Temporada de Caça: Aberta - Sarah Mlynowski
Capítulo Cinco
Passe os dedos pelo seu maldito cabelo
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Uau! Ele ligou. Uau! Uau! Uau!
Graças a Deus eu não atendi enquanto estava dormindo. Poderia ter dito alguma grosseria. Poderia ter dito como ele era tesudo. Por que ele ligou tão cedo? Ele deve realmente gostar de mim. Quero dizer, realmente gostar de mim. Pensou em mim assim que acordou. Supondo que ele acorde por volta das 9:30, o que é bastante provável considerando que esta é uma hora em que as pessoas normalmente acordam. Ou talvez ele tenha acordado às oito, pensou em mim, decidiu sair para dar uma corrida a fim de descarregar a energia concentrada nos quadris, e quando não aguentou mais, me ligou.
Oh, meu Deus. E se ele quiser sair hoje à noite? E se quiser sair de dia? E se, assim que eu lhe ligar de volta, ele me perguntar se pode passar para me pegar para almoçar e, assim que entrar aqui em casa tiver que usar o banheiro? Tenho que limpá-lo agora e, só depois que terminar, poderei ligar de volta.
Entro no banheiro. Fios do meu cabelo estão entrelaçados numa toalha estendida no piso de ladrilhos.
- Allie! – grito, quase às lágrimas. – Socorro! Não sei como fazer isso!
Em cinco segundos Alice aparece, totalmente equipada com detergente, luvas amarelas e uma escova que devia estar de prontidão no banheiro, mas não estou cem por cento certa disso.
- Por que não tenho uma dessas? – pergunto.
- Elas não vêm com o toalete, minha amiga porquinha, são vendidas separadamente. Como pilhas.
- Entendi. Obrigada, obrigada, obrigada.
- Não estou lavando-o para você. Só estou mostrando o que você deve fazer.
- Oh.
Meia hora depois eu me dou por satisfeita.
Agora posso ligar de volta para ele. Talvez esteja planejando um piquenique à tarde com champanhe, morangos e sanduíches de atum. Mas primeiro tenho que ficar apresentável. Neste instante, meus frisos no cabelo estão apontados para todos os lados, fazendo os ângulos mais obtusos. Tomo uma ducha, seco o meu cabelo, passo um pouco de batom e coloco o meu roupão. Não quero me vestir sem saber aonde vamos.
Ouço seu recado novamente: "Bella, aqui é James Gradinger. Meu número é 555-2854. Ligue-me assim que puder. Ligue-me assim que puder."
Não sei por que ele disse essa última frase duas vezes. Seu recado me lembra aqueles que a avó de Angela costumava deixar quando ela e eu estávamos juntas em Penn: "Angie, aqui é a sua buba. Sua buba ligou. Liga para a buba. Liga para a buba."
Anoto o número e ligo.
- Oi. – atende sua voz sexy. Oh, meu Deus. Estou falando com James Gradinger.
- Oi, James?
- "Aqui é James Gradinger. Agora não posso atender. Por favor, deixe o seu nome e número do telefone que eu ligo assim que for possível. Então, deixe seu nome e número do telefone que eu ligo assim que for possível. Tenha um bom dia." – mais uma vez as frases duplas. Isso devia me dizer alguma coisa, mas será que estou com prenúncios na cabeça? Não, estão mais para preliminares. A essa altura, tudo no que consigo pensar é, oh meu Deus, estou falando com a secretária eletrônica de James Gradinger!
Há 48 horas eu jamais teria acreditado que fosse lhe deixar um recado. Se algum sensitivo tivesse lido a palma da minha mão e me dissesse que, em alguns dias, eu teria o telefone da casa de James Gradinger – algo muito mais íntimo do que o número do celular – eu jamais iria acreditar.
Bipe. Tenho que deixar uma mensagem. Bipe. Minha mente está vazia. Não tenho a menor ideia do que dizer. Ai, meu Deus. Olho para o aparelho e desligo.
A culpa é minha. Eu devia estar preparada. Cadê a minha caneta vermelha? Ok, vamos simplificar.
Oi, James. Aqui é a Isabella.
Formal demais.
Oi, Jimmy, aqui é a Bella.
