Temporada de Caça: Aberta - Sarah Mlynowski


Capítulo Um

Idiota


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Idiota, idiota, idiota, idiota.

Não consigo acreditar como alguém pode ser tão idiota.

Estou me debatendo sem parar, pois não sei se tenho ou não um motivo para irritar a minha chefe, fazendo um interurbano para Angela em Nova York. Qualquer emergência menor merece uma ligação para Rosalie ou Alice daqui de Boston: uma tensão com um colega de trabalho, planos para a noite, aborrecimentos... Mas esta – esta humilhação completa nas mãos de um macho, um farsante, sem dúvida merece um telefonema para o Serviço de Emergências Angela.

Minimizo a janela do meu e-mail para o caso da minha chefe, a coordenadora da revisão, entrar na sala. Em vez de ficar contemplando o ato fortuito e destrutivo de Jacob, na forma de um e-mail vindo da Tailândia, Lauren Mallory verá Papai caubói milionário, o original que eu deveria estar revisando. Ligo para Angela do trabalho.

- Angela falando – responde ela com sua voz de mulher-eternamente-ocupada-do-banco-de-investimentos.

Eu o odeio. Realmente o odeio.

- Sou eu – afirmo.

- Devo ser uma paranormal. Não ia atender, mas achei que podia ser você.

Não havia tempo para conversa fiada naquele momento.

- Você também teve o pressentimento de que o idiota iria conhecer alguém na Tailândia e depois me escrever contando tudo? – Nunca mais vou falar com ele. Se mandar e-mails, deleto-os. Se me telefonar, desligo na cara. Se descobrir que não pode viver sem mim, embarcar no primeiro voo para Boston e vier direto para a minha casa com um anel de diamante que vale cinco meses do seu salário – quer dizer, se ele tivesse alguma espécie de salário – bato a porta. (Ok... eu provavelmente me caso. Não sou tão maluca.)

- Merda – disse ela. – Quem é a perua?

- Não sei. Uma garota qualquer que ele conheceu enquanto estava tentando "se encontrar". Não tenho notícias dele há quanto tempo, três semanas? Aí o sujeito me escreve para dizer alô, como vai, que está numa boa e apaixonado.

- Ele de fato disse a palavra que começa com "A"?

Jacob jamais chegou a escrever a palavra que começa com "A", quanto mais dizê-la em voz alta. Acho que suas mãos e seus lábios estão geneticamente programados para não combinar as letras "A", "M", "O" e "R".

Eu realmente, realmente o detesto.

- Não. Disse que só quer que eu saiba que ele está saindo com alguém.

- Mas você lhe disse que ele podia ver outras pessoas, certo?

- Bem, sim. Mas não acreditei que ele fosse capaz disso.

Infelizmente, eu o imagino fazendo isso sempre. Sonho que ele está no meio de orgias com um monte de mulheres tailandesas nuas e felizes. Em vez de trabalhar no Milionário, me pego imaginando-o numa transa selvagem, movida a drogas, com uma deusa holandesa de 1,80m, que se parece com a Cláudia Schiffer e anda com saltos finos e calças capri. Mas até agora eu acreditava que essas torturas auto impostas eram manifestações da minha paranoia de por-que-ele-iria-viajar-sem-mim-se-realmente-me-amasse. Jake deveria voltar para casa depois de um mês e me dizer isso – enquanto estava longe encontrando a si próprio, ele percebeu o quanto me amava de verdade e que queria passar o resto da sua vida adulta arrebatando o meu corpo nu com beijos, usando a palavra que começa com "A" sem parar.

É claro que ele tinha que ir embora e estragar tudo.

- Bella, ele vem batendo perna pela Ásia há mais de dois meses. Provavelmente já deve ter dormido com metade da Tailândia. Leia o e-mail para mim.

Será que o meu computador vai pifar se eu vomitar em cima dele?

