Temporada de Caça: Aberta - Sarah Mlynowski


Capítulo Oito

Bola de Nojeira


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Tento não inalar o fedor de chulé que emana da esteira azul que está no chão. Olhando por cima do amontoado de sapatos perto da porta, começo a seguir na direção de um grupo de pessoas que está se alongando e usando uniformes brancos com cintos coloridos.

- Não se mova! – ressoa uma voz masculina profunda, congelando-me onde estou.

- Por que não? – olho para aquele homem viril, muito forte e sexy, com um jeito de índio, cujo bronzeado natural e avermelhado contrasta brilhantemente com seu uniforme branco de tae kwon do e sua faixa preta. Meus joelhos começam meio a fraquejar. Pode ser que precise que ele me carregue para o vestiário.

- Você não pode pisar no tatame com os sapatos. – diz aquele espécime perfeito.

Olha só para onde fui e o que fiz. Só estou aqui há dois minutos e meio e já fui insultada pelo deus do sexo.

- Desculpe.

Ele sorri. A-hã. Aquilo é um dente torto? Será que um dente torto dá caráter a um homem e aumenta o seu sex appeal?

Não mesmo. Sem dúvida, ele é mais sexy com a boca fechada.

- Sem problema. Só achei que devia lhe falar das regras por aqui. Meu nome é Sam.

Psst... não fale nada, gostosão.

- E eu sou Bella. Obrigada pela ajuda.

Estou tendo uma estranha sensação de déjà vu. Ele me parece familiar. Talvez seja de Connecticut. Não, ele tem muito sex appeal para ter vindo de lá. Quem sabe não é ator? Conheço esse rosto... esse peitoral...

- Bella?

- Sim?

- Você ainda está de sapato.

- Certo. – Penn. Não, ele parece ter, pelo menos, trinta anos. Orgasmo? Não, já disse, ele parece ter pelo menos trinta.

- Quando estiver pronta, vá até o escritório do Mestre. Ele está te esperando.

Mestre NanChu é um coreano de 1,80m que aparenta ter um sessenta e tantos anos. Ele curva a cabeça calva para mim quando eu entro e eu curvo a minha em resposta.

- Senta, senta. – diz ele.

Aquilo na parede é uma foto emoldurada do Mestre NanChu com Sylvester Stallone? Aquele é o Chris O'Donnell? Mestre NanChu percebe o meu olhar amoroso.

- Você gosta do Chris? Ele é um bom menino. Eu treino estrelas para que possam fazer filmes em Hollywood.

Aquele é o Tom Cruise? Aquele é o Tom Cruise! Ele conhece o Tom Cruise? Será que pode me apresentar ao Tom Cruise? Talvez o tenha treinado para fazer Missão: Impossível. Talvez, se eu for muito boa, quer dizer, muito, mas muito boa mesmo, o Mestre NanChu venha a me recomendar para um papel de dublê. Posso aprender rapidinho o golpe de caratê da assassina baixinha. Olha só como aprendi a pontuar rápido. Jessica sempre diz que as minhas vírgulas têm muito vigor.

- Então, por que você está interessada no tae kwon do?

Vamos voltar ao assunto principal.

- Gostaria de aprender uma arte marcial para poder me proteger.

- Bom. Muito bom.

- E entrar em forma, é claro.

- Bom. Muito bom.

E conhecer homens gostosos.

Falamos durante alguns minutos sobre Boston e ele me manda de volta para o tatame.

- Iremos falar de novo depois da aula. Se você gostar, irá se matricular, certo?

Um pouco agressivo, não acham? Mas vocês acham que eu vou discutir com alguém que conhece o Tom Cruise? Acho que não.

- É só deixar suas meias no vestiário.

Lá vou eu. Rumo a uma nova Bella. Agradeço a ele e sigo para o vestiário, fechando a porta dele que fica para trás. Lá vou eu tirar minhas meias. Tirar meias? Ele nunca disse nada no telefone sobre tirar as meias. Não posso tirá-las – não faço as unhas desde junho. Isso é catastrófico. Bato na porta do Mestre NanChu.