Íntimo demais. Nós nunca nos falamos ao telefone. E se ele achar que eu sou uma doida? Quinze minutos se passam e eu ainda estou me empenhando.
- Seu banheiro está um brinco! Estou impressionada! – grita Alice, interrompendo minha concentração. – Bella, cadê você?
- No meu quarto.
- O que você está fazendo? – ela entra com cautela, como se esperasse que algo vivo pulasse da minha cesta de roupa suja entupida e a atacasse.
- Tentando escrever alguma coisa. – descrevo a situação para ela.
- Ok. Que tal isso: Oi, James, aqui é Bella retornando a sua ligação. Ligue-me assim que puder.
- Oh, isso é brilhante. O que vem depois de "ligação" mesmo? Diga lentamente para que eu possa anotar.
- Você é difícil. – Alice suspira e olha para o céu.
- Deixa para lá. Eu me lembro.
- Não se esqueça de bloquear o seu número.
- Por quê?
- E se ele tiver identificador de chamadas? Você já desligou sem deixar recado uma vez. Será engraçado se o aparelho dele disser duas vezes o seu nome com apenas uma mensagem.
- Queeeeee inteligente! Você seria uma solteira notável.
- Obrigada, mas não precisa agradecer.
Pré-disco o código para bloquear o meu número e depois ligo novamente para James. Alice segura a minha outra mão para me dar apoio moral.
Tentando fazer com que minha voz soe o mais natural possível, leio a mensagem que redigi e coloco cuidadosamente o fone no gancho. Agora, tudo o que tenho a fazer é esperar. Hum, hum, hum. Como vou esperar o dia inteiro? Como ele vai poder me pegar para o nosso piquenique e ver o meu banheiro limpo se não me ligar de volta?
- O que devo fazer o dia inteiro, Allie? O que você vai fazer o dia inteiro?
- Corrigir alguns trabalhos de casa.
- Você dá trabalho de casa para alunos da quarta série? Isso é maldade, Alice.
- Tenho que passar alguma coisa.
- Quer ir ao shopping? – essa é nova: eu convidando Alice para fazer compras!
- Não posso. – ela está doente, certo? – Estou falida.
- É, eu também. E qual é o problema disso?
- Acho esse negócio de ficar olhando vitrines deprimente.
Oh. Tudo bem. Vou ficar vendo TV. James irá ligar de volta a qualquer momento.
Seis horas. Nada de James.
Sete horas. Estou certa de que ele resolveu sair à tarde.
Oito horas. Ele acabou de chegar em casa. Está ligando a TV e se preparando para ver um novo episódio do Simpsons.
É a última cena. A qualquer minuto ele ligará.
Acabou. O telefone pode tocar a qualquer instante. A qualquer segundo. Vamos, telefone, não seja tímido!
Já são onze horas e não estou mais esperando. Detesto James Gradinger; com certeza ele se encontrou com outra pessoa hoje à noite, se apaixonou e esqueceu de mim. Ninguém jamais irá me amar novamente. Meus dias serão de trabalho, minhas noites serão de TV, e irei passar as noites de sábado, de agora em diante, nos cinemas – sozinha. E então eu vou para a cama – sozinha.
No dia seguinte, no trabalho, tento revisar um original, mas toda vez que chego ao fim de um parágrafo, ligo para ver se alguém deixou recado. "Nenhuma nova mensagem", diz aquela puta eletrônica.
Chego em casa sentindo-me patética. Mas o que é isso? Do vão da porta da frente dá para ver a luz vermelha piscando. Nem chego a tirar os meus sapatos – Não posso perder tempo algum! – muito embora saiba que Alice irá me matar. Por favor, que não seja Renée, por favor, que não seja Renée, por favor, que não seja.
- Oi, Bella, aqui é James Gradinger outra vez. Ligue-me de volta. O número do meu trabalho é 555-9478. O número do meu trabalho é 555-9478.
Desta vez não vou esperar, nem limpar o banheiro e muito menos escrever mensagens com tinta vermelha. Não me importa que minha cama não esteja arrumada, vou ligar de volta para ele agora.
- Clínica Dartmouth. – atende uma voz de mulher.
- Oi, será que posso falar com o Dr. Gradinger, por favor?
- Quem devo anunciar?
