de uma fachada inocente e jogue a culpa toda para cima de mim.

Hermione engoliu em seco. Muito do que ele dizia esta va correto. Ela estava ressentida demais pelo que acon tecera com McLaggen e descontara o medo e a raiva em Draco.

— Perdoe-me por não ter-lhe dado chance de se explicar — lamentou Hermione.

E, por alguns segundos, ela ficou observando a fi gura charmosa de Draco. A altura, os cabelos loiros e principalmente os lindos olhos cinzas!

Estava tudo terminado. Ela teria que partir em bre ve. Por isso procurava memorizar o melhor que pu desse o homem por quem se apaixonara.

Antes de girar nos calcanhares e retomar o rumo de casa, murmurou:

— Sinto muito, Draco.