- Não posso lê-lo em voz alta aqui no trabalho. Vou enviá-lo para você. Espere... um segundo... chegou aí? – O Milionário volta à minha tela.

- Tem uma ligação aqui, espere um pouco. – Ela me colocou na linha e uma versão de "You're the Inspiration", do Chicago, feita para elevadores, toca no meu ouvido.

Oh, Deus.

Sei que estou a ponto de começar a chorar porque a tela do monitor está levemente manchada, como se alguém tivesse passado uma borracha sobre ela.

Devo pensar em coisas positivas. Julie Andrews dançando. Os ovos de Páscoa da Cadbury. Minha meia-irmã Íris, de 16 anos, achando que eu sou a pessoa mais legal que já existiu. Bella, eu acho que você é mais bonita que a Sarah Jessica Parker.

Ok, já posso ver tudo novamente. A tela retornou à sua cor anterior não-alaranjada.

Há outros pensamentos felizes? O jeito como Jacob costumava desenhar pequenos círculos na parte interna do meu braço com o polegar. Merda, merda, merda.

Vou tentar novamente. A nota 92 que o professor Banner deu para o meu ensaio sobre Edgard Allan Poe. O dia em que tirei o aparelho e meus lábios pareciam estar deslizando pelos meus dentes, enquanto que eu ficava olhando o espelho sem parar. Ok. Estou bem agora. Não há nada para ver aqui, amigos.

Droga. Noto que Jessica Stanley, a editora assistente que fica no cubículo ao meu lado está espiando por cima da divisória. Ela sempre aparece no momento exato em que não a quero por perto. Do mesmo jeito que você sempre fica menstruada no baile do colégio, no Dia dos Namorados ou numa festa à beira da piscina. Sempre que estou dando uma olhada nos sites de filmes novos na Internet, lá vem ela. É como se tivesse uma espécie de superpoder.

Ela usa o cabelo puxado para trás num coque apertado e sem frisos e, como é de costume, nenhum fio fica solto. Acho que ela usa cola.

- Sim? – pergunto com a minha voz de estou-muito-ocupada-aqui.

- Desculpe incomodá-la, mas será que você se importaria de... hum... se conter e não fazer tanto barulho? – cochichou Jessica, colocando o dedo indicador sobre os lábios, num gesto de quem pede silêncio. – Estou tendo dificuldade para me concentrar.

Resisto a tentação de manda-la à merda. No meu primeiro dia de trabalho na Cupid, há quase dois meses, decidi que não iria permitir que esse tipo de pessoa arrogante que pensa que sabe tudo se desse bem em cima de mim. Naquele primeiro dia, quando lhe falei que havia ido para Penn, ela disse que conheceu alguém que havia se transferido para lá depois de não ter aguentado a pressão de Harvard. A perua, evidentemente, havia se formado lá.

E então houve a época em que eu jurava que ainda estava disposta a lhe dar uma chance, por isso coloquei a cabeça acima da divisória e disse:

- Jessica, Lauren quer falar com nós. – Sem olhar para cima, ela respondeu:

- Isabella, é... hum... Lauren quer falar conosco.

E por algum motivo, a maior parte dos revisores parece achar que ela foi uma dádiva de Deus para a Cupid. "Oh, Jessica", dizem como em versos. "Você é a rainha das vírgulas." E "Como é que foi em Harvard, Jessica?" Ou "Fale-nos sobre a sua teoria de desconstrução e subjetividade no Ulisses, de Joyce, Jessica." Ok, talvez eu esteja exagerando, mas, diga-me, que pessoa normal passa as suas horas de almoço lendo Paraíso Perdido e A História Metafísica da Crítica Literária?

Estou certa de que ela tem algumas teorias sobre a desconstrução e a subjetividade que adoraria me explicar. Argh.