- Bella. – ainda não enlouqueci com esse negócio de repetir tudo na secretária eletrônica. Metade do sentido da mensagem gravada é permitir que você possa ouvi-la novamente se precisar.
- Que Bella? – tudo bem que essa mulher obviamente queira um pedaço do meu James. Talvez ela até já tenha tido. Talvez tenha sido com ela que ele estava na noite passada. – Alô? – pergunta ela com um quê de impaciência.
- Swan. Bella Swan. Ele sabe quem eu sou, ele me ligou. Estou ligando de volta.
- Um segundo, por favor.
Fico na espera. Que tipo de encontro ele irá propor? Dá para dizer muita coisa sobre uma pessoa a partir do tipo de encontro que ela sugere. Chamar para jantar significa que James não tem medo de ir direto aos finalmente.
- Bella? – pergunta ele com sua voz sexy e tesuda*.
*Por tudo o que é mais sagrado, eu não suporto mais digitar essa palavra referente ao James!
Café significa que se trata de um covarde.
- James! Oi.
- Que ótimo ouvir você.
Por outro lado, pode significar que ele é sensível.
- Que ótimo ouvir você.
- Eu disse que ia te ligar. - ele ri.
- Eu sei. – drinques seriam melhores. Tão moderno!
- Como foi o resto do fim de semana? – pergunta o gato.
- Bom, obrigada. E o seu?
- Ótimo.
Ótimo? Por que ótimo? O que fez exatamente com que fosse ótimo?
- O que você vai fazer na quinta-feira à noite?
- Nada, por quê? – por quê? Não consigo acreditar que lhe perguntei por quê. Às vezes, a estupidez que sai da minha boca chega a me surpreender.
- Espero que você possa ver O Apartamento comigo.
Isso eu não estava esperando. Ingressos para O Apartamento custam um zilhão de dólares e ainda por cima estão totalmente esgotados.
- Eu adoraria.
- Perfeito. O espetáculo começa às oito. Te pego por volta de seis e meia e vamos comer em algum lugar, ok?
- Parece ótimo.
- Ligo para você na quarta-feira.
- Ok.
- Ótimo, tenha uma boa semana.
- Você também.
Fico olhando para o fone morto na minha mão e o coloco delicadamente no gancho. Tiro os meus sapatos e deixo-os perto da porta para que Alice não descubra que os usei dentro de casa.
Uau! Estou absolutamente certa de que me levar para uma peça significa mais compromisso do que drinques.
Oh, meu Deus, estou praticamente comprometida!
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- Acho que a história está incompleta. – diz Angela. – Ele comprou os ingressos antes de perguntar se você queria ir?
- Ele está tentando causar uma boa primeira impressão.
- Ou talvez estivesse pensando em levar outra pessoa...
- Ou talvez quisesse me impressionar. – insisto.
- Então ele simplesmente concluiu que você queria acompanha-lo? E se você não pudesse ir? Será que ele iria chamar outra? Os ingressos custam duzentos dólares!
- Ele é médico. O que são duzentos dólares para um médico?
- Ele é um podólogo, não é um médico de verdade. Ele trabalha com pés! De qualquer maneira, você não acha que ele espera algo em troca dos seus duzentos dólares?
- Ele não acha que eu sou uma prostituta, Angie.
- Sei lá. Eu ficaria desconfiada.
- Obrigada pelo estímulo. Agora vou ligar para alguém que não seja estraga-prazeres.
- Tá bom. Tchau.
Bato o fone. Três dias para o amor de verdade! O que vou vestir? Será que devia usar um modelito Sandra-Bullock-garota-ao-lado ou Sharon-Stone-não-estou-usando-nada-por-baixo?
São só três dias D.S e já tenho um encontro. Será que as regras para namoros mudaram desde que brinquei disso pela última vez?
Será que menciono o Prozac* logo de cara?
*Fluoxetina (mais conhecido como Prozac) é um antidepressivo inibidor da captação da serotonina. Indicado para depressão moderada a grave, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e bulimia nervosa.
Estou brincando. Não estou tomando Prozac – ainda.
Será que o convido para tomar um café e ver o Letterman? Letterman e sexo? Café, Letterman e sexo?
