Temporada de Caça: Aberta - Sarah Mlynowski
Capítulo Seis
Vai mostrar a sua virilidade em outro lugar
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"Ela jamais havia sentido tamanha excitação. Enquanto ele apertava o seu peito forte e inebriado contra o dela, seus mamilos endureceram. A moça percebeu que não queria mais esperar. Estava pronta e molhada. Jogou sua calcinha branca para o lado e subiu em cima do parceiro. Com uma única e profunda estocada, ele a preencheu com sua virilidade."
É difícil me concentrar em onde devo colocar as vírgulas quando meu trabalho me lembra de onde outras coisas deviam ter sido colocadas. Apesar da semana que passei, a ideia de sexo me parece completamente vulgar. Primeiro foi o verme do James na quinta, depois o super verme na sexta. Um pouco de café vai me manter concentrada.
Manobro em meio ao labirinto de cubículos até chegar à cozinha suja e abrir o guarda-louças para pegar a minha... Minha caneca sumiu.
Tenho que checar no lava-louças, uma cartada desesperada de último minuto, pois sei que a minha caneca não está lá; minha técnica de lavagem de louça se resume, ocasionalmente, a enxaguá-la dentro da pia.
Onde é que está a máquina de lava-louça?
A-há!
Não. Não. Não! Minha caneca não está lá.
Por que alguém iria pegá-la? Na verdade, a caneca pertence a Alice, que ainda não notou o seu desaparecimento e, por isso, teoricamente, ela é minha. Traz estampado o desenho de um urso polar bem fofo. É minha, minha, minha, e um ladrão no escritório a roubou. Talvez, assim que a encontrar, eu devesse adicionar um laxante. Dessa maneira, descobriria quem poderia cometer um ato tão vil, pela quantidade de idas que uma determinada pessoa fizesse ao banheiro. Agora tenho que pegar a caneca de alguém. Realmente, mas realmente odeio quando isso acontece.
- Bom dia, Bella. – diz Julie, a outra revisora da Amor Verdadeiro. Embora seja bastante séria, ela é uma das únicas revisoras que eu não odeio; é uma das tietes de Jessica.
- Bom dia, Julie. Como vai você?
- Bem, e você?
- Bem, bem.
- Bella, queria falar sobre uma coisa com você. – seus braços estão cruzados em frente ao peito, inchando seu blazer preto.
E então fico esperando. "Você coloca letra maiúscula depois de dois-pontos?". Ou ainda melhor (já que isso irá requerer a minha opinião profissional e com isso reforçar a noção de que eu tenho uma): "Você prefere um travessão ou um hífen?". No entanto, ela me fala outra coisa:
- Será que eu poderia te apresentar ao meu irmão?
- Hã? O seu irmão?
- Sim, acho que você é o tipo dele.
Não sei exatamente como ela chegou a essa decisão, já que nem mesmo eu sei qual é o meu tipo. Mas ela acena positivamente e por isso pergunto:
- Qual é o meu tipo, exatamente?
- Baixa estatura, cabelo ondulado, bonitinha, extrovertida, inteligente. – e pensar que eu sempre tive tanta dificuldade para definir a mim mesma em questionários de revistas femininas.
- Como posso saber se ele é o meu tipo?
Será que isso significa que o meu tipo é baixo e tem cabelo enrolado? Ou é magro e esquelético como a Julie? – supondo, é claro, que seu irmão seja parecido com ela. A esta altura fico extremamente esperançosa; se minha colega é capaz de definir o meu tipo, isso com certeza permitirá que eu poupe bastante tempo no futuro, evitando que saia com rapazes que não têm nada a ver.
- Você não acha que o meu irmão Mike seria o seu tipo? – pergunta ela, ofendida. – Ele é um ótimo sujeito.
Dica de revista de moda número três: fique longe de homens que são descritos como ótimos. "Ele é um ótimo sujeito" é o equivalente masculino de "Ela tem muita personalidade".
