Temporada de Caça: Aberta - Sarah Mlynowski


Capítulo Quatro

Para que levantar?


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Meu primeiro pensamento hoje de manhã foi para James Gradinger. Não foi para arroba. Portanto, oficialmente falando, já superei sua ausência.

Na verdade, meu primeiro pensamento de verdade é djjfhskakd – por que, oh, por que o meu telefone está tocando às 9:15 numa manhã de sábado? Alguém deve estar muito ansioso. De fato são apenas 9:06. Adianto meu relógio grande (enorme para que eu possa vê-lo sem minhas lentes de contato) nove minutos na esperança de que, de algum modo, este artifício me faça chegar na hora certa.

- Alôôôô? – pergunto.

- Isabella! – é o meu pai. – Você ainda está na cama?

- Não. – sempre digo que estou acordada quando estou dormindo. Não sei por quê.

- Mas você está perdendo o dia!

- Estou acordada. – Olhos... pesados. Boca... não dá para abrir.

- Que bom. E as novidades?

Ui.

- Esqueci.

- Você quer nos ligar de volta quando acordar?

- Não, posso falar agora. Não há nada de novo. – Ok, ok. Estou me sentando. Estou acordada. Vou ficar com olheiras escuras, estou praticamente sem ter onde enfiar a cara, nenhum homem irá se apaixonar por mim e a culpa será toda sua, papai.

- Se não há nada de novo, por que você tem andado tão ocupada a ponto de não nos ligar?

Ops. Não é que eu os ignore de propósito. Só fico me esquecendo que eles existem e que devo dar notícias.

- Tenho trabalhado muito.

- Trabalhar é bom. O que você tem revisado?

- Um livro.

- Um livro sobre o quê?

Será que ele me acordou para saber mais detalhes do Papai Caubói Milionário? Por que ele não se tornou um papai milionário também?

- Um romance, pai. A mesma história de sempre.

- Qual é?

- Garota conhece garoto. Garota se apaixona por garoto. Garoto trepa com garota.

- É essa a história?

Eu não devia estar realmente prestando atenção. Será que foi isso mesmo que eu disse para o meu pai? Por que ele está me ligando tão cedo? Também não pergunto isso, com medo de ouvir outro sermão sobre como o passarinho que acorda cedo consegue pegar a minhoca.

- Não. Essa não é a história completa. O garoto pede desculpas, eles se casam e vivem felizes para sempre.

- Que lindo, querida. Mas você sabe o que dizem por aí: trabalhar demais sem se divertir faz com que a vida fique sem graça. E quanto a você? O que está acontecendo com os garotos? Você ainda está saindo com Jeffery? Jeremy? Jebediah?

- Não, papai. Neste instante ele está transando com garotas na Tailândia. – Na verdade eu não digo isso. Não quero que ele tenha um ataque do coração; ele ainda acha que sou virgem. – O nome dele é Jacob. E não, no momento estou me dedicando a outras atividades.

- Não se precipite, querida, não se precipite.

A maior parte dos pais fica enchendo o saco para que você comece a pensar em se casar, ou pelo menos te manda encontrar um namorado assim que faz 24 anos, mas não o meu pai. Charlie ainda pensa que tenho 15 anos. Sempre que viaja a trabalho, ele ainda traz aquelas camisetas onde se lê "Bem-vindo a (insira o nome da cidade visitada aqui)" nos menores tamanhos. Renée, por outro lado, me lembra constantemente que "quer ser chamada de vovó algum dia". Se um dia eu tiver filhos, vou insistir para que eles a chamem de Renée. Só para irritá-la.

- E o que você conta de novo, pai?

- Entrei numa nova turma de corrida.

- Isso é bom. Como vai o trabalho?

- Bem. Só estou trabalhando quatro dias por semana.

- Por quê?

- Quero mais algum tempo para mim mesmo. A vida não é ficar provando roupas, você sabe. Tenho que viver o momento. Não posso desperdiçar toda a minha vida trabalhando.

Com certeza, isso é influência de Sue. Devo até tê-la ouvido usar exatamente a frase "A vida não é ficar provando roupas", seguida por "Só temos uma vida para viver". Meu pai costumava ser um workaholic*, especialmente depois do divórcio. Desde que Sue o convenceu a fazer análise, ele se tornou um sujeito mais como-você-se-sente-com-isso e ouça-me-recitar-clichês.

*Pessoa viciada em trabalho.

Ouço a voz de Sue no fundo.

