CAPÍTULO ONZE
No dia seguinte logo ao acordar, Hermione sentiu o braço de Draco repousado na altura da cintura dela. Já devia estar acordado há algum tempo porque foi só ela fazer um leve movimento que ele prontamente reagiu:
— Fique aí mesmo! Vou buscar algo para comer.
Ele abandonou a cama e logo retornou com um sor riso nos lábios e uma bandeja com um copo de suco de abacaxi e algumas torradas.
Enquanto ela se servia, ele aproveitou para ligar para a firma e justificar o atraso. Por ambos...
Ela precisava se acostumar com o jeito autoritário de Draco resolver as coisas. Um chefe será sempre um chefe, pensou.
Um pouco mais tarde, eles estavam a caminho do consultório médico. Viajaram em silêncio. Porém, de pois de estacionar o carro na frente da clínica, Draco desligou o motor do veículo e comentou:
— Ficará tudo bem, Hermione.
— Mas não precisa ser por meio de um casamento, Draco.
Ela não queria correr o risco de ser responsável por uma atitude precipitada da parte dele e depois ser acusada de ter arruinado sua vida. Afinal, se a mãe dela tinha conseguido criá-la sem a ajuda de um marido, porque ela não conseguiria fazer o mesmo? Pensava.
Após alguns minutos de espera, acomodados na sala de recepção da clínica, a enfermeira auxiliar do médi co veio avisá-los de que o doutor estava disponível e os aguardava.
Hermione ergueu-se e ficou corada ao ver Draco fazer o mesmo. Será que ele pretendia entrar com ela? Ques tionou-se.
Ele notou-lhe o embaraço e foi logo avisando:
— Nem pense que vou ficar aqui! Conheço seu cor po melhor do que você mesma. E também não tem motivos para se envergonhar.
Sabendo que não adiantaria discutir, deixou-se con duzir por ele e, juntos, entraram na sala do médico.
Após cumprimentá-los, o doutor pediu que a enfer meira acompanhasse Hermione ao lugar reservado para a coleta de material, a fim de que fosse realizado um teste de gravidez.
O que não demorou muito e logo ela estava de volta ao consultório.
Enquanto aguardava pelo resultado, o médico apro veitou para fazer algumas perguntas:
— De quanto tempo acha que está grávida?
— Algumas semanas, talvez. — revelou Hermione, com a atenção voltada para o recipiente que continha o lí quido. Draco, então, não despregava os olhos do mi núsculo tubo de ensaio.
O resultado confirmava a existência da gravidez.
— O resultado não deixa dúvidas. Você está real mente grávida. — confirmou o doutor.
— Não há chance de um resultado falso? — Quis saber Hermione.
O médico sorriu, meneando a cabeça.
— Não. A menos que estivesse sendo submetida a um tratamento de fertilidade. Por acaso está tomando algum medicamento com essa finalidade?
Hermione negou com um gesto.
— E já tem sentido alguns sintomas desagradáveis como náuseas, fraqueza ou outro qualquer?
Aquela pergunta foi Draco quem respondeu, deta lhando passo a passo os enjôos, a palidez e o cansaço.
— Vamos tentar o ultra-som. Quem sabe,possamos descobrir mais alguma coisa, embora ainda seja cedo demais. — sugeriu o doutor.
Hermione o olhou desconfiada.
— Não se preocupe. Apenas rotina — ele a tranqüi lizou. — É só uns minutos. Vai gostar de ver o bebê, não é?
O médico solicitou o auxílio da enfermeira que aco modou Hermione próxima da aparelhagem de ultra-sonografia. Draco posicionou-se na cabeceira do divã clínico e afagava com carinho os cabelos dela, proporcionando-lhe a segurança que ela precisava.
Naquele instante, Hermione sentiu o medo esvair-se por todos os poros e uma certeza absoluta surgir: queria aquele bebê independentemente do que pu desse ocorrer entre ela e Draco. Essa criança, embo ra não tivesse sido planejada, seria muito amada. Agora estava plenamente segura de que lutaria com unhas e dentes se preciso fosse para garantir o futu ro de seu filho!
— Ah! — exclamou o doutor. — Eis o problema.
Problema? Hermione e Draco se entreolharam assusta dos, embora, o tom de voz do médico não demons trasse preocupação.
O ginecologista moveu a tecla do aparelho de ultra-som de modo a ficar mais fácil para eles acompanha rem a explicação:
— Dêem uma espiada no monitor. — E, acompanhan do com uma flecha indicativa na tela, prosseguiu: — Estão vendo este ponto pulsante? É o coração do bebê.
Hermione observou maravilhada uma sombra que se movia de maneira compassada.