Tanto quanto estava considerando antes (virtualmente nada, devido ao fato de nunca ter sabido que Julie tinha um irmão – na verdade, sempre me surpreendo quando uma pessoa que conheço há algum tempo demonstra subitamente que possui uma vida, e esta reação provavelmente brota do fato de eu passar muito tempo da minha revisando algum texto), as chances de que eu venha a sair com o irmão baixo, de cabelo encaracolado, magricela e cheio de personalidade de Julie encolheu-se quase à inexistência.
- Na verdade – digo a Julie. – comecei a sair com alguém.
Mentirosa, mentirosa...
É hora da minha segunda xícara. A hora do cafezinho me lembra a pausa para descanso, só que não há sujeitos bonitos no trabalho para fingir que os ignoro. Não há nenhum gato de verdade no trabalho. Dos duzentos funcionários da Cupid, cento e setenta e sete são mulheres. Trinta e cinco dessas mulheres estão grávidas. Aulas semanais do método Lamaze* são dadas no terceiro andar.
*O método, desenvolvido pelo obstetra francês Fernand Lamaze, tem como objetivo manter a mãe relaxada e focada na respiração.
Infelizmente, essa proporção patética de homens para mulheres resulta num baixo potencial para que se faça amizades com o sexo masculino. Desse modo, de que outra maneira eu posso fazer novos amigos para que eles me apresentem aos seu colegas? Não é como se eu pudesse saracotear para um sujeito num bar e perguntar: "Ei, quer ser meu amigo?". Edward poderia de fato ser um excelente amigo, mas não o vejo desde aquele fiasco no cinema. Achei que talvez ele pudesse estar no Orgasmo na sexta-feira, mas não, provavelmente devia estar brincando com a sua bonequinha loura.
Sexta-feira à noite...
Em vez de falar com Edward, tive que passar a noite inteira evitando Er-irc. Acabou que ele não faz parte de realeza nenhuma, é apenas um europeu com um monte de dinheiro. Rosalie não ficou impressionada. Insistiu que o ignorássemos, o que o deixou maluco e, por isso, ele ficou nos mandando várias doses de vodca, que Rose ficou recusando e eu bebendo. Bem, alguém tinha que fazê-lo. Obviamente, a indiferença de Rose deixou Er-irc doente de amor, mais uma vez provando a teoria da raposa, como se vê na dica de revista de moda número quatro: os homens a querem mais quando você não os quer. (Essa regra é diferente da número dois, na qual você deve ficar indiferente para poder laçar o seu homem; a número quatro a avisa da possibilidade de que a frieza exagerada de sua parte pode leva-la a ter caçadores em potencial à espreita).
Peguemos James, por exemplo. Só saímos uma vez, há seis dias, e ele já ligou sete vezes. Desligou o telefone quatro vezes e deixou três mensagens na minha secretária.
Sábado: "Oi, amor (amor? Será que não estamos sendo íntimos demais aqui?). É o James. Ligue para mim. Ligue para mim".
Domingo: "Oi, querida (querida? Quantos anos eu tenho, mais de quarenta?). Sou eu. Só estou ligando para saber como foi o seu fim de semana. Ligue de volta. Ligue de volta".
Terça: "Oi, sexy (ser chamada de sexy é bom, mas por ele? Ahn...). Quer ver um filme neste fim de semana? Ligue-me assim que puder. Ligue-me assim que puder".
Sei que deveria ser uma garota superior e ligar de volta para lhe dizer que não estou interessada, mas o problema é que terei que ouvi-lo... duas vezes. No entanto, se o ignorar o suficiente, ele acabará desistindo.
Graças a Deus que existe o identificador de chamadas.
Bem, pelo menos ele não estava no Orgasmo. Depois de seis rodadas de cortesia enviadas por Er-irc, poderia ter deixado escapar, no meu estado de espírito nebuloso, que o achava um verme. Ou teria ido para a casa com ele. Estou falando de James. Não de Er-irc. Embora, no estado em que estou, quem sabe?
Avistei um gato de cabelo louro e descolorado, definitivamente um namorado em potencial, ou pelo menos um tipo que dá para encarar tranquilamente. Ele estava usando óculos escuros nova-iorquinos com aros e um daqueles pulôveres para esquiar que trazem uma faixa bege atravessando o peito – que ainda são sexy apesar de parecerem ter sido fabricados em 1996. Estava sentado num banco do bar com dois outros sujeitos e resolvi experimentar poderes telepáticos olhe-para-cá-imediatamente, na chance remota de que pudesse funcionar.
