Temporada de Caça: Aberta - Sarah Mlynowski


Capítulo Dez

Cinquenta pratas para virar uma nova mulher


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Rosalie nos conta que seus amigos com piercings fizeram o serviço na Willington Street.

- Talvez devêssemos descobrir o nome da loja. – comento enquanto olhamos pela janela suja de uma loja de roupas usadas.

- Se ficarmos esperando, jamais iremos fazer. – responde Allie. – Não há tempo para uma pesquisa muito ampla.

- Não estou pedindo nada amplo. Algo superficial deve servir.

- Vamos experimentar aqui. – diz ela.

Eu a acompanho quando entramos em um lugar chamado Spider. O zumbido que reverbera da máquina de tatuagem me faz pensar numa câmara de tortura do século XVI.

Alice pergunta para o sujeito assustador da mesa se ele coloca piercings no umbigo.

- No inglés. – responde ele.

- Acho que a possibilidade de termos a parte errada do corpo perfurada aqui é altíssima. – sussurro, com a voz coberta de náusea.

Alice agradece ao homem – não que ele tenha entendido alguma coisa – e saímos pela porta afora.

Mais no final do quarteirão, uma vitrine mostra mensagens como "piercings exóticos aplicados por especialistas" e "uma reputação que é merecida, não assumida". Na esperança de que tal reputação atinja algo além dos mendigos do quarteirão, nós entramos.

O especialista – uso o termo livremente – parece um tanto selvagem, com suas várias tatuagens de insetos e os dezenove piercings que consigo enxergar. Aposto que, para ser contratado pelo estabelecimento, o candidato a funcionário tem que usar pelo menos dez. Ele nos convence que um piercing de umbigo vale os cinquenta dólares que são cobrados.

Como a típica garota responsável do milênio que sou, pergunto sobre seus métodos de higiene.

- Sempre uso luvas de plástico novas e todas as minhas agulhas são descartáveis. – responde ele.

Isso é bom, creio. Agulhas descartáveis. Espera aí... Agulhas? Que agulhas? O que aconteceu com as boas e velhas máquinas de furar? Quando furei as orelhas, lá pela terceira série, duas mulheres usaram uma máquina em cada ouvido, e tudo acabou depois de uma explosão momentânea e ensurdecedora.

- Vocês poderiam por gentileza assinar esses documentos? – pergunta o sujeito com indiferença.

Documentos? Que documentos? Por que eu preciso assinar um documento? Eu leio "... na improvável possibilidade de sangramento excessivo, cicatrizes permanentes, perda de consciência..." Perda de consciência? De algum modo, fica decidido que eu irei primeiro, possivelmente porque Mary Alice mais se parece com uma Alice prestes-a-ficar-doente. Sorte a minha. Sento-me numa grande cadeira de couro preta e, sem entrar em detalhes, digo para a minha querida amiga que só dói por um segundo.

É a vez dela... Gritos vindos da cadeira de couro.

Eu menti.

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A Reação – Cena Um

Rosalie: Você realmente fez isso?

Eu: Sim. Não creio que serei capaz de levantar as calças novamente.

Rosalie: Talvez eu faça um também.

Eu: Pois devia. Não doeu nem um pouco, embora a região esteja um pouco inflamada no momento.

Rosalie: Talvez eu faça. Mas é um negócio meio demodê, você não acha? Todo mundo tem um.

Eu (murmurando): Muito obrigada, Rose. Acho que sou uma conformadora com mau gosto.

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A Reação – Cena Dois

Iris: Isso é irado! Quero um. Está vermelho? Aposto que está vermelho. O vermelho vai sumir, não vai? Minha amiga Mandy botou um e não disse nada para a mãe. Agora, sempre que toma banho, ela precisa usar um maiô no caso de sua mãe entrar de repente, e não sabe o que vai fazer no verão. Ela tem piscina em casa, será que sua mãe vai achar estranho o fato dela não usar mais biquíni? Perguntei a mamãe se eu poderia colocar um, mas ela disse que não havia chance. Vou botar um assim que fizer dezoito anos. Falta um ano, cinco meses e três dias para o meu umbigo ficar livre para piercings! Ele não vai ficar infeccionado, vai?

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A Reação – Cena Três

Renée: Você não podia ter feito luzes no cabelo ou algo parecido?

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A Reação – Cena Quatro

Papai: O que há de novo, Bells?

Eu: Nada.

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A Reação – Cena Cinco

Angela (voz ao telefone enquanto eu pinto as unhas do pé): Fico me perguntando por que a nossa geração opta por mutilar o corpo.

Eu: Não é só a nossa geração. Piercings são usados há séculos por todo o planeta.

Angela: Mas por que a cultura americana está colocando piercings em umbigos, línguas, mamilos e outras partes do corpo que eu não ouso mencionar?

Eu: Talvez seja uma tendência dos politicamente corretos para abraçar o relativismo cultural.

Angela: Talvez para produzir um efeito estético.

Eu (soprando os dedos do pé direito): Ou espiritual.

Angela: Ou sexual.

Eu (fingindo indignação): Não coloquei um piercing no meu clitóris!