- Charlie, é Isabella? Posso falar com ela?

- Sue quer dar um alô. Te amo. Tchau. – ele passa o telefone.

É muito cedo para falar com Sue. Não é que eu não goste dela. Eu gosto. Só temos umas pequenas picuinhas. Sue é uma fanática; é viciada em talk shows. Especificamente o da Oprah. E em vez de trabalhar como uma mulher moderna no século XXI, o fato de ela se denominar uma agente de viagens em meio expediente é um eufemismo para "ela planeja suas próprias férias". Quando não passa seu tempo viajando, ela está assistindo e idolatrando a Oprah.

Em seus discursos, verbos como compartilhar e descobrir são constantemente combinados com substantivos como alma e ser.

- Oi, Isabella. Como está o seu espírito?

- Meu espírito está bem, obrigada. E o seu?

- Maravilha, maravilha. Que fantástico. Como vai a terapia?

- Ótima.

Sue convenceu meu pai a me dar 75 dólares por semana para fazer sessões de terapia. Convenceu-se de que os filhos jamais superam o divórcio e de que minha súbita mudança para Boston pode ter me feito perder as estribeiras. Até agora, o dinheiro foi bastante terapêutico. Comprei novos óculos de sol e minhas botas de piranha, e estou economizando para poder botar um CD player no meu carro.

- Então, o que você aprendeu sobre si mesma esta semana?

- Não muito. – é cedo demais para falar baboseiras psicanalíticas. – O que você tem feito?

- Oh, o de sempre. Caminhadas reforçadas. Escrito no meu diário de agradecimentos.

Recuso-me a perguntar-lhe o que é um diário de agradecimentos.

- E acabei de ler um livro sensacional na semana passada. – diz ela. – Tenho certeza de que você irá adorá-lo.

- Qual é?

- Oh, hum... hum... É sobre uma garota muito pobre que é vítima de incesto. Puxa, não me lembro do nome, mas a história me é familiar.

Não entendo bem qual é a relação entre a protagonista daquele romance não identificado e a minha madrasta cheia de frescuras e mimos. No entanto, jamais chegamos a um nível de intimidade que me permitisse lhe dizer isso.

- Diga-me o nome do livro quando você se lembrar que eu vou dar um jeito de comprá-lo, ok? Agora tenho que ir.

- Ok, tchau. Lembre-se do seu espírito.

- É claro. – desligo o telefone e pego no sono novamente.

Quando acordo à 1:30, tenho meu primeiro pensamento coerente. É 1 D.S (Depois da Separação), e já acendi a chama de um relacionamento com o meu futuro marido.

Devo ter um encontro. Logo. Uau!

Com James Gradinger. O problema é que, assim que nos casarmos, terei que parar de chamá-lo pelo nome completo. Soaria como uma personagem num romance de Jane Austen: "Bom dia, Sr. Gradinger. Por favor, passe-me o jornal, Sr. Gradinger."

Por que ele ainda não ligou? Admito que estou sendo um pouco doida. De acordo com a Swingers, ele tem que esperar pelo menos três dias. Ou são cinco? Como irei esperar cinco dias? Tenho que ligar para Angela.

Ligo para o seu trabalho. Quão patético é isso? É sábado à tarde e eu nem tento ligar para o seu apartamento.

- Angela falando.

- Oi!

- Alô. – diz ela. Ouço-a remexendo alguns papéis. – E aí? Como foi?

- Maravilhoso. Já me esqueci completamente de Jacob.

- É claro que sim. – será que posso detectar uma ponta de sarcasmo?

- E como. Encontrei o meu futuro marido.

- Isso é bom. Será que poderei ser a dama de honra?

- Não. Pode ser uma das madrinhas. Iris me fez jurar que ela seria a dama de honra. Mas você pode organizar a despedida de solteira.

- Parece justo. Mas você ainda terá que ser a minha dama de honra. Se é que eu vou ter tempo para sair com alguém, algum dia. – a contragosto, Angela tem praticado a abstinência desde que começou nesse emprego.

- É claro que serei sua dama de honra! Até já escrevi o meu discurso para a ocasião. – digo a ela. Bem, ainda não terminei. Mas às vezes acontecem umas coisas realmente engraçadas, e se não as escrevo imediatamente, jamais me lembrarei de tudo que devia ter dito e então... ótimo. Sou uma idiota.

- Estou certa de que já o fez. E, então, quem é o futuro Sr. Swan?

Faço uma pausa para dar um suspense.