Como eu disse, era uma possibilidade remota.
Mais ou menos às duas, Rose e eu decidimos desistir da noite e voltamos para casa. Seu Bora estava mais uma vez na minha garagem, já que moro tão perto. Conversamos em voz alta enquanto seguíamos pela calçada na direção do meu apartamento. Depois que já estávamos andando há cerca de três minutos, notei um sujeito vestido de jaqueta e calça jeans à espreita, mais ou menos um quarteirão atrás de nós.
- ... sei que Er-irc é bonito – dizia Rose. –, mas eu mal conseguia entender uma palavra do que ele dizia. Talvez, se pudesse me tornar uma princesa, ou pelo menos uma herdeira de alguma coisa, mas...
Um quarteirão depois, o sujeito ainda estava no nosso encalço.
- Rose – sussurrei. –, tem um cara nos seguindo e isso está me deixando assustada. Quando chegarmos à esquina, vamos atravessar para o outro lado da rua.
- Será que é o James?
- Não, ele fica mais atrás de mim por telefone, não fisicamente. Não sei quem é aquele sujeito.
Pude ver que seu rosto estava ficando pálido mesmo sob aquela base muito bem passada. Atravessamos.
- Ok, agora vamos fingir que estamos amarrando os sapatos.
- Não temos cadarço. – sussurrou ela. É verdade, pensei, olhando para os meus saltos. Por que eu não estava usando sapatos com cadarços? Por que, por quê?
Estávamos preocupadas com os saltos das nossas botas.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez.
Imaginava que quando chegássemos ao dez ele já teria sumido. Mas não, estava atravessando a rua.
- Merda. – cochichou Rose. Ela seguiu para o prédio mais próximo. – Vamos fingir que moramos aqui. – disse da boca para fora. – Não consigo correr usando isso aqui.
Andamos o mais rápido que nossas botas permitiam, com o som dos saltos batendo na calçada. Quando alcançamos o pavimento branco, Rosalie abriu a porta de vidro e entrou. Peguei no fone do porteiro eletrônico, lutando para decidir que número deveria discar.
- Disque alguma coisa! – sibilou Rosalie. Disquei um-dois-três-quatro-cinco, na esperança de que alguém legal usasse a minha velha senha do Hotmail. – Ele vai se aproximar a qualquer instante. – queixou-se minha amiga.
- Por que não está atendendo? Por favor, atenda!
De repente, o caçador passou pela porta. Olhou para dentro e depois continuou a seguir pela rua.
- Isso foi uma maluquice... – disse Rosalie enquanto contemplava a escuridão vazia.
Vazia por um segundo, pois, subitamente, o super verme reapareceu na nossa frente, desta vez com seu jeans desbotado na altura dos joelhos, segurando o que suponho ser sua virilidade.
- Dá para acreditar? – gritou Rosalie.
Girei rapidamente a minha cabeça e peguei no fone novamente. Desta vez experimentei a senha da minha secretária eletrônica: cinco-quatro-três-dois-um. Eu sei, eu sei. Não primo pela originalidade.
Triiim, triiim.
- Não olhe! Não olhe! – sussurrou Rosalie freneticamente, mas pude ver seu reflexo na porta interna, e ele estava simplesmente... gozando.
Triiim, triiim.
- Não acredito que isso esteja acontecendo. – cochichei. – Temos que fazer alguma coisa.
De repente, ele acabou, levantou as calças e seguiu em frente.
- Alôôôô? – disse uma voz muito grogue, de quem parecia estar bastante aborrecido, da boa gente que vivia na minha secretária eletrônica. Desliguei.
- Hã... – murmurei, apontando para o presente que ele havia nos deixado na forma de uma massa branca e disforme na calçada.
- Acho que vou vomitar. – disse Rose.
Ficamos de olho até que vimos um casal aparentemente inofensivo passando e corremos histericamente pela rua para implorarmos que fossem até em casa conosco.