- Quando eu era caloura em Harvard, Jim, meu professor de renome internacional, insistiu para que eu excursionasse pelo país para apresentar minha tese original... – Blá, blá, blá. Fiz meu mestrado em literatura também, você sabe, embora ela nunca deixasse outras pessoas falarem sobre si próprias. Metade de um mestrado, de fato. Completei o primeiro ano de um curso de dois. Mas por que alguém formado em Harvard está trabalhando aqui? Ela devia estar editando Michael Ondaatje e discutindo o profundo significado da vida, não a tórrida relação de amor entre um caubói robusto e sua esposa virgem de 25 anos. Ela obviamente tirava notas péssimas na faculdade.

Está vendo? Não estou deixando ela se dar bem em cima de mim.

- Desculpe. – digo, com a cara limpa. – O fato é que estou tendo problemas com ponto-e-vírgula e isso está me perturbando muito.

- Sério? – seus olhos reviraram de um lado para o outro, entre a tela do meu computador e o meu telefone. Ela não estava certa se poderia me levar a sério. – Bem, eu posso ajudar. Fui revisora antes de ser promovida a editora assistente. Posso marcar um encontro dos dois-pontos com o ponto-e-vírgula hoje à tarde. Se é que você está falando sério.

- É claro que estou falando sério. – fico surpresa em ver que pessoas como ela existem na vida real. Será que os inúteis sabem que são inúteis? Será que ela acorda de manhã, olha para o rosto no espelho e pensa: "Uau, eu sou uma otária"? Provavelmente não.

Será que isso quer dizer que eu também devo ser uma aberração e esteja totalmente despercebida disso? Será que as pessoas estúpidas se acham espertas? Será que as feias olham no espelho e veem Cindy Crawford? Será que é possível que eu não seja tão bonita e graciosa quanto eu penso ser? Tá legal, eu não penso ser isso. Será que é por isso que Jacob não me quer? Serei então uma aberração medonha e estúpida?

Jessica bate com sua caneta na divisória, sinal de que resolveu acreditar em mim.

- Tudo bem. Como outras pessoas também verbalizaram suas preocupações, agendarei um grupo de discussão. – suas maçãs do rosto começam a inchar de excitação. Pontuação para Jessica equivale às preliminares do sexo. – Às 15:45 é uma boa hora para você?

Sim, é realmente uma boa hora para gastar com estupidez.

- Parece fantástico.

- Excelente. Vou mandar um e-mail para todos os meus revisores. – sua cabeça finalmente desapareceu por trás do cubículo. Como se ela não pudesse surgir no meio do corredor para contar tudo à Julie. Os únicos revisores que trabalham em sua série, Amor verdadeiro, são Julie e eu. Eu ainda gostaria de me opor ao fato de ela estar usando o termo possessivo "meus". Não pertencemos à ela. Lauren é a coordenadora de revisão. Lauren escreve os nossos relatórios. A série de Jessica acaba sendo uma das muitas que nos é distribuída.

- Desculpe. – a voz de Angela retornou ao fone. – Ok, estou lendo-o agora. Blá, blá, blá... "Hoje eu tomei ecstasy de novo"... Por que você está perdendo o seu tempo com esse drogado?... "Alguém roubou a minha camisa verde da J-Crew do balcão"... Meu Deus, que idiota!... "Estou vendo uma linda garota e viajamos juntos durante todo o mês passado". É isso?

- Não, você se esqueceu da parte em que ele diz "achava que você devia saber".

- "Achava que você devia saber. Cuide-se, Jake..." Isso é uma piada? Alguma espécie de piada doentia?

- Infelizmente não. – mas espera aí! E se for uma piada? Ou talvez alguma nova espécie de vírus de computador que se instalou nos meus piores medos e teve mutações dentro dos conformes?

- Quer dizer que você ficou aqui com a bunda na cadeira todos os fins de semana enquanto ele estava caindo na gandaia? Ridículo. Você já se tocou que não conheceu nenhum cara desde que se mudou?

Às vezes acho que Angela, definitivamente, não se preocupa em ser simpática.