- Senhor?

- Sim?

- Posso ficar com as meias?

- É muito perigoso, você pode escorregar.

- Oh. Ok. Obrigada. – droga.

Passo os sessenta minutos seguintes tentando descobrir que diabos está acontecendo. Números e golpes coreanos são dados para todos os lados. Mas muito embora eu tenha certeza de que meu estômago irá explodir de tanto que eu corro (tomar aquele moca na Starbucks antes da aula não foi uma das minhas melhores ideias) e me sinta completamente incapaz de usar o braço correto ("Seu braço esquerdo, senhora, esquerdo! Não aquele braço esquerdo, seu outro braço esquerdo!"), estou muito ocupada amando a proporção de sexos aqui dentro para me importar.

Vinte homens gostosos e musculosos versus duas mulheres de 130 quilos. E eu. Uau! Não sei por que outras garotas solteiras e atraentes não tiveram esse plano antes, mas... quem se importa? Mais homens para mim. Este lugar está entupido de testosterona. Tentei convencer Rose a me acompanhar, já que a ideia de vir pra cá foi meio dela, mas ela disse que o seu personal trainner não permitiu que ela se exercitasse em nenhum outro lugar.

Sam puxa o exercício.

- Hanna, twul, zed, ned, dasso... posição de cavalo*, jekiah! – não entendo o que ele está dizendo, mas com certeza soa sexy.

*Joelhos flexionados como se você estivesse se sentando em uma cadeira invisível. É uma posição totalmente dolorosa para quem não tem preparo físico, digo por experiência própria u.ú

Devo estar fazendo algo ridículo, pois Sam não para de vir até onde eu estou para corrigir meu posicionamento, se é que você me entende. Que cabelo negro e espesso. Que pele macia e bronzeada. Que... o que é isso? É... é... Cecê! Eca.

Estou sendo injusta. Não posso querer que um cara que vá suar fique cheirando a loção pós-barba. Ele ainda é gato. Ou será, depois que tomar uma ducha. Mas agora eu preferiria que ele se afastasse um pouco... só mais um pouquinho... para o outro lado da sala. Ok, agora ele voltou a ser gostoso.

Hum. Dá para ver a cueca azul-marinho por baixo do uniforme branco do homem que está na minha frente. Aviso para mim mesma: preciso comprar lingerie branca.

Soco. Chute. Estalo. Torção. Estranhamente, todos aqueles homens crescidos conseguem se inclinar mais para baixo do que eu.

- Ok, observem Sam fazendo flexões. – diz o Mestre NanChu. Sam vai até o chão. Para cima, para baixo, para cima, para baixo. – Observem como a sua pélvis se inclina na direção do chão.

Ombros para cima. Ombros largos, másculos e bem modelados para cima. Pélvis para cima. Ombros largos, másculos e bem modelados para cima.

Oh, queria ser o chão... depois do banho dele.

Quando chego em casa às 12:30, estou com um baita chulé e $560 a menos na minha conta bancária. Quinhentos por um ano de aulas e sessenta por aquele uniforme branco e adorável que eu ainda estou usando porque é uma graça.

Alice está envolta no cobertor, vendo Beautiful Bride mais uma vez. Álbuns de fotos estão espalhados por todo o sofá.

- Você está com um cheiro... – diz ela.

- Obrigada, você também. Dormiu no meu sofá? Alguém ligou para mim?

- Não e não. Por quê? Quem devia ter ligado?

- Conheci um homem no bar. Ele disse que ia ligar.

- Só porque um cara diz que vai ligar não quer dizer que ele vai ligar. A City Girls diz que, quando um sujeito afirma que vai ligar, é porque essa é uma boa maneira de encerrar uma conversa. Quem é ele?

- Riley Biers. – desde quando Alice lê City Girls?

- Conheço ele. É bonito. Achava que tinha uma namorada.