Rose dormiu no meu sofá, pois estava muito apavorada para dirigir sozinha.
- E se aquele verme se enfiar no meu carro e me atacar enquanto eu estiver dirigindo? E aí? – ela estava vendo muito filme.
Acordamos Jasper e Alice, forçando Jazz a olhar pela janela para se certificar de que ele não estava lá.
- Vocês duas não deviam ter vindo a pé sozinhas para cá. – criticou Jasper.
- Então a culpa é nossa? – perguntei. – O fato de o cara ser um tarado é culpa nossa?
Jasper encolheu os ombros.
- Só quis dizer que vocês deviam ter sido mais cautelosas. Vocês, pelo menos, deram uma boa olhada?
- Não seja nojento! Não queria ficar olhando para aquilo.
- Estou falando do rosto dele. – ele rolou os olhos. – Sabe, para identifica-lo.
- Oh, não mesmo.
- Talvez eu devesse sair com alguma espécie de arma. – disse Rosalie. – Como um bastão. Ou um revólver. Algo capaz de afugentar o sujeito.
- Você está achando que estamos no Texas? – comentei. – Não podemos sair por aí atirando nas pessoas.
- Vocês deviam ir lá fora e dizer que para o sujeito que queria se casar, que estão em busca de um compromisso sério. Isso sempre acaba afastando-os. – respondeu Allie, enquanto dava um sorriso sarcástico para seu namorado.
Todos a ignoramos.
- Vocês pelo menos se lembram o que ele estava usando? – perguntou Jasper.
- Sim, uma jaqueta e uma calça jeans. – disse Rosalie. – Dá para acreditar? Não se deve usar uma jaqueta e uma calça jeans combinando. Que gafe.
Aí foi a vez de todos a ignorarmos. Até que ela teve uma ideia decente – fazer um curso de defesa pessoal. Por isso, ontem, no trabalho, eu passei metade do dia na Internet pesquisando as nossas opções. Parece que a maior parte das turmas é formada por mulheres e todas têm como professores especialistas em artes marciais do sexo masculino. Poderia aprender todos os tipos de golpes bacanas, tipo como chutar um cara num lugar que doesse e arrancar seus olhos, sem ofender o mestre.
Pelo fato de ter passado grande parte do dia ontem surfando na net, rendi muito menos do que deveria no trabalho. É realmente difícil manter a concentração. Comecei a ver vírgulas durante o sono, como acontece quando você joga muito Tetris e começa a inserir mentalmente o seu lápis no espaço entre o quadro de avisos e a parede. Hoje vou passar o almoço trabalhando para compensar no original desta semana, Pelo Amor de um Caubói.
Dou uma mordida no meu sanduíche e continuo a ler.
"A sensação fez com que o moço gritasse. Ele baixou a cabeça e suas mãos escorregaram sobre os mamilos salientes da parceira. Nunca desejou uma mulher como desejava Julie. Ele então agarrou os quadris da moça, enquanto suas pernas longas e macias envolviam firmemente pela cintura e o traziam para dentro das profundezas da sua umidade quente. Ela era apertada e macia. A cada afago, suas estocadas ficavam mais duras, profundas, rápidas e a faziam gemer mais. Ele já não ligava para o que a sua família havia dito. Agora que tinha esta mulher, sabia que jamais poderia perdê-la".
- Oh, Ronan! – grito em meio a lábios pegajosos que haviam se colado parcialmente aos meus dentes com manteiga de amendoim, enquanto Julie afunda suas unhas nas costas macias do seu amante. Continuo a ler.
"Ele deixou uma das mãos nos seus seios macios e maleáveis e usou a outra para puxar a cabeça da moça em sua direção. Apertou seus lábios contra os dela e usou sua língua para penetrar na boca macia da beldade. A cada movimento, ele a enchia e a penetrava cada vez mais, unindo-os, fazendo com que se aproximassem aos poucos de uma verdadeira onda de prazer..."
O barulho do telefone tocando me interrompe. Epa, me esqueci de revisar. Mas que consegue prestar atenção em camisinhas (epa, outra vez, ato falho freudiano – quis dizer vírgulas) quando está ficando tão quente aqui dentro? Mais uma vez, Julie não está prestando atenção nas camisinhas. Por sorte, ela toma pílula.