Será que devo dar o primeiro passo ou dou uma de difícil? E o que dizer da dica de revista de moda número dois: as mulheres devem fazer com que o primeiro encontro seja impessoal e vago, para que o homem anseie por saber mais, mais e mais sobre a mulher misteriosa que está sentada do outro lado da mesa?
Estou sentindo uma certa tensão aqui, o auge dos anos de regras de treinamento contraditórias sobre primeiros encontros. Tento me lembrar da minha primeira saída com Jacob. Tentar lembrar? Ora, isso é um bom sinal.
No nosso primeiro programa juntos, ele me levou para o Motley Hotel, para o restaurante, quer dizer, não para o quarto propriamente dito. Ele pediu uma garrafa de vinho, depois de me perguntar que tipo eu preferia. Respondi branco, pois os tintos mancham o dente e você acaba com uma cara de quem não vai ao dentista há anos, como se estivesse com uma séria necessidade de branquear a arcada (admito que fico um pouco enlouquecida quando o assunto são os dentes. Usei aparelho durante três anos e meio no ginásio, e tenho certeza de que ninguém usou um por tanto tempo. Quando ele finalmente foi retirado, todo o maldito consultório dos ortodontistas deu vivas e eu jurei que, jamais, iria maltratar as minhas gracinhas cor de pérola – o que significa que, até hoje, não fumo, não bebo vinho tinto, não como curry e nem molho ao sugo. E ainda uso meu aparelho uma vez por semana aos domingos, e continuarei a fazê-lo até o dia em que me casar, que é o dia que o meu orto me propôs, não um prazo auto imposto).
Jacob me viu comendo uma bruschetta com os olhos. Adoro bruschettas e, sem piscar o olho, ele pediu uma para mim. Quando a conta chegou e eu fiz aquela falsa tentativa – você sabe, aquele gesto de oh-veja-a-conta-chegou-acho-que-vou-pegar-minha-bolsa-e-tirar-o-dinheiro – ele puxou o seu Amex e disse: "Não, o prazer é meu". Eu, evidentemente, dei um suspiro silencioso de alívio, pois, se tivesse pagado metade daquele jantar, teria que ficar comendo macarrão instantâneo durante, pelo menos, um mês. Por isso sorri e falei "tudo bem, mas a próxima quem paga sou eu", o que foi algo absolutamente brilhante para se dizer, já que implicava um segundo encontro.
Um segundo encontro no McDonald's, se eu fosse pagar a conta.
E, juro, não transei com ele depois daquele jantar caro. Disse muito obrigada, que tinha me divertido bastante e depois o beijei no rosto. E depois deu-se um fato decisivo – minha secretária eletrônica quebrou. Ele me disse que havia ligado e deixado um recado, o qual não recebi – mas não lhe contei. Ele deve ter pensado que eu era muito ocupada, muito indiferente e não estava ligando, quando na verdade estava dando voz ao meu velho e patético ser que diz vamos-analisar-a-relação-em-detalhes-excruciantes.
"Será que ele me achou uma porca porque fiquei comendo a bruschetta com os olhos?"
"Uma muquirana por causa da falsa tentativa?"
"Será que enxergou alguma falsidade por trás do meu comentário a-próxima-sou-eu?"
Quando me ocorreu que ninguém me ligava há três dias, nem mesmo Renée, percebi que a minha secretária eletrônica tinha que estar quebrada. Por isso, investi imediatamente numa daquelas máquinas virtuais e modernas.
Meu problema seguinte era que eu não tinha a menor ideia se ele havia ligado ou não. Imaginei que, como o nosso encontro havia sido num sábado, e já era quinta-feira, havia chance de que, se ele estivesse interessado, teria ligado e tentado deixar um recado. Decidi correr o risco e liguei. Ele disse que estava se perguntando o que havia acontecido comigo. Havia deixado não uma, mas duas mensagens. Subitamente inspirada, disse a ele que lamentava muito não ter ligado de volta, mas andava realmente ocupada (o fato de ele não me conhecer bem ajudou-o a engolir minha mentira contada com a voz tremida). Ele disse que não tinha problema e perguntou se eu tinha gostado da ideia.
Disse que achava ótima, sem ter ideia do que era. Era um filme. Na sexta-feira.