Angela: Talvez não haja mais nada sobrando para atacar a não ser a própria carne.

Alice (vulgo Mary Alice; entrando no meu quarto sem pedir licença): Não é legal? (levantando a blusa) Será que podemos tirar uma foto?

Angela: Com certeza isso dará a seus filhos um motivo para rir.

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A Reação – Cena Seis

Estamos jantando cedo no Asian Grill, um daqueles restaurantes onde você próprio se serve de carne, vegetais, massas, molhos, tudo enfim; e vê como um pequeno prato de comida pode custar mais de trinta dólares.

Edward (sentado de frente para mim numa mesa para dois): Não acredito que você fez isso.

Eu (com os braços cruzados na frente da minha camisa): Por quê? Não sabia que a ornamentação corporal era uma prova de alteração do caráter. (As palavras seguintes não foram ditas) A-hã. Será que os homens me acharão sexualmente repulsiva?

Edward: Sempre achei que piercings de umbigo eram para garotas tipo a Alanis.

Eu: Por favor, há até uma concorrente à Miss América que orgulhosamente patrocina uma marca. Miss Springfield ou coisa parecida.

Edward: Posso ver?

Eu: Você quer que eu levante a minha camisa no meio do Asian Grill?

Edward (arregalando os olhos): Sim!

Eu (levantando a parte de baixo da minha camisa): Satisfeito?

Edward: Por que está tão vermelho?

Eu: Tive agulhas enfiadas na minha barriga, o que você esperava?

Edward (olhos verdes crescendo e ficando do tamanho de sonhos de padaria): É, hã, meio, bem, sexy...

Eu (a palavra seguinte não foi dita): Bom.

Finis.

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Depois do trabalho, na segunda-feira, Alice e eu vamos caminhar no mercado. Não que possamos exatamente andar. Durante as últimas 36 horas, tive que deixar meu jeans no armário e, toda vez que algo se aproxima das adjacências remotas da minha barriga – um braço, roupas, ar – tenho um pequeno desmaio.

Colocamos os gêneros básicos no nosso carrinho: sucos, leite, macarrão e queijo. Então Alice dá vazão ao seu lado gourmet e lança para dentro um naco de salame, uma caixa de seis cervejas, um pedaço de queijo prato e um pacote de anti-histamínicos.

Olho desnorteada para aquele monte de coisas.

- Vamos visitar um alojamento masculino?

- Não. Estamos fazendo com que nosso apartamento seja adequado para visitas masculinas.

- De onde vem essa filosofia se-você-constrói-eles-virão? Deixe-me adivinhar, Cosmo? Glamour? City Girls?

- City Girls.

- O quemaisdiz a City Girls?

- Que devíamos arrumar um cachorro. Homens se aproximam dos cachorros na rua e começam a conversar com suas donas. Nós.

- Você é alérgica a cães.

- É por isso que estamos traçando aestratégia da comida. Talvez possamos pegar o cachorro de alguém emprestado. É para isso que servem esses anti-histamínicos.

Quem é essa mulher e o que ela fez com a minha colega de apartamento? Alice tem uma série de outras sugestões, todas vetadas por mim.

1. Tomar aulas de computador (não temos tempo para isso. Somos muito, mas muito ocupadas).

2. Chupar pirulitos em bares (embora pirulitos deixem a sua boca com os gostos mais diferentes, o que em si não é mau, eles deixam sua boca com as cores mais inapropriadas).

3. Passar o tempo todo no Home Depot (coisa que não está acontecendo).

4. Fazer aulas de salsa (Eu: "Não dá, não sabemos dançar". Alice: "É por isso que temos que fazer aulas!". Eu: "De jeito nenhum que vou me submeter a isso").

5. Transformar meias em bonecos vodus. Isso, segundo ela, não é para nos ajudar a encontrar homes e sim para infligirdores pungentes, empecilhos emocionais e ruína financeira a Jacob e Jasper (a ideia é divertida, mas nos colocaria na categoria "somos psicóticas").

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Sugiro então irmos a uma livraria. Acredito que, como trabalho no meio editorial, minha categoria esteja em alta e, por ler muito, faria sentido eu sair com alguém que também aprecia a palavra escrita.

- Não entendo. – diz Alice. – Você quer conhecer um cara que lê livros com histórias românticas?

- Não, isso seria estranho. Gostaria que ele lesse algo mais viril. Algo mais no estilo de Hemingway.

Acabamos na Barnes &Noble. O relógio diz que agora são seis horas. Alice e eu decidimos que não iremos embora até darmos nosso telefone, cada uma, para um marido em potencial. Ela se enfia loucamente na seção empresarial. Ainda estou em dúvida: alma (ficção) ou bom emprego (computadores)? É uma parada dura, mas não decido a favor do carro novo em detrimento da bela biblioteca; estou prestes a pegar a escada rolante que leva até o setor de ficção quando me esquivo e dou uma guinada em direção à área de informática. Ok, sou fraca.

La, la, la. A seção de informática possui três paredes de livros. Acho que vou começar pela direita e seguir para a esquerda.