- Eu conheci alguns caras – respondi defensivamente. – Só não saí com nenhum deles.

- Você tem sido patética.

Eu tenho sido patética. Cheguei até a recusar um convite para sair com um sósia do Jason Priestly, que Rosalie me apresentou, porque fiquei preocupada com a possibilidade de que Jake viesse a saber de tudo, sentisse a necessidade de voltar para mim e se apaixonar por outra pessoa. E se Jake me ligasse enquanto eu estivesse fora? Jamais poderia trazer um carinha para casa – meu quarto é um santuário de fotos de Jacob: eu e Jake no parque; eu e Jake em bailes a rigor; a formatura de Jake; fotos de Jake, Jake, Jake. Jamais havia me ocorrido que Jacob teria uma foto nossa ao lado do seu saco de dormir, talvez fosse hora de comprar uma daquelas caixas de fotos exóticas e fazer uma espécie de arquivo.

Patético.

Hum. Espera um segundo.

- É possível que ver signifique apenas ver? Tipo, com os olhos dele?

Pausa.

- Não.

Suspiro. É, isso foi lamentável até mesmo para mim.

Patético.

- Você tem razão. Vou começar a sair de novo. Vou me tornar a namoradeira ensandecida. Vou sair com todos os caras de Back Bay. – Back Bay é o bairro caro e da moda de Boston em que eu vivo.

A hora chegou.

Vou sair com homens espirituosos, quentes e podres de ricos que irão me encher de joias, mandar flores para o meu escritório e sussurrar no meu ouvido que eu sou maravilhosa, enquanto massageiam minhas costas porque me-sento-o-dia-todo-em-frente-a-um-maldito-computador. A vida será maravilhosa. Acordarei toda manhã com um sorriso como aquele das mulheres de anúncios de café.

- Você tem razão. Chega de me lamentar. – mas não posso sair sozinha, posso? – Não tenho nenhuma amiga para sair! – queixo-me.

Pausa.

- Você não tem nenhuma amiga?

- Não. – tudo é tão sem graça! Detesto a minha vida. Terei que mandar flor para mim mesma com uma carta de amor anônima e cochichar doces nadas no meu próprio ouvido. - Acho que posso sair com Rosalie.

- Você deve ter outra pessoa para ligar.

Angela não gosta de Rosalie. Nós três morávamos no mesmo andar num alojamento estudantil em Penn. Rosalie diz que Angela é uma intelectual esnobe. Angela chama Rosalie de elitista brâmane. De fato, Angela é uma esnobe intelectual e Rosalie é um tanto elitista. Eu mal sabia o que era uma brâmane até Angela me explicar que Rose pertence a uma casta superior da sociedade de Boston. "Sinto um ar meio esnobe quando você fala dessa maneira", disse à Angela na ocasião.

- Infelizmente, não tenho mais ninguém para ligar. – as únicas pessoas com as quais conversei desde que me mudei, além do pessoal esquisito do trabalho, foram a minha manicure de 50 anos e o meu superintendente. Não saía muito do meu apartamento e dedicava minhas horas livres às reprises de Seinfeld e à leitura de Cosmo, Glamour, City Girls e Mademoiselle, para tentar reunir mentalmente aquilo a que me refiro como dicas de revistas de moda. São regras de vida que um dia me ajudarão a identificar todas as coisas erradas que fiz na minha relação com Jacob, fazer com que eu me torne uma pessoa melhor, e permitir que eu tenha uma vida bem-sucedida e satisfatória. A página cinco manda chama-lo para sair, a 72 pede que eu espere ele ligar, a 50 diz que ele quer uma mulher independente, a 56 afirma que ele irá embora se eu não fizer com que se sinta necessário... Será que uma sombra enevoada nos olhos realmente me tornará mais desejável? Mais desejável do que faria uma depilação à brasileira? O que é uma depilação à brasileira? Tudo isso é muito confuso. *

*Por isso que eu não perco meu tempo com revistinha de moda! Hahaha'

- Então saia com Rosalie hoje à noite, mas depois você irá sair para encontrar novos amigos. E quanto à Alice? – perguntou ela.