Uma hora antes eu havia prometido para Angela que iria a uma festa com ela na sexta à noite, depois de ficar adiando a minha decisão durante a semana inteira, no caso de Jacob ligar de fato. "Eu já tenho planos para a sexta-feira". Droga, droga, droga. (Não estrague os planos com a sua melhor amiga por causa de um cara, versão para a dica de revista de moda número um).
- No sábado, então? Você está livre no sábado?
- Sair no sábado me parece uma boa ideia. – respondi, percebendo que havia agido de acordo com a dica da revista sem querer, e graças a Deus ela funcionou! Haviam me dito que ele era um jogador, mas obviamente minha nova atitude adquirida (embora adquirida totalmente por acidente) estava deixando-o de joelhos.
Se eu simplesmente tivesse ficado indiferente e não tivesse ligado, todo o episódio "Jacob" da minha vida teria sido evitado. Ou eu poderia pelo menos fingir indiferença para que ele ficasse aos meus pés. Mas máquinas virtuais dentro do seu telefone nunca quebram.
No meu primeiro encontro com Jacob usei calças pretas básicas e um suéter marrom apertado. Essa minha saída com James pede algo radical. Minha saia que vai até os joelhos é a única roupa de estilo Sharon Stone que possuo, e Jacob já me viu usando-a. Quer dizer, James já me viu com ela. James. De qualquer maneira, botas de piranha seriam um tanto inadequadas para se ir a uma peça.
Tenho que consultar a Cosmo.
Tenho que ir às compras.
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Na terça chega a minha fatura do Visa.
Oh. Oh.
No fim das contas, não terei nenhuma roupa nova para esse primeiro encontro.
Já sei. Vou usar minhas calças pretas e meu suéter marrom, a mesma roupa que usei no meu primeiro programa com Jacob.
Na quarta, eu percebo que não posso usar aquela roupa; iria trazer azar para o encontro antes mesmo de ele acontecer. Ok, façamos um acordo. Vou comprar metade da roupa. Vou atrás de um suéter novo para usar com a calça preta. Ela é boa para usar com botas, não é muito larga nas barras e custa o mesmo que eu precisei para consertar os meus dentes.
Na quinta-feira saio mais cedo do trabalho para me arrumar. Meu suéter vermelho novo parece... hum... exatamente igual ao meu velho, só que mais novo. A calça preta está esticada em cima da minha cama como se fosse roupa de boneca de papel. Hora de me enfeitar.
Meu telefone toca na mesma hora em que estou passando rímel nos cílios.
- Oi! – é Rosalie. – E então? O que você está usando?
- Minha calça preta e um pulôver vermelho novo.
- Oh.
- O que você quer dizer com "oh"? – o que é "oh"?
- Bem, é que... deixa para lá. É muito tarde.
- O quê? O quê!
- Bem, ele provavelmente estará usando um terno. A peça é no Wang Center de Artes Cênicas, certo? Meus velhos foram lá na semana passada e meu pai usou um smoking.
Um smoking?
- Não estou usando um vestido de baile! – o tom histérico da minha voz aumenta.
- Não precisa ser um vestido de baile, mas tem que ser um vestido. Você não tem uma daquelas saias pretas que são perfeitas para qualquer ocasião?
Silêncio.
- Você quer pegar uma das minhas emprestada?
Rosalie tem cerca de nove daqueles vestidos perfeitos-para-qualquer-ocasião. Nove daqueles vestidos-perfeitos-para-qualquer-ocasião que jamais ficariam bem em mim; as curvas dela são perfeitas, as minhas não. Estou prestes a chorar. As lágrimas estão a um passo de rolar; vou ficar toda borrada e meu rímel irá descer pelo rosto como tinta derramada.
- Tenho que ir. – murmuro e desligo. – O que eu vou fazer? O que vou fazer? Droga! Droga! DROGA! – grito.
Subitamente, Alice, minha fada madrinha, entra no quarto.
- O que houve? Ele cancelou tudo?
- Não, ele não cancelou. – soluço.
- O que aconteceu, então?
- Não posso usar isso. Preciso de uma saia preta perfeita-para-qualquer-ocasião. Mas não tenho uma. – respiro cuidadosamente, como se estivesse em trabalho de parto.
- Você quer pegar algo emprestado comigo? – apesar de ser mais magra que eu, as roupas dela ficariam melhores que as de Rose.