- Acho que não. – já chega desse papo de namorada! Ele obviamente já superou isso; todo mundo consegue. Agacho-me ao seu lado e começo a virar as páginas bastante folheadas das minhas Cosmopolitans, Mademoiselles, Glamours, e City Girls que estão espalhadas pelo chão. – Você está decorando isso tudo?

- Elas estão cheias de informações úteis. Aprendi tudo sobre sexo tântrico. Se algum dia eu voltar a transar, acho que irei experimentar o pretzel.

- Como é que se faz um pretzel?

- A mulher por cima com as pernas em volta e debaixo do joelhos do cara, e os braços dele enlaçando frouxamente as suas costas.

- Parece dar trabalho. – fiz cara feia.

- Eles dão quatro halteres de cinco possíveis. Isso significa que é uma posição muito difícil. Também quero experimentar o Trampolim.

Não quero nem saber como se faz isso.

- Olha como estamos felizes. – lamenta-se ela, jogando o álbum florido no meu colo. No lado direito da página há três fotos do então casal feliz numa praia da Flórida e uma em que ela está sentada numa cama de hotel. Cada foto tem uma legenda: Alice no Hyatt, Jasper e Alice na areia, Jazz e Allie dentro d'água, etc. No lado esquerdo da página há uma colagem de passagens aéreas, canhotos de ingressos para museus, cardápios e passagens de ônibus. Ela é o tipo de pessoa que provavelmente guardou a embalagem da camisinha da sua primeira vez.

Jasper e Alice com certeza parecem felizes nas fotos. Numa delas, ela está deitada numa cama do hotel, envolta por um cobertor branco, sorrindo e segurando uma taça de vinho. De fato, em todas elas, Alice está sorrindo e segurando uma taça de vinho. Espere um pouco...

- Allie, aquele nas fotos é o seu cobertor?

- Sim. – ela desliza a mão pelo cobertor de lã branco sobre suas pernas.

- Você leva sua própria roupa de cama para hotéis? – será possível que ela é capaz de ser tão doida assim?

Ela se recusa a olhar para mim.

- Você sabe que tipo de doenças podem ser pegas em cobertores de hotéis? Há manchas de esperma, sangue seco...

- Você também leva seus travesseiros?

- Fronhas. Você não assiste o 20/20*?

*Programa jornalístico sensacionalista da TV norte-americana, na linha do 60 Minutes.

- Você precisa dar uma animada. Ninguém vai querer se casar com uma mulher tão maluca.

E então ela começa a chorar.

Eu estava apenas brincando. Algumas pessoas não têm senso de humor.

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Riley liga às três da tarde. Posso ouvir o telefone tocar, mas não consigo vê-lo em parte alguma. Deve estar em alguma parte do chão do meu quarto... Vejo suéteres, um lençol amarrotado, a sandália de ontem...

- Olá. – diz ele depois que eu finalmente encontro o telefone aninhado no meio dos dois porta-seios do meu sutiã sem alças.

- Oi. – ele ligou!

- Está tudo em cima para hoje à noite?

Ele sente a atração cósmica. A corrente vai direto das suas listras para a minha alma.

- Com certeza.

- Que ótimo. Onde devo encontrá-la?

Encontrar-me? "Onde devo pegar você?" é o que ele deveria ter dito. Que espécie de alma gêmea quer me encontrar em algum lugar?

- Não sei. Aonde você quer ir?

- Onde você mora? – ele retorna.

- Back Bay.

- Eu também. Por que não nos encontramos no Marlborough & Dartmouth?

- Marlborough & Dartmouth? – na esquina? Ele quer me encontrar na esquina? Será que eu sou uma prostituta? E se algum pervertido me empurrar para dentro do seu carro em movimento? E se o super verme da semana passada estiver me esperando por lá?

- Tudo bem?

Não. Não mesmo. Quem é que encontra a sua alma gêmea na esquina? E se ele não aparecer? E se eu ficar horas por lá esperando, olhando para o meu relógio a cada dois minutos? A fim de fazer o tempo passar, terei que ficar me distraindo com joguinhos particulares, como tentar me lembrar dos nomes de todos os caras com os quais eu quis dormir.