- Isabella falando. – respondo.
- Querida, sou eu. – será que eu sou querida? O "eu" é James Gradinger. Como foi que ele conseguiu esse número?
- Oi, James. – digo no meu tom mais estou-muito-ocupada-por-isso-vou-ter-que-desligar. – Como vai você?
- Bem, bem. E você? Anda ocupada?
- Sim, bastante. Desculpe não ter ligado de volta. Você sabe, trabalho.
- Pois é, desde a grande caminhada da semana passada, ando cheio de emergências no meu consultório.
- Que grande caminhada?
- Umas mulheres se puseram em marcha à noite porque não se sentem seguras depois que escurece ou algo parecido. Uma dessas bobagens feministas.
É oficial. Eu o odeio.
- De fato, estou atrás de um bom curso de defesa pessoal.
- Você está falando de caratê?
- Não, de defesa pessoal.
- Basta chutar as bolas do sujeito que ele para de te perturbar.
Isso é algo que eu devia praticar com você, garotão.
- De qualquer maneira, estava me perguntando se você gostaria de ir ao cinema hoje à noite.
- Desculpe, James. Vou ficar presa aqui até tarde. Não tenho a menor ideia de quando vou sair.
- Não tem problema. Eu espero você. Não precisamos ir ao cinema. Podemos fazer outra coisa.
- Eu realmente não quero te fazer esperar. Hoje não é uma boa noite. – o que mais você tem em mente, cara?
- Ok. Então vamos fazer alguma coisa amanhã.
Esse cara é como uma infecção que não cicatriza!
- Não creio que seja uma boa ideia, James. Na verdade, ainda estou envolvida com alguém. – não acredito que acabei de usar o cara-de-bunda como desculpa. Pelo menos Jake ainda serve para alguma coisa.
- Você não falou de ninguém antes.
- Eu sei, desculpe. Estava envolvida com alguém antes de me mudar para cá e ainda não consegui esquecê-lo. – bem, essa é a parte verdadeira. Não estou mentindo. Não é algo que eu admitiria se tivesse gostado de James, mas deixa para lá. Soa muito melhor do que dizer "não é com você, é comigo".
- O que aconteceu?
- Ele devia ter se mudado para cá comigo, mas não deu certo.
- Ok, não tem problema. Eu entendo. Ligue para mim se mudar de ideia.
- Com certeza. – Com certeza que não. Sei que, provavelmente, estou partindo o seu coração, mas o que mais posso fazer? Dica de revista de moda número cinco: é melhor ser cruel desde o começo do que enganar as pessoas.
- Então, Bella, já que você não vai mais sair comigo, será que tem alguma amiga que possa me apresentar?
Cheguei a uma conclusão: todos os homens são babacas. Especialmente aqueles com quem eu saio.
Mas nem mesmo este babaca se compara a Jacob.
Jacob deveria ter se mudado para Boston comigo. Eu havia concluído um ano do mestrado e ele havia finalmente terminado o curso universitário. Não que seja estúpido ou coisa parecida. Ele parou de estudar durante um ano depois que terminou o ensino médio e depois fez quatro matérias em vez de cinco por semestre para poder se envolver com política estudantil. Esse garoto era tão egocêntrico, meu Deus!
Como quando costumava pegar marshmallows a mais da caixa para colocar na sua tigela. Ele nunca se ateve ao conceito de que mais marshmallows para ele significava menos para mim.
Ou quando me sentei ao seu lado no consultório do dentista durante três horas quando ele tinha uma cárie, pois sei o quanto ele detesta estar lá. ("Eles têm prazer com a minha dor", costumava dizer). Mas quando tinha medo de que a camisinha arrebentasse, fobia precursora do tratamento que fiz para tomar pílula, será que ele se ofereceu para ir ao ginecologista comigo? Nem pensar. Tive que arrastar Angie.