Uau! Eu vou ao encontro! Não sei por que pegar algo emprestado com Allie não havia me ocorrido antes. Talvez porque antes eu nunca tinha lugar nenhum para ir.
Aceno positivamente, sufocada demais para falar.
- Tenho duas ideias. Quanto tempo temos?
Olho para o relógio.
- Dezenove minutos.
- Ok. Vá colocar uma meia-calça e sapatos de salto alto pretos.
Concordo sem pestanejar. Seis trajes depois, eu estou parecida com a Gwyneth Paltrow, vestindo um tubinho cinza e o xale de seda negro de Alice.
- Deixe-me ajeitar o seu cabelo. – diz ela, enquanto o joga por cima da minha cabeça, formando uma espécie de trançado para trás e para cima que me faz parecer muito adulta.
Vinte e quatro anos de idade e só agora me sinto adulta. Legal.
Toca o porteiro eletrônico.
- Alô?
- Oi, é o James.
- Oi, James. Vou abrir para você.
- Espera! – diz Alice, correndo atrás de mim com o hair spray. Ela o borrifou por toda a minha cabeça e um tanto foi parar no meu rosto.
- Pelo menos os meus cílios vão ficar no lugar agora.
- Cadê a sua bolsa?
Penso naquela grande e volumosa, mas sei instintivamente que a Calvin Klein aqui não irá aprovar.
- Olha, tenho uma aqui que vai servir. – ela enfia a mão numa gaveta e puxa uma bolsinha preta enfeitada com pérolas. – Tom essa. Ponha dentro um batom, um par de meias reserva... e uma muda de roupa íntima e uma escova de dentes para se prevenir. – a última parte vem sussurrada.
- Você está maluca? – cochicho de volta. – Uma escova de dentes nunca vai caber aqui dentro!
Ouço uma batida na porta.
- Quem é? – pergunto e depois me sinto idiota. Abro a porta antes que ele possa responder. O gato está usando um terno cinza-escuro à la James Bond, uma camisa branca e uma gravata cinza. Fico muito, mas muito feliz por ter mudado de roupa.
Temos ótimos lugares. Até agora, as meias que escolhi para o meu encontro não desfiaram seriamente. Só de leve. Elas estão na faixa do perfeito e do quase perfeito.
Ele abre a porta do carro para mim – um BMW azul-marinho. Humm. Um cheiro delicioso de couro de boa qualidade. Isso é bom.
- Tudo bem se eu colocar um Dave Matthews? – pergunta ele enquanto escolhe uma música no CD player.
Tanto faz.
- Eu adoro Dave. – respondo.
- Eu também. Você é uma fã de verdade ou aquela fã do tipo eu-gosto-de-"Crash"?
Não conheço nenhuma das outras músicas de Dave pelo nome.
- Sou uma fã estilo Crash.
- Oh. – isso não é bom.
- Caso eu não tenha mencionado antes, você está linda hoje. – diz ele depois que abrimos a porta do carro quando chegamos ao teatro. Isso é duplamente bom.
Bem em frente à entrada, uma mulher na casa dos sessenta anos se aproxima. Ela segura uma cesta grande de vime cheia de rosas vermelhas.
- Não, obrigado. – diz James, mal olhando para ela.
Isso não é bom. Ok, tudo bem, sei que esse negócio de rosas é um pouco cafona demais, mas, pelo menos uma vez, gostaria que um cara ficasse tão fascinado por mim que tivesse, instintivamente, ao ver a moça das flores, que comprar uma. Duplamente mau, pois James olha através da senhora, como se ela não estivesse lá.
Dentro do teatro, fico mudando de posição no meu lugar, para que aquele pequeno pneuzinho na barriga que surge quando estou sentada não apareça. O vestido de Alice está um pouco apertado em volta do estômago. Graças a Deus que existem meias modeladoras.
James está sentado com a perna direita cruzada sobre a esquerda, suas mãos estão cruzadas no seu colo.
- Mal posso esperar para assistir a essa peça. – comento. – Ela recebeu muitas críticas positivas por ter dado voz à população sem-teto.
- Ela é maravilhosa. – devolve James.
- Oh? Você já a viu?
- Duas vezes. E ouço o CD o tempo todo.