- Acho que sim. – acho que você não é a minha alma gêmea, seu imbecil sem consideração. – A que horas devo encontrá-lo?

- Que tal às 9:30?

- Ótimo. – se ele não estiver na esquina às 9:33, eu vou embora.

- Te vejo lá.

A não ser que eu decida não aparecer por causa dessas condições completamente lamentáveis para um encontro.

- Riley?

- Sim?

- Em que telefone posso encontrá-lo? No caso de haver algum imprevisto? – no caso de brotar algum auto respeito e eu resolver mandá-lo ao inferno em vez de ir para uma esquina qualquer.

Ele faz uma pausa. Alô? Qual é o seu problema? Estou sendo legal, tentando pegar o seu número no caso de resolver te dispensar para não deixa-lo esperando sozinho na esquina e contando carros a noite toda.

Depois de uma longa pausa, ele me diz.

- Te vejo mais tarde, então. – bato o telefone. Uma conversa de dois minutos e já estamos brigando.

- Era o Riley? – grita Alice da sala de estar.

- Sim. Veja, ele ligou! Vamos sair hoje à noite!

- A que horas?

- Às 9:30! Por quê? Você quer jantar conosco?

- Não, Deus me livre! Vou sair com Jasper! Mas a City Girls diz que você pode calcular o quanto um cara está te levando a sério pela hora em que ele marca o encontro! Se ele marcar para depois das nove, só quer tirar as suas roupas!

Isso não é bom. No entanto, recuso-me a me render ao pessimismo de Alice.

- Ao contrário de algumas pessoas, não estou em busca de casamento! E eu gosto de sujeitos que tiram a minha roupa!

- Não preciso me casar, só quero morar junto! Ele vem te pegar aqui às 9:30?

- Isso! – grito. Não há necessidade de dar-lhe todos os detalhes precisos.

De repente, começo a me sentir afligida pelo pânico. O que alguém usa num encontro com um artista?

- O que se usa num encontro com um artista? – grito através das paredes. – Allie? Alice!

- Não precisa gritar. – responde ela, antes de aparecer no vão da porta. – Não sou surda, você sabe disso.

- Você tem alguma blusa listrada? – pergunto.

- Listras? Por que listras?

- Ele gosta de listras. Já o vi duas vezes e em ambas as ocasiões ele usava roupas com listras.

- Mas e se Riley vier novamente com listras? Vocês vão ficar parecendo com Ênio e Beto.

- Usarei listras verticais.

- Vocês ficarão parecidos com um jogo da velha. – ela ri.

- Liso ou ondulado?

- O jogo da velha?

- Não, o meu cabelo! Sóbrio ou estilizado?

O visual sóbrio vence. Depois que tomo um banho, o ritual começa. Primeiro secar com a toalha. Depois pentear. Em seguida a frisagem. E, finalmente, pego o secador e a escova redonda tamanho família e vou girando em volta da minha cabeça, escovando dois centímetros de cabelo de cada vez. Ouço a voz de Alice atrás do zumbido.

- O quê? – grito. – O quê?

Nenhuma resposta. Odeio isso. É como quando alguém liga, você está prestes a começar o xixi, tem que levantar as calças novamente e sair correndo na direção do telefone, e a pessoa desliga na sua cara.

Trinta minutos depois meu cabelo está lindamente liso. Não que eu não goste dos cachos, mas era bom variar.

Entro na sala de estar como se fosse uma modelo num desfile. Alice está passando manteiga de amendoim numa barra de cereal.

- Tentei lhe dizer para não se importar com o cabelo. Está chovendo.

Droga.

- É hoje à noite. – diz ela, enquanto me passa a barra caprichada na manteiga de amendoim.

- Que noite? – acho que deixei meu guarda-chuva no escritório. Odeio quando faço isso. Por que eu sempre faço isso? O que há de errado comigo? Por que o meu guarda-chuva nunca está onde deveria estar?

- A noite do ultimato.