- James Gradinger.

- O quê?

- Você me ouviu.

- Meu Deus! Onde você o viu? Tem certeza de que não foi um sonho?

- Sim, tenho certeza. – não foi um sonho. Estou totalmente certa de que não foi um sonho. Será que foi um sonho? Olho em volta do meu quarto para ver se há alguma evidência da ida ao Orgasmo. Minha blusa preta está no chão, no lugar exato onde a joguei na noite passada. Eu a pego. Ela cheira a fumaça e a Sex on the Beach. Ufa.

- Como foi que isso aconteceu? – pergunta ela.

- Ele me viu no bar. – não entro em detalhes sobre como tudo aconteceu. – Conversamos. Ele pediu o meu telefone.

- Isso é demais! Ele ainda está um gato?

- É claro. Talvez não seja mais o gato, mas ainda é um tesão.

- Ele já ligou?

- Ainda não.

- Oh. - Oh? O que ela quer dizer com "oh"?

- Ele não poderia, Angie. Que sujeito liga na manhã seguinte? Provavelmente o fará amanhã à noite. Às 8:30. Depois dos Simpsons.

- Não se quiser sair hoje à noite.

- Ele não vai me chamar para sair hoje à noite.

- Por que não?

- Porque aí ele pareceria estar desesperado. Acredite em mim, Angie, não é assim que a banda toca. – querida e doce Angela. Querida, doce e ingênua Angela.

- Como você pode saber como a banda toca? Só faz um dia que você passou para o time das mulheres que saem à cata de encontros.

Espera aí, eu consigo lembrar de como era a V.A.J. (Vida antes de Jake). Eu tinha uma vida, sabe?

- Ele irá me ligar no domingo e me pedir para sair na terça, para que possa me ver na terça e me chamar para sair no sábado que vem. Entende?

- Sim. Aonde você acha que ele vai te levar?

- Na terça ou no sábado?

Angela não respondeu. Posso dizer que tudo isso está ficando um pouco complicado demais para ela. Esse negócio de ficar mais de um ano sem sair com ninguém deve estar derretendo o seu cérebro.

- Victoria Burns vai morrer. – afirmou.

- Eu sei! Isso não é maravilhoso?

- Será que ela vai saber? A não ser que leia o anúncio do casamento no The Times, é claro.

- Estava pensando em tirar uma foto do nosso encontro e postá-la na Internet da Stapley.

- Não é um mau plano. A-hã. Tenho um reunião, preciso ir.

- Uma reunião? Quem mais está no escritório no sábado?

- Quem não está no escritório?

- Coitada. Tem certeza de que não gostaria de ter um trabalho normal?

- Estou longe de ter certeza. Conversamos mais tarde.

- Tchau.

O que devo fazer agora? Provavelmente me levantar. Já são quase duas da tarde.

- Alô? – ligo da minha cama. – Alguém em casa?

- Oi! – grita Alice. – Estou lavando o banheiro.

Tenho certeza de que ela lava o banheiro diariamente. Já a vi se enfiando no toalete com um desinfetante depois que uma visita o usou. Ela é igualmente psicótica com a geladeira. Minha amiga tem um certo fetiche com prazos de validade. Ela joga fora o seu leite exatamente três dias depois que a caixa foi aberta. Não importa o que diz o prazo de validade. Por algum motivo, não consigo convencê-la de que o prazo se refere à data em que você compra determinado produto, não de que deve jogá-lo fora. "Você não vai comer isso, vai?", perguntou-me ela ontem, olhando com nojo para o meu pacote de peru fatiado de seis dias. Hum... eu ia. Mas se eu fizesse as coisas do jeito de Allie, tudo que tenho estaria na lata de lixo ou no fundo da privada.

Jogo meu edredom para o lado e deslizo meus pés pelo chão. O chão frio. Onde estão meus chinelos? Será que eu tenho chinelos? Não, não tenho chinelos. Por que não tenho chinelos? Onde estão minhas meias?

Coloco uma bermuda. Nem mesmo Alice quer ver minhas calcinhas de avó. Entro no seu quarto.

- Bom dia.

- Boa tarde. – responde ela, que está usando uma espécie de geringonça para esfregar os ladrilhos. – Chegou muito tarde?

- Sim. Diverti-me muito.

- Que bom. Estou quase acabando. Pode pegar meu material emprestado caso queira lavar o seu banheiro.