Ele pega na minha mão. Sua mão é fria. Ele olha nos meus olhos.
- Você sabia que é meu botão de descongelar? – canta James com sua voz grave e tesuda.
- Hã? – não sei exatamente o que ele está cantando, mas poderia estar cantando até em japonês. Sua performance de "Summer Nights" no ginásio me vem à cabeça, como se estivesse voltando do passado. Como poderia ter esquecido o quanto a sua voz me impressionava?
- Você não vai passar seus dedos pelo meu cabelo?
Com licença?
- Desculpe?
- Esses versos são das músicas da peça.
- Oh.
- Está começando. – ele não larga a minha mão. Acho que estou amando.
E realmente estou amando...
Até a canção do degelo.
Quando os atores começam a cantar "Degelo", James começa a cantar com seus lábios fechados. Até que sua melodia subitamente explode numa canção. Alta. Bem alta. Ele começa a cantar, aos berros, no Wang Center de Artes Cênicas. O cara levanta a minha mão, a qual nunca larga, e finge que é um microfone:
- Seus seios derretem as minhas mãos. – tudo bem, um verso dá para aguentar, contanto que ele pare de vez. Agora.
Ele se cala por um segundo. Obrigada, Deus.
Até que retoma o tema com mais ímpeto. E num dueto.
Sua voz masculina:
- Por que você não usa suas calças de couro?
Sua voz feminina:
- Eu preferia fazer a dança do colo.
Oh, Deus. A mulher de cabelos grisalhos na fila da frente se vira e lhe desfere um olhar raivoso e ele não nota. O homem com smoking no outro lado olha para James como se houvessem aparecido verrugas no seu rosto. O casal atrás de nós começa a rir acanhado. As pessoas estão rindo, não da peça, não conosco... Estão rindo de nós!
Voz feminina:
- Você gosta quando eu fico perversa?
Voz masculina:
- Às vezes, é bom ser mau.
Mau. Muito mau.
- Que grande canção. – diz ele quando acaba. – E minha música favorita virá no segundo ato. Também sei a letra dela de cor.
Muito, muito mau.
Misericordiosamente, James permanece calado durante o resto do ato, exceto por alguns momentos em que ele irrompe em aplausos fora de hora. Corro para o toalete a fim de me esconder durante o intervalo.
As luzes vão se apagando, indicando que o segundo ato terá início. A peça recomeça e sou forçada a deixar o meu retiro. Assim que nos sentamos, ele pede a minha mão, desenhando um círculo na palma. E mais um outro. E outro. Ele a aperta e aumenta sua pegada. Tudo bem, ele é afetuoso. Dá para notar que sua mão me aperta um pouco demais, mas ele ainda é James Gradinger. Contanto que não cante mais em público, contanto que nunca mais cante em lugar algum novamente, poderemos ter uma vida longa e feliz juntos.
Retribuo o apertar de mãos. Srta. Bella Gradinger. Sra. James Gradinger.
De repente, nossas mãos que estavam tão mansamente posicionadas no encosto que nos separa, se largam; sinto círculos sendo traçados na minha coxa.
Espera aí. Calma, caubói! Seu polegar está se aproximando perigosamente da minha, hum, "feminilidade", como diriam os autores da Cupid.
Acho que não.
No palco, uma das personagens está morrendo. Uma canção está sendo tocada. Por que ele não canta junto? Cante, James, cante. Puxo sua mão inquieta de volta para perto do meu joelho. Ele começa a beijar meu ouvido.
A mulher de cabelos grisalhos soluça calmamente. Seus ombros se levantam.
- Você é tão sexy... – fala o sujeito, babando no meu ouvido.
Por favor!
- Veja a peça.
- Já via peça. – sussurra ele. – Prefiro ver você.
Então deveria ter me convidado para um jantar como um sujeito normal. Ele começa a beijar o meu pescoço e fico me contorcendo para me livrar do seu abraço. O mancebo coloca a mão novamente na minha coxa.
No palco, os atores cantam sobre o verdadeiro amor.
- O amor de verdade/ Cabe como uma luva de lycra. – acompanha James cantando.
Se James estivesse usando luvas de cimento, talvez ficasse com as mãos quietas. Amor verdadeiro? Que diabo é isso?