A-hã. Neste momento em especial, os problemas de Alice são potencial e obviamente mais graves que guarda-chuvas.

- Trata-se de um plano ruim.

- Não é não. Candice diz que você tem que falar as coisas como são. E são assim: Quero ficar com alguém com quem possa planejar o meu futuro. Se ele não pode ser esse sujeito, então terei que encontrar uma outra pessoa.

- Você está pronta para aceitar a resposta dele caso não diga o que você quer ouvir? E quem é Candice?

- A colunista da City Girls.

- Acho que você está cometendo um erro. – ah, qual é!

- Estou fazendo o que tem que ser feito. – ela passa mais manteiga de amendoim numa outra barra.

Oh, Deus. Criei um monstro.

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Às 9:30, Riley está sentado num banco na esquina. Está usando uma camisa cinza com uma listra horizontal verde. Seu closet deve se parecer com uma espécie de gráfico de linhas geométricas.

- Ei. – diz ele antes de me beijar no rosto, o que teria sido realmente legal se naquele segundo eu não tivesse notado que ele está usando jeans. Jeans! Quem usa jeans num primeiro encontro*? Ele podia muito bem ter aparecido com as mãos nas calças, se coçando. Será que ele estava usando jeans no Orgasmo? Estava muito distraída pelas suas listras para notar.

*Esse padrão maluco dela é um pouco exigente demais. Para que social numa maldita esquina?

Pelo menos parou de chover.

- Oi. – digo. – E então, onde vamos?

- Não sei. Onde você quer ir?

Será que eu vou ter que brincar de o-que-você-quer-fazer-não-o-que-você-quer-fazer, que nem costumava fazer na oitava série? Isso é um encontro. Ele me chamou para sair. Ele devia ter alguma espécie de plano em mente além de um encontro numa esquina. Além do mais, o que aconteceu com o bar francês sexy no qual ele deveria me revelar os segredos do universo? É claro! É por isso que ele está usando jeans. Isso quer dizer que eu também deveria estar usando-os? Legal, agora ele não irá me levar até lá.

- Que tal o Rose? É lá no fim da rua. – sem saber, ele acabou de ser identificado para sempre, na história dos meus encontros no passado e no futuro, como o rapaz que me-levou-até-a-esquina-e-não-sabia-para-onde-me-levar.

O Rose até que é um bar agradável. O teto é tão baixo que um sujeito mais alto teria que inclinar a cabeça para andar ali dentro. Está vazio, exceto por um outro casal nos fundos, e por isso podemos ouvir a conversa do barman com a garçonete. As mesas de madeira são altas e redondas, e se parecem um pouco com as mesas de canto enceradas que há no meu apartamento. Mas nas mesas de Alice eu posso ver o meu rosto; nessas eu só vejo impressões digitais. Nos acomodamos em duas cadeiras de metal na parte da frente do bar.

Conversamos sobre como o ambiente é gracioso.

Começo a ficar inquieta. Por que a garçonete não vem na nossa mesa? Não que ela esteja ocupada com alguma coisa.

- O que há de errado? – pergunta Riley.

Sinto-me como se estivesse sentada numa daquelas cadeiras dobráveis do ginásio do colégio, fazendo uma prova final.

- Esses assentos não são muito confortáveis. – tradução: é melhor você encontrar outra mesa.

- Acho que a garçonete não vem. Deixe-me pegar uns drinques. O que você quer?

Nada que você tenha para me oferecer, meu bem. Até agora não estou muito impressionada com o moço das listras.

- Vinho branco, por favor. – peço e ele sai apressado. Fico olhando enquanto Riley conversa com o barman, agitando suas mãos no ar. Não vou me oferecer para pagar esse drinque; sei que com certeza ele deixaria.

- Vamos lá para fora. – diz ele enquanto segura uma garrafa de vinho caseiro. – Parece que as cadeiras de lá são mais confortáveis.

Isso foi legal. Talvez eu esteja sendo um pouco dura com o sujeito.