Não tenho certeza, mas acho que isso é uma sugestão. Oh, bem, de qualquer maneira não tenho muito o que fazer hoje. E meu banheiro está um nojo. A última vez que fiz uma faxina nele foi... deixe-me pensar. Será que alguma vez eu fiz uma limpeza por lá?

- Obrigada, vou ver se faço isso depois do café da manhã. Quer dizer, do almoço.

Preparo um sanduíche. Um sanduíche meio improvisado, pois agora não tenho mais peru dando sopa; tudo que me resta é alface. Ok, vou limpar o banheiro logo depois do almoço e de uma hora de TV.

O que está passando? Clique, clique. Uma reprise de Cheers! Aquela Diane. Tão letrada. Sempre alimentei uma esperança de que ela e o Frasier fossem ficar juntos. Lilith/Helen não o mereciam. Assim que cheguei em Boston, minha primeira saída foi até o bar de Cheers. Que decepção. Ninguém gritou "Bella!" quando eu entrei. Ok. Eram três horas. Estavam fazendo faxina. Mas está passando Blind Date. Adoro essa série. Talvez fique vendo até entrar o primeiro comercial...

Já são cinco horas e ainda não me mexi. Minha bunda está dormente. Eu deveria me levantar. Alice deixou os produtos de limpeza no chão do meu banheiro. Por que ele ainda não ligou?

Seis e meia. Estou com fome. Macarrão com queijo? Não tenho mais leite. Detesto quando ele fica com gosto de manteiga. Peço uma pizza. Com aplicação extra de pepperoni. O que vou fazer hoje à noite? Rosalie mencionou o Ponto G. Devia ligar para ela... no próximo comercial.

Sete e quinze. Ainda estou com fome. Cadê minha pizza? O que aconteceu com o tempo máximo de trinta minutos de espera? Ligo para o número de Rosalie.

- Oi, Bella. – responde ela.

- O que você está fazendo?

- Nada demais. Estou apenas me vestindo.

- Aonde você vai?

- Jantar. Com o Er-irc.

- Quem é Eric?

- Er-irc. O cara com quem eu estava conversando na noite passada.

Espera um segundo. O cara que ela conheceu ontem já ligou?

- O cara que usava um Armani?

- Ele mesmo. Ligou hoje de manhã. Acho que deve ser um nobre, mas não tenho certeza.

Ignoro seu comentário posterior e me concentro no elemento mais surpreendente do seu discurso.

- Ele ligou hoje de manhã?

- Isso.

Hoje de manhã? Como assim?

- E te chamou para sair e você disse sim? Hoje à noite?

- Claro. Será que eu deveria ter dito não? Na verdade, ele me chamou noite passada e eu disse que ia ver, mas como me ligou às onze para confirmar, eu disse "Por que não?".

Por que não? O que eu vou fazer hoje à noite?

- Nós não tínhamos planos?

- Oh... tínhamos? Não achei que você fosse ligar.

- Mas é claro. – afirmei, sabendo muito bem que, se a situação fosse inversa, eu faria o mesmo.

Dica de revista de moda número um: não deixe que nenhum homem se interponha entre duas grandes amigas. E não deixe que nenhum homem se interponha entre duas amigas medíocres a não ser que ele seja muito gato. Quer dizer, encare a coisa dessa maneira; para início de conversa, por que você iria a um bar com uma amiga medíocre num sábado à noite? Para discutir política? Então, quando um cara como o meu James liga, você espera que a sua amiga seja compreensiva, mesmo que não goste quando ela faz isso com você. Não que alguém tão bacana como o meu James Gradinger fosse ligar tão cedo.

- Você não quer que eu cancele o meu compromisso, quer?

Claro que sim!

- Não, pode ir. Divirta-se.

- Você ainda pode ir ao Ponto G.

Quem vai ao Ponto G sozinha? Eu teria que ficar três horas esperando na fila. E depois teria que ficar falando sozinha no bar.

- Não, está tudo bem. De qualquer maneira, estou cansada. – alguém bate na porta. – A pizza chegou. Tenho que desligar.

- Jura que não está chateada?

Estou chateada.

- Não estou chateada.

- Que bom. Te amo, querida! Divirta-se!

Eu só iria comer metade da pizza e guardar o resto para o almoço de segunda-feira, mas agora que não tenho que vestir nada apertado hoje à noite, vou devorar tudo e me entupir de desgosto. Odeio a minha vida. Estou passando um sábado inteiro em frente à TV. Jacob não me ama. James Gradinger não me quer. O sujeito que ficou em cima da Rosalie ligou no dia seguinte.