Continuamos a brincar de cabo-de-guerra durante o resto da peça. Quando eu afasto sua mão, ele ataca o meu pescoço. Quando movo a cabeça, ele volta para a minha coxa. Esse babaca merece um Oscar por Persistência, se não por Pior Encontro.
Depois da peça, ele abre a porta para mim e depois me dá o braço enquanto saímos do teatro, mais uma vez como se fosse um perfeito cavalheiro. Talvez eu não venha a acabar com o casamento.
- Você gostou da peça? – pergunta James.
- Bastante.
Descemos a escadaria, damos na calçada coberta de pedras arredondadas e ele coloca seu braço em volta da minha cintura.
- Os problemas que as pessoas enfrentam são incríveis... a falta de um lar, a pobreza, as drogas. Tudo isso é uma tragédia, sério. – Explica ele.
Um homem usando um jeans surrado e um blusão verde sujo bloqueia a nossa passagem.
- Vocês têm algum trocado? – pergunta o sujeito.
James o ignora.
Ele terá que investir uns bons três quilates para compensar esta noite. Eu, lenta e propositalmente, tiro uma nota de dez da bolsa e a coloco no pote do mendigo. Quero lhe dar apenas cinco, mas só tenho dez. Não dá para voce pedir troco a um sem-teto, e eu realmente quero fazer algo que acho importante.
- Que nobreza da sua parte. – comenta James maliciosamente.
Ficamos conversando superficialmente no carro.
- Ouvi dizer que reduziram os preços dos ingressos para O Apartamento em Nova York para que mais gente pudesse ver. – afirmei. Angela me contou isso.
- Por que o fariam?
Está tudo bem. Ele para em frente a minha casa e estaciona o carro.
- Vamos nos sentar aqui fora um minuto.
Agora sei tão bem quanto a próxima mulher que irá cair na sua rede que isso quer dizer "vamos vadiar". Ok, eu admito, sou volúvel. Até agora, ainda não decidi completamente se irei descartá-lo. Afinal de contas, ele é James Gradinger. Ele tem uma BMW, é gostoso, é mais velho e ainda tem a maior parte do seu cabelo. Por outro lado, ele é um verme que jamais compreenderá a ironia que há em gastar duzentos dólares para ver uma peça sobre pessoas que moram nas ruas.
Desta vez ele não abre a porta do carro para mim. Sentamo-nos num banco no lado de fora do meu prédio.
De repente, sinto uma umidade no meio das pernas. Infelizmente, não é o tipo de umidade eu-realmente-quero-transar. Trata-se de um banco molhado. Droga. Alice irá me matar se eu manchar seu tubinho cinza.
Quando tento me levantar, James joga seus lábios no meu rosto. Digo "joga" no sentido literal. James não me beija. Não vou degradar o verbo "beijar" usando-o para descrever essa afronta.
Seu lábio superior não está nem um pouco perto do meu, sua língua se enfia no meio de tudo o mais e não estou bem certa do que está acontecendo com seu lábio inferior. Eu o afasto.
- Tenho que ir. – suspiro. Vou ter que lhe devolver o anel de três quilates.
- Mas ainda é cedo!
Graças a Deus é quinta-feira e posso usar o trabalho como desculpa.
- Tenho uma reunião bem cedo amanhã. – decido não ser uma piranha; afinal de contas, ele ainda é James Gradinger. Ele deve ter uns amigos interessantes. – Obrigada pela peça.
- O prazer foi meu. Lamento que você tenha que acordar. Estava realmente me divertindo.
Tenho certeza de que estava.
- Boa noite. – digo, tirando as chaves da bolsa e abrindo a porta da frente.
A coisa esfriou, é aí que acaba. Gostaria de poder lhe dizer que ainda seríamos amigos. Mas ele não é nenhum Danny Zukoe.
Dá para encarar um pervertido. Falta de sensibilidade dá para administrar. Mas um cara que não sabe beijar? Acho que não. Pelo menos sei por que ele ainda está solteiro...
James... Descartado. Finalmente.
Vamos ver quem vai ser o próximo maluco a cair nas redes da Bella (:
Beijos e até sexta que vem e... Nanny, cale a boca, amore mio!
Nanny: Okay, anotado ¬¬'