O pátio tem cerca de dez pequenas mesas de metal com velas acesas em cima. Não somos os únicos por ali. Pegamos a mesa dos fundos, debaixo do pequeno toldo de latão. Estou prestes a me sentar quando ele diz:

- Espere... Veja se a cadeira não está molhada.

Isso também foi muito legal. Estou sendo muito exigente. Talvez ele não saia com frequência com outras mulheres. Talvez não saiba que não é de bom-tom usar jeans num primeiro encontro, seja numa cafeteria ou num bar, e especialmente num lugar como o Rose. Talvez ele não soubesse que devia me pegar em casa. Será que meus padrões são muito altos, mesmo para os homens cultos do presente? Será que existe algum homem culto?

Minha cadeira está molhada e ele a enxuga com um guardanapo.

- Você se importa que eu fume? – pergunta ele, puxando do bolso um maço de Marlboro.

- Não. – respondo. Nunca entendi muito bem porque algumas pessoas fumam. Tentei algumas vezes quando era adolescente, mas cigarro sempre me fazia tossir. Demais, para falar a verdade. E fumantes sempre parecem ter alguma coisa para fazer com as mãos.

Ele tira um cigarro e o acende com a vela que está na sua frente, além de nos servir um pouco de vinho. Digo a ele que amo o sorvete de Boston, e Riley me conta que tem alergia à lactose e não pode tomar leite nem comer queijo. Ele me conta que, quando bebe leite de vaca, tem que tomar um monte de remédios depois. Os comprimidos custam quinze dólares o frasco; quase tudo o que ele ganha acaba indo com esses malditos inibidores lácteos. Depois conversamos sobre queijo – ambos concordamos: cheddar não é cheddar a menos que esteja velho. Em seguida ele afirma que o cafezinho após o jantar só devia ser tomado com Bailey's e eu defendo que fotografias são melhores em preto-e-branco.

O pátio está lotado, bem, não exatamente lotado, mas pelo menos três outras mesas estão ocupadas. Está vendo, Alice? São muitos os casais que saem às 9:30. Nossas vozes estão ficando mais altas para que se imponham perante as novas vozes, mas também porque já bebemos três quartos da garrafa de vinho. Falamos sobre relacionamentos e ex-namorados. Pergunto sobre as dele e Riley me conta sobre como terminou recentemente uma relação. De repente, a chuva começa a tamborilar no toldo de latão e os casais das outras mesas pegam o seus copos e desaparecem, entrando novamente no bar.

- Onde você mora? – pergunto.

- Aqui perto. – isso é uma declaração ou um convite? – Nas Platinum Towers.

- Uau.

- Alugamos um apartamento.

- Nós? Você tem um colega de quarto?

- Oh... sim.

Nossas cabeças pendem uma na direção da outra e nossos olhares estão entrelaçados. Há uma força magnética em torno das nossas mãos. Digo que gosto dos seus óculos, que não consigo encontrar um par que combine com o meu rosto e por isso uso lentes de contato. Experimento os dele para ver como ficam em mim; eles cheiram a fumaça e loção de barba.

- Como estou? – pergunto e ele responde que estou deslumbrante. – Conversa fiada. Os homens não dão bola para garotas que usam óculos.

- Quem disse isso?

Devolvo-lhe os óculos, nossas mãos se tocam e, ai meu Deus, ele não as larga. Se eu fosse uma heroína da Cupid, diria que calafrios percorrem minha espinha, mas eles de fato estão descendo e minha cabeça está tonta. É essa química da qual Julie está sempre se queixando? Julie a personagem, não a editora. Como posso diferenciar a química do vinho? Existe alguma diferença? Será que devo ficar bêbada a minha vida inteira?

- Dorothy Parker disse. – revelo.

- Ah, a boa e velha Dorothy? Ela não era uma beberrona? – ele ainda está segurando a minha mão.

Começo a rir.

- O que há de errado com isso? – seus dedos acariciam levemente a parte interna das minhas mãos. Matt Roland, da sexta série, disse que carícia na palma significa que o sujeito só quer transar. Eu, claro, lhe dei um soco por isso.