Um lampejo de vida que se iniciava!
Ficou tão comovida que algumas lágrimas rolaram pela face terminando por banhar-lhe o rosto, misturando-se às gotas de suor exaladas por conta da ansie dade. Quase nem percebeu que o médico prosseguia a explicação, acompanhada com o sinal na tela.
— E, neste outro canto, temos outra imagem se melhante...
— Gêmeos? — presumiu Draco em voz alta.
— Sim. — respondeu o doutor com um sorriso ale gre. — Parabéns aos dois!
Hermione sentiu um baque como se tivesse caído de um prédio de dez andares. E, inconformada, protestou:
— Deve haver algum engano, doutor! Nem mesmo acredito que estou grávida! Estava tomando os anti concepcionais...
— Pode ter esquecido de tomar um deles. Isso acon tece. — afirmou o médico, e desligou o equipamento de ultra-sonografia.
— Tenho certeza de que não esqueci de tomar ne nhum dos comprimidos. — insistiu Hermione.
Após entregar o resultado do exame para Draco, o doutor retornou a atenção para ela.
Antibióticos, o médico explicara. E ainda bem que o fizera. Não que ele duvidasse que Hermione estivesse tomando os anticoncepcionais, mas poderia ter-se es quecido de um ou alguns. Na verdade, nem tivera tem po de pensar o que realmente achava daquela situação toda.
E agora a notícia: gêmeos!
O dobro de soluços e choros. Mais tempo sem dor mir... Será que suportaria?
Ele espiou Hermione com o canto dos olhos antes de ligar a ignição. Ela permanecia calada, com as mãos cruzadas sobre o colo.
— No que está pensando, Hermione?
— Não acredito na última pergunta que fez ao mé dico.
— Qual? Sobre se podemos continuar com as rela ções sexuais?
Ela concordou com um gesto de cabeça. Ele sorriu:
— E daí? O que é que tem isso? Pretendo fazer sexo com minha esposa. E muito!
Hermione prosseguiu com o silêncio.
Com a mão direita estendida ele afagou-lhe os ca belos. Uma vez lhe dissera que jamais a magoaria e isso era verdade. Porém, não poderia trair a si mesmo e admitir que a amava de verdade, a despeito da atra ção sexual que sentia.
— Eu tive uma idéia! — de repente ela exclamou. — Por que em vez de tomarmos a decisão neste mo mento, não damos um tempo para pensar melhor? Como diz sempre: um dia de cada vez.
— E o que fará nesse tempo?
— Vou aproveitar para conhecer Bilbao. Foi a cida de escolhida pela empresa portuguesa como prêmio oferecido à equipe. Já que terminamos o projeto, vou me desligar da Franklin e desfrutar do fim de semana com os amigos. Será ótimo para espairecer as idéias e pensar melhor a nosso respeito.
Ele exalou o ar dos pulmões com certo alívio. E sem querer, observou nos olhos dela a mesma dúvida. Hermione estava certa. Eles precisavam de tempo para pen sar. Quem sabe houvesse outra solução que não fosse o casamento?
Com certeza essa viagem deveria representar um dos mais empolgantes fins de semana de toda sua vida, pensava Hermione, acomodada na poltrona do avião que a levava rumo a uma das mais famosas e românticas cidades do mapa, acompanhada de amigos e todas as despesas pagas.
Porém, não foi assim tão simples controlar as náu seas que se tornavam insuportáveis a cada hora que passava. Teve que improvisar as mais diferentes des culpas para esquivar-se de acompanhar o grupo nos jantares previamente agendados. Preferia recolher-se cedo ao quarto do hotel e pensar nos problemas que a afligiam.
Sentia falta de Draco. De seu carinho e do conforto daqueles braços.
No domingo, após outra desculpa com o grupo, re solveu dar uma volta sozinha pelos arredores. Levou a câmera digital para filmar os pontos que mais a agra dassem. E não mais que de repente, tudo escureceu ao seu redor. Ela piscou várias vezes, mas a tontura aumentou e antes de desmaiar os lábios trêmulos mur muraram apenas um nome: Draco!
Draco sabia que jamais iria esquecer o pânico que sentiu ao receber o telefonema de Gina, avisando que Hermione estava no hospital. Embora ela lhe assegurasse que Hermione estava bem e não havia necessidade de que ele fosse até lá, não foi o que ele decidiu.
Seguira no primeiro vôo em direção Bilbao. Ainda assim, foram os minutos mais longos de toda sua vida.