Allie é a minha irritante colega de quarto. Ela e seu namorado estão sempre brigando de mentirinha.

- Não tenho certeza se gosto dela. Por sua causa sou obrigada a usar esponjas específicas na cozinha... A azul para pratos, a verde para panelas e a rosa para a pia.

- Isso faz sentido.

- Talvez faça sentido para pessoas como a Angela, que abrem as portas de banheiros públicos com os pés porque não querem tocar na maçaneta. Não para mim. Vivo me perguntando por que me deixo cercar por personalidades tão cabeçudas.

Contudo, ter amigos cabeçudos é melhor do que não ter amigos.

- Desculpe perguntar novamente, mas por que você gosta da Rosalie? – pergunta Wendy.

Rosalie pode não ser a estrela mais brilhante do sistema solar, mas é bem divertida. Brâmanes possuem algumas qualidades vantajosas. Ela conhece o mundo inteiro e seria ótima para me apresentar a vários brâmanes, se um dia eu deixasse. Quando lhe telefonei para dizer que estava me mudando para Boston, ela armou tudo para que eu fosse morar com Alice em menos de uma semana.

- Se você se mudasse para cá, poderíamos sair juntas. Como não irá fazer isso, Rosalie é a minha única opção.

Vejamos, Angela é um tanto esnobe. Ela é uma daquelas garotas classe A que não toleram estupidez. Nós nos conhecemos desde que a Sra. Martin, nossa professora de matemática do segundo grau, que usava todo dia a mesma blusa cinza com gola olímpica e cheirava a queijo suíço, nos colocou uma do lado da outra nos fundos da sala. Nos ligamos por causa da nossa paixão mútua por Michael Jackson e bonecas Moranguinho, e permanecemos amigas inseparáveis enquanto sofríamos os traumas da escola primária, do ginásio, da universidade e de Brady Abramson. Brady Abramson entrou em nossas vidas mais ou menos entre o primário e o ginásio, mais exatamente quando se separou de mim depois da quinta série e chamou Angela para sair durante o seu bar mitzvah, para depois dispensá-la durante o verão e gostar de mim novamente na oitava série.

Mas ambas sobrevivemos à crise do Brady do mesmo modo que sobrevivemos ao dia em que, acidentalmente, joguei seu aparelho dentário na lata de lixo da lanchonete – muito embora, desde então, eu insista em dizer que ela a deixou embrulhada num pano, em cima da sua lancheira, de modo que parecia algo para ser jogado no lixo. E no nosso primeiro período na faculdade, ela escapou de ser morta por mim depois de dizer a Edward Cullen, seu parceiro de laboratório na turma de cálculo – ainda não sei por que quem estuda matemática precisa de um laboratório – que eu achava seu amigo Jacob um gato. Avistamos Jacob há exatamente três anos na aula de Prosa Americana, que vinha logo antes da aula de cálculo de Angela. Quanto mais Huck Finn flutuava ao longo do rio, mais cativada eu me sentia. Obviamente, Edward contou tudo para Jacob. Muito embaraçoso.

Eu não deveria tê-la perdoado com tanta facilidade.

- De qualquer maneira, a culpa é toda sua. – digo rispidamente.

- Qual é a minha culpa? Você não ter amigos? Deixe-me lembra-la de que você ainda estava estudando quando me ofereceram este emprego. Além do mais, como eu poderia recusar o chamado de Wall Street?