Allie entra na sala de estar. Se ela me perguntar se eu já lavei o banheiro, vou pegar a pizza e esfregá-la no toalete.

- O que você tem? – pergunta.

- Nada.

- O que vai fazer hoje à noite?

- Nada.

- Não quer ver o filme novo do James Bond conosco?

- Não. – na verdade, eu quero ver o filme novo do James Bond com eles. – Bem, talvez.

- Vamos! Por que não? Você não se mexe há seis horas.

Alice é uma carga de energia inesgotável. Aprendam isso.

- Desde quando ir ao cinema é uma aeróbica? Será que vamos combater o crime ao lado do James Bond?

- Pelo menos você terá que sair do sofá para andar até o carro.

Isso é verdade. Embora, neste momento em especial, fazer tal movimento seja um esforço hercúleo.

- Ok, eu vou.

Em pé debaixo do chuveiro, tento ignorar os círculos de sujeira marrons e esverdeados que aparecem na minha banheira. Amanhã, definitivamente, farei uma limpeza.

Jasper chegou de carro às quinze para a nove. Ele abre a janela do seu Civic de duas portas novinho em folha e Alice lhe dá um beijo na boca. Se eles vão ficar aos carinhos a noite toda, eu ficarei sentada sozinha.

Sento no banco de trás em meio ao cinto de segurança que serve como barra de prisão, lembrando-me de uma conversa anterior ouvida através das paredes final como papel. "Não estávamos brigando – estávamos discutindo", disse-me Allie depois.

Alice: "Duas portas? Não temos dezesseis anos."

Jazz: "Um quatro portas? Quando anos você acha que eu tenho, trinta e cinco?"

Isso durou a noite inteira – duas portas ou quatro, quatro portas ou duas – a mesma coisa o tempo todo, deixando-me acordada (fui forçada a me sentar numa posição fixa, com o ouvido grudado na parede) até que fui à minha mesa e escrevi uma carta para a Honda, implorando para que a empresa passasse a fabricar um veículo de três portas a fim de que Alice e Jasper calassem a boca imediatamente.

Piso então numa velha embalagem amassada de hambúrguer que estava no piso do banco de trás. Ela cheira a vegetais podres. Será que Alice o deixa sair com algo assim?

- Devíamos levar o seu carro para um lava-jato. – afirma Allie, fungando. Ela pega a velha caixa do McDonald's com os dedos polegar e indicador, como se estivesse segurando uma fralda suja, e a dobra até obter um retângulo compacto.

- Sim, mamãe. – diz Marc antes de ligar o rádio. Nem ele aguenta ser tão incomodado. Pergunto-me se já ficou tentado a espalhar gordura do McDonald's para frituras no seu assento no toalete.

- Não seja rude. – retruca Alice.

Sinto-me como se fosse a filha dos dois no banco de trás.

- Já chegamos? – pergunto.

- Estamos quase lá. – responde Jazz.

Entramos no estacionamento do multiplex de vinte e quatro sala, que já está superlotado com pelo menos mil automóveis. Parece que não somos os únicos que tiveram a ideia de ir-ao-cinema-para-ver-as-estrelas. Será que nenhuma dessas pessoas têm uma vida de verdade? Paramos numa vaga apertada no final do estacionamento.

- Será que você não podia ter nos deixado lá na frente? – pergunta Alice.

- Desculpe. – diz Jasper. – Esqueci.

Teria sido bacana se ele tivesse nos deixado em frente à entrada. Alguma espécie de vagão para levar os clientes teria sido ainda melhor. Será que você não poderia ter construído um vagão para nós, Jasper?

De fato não é uma proposta empresarial ruim. Um vagão que percorresse o estacionamento de cabo a rabo, pegando e deixando passageiros como na Disney World. Mas as pessoas iriam querer subir e descer constantemente, o trem teria que parar a cada segundo, e demoraria mais para ganhar uma carona até o carro do que andar de fato.

- Rápido, garotas, já estamos atrasados. – apressa-nos Jazz. Ele se dirige especificamente a mim, pois sou eu que estou atrasando o passo. Ando muito devagar. É culpa minha que pessoas baixas tenham pernas curtas? Se bem que Alice quase voa, se comparada à mim.

Se ele tivesse nos deixado na porta da frente, como um cavalheiro, já teríamos ingressos agora.