Movia-se constantemente dentro da aeronave, indo do lugar onde estava até a saída de emergência com passos nervosos e a mente atribulada. Precisava ver Hermione. Estar com ela. Nada mais importava além de chegar depressa e ver como ela estava. De súbito, per cebeu o quanto ela representava para ele. Não podia suportar por um minuto sequer a idéia de perdê-la. Como pudera ser tão cego a ponto de não enxergar que Hermione representava o bem mais precioso que a vida lhe pusera nas mãos? Como pôde acreditar que um casamento poderia não ser a melhor solução?
Agira de modo egoísta e tolo. Até mesmo covarde, pensou. Foi preciso levar um susto desses para dar valor ao tesouro que encontrara e por pouco não per dera de vez.
Hermione descansava no próprio quarto do hotel. Esta va pálida, mas calma.
Draco lutava para aparentar a mesma calma, mas por dentro, sentia-se prestes a explodir.
— Está tudo bem, Draco — insistia Hermione.
— Não parece.
— Só estou cansada. O médico disse que eu devo evitar qualquer tipo de tensão.
Ele sabia disso. Já havia falado com o doutor, antes de ir vê-la. E o médico lhe dissera que se ela se manti vesse calma e relaxada, tudo acabaria bem. Ela e os bebês estariam ótimos.
Draco sentiu uma ponta de culpa por ter-se acomo dado a uma situação tão luxuriante que até lhe impe dira de ver a verdadeira base daquele relacionamento: o amor. Sim. Ele a amava. Desde o primeiro instante.
E, pela primeira vez, sentiu a responsabilidade de cuidar dela e dos bebês que esperavam como um pre sente divino! Os seus bebês! A sua família!
Agora só precisava convencê-la de que o único ca minho possível que os levaria à felicidade seria o de se casarem o mais rápido possível.
Hermione espiava através da minúscula janela do avião, onde nada podia ser visto além do céu escuro. A palidez do rosto estava refletida no vidro.
— Sinto não ter falado sobre a gravidez logo no início. Mas eu tinha intenção de lhe contar, só não sa bia quando. Estava assustada.
— Assustada por quê? — Quis saber Draco. — O que imaginava que eu faria? Que a abandonaria? — Diante do silêncio dela, ele se indignou: — Quando foi que eu lhe dei alguma razão para não confiar em mim?
— Não se trata de você, Draco. Trata-se da... situa ção toda!
Ele até concordava que a situação inesperada os deixasse fora de controle. Mas daí a não confiar nele...
O que mais poderia fazer para provar que era diferen te do homem que a humilhara? E, sem confiança, como poderia existir amor?
As mudanças em suas vidas tinham ocorrido rápido demais. Ele tinha se apaixonado por Hermione, mas foi preciso um grande susto para ter certeza disso.
Porém, não sabia se Hermione também estaria apaixo nada por ele. Sabia que ela gostava de sua companhia, sem falar na óbvia atração sexual. Mas, e quanto ao amor?
— Hermione, quero me casar com você. Podemos fazer com que dê certo. Quero cuidar de você e dos bebês.
A declaração foi simples e rápida.
Era o melhor que Draco podia fazer no momento. Se jurasse amor eterno sabia que ela não acreditaria. E até poderia piorar as coisas. Draco não queria se arris car a perdê-la.
— Está bem, Draco. Aceito.
Ele cerrou os dentes com a resposta séria e concisa. Hermione não demonstrou nenhuma alegria, mas, agora pelo menos concordou. Já era um começo, ele pen sou. E se agora não o amava da maneira como ele gos taria, faria tudo que estivesse ao seu alcance para que isso acontecesse um dia.
Afinal, ela era a mulher de sua vida e carregava no ventre dois filhos dele.
Agora que estava desligada da Franklin, Hermione per manecia o dia inteiro trancafiada no apartamento. Oca sionalmente falava com Gina ao telefone, mas ainda não lhe contara nada sobre a gravidez. Apenas lhe acon selhava a dar uma chance a Harry.
A cada dia Hermione retraía-se mais e mais. Ela permitia que Draco cuidasse de toda a papelada necessária para o casamento, inclusive a renovação do visto sem nem mesmo ler ou aparentar qualquer interesse.
Draco demonstrava-se aborrecido. Embora aceitasse que a gravidez difícil a enfastiava, tinha certeza que havia outros motivos que a atormentavam. E ele não sabia mais o que fazer para combater a infelicidade dela.
Quando faziam sexo, ela parecia animar-se e es quecer os problemas. Era naqueles breves momentos que ele ainda sentia que ela o queria. Podia perceber o tremor nas mãos que o acariciavam.
Depois, ela fechava os olhos e adormecia, sem nem mesmo aninhar-se no peito dele, como costumava fazer.
Draco não sabia explicar bem o porquê, mas de alguma forma sentia que a perdia aos poucos.