Angela havia recebido propostas para trabalhar nos bancos de investimento de todas as empresas para as quais havia enviado currículos – não só por causa do seu coeficiente de rendimento perfeito em Wharton, a escola empresarial de Penn, mas também porque havia ralado como voluntária em refeitórios populares, escrito para o jornal do colégio, dado aulas de inglês na África durante um verão e trabalhado meio expediente no centro de informática, treinando alunas para usar o Excel. Enquanto a maior parte das pessoas, incluindo eu mesmo, optou pela matéria eletiva Espaço, tempo, não importa 101 – um curso de física, cem por cento à base de apostilas, onde eu podia escrever sobre a física dos encontros – Angela cursou Desconstruindo narrativas pré-coloniais, Formalismo russo e Nova crítica anglo-americana. Seus cursos opcionais eram matérias obrigatórias para mim, por isso passávamos bastante tempo juntas.

Eu também faltava a muitas aulas não só porque Angela anotava tudo, como também fazia tabelas detalhadas e gráficos de torta em quatro cores.

- Toda a minha relação com Jacob foi culpa sua. Você armou tudo.

- Pare de se lamentar. Você não deveria estar surpresa, depois de toda a merda que ele fez.

Detesto quando ela usa coisas que eu lhe disse contra mim.

- Não estou querendo entrar nisso agora, tudo bem?

- Ótimo. Ligue para Rosalie. Diga a ela que quer sair para conhecer rapazes. Imediatamente.

Será que Angela não tem ninguém para perturbar no trabalho?

- Está certo. Vou fazer isso.

- Bom.

- Ótimo.

- Boa sorte, eu te amo, me liga depois. – disse minha amiga antes de desligar.

Liguei para o telefone da casa de Rosalie. Tirando o tempo que passou na universidade, minha amiga brâmane morou com seus pais a vida toda em Boston. Ela passa o seu tempo batendo perna em shoppings, fazendo as unhas, procurando um marido e, quando tem tempo, fazendo trabalhos voluntários.

O telefone toca uma vez. Duas vezes. Sei que ela está olhando o identificador de chamadas.

- Oi! – exclama minha amiga com sua voz aguda como um apito. – Como vai você?

- Vamos sair hoje à noite para paquerar?

- Desculpe, mas não posso sair de casa hoje. Estou me sentindo muito mais gorda do que o normal.

Rosalie pesa cerca de sessenta quilos muito bem distribuídos, devo dizer. Não tenho paciência para lidar com seu lado ridículo.

- Como é que eu vou conhecer rapazes se não sair de casa?

- Por que você começou de repente a falar de homens? O que houve com Jake?

- Não quero falar sobre isso. Acabou. Preciso conhecer homens.

- Bem...

- Por favor? Por favor, por favor, por favor?

- Ufa, tudo bem. Passo na sua casa às nove. Vamos para o Orgasmo.

O Orgasmo é um bar da moda que fica a quatro quadras do meu apartamento. Homens muito interessantes vão lá.

- Perfeito. – concordei.

- Prepare a vodca. Mas não sei se tenho roupas que caibam em mim. Posso ter que pegar uma emprestada com você.

Hum, obrigada.

Jessica olha por cima da divisória novamente.

- Isabella...

- Fechado. – digo para Rosalie. Sorrio docemente para Jessica. – Lamento, Jess. Estou me sentindo muito oprimida por problemas de pontuação. Estou certa de que você entende. Vejo você mais tarde, Rose. – desliguei o telefone sem olhar para cima.

Vou sair com alguém. Vou me tornar a rainha das namoradeiras. Esquecerei tudo que diz respeito a ele. Sentarei em pátios usando sandálias cheias de correias e vestidos curtíssimos, tomando um Cosmopolitan e ficando com alguém. Bota isso no plural. Ficando com muitos. Que Jacob?

Jacob, o idiota. Jacob que está saindo com uma loura alta de pernas bonitas que usa tops para poder mostrar o piercing de umbigo. Ela provavelmente é deslumbrante e inteligente, e por isso ele lhe manda flores e espalha bilhetes românticos em papéis rosados com moldura de coração pelo albergue em que estão hospedados.