O multiplex assoma a distância como o castelo da Cinderela. Animais de desenhos animados em 3D giram de forma impressionante por cima da entrada. A aventura do parque temático continua com morcegos gigantes pendurados de um jeito ameaçador no teto, que teriam aterrorizado uma versão mais jovem e menos madura de mim. Compramos ingressos e depois entramos na fila da pipoca. Alice e Jasper compram jujubas e duas Cocas light. P-por favor! Não comprar pipocas no cinema é como ir a um jogo de beisebol e não comprar cachorro-quente! Por que outro motivo se vai a um jogo de beisebol?

- Vamos pegar lugares. – diz Allie e os dois desaparecem de mãos dadas.

- Uma pipoca com manteiga e um suco de laranja pequeno, por favor. – peço ao adolescente de cabelo louro e descolorado e piercings na sobrancelha.

- A senhora gostaria de uma grande? Assim pode ganhar refis.

Senhora? Senhora?

- Não, obrigada. – os refrescos pequenos já são tamanho gigante.

- São só 35 centavos a mais.

- Bem... ok. – por apenas 35 centavos a mais, por que não?

- A senhora gostaria de aumentar a sua pipoca para uma grande? São apenas 65 centavos a mais.

- Não, obrigada.

- Dá para obter refis de graça, madame.

Não sei exatamente quando virei até aqui para encher tudo de novo, considerando que o filme irá começar daqui a cerca de trinta segundos. Mas gratuito é gratuito. Posso pegar o refil logo depois do filme e levar um lanche para casa.

O garoto com piercings me passa dois volumes gigantescos, um balde do tamanho de dois galões de suco de laranja e um saco de pipoca do tamanho de um bujão.

Oooh! Passas vermelhas! Adoro passas vermelhas!

- Você pode me dar uma dessas também?

- Aqui estão, senhora. Sai tudo a US$ 15,50. – quinze e cinquenta? Por que o meu lanche custa o dobro do preço do ingresso?

A-hã. Tenho que fazer xixi. Talvez se eu for agora, eu não consiga entrar no meio do filme. A esperança é a última que morre. Só que agora me sinto como uma criança usando uma roupa para andar na neve. Como posso carregar esse barril de pipoca, um pacote de passas vermelhas, um balde de suco e um canudo para um cubículo e sem derramar nada?

A primeira lição de vida que Jacob me ensinou foi a de que jamais deveria colocar o canudo dentro da bebida num cinema antes de me sentar, para não derramar. Parece uma estratégia bastante simples, tirando o fato de que você ficaria impressionado com a quantidade de vezes que eu saí do cinema com manchas alaranjadas no meu jeans antes de começar a namorá-lo. Coordenação, oi?

A última lição de vida que aprendi com ele foi a de jamais me envolver com um sacana egoísta que te apunhala pelas costas.

Posso manter as coisas sob controle.

A sala está escura e o anúncios de por-favor-desligue-o-seu-telefone-celular-pois-ele-irá-incomodar-as-pessoas-caso-toque começam a aparecer na tela.

Como diabos os encontrarei aqui dentro? Ando pelo corredor e observo atentamente. Sinto-me como se estivesse procurando Wally.

Não.

Não.

Não.

Acabo ficando na frente da tela em meio a gritos de "Ei, senta aí!", "Sai da frente!" e "Qual é o seu problema?". Deus me livre se eles perderem esses anúncios idiotas. Cadê Alice e Jasper? Provavelmente estão sentados nos fundos. Devo ter passado por eles.

Eles não estão lá atrás. Viro-me novamente e volto a ficar em frente à tela. Alice acena da primeira fila.

- Desculpe, esqueci meus óculos. – sussurra ela. – Espero que você não se importe.

Pergunto-me se é indelicado sentar sozinha no meio da sala como uma pessoa normal. E se um namorado em potencial estiver no recinto, me vir sentada sozinha, concluir que eu sou uma completa misantropa que tem que ir ao cinema sozinha num sábado à noite para tentar fisgar um homem, ou talvez não para pegar homem, mas simplesmente no intuito de sair de um apartamento infestado de gatos por algumas meras horas? E daí?

Sento-me ao seu lado na primeira fila. Inclino minha cabeça oitenta graus para trás e tento ficar à vontade. Isso não vai dar certo.

- Vou tentar encontrar um lugar no meio do cinema. – cochicho para Allie. Sou uma garota adulta. Posso ficar sozinha no meio da sala escura. Fico de olho num lugar vazio. Encontro um ao lado de uma loura, cerca de dez fileiras atrás e abro caminho para poder passar.