E agora que estamos falando sobre o egocentrismo opressivo de Jacob, permita-me descrever o fiasco de Boston, imagine só:
Seu namorado de longa data começa a fazer um mestrado de filosofia na Universidade de Boston. Ele te diz que a cidade tem milhões de oportunidades, ótimos empregos, pessoas maravilhosas e te pede para acompanha-lo. Você concorda com a mudança, não por causa das oportunidades ou dos empregos, mas pelas pessoas, isto é, ele.
Você desiste do seu próprio mestrado – estava ficando desiludida com o mundo acadêmico de qualquer maneira, você convence a si mesma. Concorda em ter o seu próprio apartamento, pois é capaz de perceber que ele ainda não está "pronto". Concorda apesar dos avisos da sua mãe de que não deveria seguir um garoto pelo país sem um anel no dedo. Você acha que sua mãe está sendo ridícula – afinal, você tem apenas 23 anos e é jovem demais para se casar. Por isso sai à cata de trabalhos na área editorial, pois havia sido revisora no jornal do colégio e sabe que não quer entrar numa academia, nem se tornar uma professora e nem está muito certa do que pode fazer com seu diploma em literatura inglesa.
A Cupid te oferece um emprego que vem com todos os benefícios e um curso intensivo de revisão que dura duas semanas. Você sabe que corrigir erros de gramática não é o tipo de coisa que quer fazer na sua vida, mas como a única coisa que acha que vale a pena fazer no momento é estar com Jake, acaba aceitando o emprego. Por isso liga para a sua antiga colega de ginásio, Rosalie, que a apresenta para Alice. Você assina um contrato de aluguel e o seu namorado ainda está procurando um lugar para morar. E procurando.
Até que um dia, enquanto está colocando seus livros em caixas de papelão da loja de bebidas, o assim chamado amor da sua vida toca a campainha. Que delicado, você pensa. Ele trouxe o jantar, macarrão tailandês e pastel chinês. Mas também trouxe uma passagem aérea. Uma passagem aérea. A passagem dele. Sua passagem para a Tailândia.
Ele diz que precisa se encontrar e adiou seu mestrado para o próximo semestre. Você se pergunta em que momento ele se perdeu, mas não se atreve a indagar-lhe. O sujeito percorre as suas costas com a mão e diz que você ficará bem sem ele, que serão apenas alguns meses. Você começa a chorar e pergunta como ele teve a coragem de fazer aquilo com você, no que o sujeito diz que aquilo não tem nada a ver com você. Esse é o ponto.
Até que uma coisa lhe vem à cabeça: você irá também. Já faz anos que não dá um tempo para si mesma e, com certeza, está merecendo férias. Você vai fazer um empréstimo. Aprenderá até a comer de palitinhos. Mas ele não te olha mais; só enxerga o que está além, uma reprodução do Beijo, de Francesco Hayex, pendurada na parede. A reprodução que ele te deu no seu aniversário. As cores rubras e cinzentas da pintura do período romântico que mostra um herói tipo Robin Hood, combinando com o seu edredom, de um tempo em que você achava que o fato de ele ter escolhido uma pintura tão romântica, que mostrava um herói beijando galantemente uma mulher, em vez de qualquer outro quadro que ele poderia ter comprado, significa alguma coisa.
"Isso é algo que tenho que fazer sozinho", diz ele. Você se encolhe. De repente, começa a chorar novamente e ele beija o seu rosto. As mãos do mancebo estão por baixo da sua camisa, e de algum modo você se vê na cama com ele, muito embora ache que possa vir a odiá-lo.
Até que percebe que o está ajudando a comprar mochilas, sacos de dormir e guias turísticos, enquanto tenta sorrir e lhe dar apoio, ao mesmo tempo que ele te beija por estar na fila da caixa registradora. E então, na noite que antecede a sua mudança, enquanto ele te ajuda a terminar de embalar as coisas e você está sentada em cima de uma mochila entupida de sapatos, seu parceiro diz: "Temos que falar sobre uma coisa". De repente, você quer que ele pare de falar, cale a boca e feche a matraca, mas ele insiste em dizer que quer que você veja outras pessoas durante a sua ausência.
Tradução: ele quer trepar com tailandesas.