Bella? Que Bella? Ah, sim, aquela outra garota com quem eu saía na faculdade antes de me apaixonar loucamente pela minha deusa loura de pernas bonitas e piercings no umbigo.

Ela deve ser da Holanda. Todas as holandesas são estonteantes. Não está nem ligando para o fato de termos andado juntos, de um lado para o outro, desde os nossos primeiros anos na faculdade, e de que há cerca de dezesseis minutos ele era o centro da minha vida. Tudo que eu queria era que ele tivesse me pedido para ir junto, mas, aparentemente, encontrar a si próprio é algo que um homem tem que fazer sem a sua parceira. Mesmo que seja uma namorada tão apaixonada a ponto de deixar tudo para trás a fim de fugir com ele.

Preciso de um namorado novo. Em algum lugar de Boston há um homem que irá perceber o quanto eu sou maravilhosa. Deve haver um monte de caras livres lá no point. Há pelo menos... bem... nem mesmo sei quantas pessoas vivem em Boston.

Felizmente, a Internet sabe de tudo. Ora! É só fazer uma projeção. Quantos homens livres existem em Boston? Hum. Quantos homens livres existem em Boston na faixa dos 25 aos 30? Busca: homens solteiros.

Depois de passar cerca de 45 minutos olhando sites que não têm nada a ver - Bom partido, Como fisgar um homem sexy e solteiro, O que os homens querem - me deparo com o Censo norte-americano. Quinze minutos depois disso, encontro informações sobre Boston. Renda média: US$ 581,00. Quinhentos e oitenta e um dólares? Será que estão pagando em libras esterlinas por aqui? Será que eles moram em banheiros?

Quase três milhões de pessoas vivem em Boston: 1.324.994 homens, 1.450.376 mulheres. Maldição. Péssima proporção.

Ok, faixa etária... 18 a 20. Jovens demais.

21 a 24. Ainda são jovens demais.

24 a 44. Até 44? Isso é que é faixa etária. Meu pai tem quase 44 anos. Na verdade, ele tem 50... e alguma coisa. Não me lembro. Não é de esperar que eu me lembre de todos os detalhes. Hum, pelo menos os homens de 40 estão estabelecidos. Há 210.732 pessoas entre 24 e 44 anos de idade. Ou seja, 100.000 homens. Gostaria que Angela estivesse aqui para me fazer um gráfico.

Cem mil. E tudo o que eu procuro é um. Um homem que seja atraente, inteligente, ainda tenha cabelo (e que não o parta do lado para cobrir a área calva), possua uma carreira excitante e promissora (não me importaria se ele tivesse um carro igualmente excitante e promissor), nunca use blusas com gola olímpica, não tenha espinhas nas costas, use uma boa colônia (de preferência algo almiscarado) e sensível... não, forte... não, sensível... definitivamente sensível... mas não sensível demais... será que ele conseguiria chorar na minha frente? Ele tem que chorar na minha frente... mas não sempre... só de vez em quando...

Você recebeu um e-mail. Gostaria de lê-lo agora?

Talvez Jacob tenha percebido que é completamente apaixonado por mim, não pode viver sem a minha companhia e já se cansou da boazuda holandesa.

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Para: Revisores da Amor verdadeiro.

A reunião de emergência sobre ponto-e-vírgula acontecerá na sala de reuniões da produção daqui a exatamente cinco minutos. Por favor, sejam pontuais.

Jessica.

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Droga.

Terei que ouvir Jessica tagarelando por uma hora, e a culpa é só minha. Imagino que a estou estrangulando com todos os sinais de pontuação possíveis. Imagino que estou apertando o pescoço de Jacob com um hífen bem grosso.

Idiota, idiota, idiota, idiota!


E aí, o que acharam desse primeiro capítulo? Muita informação de uma só vez? haha A Bella é muito confusa (vocês vão entender o que quero dizer) e meio bitolada... Mereço review? kkkk

Beijos!