- Ei, senta aí!

- Sai da frente!

- Qual é o seu problema?

Escorrego e me sento numa cadeira, tentando abrir espaço para as minhas compras de tamanho industrial.

Jacob e eu sempre nos sentávamos no corredor. Correção: Jacob sempre se sentava no corredor. Ele gostava de ter espaço para esticar as pernas. Evidentemente, nunca me perguntou se eu queria me sentar no corredor. Eu sempre me sentava perto do sujeito esquisito que deixava o braço apoiado no encosto cair. Eu era sempre aquela que tinha que sentir os pelos do braço do sujeito roçarem na minha pele. Deixa eu fazer uma pergunta: se há apenas um encosto entre vocês dois, por que a outra pessoa sempre acha que é direito dela ocupá-lo?

Oh, bem. Pelo menos a garota do meu lado está me dando bastante espaço. Ela está abraçada ao seu namorado. Não dá para ver o seu rosto, mas ela é loura, radiante e estou tentando não odiá-la.

Tenho que fazer xixi. Devia mesmo ter ido antes de o filme começar.

Uau. Pierce Brosnan é um gato. Rosalie diz que ele é bonito demais, bem-apessoado demais. O que isso quer dizer exatamente, bem-apessoado demais? Ela diz que jamais poderia sair com um cara mais bonito do que ela. Fala que detesta ir a um restaurante e ver todo mundo olhando para o cara em vez de olhar para ela. Eu devia ter tais problemas.

Olha aquele cara. Talvez eu devesse sugerir que fizéssemos livros de espiões no trabalho.

Eu realmente tenho que ir ao banheiro.

Tento cruzar e descruzar minhas pernas. Não sei por que, mas tomo mais um gole do meu suco de laranja.

Talvez eu consiga convencer o pessoal do marketing no trabalho a colocar Pierce na capa do nosso novo livro de espionagem. E, claro, não serei convidada para a foto, mas Pierce irá odiar a loura falsa escolhida para posar ao seu lado. Eu, evidentemente, irei passar sem querer pela sala e ele perguntara "Que tal ela?" com sua voz rouca e britânica. "Ela?" dirá Jessica Stanley (embora ela seja apenas uma editora-assistente, não uma editora-chefe, por isso não há também a menor chance dela estar lá). "Mas ela é apenas uma revisora!" Toda a cena se desenrolará com um timing perfeito e eu direi: "Eu?" Ele acenará entusiasticamente com a cabeça e fará um gesto com suas mãos fortes e maravilhosas para que eu pose ao seu lado. Enquanto o ventilador estiver soprando o meu cabelo, ele irá virar para mim e dizer: "Quer ser minha próxima Bond girl?" Irei fazer o papel de uma especialista em DNA que circula pelo hospital com um top branco e calças stretch prateadas.

Oh, Deus. É uma cena de cachoeira. Isso não vai dar certo.

Tenho que ir ao banheiro. Agora.

- Com licença, com licença, com licença...

- Ei, senta aí!

- Sai da frente!

- Qual é o seu problema?

Corro rapidamente para o toalete feminino e entro numa cabine vazia. Coloco papel higiênico para cobrir o assento da privada. Não sou Alice, mas não sou louca.

E, então, enquanto estou pensando na vida... esguicho.

O que há de errado com esses banheiros automáticos? Por que eles dão descarga enquanto eu ainda os estou usando? Como posso ser uma Bond girl se não sei nem operar um toalete?

Volto para a sala de projeção ("Ei, senta aí!", "Sai da frente!", Qual é o seu maldito problema?") e, apesar da tentação, não pergunto à loura o que eu perdi. Afinal de contas, ela pode estar pensando que quero virar sua amiga, o que provavelmente não seria tão mal já que possivelmente ela pode sair com o cara que quiser e deve ter ótimo refugos. Esqueça isso; não quero que ela pense que não tenho amigos e que sou irritante – ou, valha-me Deus, desesperada.

Quando os créditos começam a rolar na tela, dou um pulo da cadeira para sair rápido e entrar logo na fila do refil. Admito que mal cheguei a devorar um quarto do saco. Mas paguei por um refil e, droga, eu o terei.

- Bella?

Vira para a cadeira ao meu lado e vejo o braço claro e musculoso de Edward Cullen em volta da loura.

Nunca mais vou me sentar sozinha num cinema. A loura me olha da cabeça aos pés e provavelmente está pensando que uma pessoa que não tem amigos é assim.