- Vamos brincar de Autor?*

- Esse jogo é idiota. Quem é o seu poeta favorito?

*Uma espécie de jogo onde uma pessoa diz o título de um livro e a outra tem que adivinhar o nome do autor da obra.

- Não posso escolher só um. Quem disse isso? – pergunta ele, que pisca com os olhos e começa a recitar: - "Vamos rolar toda a nossa força, toda a nossa doçura, em uma única bola; E romper nossos prazeres lutando bravamente através dos portões de ferro da vida".

Nunca fui muito boa em "Qual é a música", "Que poema é esse" ou qual é o nome de qualquer coisa.

- John Donne?

- Não, mas passou perto. Andrew Marvell. "Para Sua Amante Acanhada".

Meio que me lembro desse poema das minhas aulas de pesquisa. Um sujeito que tenta convencer sua amiga a dormir com ele ao lhe dizer que ela precisa aproveitar a vida enquanto ainda é jovem e bonita, pois um dia a moça irá morrer e aí será tarde demais.

Sei que eu não devia fazer isso. Todas as lições que a minha mãe me ensinou, todas as regras das minhas revistas de moda estão gritando Não! Não! Não!, no estilo daqueles gritos de filmes de terror adolescentes. Mas já faz quatro meses que... São mais de 120 dias! Como isso poderá se desenvolver a ponto de virar uma relação de confiança que desejo, se eu resolver dormir com ele imediatamente? Uma heroína jamais dormiria com um sujeito no primeiro encontro. A tensão sexual teria que aumentar até, pelo menos, o nono capítulo, quando irá se acumular em uma "bola de doçura". Se num momento de paixão ela cede e dorme com ele no ato, sempre acaba engravidando e se recusando a vê-lo. O encontro seguinte se dá dois anos depois, quando os dois dão de cara um com o outro no mercado. E, evidentemente, ela está com seu menino querido, que possui o mesmo sorriso misterioso do pai. Naturalmente, a moça jamais se esqueceu do pai do garoto.

Não! Não! Não!

Pudica safada; hoje à noite estou me sentindo poderosa.

Inclino-me sobre a mesa e beijo sua boca. E não é um daqueles beijos delicados do tipo sinta-os-meus-lábios-contra-os-seus. Estou falando do tipo de beijo que poderia tirar a Bela Adormecida da porra do coma.

Cem anos depois ele diz:

- Vamos sair daqui.

Enquanto corremos no meio da tempestade, ele não larga a minha mão. Somos modelos num anúncio de cosméticos, dançando no meio das gotas de chuva. Aposto que seu apartamento é um verdadeiro lar de artista, decorado com grandes estantes de livros, um pôster do filme Cães de Aluguel e cinzeiros no formato de mulheres nuas.

- Onde você mora? – pergunta ele.

Onde eu moro? Não podemos ir para a minha casa! Minha cama está desarrumada, meu banheiro está novamente sujo e há algo não identificado na borda da minha cesta de roupa suja. Então eu o beijo, um beijo molhado, misturado com a água da chuva.

- Vamos para a sua casa. Você não mora aqui por perto?

Ele me beija de volta.

- Sim, mas quero conhecer a sua casa.

Penso em Alice e no seu ultimato com Jasper. Minha casa pode vir a ser um cenário de uma batalha sangrenta a qualquer momento. Beijo-o novamente.

- E eu quero conhecer a sua casa.

Colocando o seu braço à minha volta, Riley me leva para além das Platinum Towers. Talvez seu apartamento esteja uma bagunça também. Talvez não queira que eu pense que ele é um porco. Como é agradável o fato dele não perceber que eu não vou ligar.

- Não podemos ir para a minha casa. – insiste ele.

- Por que não? – que cara optaria por não transar em vez de deixar uma garota ver o seu apartamento desarrumado?

- Porque...

De repente, me dá um estalo. Devia ter deixado que a minha intuição feminina mantivesse o controle da velocidade, mas agora ela engrenou novamente.