"Estamos nos separando?", você pergunta, mas ele insiste que não, que apenas irá sair com outras pessoas, enquanto sua cabeça se pergunta o que seu amado fará se você disser não. Mas você não diz não, não fala mais nada.
Na manhã seguinte, você se despede e pede para ele mandar e-mails.
A parte mais irônica da minha vida no momento é a justaposição da minha vida amorosa com as vidas amorosas dos meus alter egos, minhas heroínas. Todas elas encontraram as suas almas gêmeas. Cadê o meu amor para a eternidade? Onde está o meu príncipe encantado? Onde foi parar o meu herói incrivelmente lindo, brilhante, forte e romântico?
Não é Jacob. Ele está muito ocupado trepando com a Tailândia. E, possivelmente, com a Holanda também.
Também não é James. Heróis têm que saber beijar bem.
Chega! Vamos voltar a Ronan e Julie.
Meu protetor de tela surge e três homens lindos com os peitos à mostra usando chapéus de caubóis sorriem de um jeito demoníaco. Amorosamente. Veja esses tórax nus e sem pelos! Por onde eles andaram durante toda a minha vida?
Preciso de um homem que seja forte. Um homem que tenha cheiro de suor*. Um homem que mataria alguém caso fosse necessário. Não que eu quisesse que ele fizesse isso, é claro, mas um homem que o faria se não houvesse outra opção seria um algo a mais.
*Eca.
É disso que preciso agora. Uma experiência com um herói duro que nem pedra. Com braços iguais aos do He-Man. Pernas de um pedaço de mau caminho. Um macho na verdadeira acepção da palavra. Chega dessa bobagem filosófica. E nada de sair com sujeitos cujos nomes comecem com a letra J.
Agora, onde posso encontrar esse macho jovem e saudável? Numa obra? Num rodeio? Na estação? O que foi que James mencionou? Caratê? De repente, vejo tudo de forma tão clara quanto água filtrada. Esqueça a defesa pessoal! Vou me matricular numa turma de artes marciais; pelo menos James terá sido bom para algo além de abastecer uma coluna de revista do estilo "Isso aconteceu comigo".
Procurei por "Boston" e "artes marciais" na Internet. Quatorze resultados. Caratê, judô, tae kwon do. Soa meio parecido com Tae Bo*, algo que já experimentei. Ok, não experimentei de fato; apenas comprei o vídeo. Tá bom, aluguei a fita. Tanto faz.
*Kickboxing com aeróbica que desenvolve a coordenação motora e a agilidade.
Dez deuses musculosos e morenos usando uniformes brancos e exuberantes brotam na minha tela, dando golpes perfeitos, enquanto um aviso luminoso dizendo Apenas US$ 500 aparece no console. Apenas US$ 500? Excelente! É claro, isso não inclui a roupa, o custo de cada faixa enquanto você segue adiante, a tarifa por nível para que possa alcançar essas faixas superiores, sem mencionar os tijolos que você acaba quebrando ou o café com leite que é necessário depois de cada lição.
Entretanto, terei como:
1. Conhecer homens muito quentes.
2. Aprender como me proteger para que homens vestido com roupas que são atentados à moda não possam me usar como objeto sexual nas esquinas da vida (a não ser que eu queira ser usada como objeto sexual numa determinada esquina).
3. Conseguir um corpo sensacional que será muito, mas muito melhor do que o corpo da vagabunda holandesa de Jacob – e se Jake um dia voltar, irei sacaneá-lo.
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Assim que sair do trabalho, vou me matricular na academia.
"Queremos você!" – a tela brilha. E eu acho que quero vocês. Todos vocês.
- Como foi o seu almoço? – pergunta Jessica com sua voz nasalada. Ela surge de trás da divisória do seu cubículo, interrompendo o movimento hipnótico da minha cabeça.
- Ah, foi bom. Obrigada.
Seus olhos caíram sobre a minha mesa, bem na direção da caneca que peguei emprestada.
- Então foi você que roubou a minha caneca hoje de manhã! Estava me perguntando quem tinha sido a criminosa. Não me importo que você a pegue emprestada, mas, da próxima vez, por favor, peça.
A caneca de Jessica? Que pentelha.