- Ei! Edward. Sei que parece que estou aqui sozinha, mas não estou. Estou com amigos. Sério. Mas eles estão sentados na primeira fila e lá meu pescoço estava doendo... – ambos olham para mim, sem esboçar reação alguma.

Edward irá contar para Jacob que fui ver um filme sozinha no sábado à noite. Posso muito bem me jogar na frente do Civic de duas portas de Jasper.

- Como vai você? – pergunta ele. Sorrindo torto, vem na minha direção para pegar o corredor.

- Não, sério. Não estou sozinha. – não vou sair de lugar nenhum até que Jazz e Alice apareçam e provem que eu não estou aqui sozinha.

- Bella, essa é a Tânya. Tânya, Bella. – aperto sua mão perfeitamente tratada. Ela tem cara de Tânya.

Quem é esta Tânya? E por que ele não mencionou que tinha uma namorada? Não que eu tivesse lhe dado muita oportunidade para falar de si mesmo no Orgasmo.

Alice e Jasper já estão perto das portas. Droga. Eles saíram pelo outro lado.

- Foi bom ver vocês. Tenho que ir. – digo, optando por não prolongar aquela desgraça. Saio correndo da sala de projeção.

Pelo menos não tem fila no balcão da pipoca. Não tem fila porque ele está fechado. Que roubo! Isso foi uma exploração. Sou a pior Bond girl de todos os tempos.

- Vou pegar o carro, meninas. – afirma Jasper.

- Oh, você é tão doce, Jazz.

- Jazz não, Gato. Gatão.

Deixa para lá. Não quero ser uma Bond girl, de jeito nenhum. Detesto calças stretch prateadas.

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Nenhum recado. Não que eu estivesse esperando, mas nunca se sabe. Ele não iria me ligar num sábado à noite. Se o fizesse, isso significaria que acha que estou em casa, o que o leva a pensar que não tenho nada melhor para fazer do que ficar em casa esperando a sua ligação. E por que afinal ele estaria em casa num sábado à noite?

Graças a Deus ele não ligou. Não saio com perdedores.

Tomo banho. O mofo verde em volta do ralo está começando a me assustar. Eu realmente tenho que lavar o banheiro. Onde estão os produtos de limpeza? Por que Allie tinha que levá-los embora? Amanhã com certeza o farei. Vou até botar o relógio para despertar. Às nove. Ok, nove e meia... Dez.

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Trrrrrrim... São 9:57. Secretamente, 9:48. Ainda tenho mais três minutos. Não vou responder. Desliga, pai. Tiro o fone do gancho e desligo o alarme.

Droga. São 12:40. Tenho que limpar o banheiro. Mas espera aí, tenho um recado na secretária eletrônica. Não foi papai que ligou; o identificador de chamadas disse que foi de um anônimo. Que idiota sem consideração liga às 9:57 num domingo de manhã?

- Bella, aqui é James Gradinger. Meu número é 555-2854. Ligue-me quando você puder. Ligue-me quando você puder.


Ugh, James "esquisito" Gradinger ligou.

Obrigada pelas reviews e nos vemos na próxima sexta! ;*

Nota da Nanny: To postando o cap pra Maah pq ela tá sem net essa semana e, pra quem acompanha "Vida - Curto Espaço de Tempo", ela disse que semana que vem tem post sem falta :D

Gente, eu tava xereteando (eu sei que é feio!) o Story Traffic das duas fanfics e me assustei com o número de visitantes e Hits! Ela nunca gostou de me falar os números, mais eu fiquei curiosa pq tanta gente lê e nem perde tempo em comentar. Poxa, agora eu acho que entendo as autoras de só postam quando tem um X de review ou pedem como doidas... o negócio é meio deprimente. Xô parar por aqui pq eu sei que serei uma mulher morta assim que ela ler essa nota (Maah, não fica brava! Eu só disse a verdade, mesmo vc insistindo que a quantidade de review não é importante, eu sei que vc adora ler cada vez que uma leitora nova aparece). Boto a boca no trombone mesmo! =D

Não fiquem chateadas cmg, só comentei algo que acho que deveria receber mais atenção, ok? Bjins e fuiiz! A Nanny ake acompanha as fics e lê cada review fofa e fica rindo feito boba junto com a maah, entom bota o dedin aí embaixo e deixa a gente feliz . Já que a maah não exige, eu faço kkkk *o* TápareiMaah!