Afasto o braço dele do meu ombro.

- Você mora com a sua namorada. – agora eu sei como o sujeito pode viver num lugar como aquele. Ela provavelmente banca as despesas enquanto ele faz "freelances".

- Eu já te disse. Estou procurando um lugar para morar sozinho, mas um salário de freelancer não é lá essas coisas...

- Vá para o inferno.

- Não podemos ir para a sua casa?

- Não. Nunca vou dormir com o namorado de outra.

- Eu não ia dormir com você. – ele tenta colocar o braço de novo em volta do meu ombro.

Com licença? O que ele quis dizer, que não ia dormir comigo?

- O que você ia fazer? Recitar poesia a noite toda?

Ele olha dentro dos meus olhos.

- Há outras coisas que podemos fazer e que não são consideradas traição.

Com licença?

- Você está... você está se referindo a sexo oral?

- Bem... mais ou menos isso.

Quem esse cara pensa que é? De algum modo, não creio que Andrew Marvell – e, por falar nele, onde estaria Edward* agora para bater em Riley? – estivesse tentando convencer sua amanha acanhada de que deveria pegar sua bola de doçura e chupar o pau dele.

*No original, o nome do personagem do Edward é Andrew Mackenzie, então o autor Marvell a fez lembrar-se do amigo.

Se eu soubesse mais tae kwon do, iria chutar sua virilha e estragá-lo-ia para sempre.

- Vá se foder. – digo e me afasto. Não é uma fala de despedida muito original, mas entretanto é bem eficaz.

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Ligo para Angela.

- Você não vai acreditar. – conto para ela os acontecimentos da noite.

- Que número ele lhe deu? – recito-o. – Isso parece um celular. Você devia ter percebido que um cara que lhe dá o número do celular não quer que você ligue para a casa dele. – não sei como uma garota de Connecticut que frequentou a escola na Filadélfia e vive em Nova York sabe tudo sobre os telefones celulares de Boston, mas em Angie eu confio.

- Sinto-me um lixo.

- Ora, bem, pense no quanto você se sentiria pior se ele tivesse te dado o pager.

Às três da manhã, creio ouvir gemidos abafados do outro lado da parede. Imagino que Alice e Jasper estejam no meio de mais uma sessão de sexo selvagem. Às 3:30 ouço gemidos vindos da sala de estar. Que indecência. Por que eles estão transando no sofá? E se eu ficar com fome? Passos ecoam de um lado para o outro do apartamento. Pego novamente no sono.

Às cinco o telefone toca. Soluços ecoam pelo fone. Quem é?

- Alô?

Soluço.

Onde está meu identificador de chamadas?

- Sou eu. – diz uma voz. – Você está acordada?

- Sim. – Por que eu sempre digo isso? Não estou acordada; estou com muito sono! – O que há de errado?

- Já comi todo o sorvete de choc chip e agora estou devorando os biscoitos.

Soluço.

- O que aconteceu?

- Ele disse que precisa de espaço. Não quer viver comigo. Ele não me ama.

- Quem é?

- O quê?

Oh... Alice. Nunca havia falado com ela ao telefone antes. Sua voz soa muito mais velha do que pessoalmente.

- A City Girls afirma que quando um cara diz que quer espaço significa que ele não consegue decidir se quer levar a relação para um outro nível ou deixar o barco...

- Cadê você?

- Estou aqui na sala. No meu celular.

- Já vou aí.

Mas, primeiro, um pit stop na cozinha. Será que Allie falou algo sobre um sorvete de choc chip? Certo, acabou. Talvez eu pegue uns pedaços de queijo, para equilibrar a balança de doces/salgados. Talvez valha a pena encher um saco.

A noite pode ser longa.


Heey fofas! Sim, Alice e Jasper não são o casal-mais-perfeito-do-mundo, mas ainda tem muita água para rolar sob a ponte e temos mais 11 capítulos pela frente, então relaxem :)

Até sexta que vem, Maah :*