- Posso ajudá-la em alguma coisa? – pergunta uma moça da Barnes &Noble.

- Não, obrigada. Só estou olhando.

Um gatinho está folheando um livro de capa dura. Acho que vou ficar aguardando o momento propício, esperar por uma boa oportunidade... não que eu saiba o que vou dizer para este homem. Oh, já sei! Vou pedir para ele me recomendar alguma coisa. Isso é bom. Traz à tona a qualidade de herói.

- Com licença?

- Sim?

O que devo perguntar nesta situação?

- Você conhece um bom livro sobre... computadores?

Ele me olha como se houvesse alguma coisa terrivelmente errada comigo, como se eu estivesse usando sapatos esquisitos ou não tivesse sobrancelhas.

- Talvez você devesse perguntar a alguém que trabalhe aqui.

Droga. Hora de uma pausa para o cafezinho.

Seis cafés e quatro horas depois, estou completamente cafeinada e entediada. Já encontrei três homens cujas esposas/namoradas/mulheres não gostaram de eu ter me aproximado da periferia do seu território, dois homens com crianças (não creio que eu esteja num estágio da minha vida em que deva ser madrasta/dona de casa) e um trekkie* cujo olhar incessante me forçou a abandonar temporariamente o meu posto. A mulher da Barnes &Noble acha que eu sou doida varrida. A cada dez minutos ela vem me perguntar se eu tenho certeza de que eu não quero alguma ajuda.

- Estou além de qualquer ajuda. – respondo.

Até que encontro Jared. Ele está exatamente na estante de livros de informática, examinando um livro chamado A Alegria de Programar. É um homem alto e bonito e possui um belo sorriso e sua pele é morena, mas estou cansada e quero ir para casa. Estendo a mão e me apresento, abandonando toda a pretensão de realizar preliminares de azaração. Estou com pressa. Ele me diz seu nome, batemos papo durante alguns minutos e, na hora em que me fala sobre o seu gato, seu cachorro e seus cinco microprocessadores, eu digo:

- Liga para mim.

Escrevo o meu número de telefone num pedaço de papel especialmente preparado que já estava dentro da bolsa (já pré-borrifado com perfume), dou-lhe o papel e vou procurar Alice. Missão cumprida.

Alice está sentada num sofá conversando profundamente com um sósia de Jerry Seinfield. Aceno. Ela não responde. Aceno novamente. Estou certa de que ela está me ignorando. É hora de tomar outro café.

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- Como estou? – vira-se e pergunta Alice.

Ela está usando um vestido preto bem decotado, amarrado atrás do pescoço, e um par novinho em folha de sua versão para botas de salto alto – sandálias pretas. Ela vai sair pela primeira vez com Liam, o sujeito que ela conheceu na seção de livros empresariais. Parece que ele é dono do próprio negócio e lê muito Grisham. Ok, tudo bem, A Firma não é exatamente Por Quem os Sinos Dobram, mas pelo menos é ficção. Ele lê e ligou. Já faz cinco dias e Jared não fez o mesmo. Bem feito para mim por ter tentado sair com outro bunda-mole cujo nome começa com J. Bem feito para mim por não ter me aproximado da seção empresarial. Setor de informática – por favor! Sujeitos que leem livros de informática são quase tão confiáveis quanto as empresas de Internet recém-fundadas pelas quais eles deixam seus empregos monótonos.

Sete dias. Por que não experimentei a seção de viagens? Até mesmo a de culinária teria rendido melhores frutos. Uma vez Rosalie conheceu um psicólogo na de autoajuda, mas com a minha sorte, provavelmente acabaria dando de cara com um psicótico.

Levo a minha frustração para o tae kwon do.

- Hanna. Twul. Zed. Ned. Dasso. – diz Sam. – Abram as suas pernas. Mais.

Pode acreditar, amigo, eu venho tentando abrir.

Depois da aula, Sam se oferece para me ajudar a ficar na primeira posição. Ele coloca as suas mãos, aquelas mãos grandes de tae kwon do, nos meus ombros e os põe na posição certa. São 7:30 da noite e estou tendo devaneios com uma bela travessa de macarrão com queijo, mas digo obrigada e deixo que ele me ajude. Preciso aprender essa posição antes de ser testada para ganhar a faixa amarela. Faixas amarelas são bem mais delicadas do que as brancas. No momento, creio que pareço com o gigante de marshmallow de Os Caça-fantasmas.

- Senhor? – pergunto. Aqui você precisa chamar todo mundo de senhor. Sim, senhor. Não, senhor. Obrigado, senhor. Jogue-me na parede e me beije, senhor.

- Sim?

- Quando poderei pegar a minha faixa amarela, senhor?

- Você só veio a uma aula, Bella.

- Oh, certo, senhor. A quantas aulas preciso vir, senhor?

- Pelo menos vinte. – Sam olha para mim confuso.

Vinte? Isso significa vinte horas de exercício! Isso também significa vinte horas de exercícios com o senhor Sam-deus-do-sexo. Deixa para lá. Acho que vou ficar com a faixa branca para sempre. Acho que estou amando.

- Você sabe com quem você se parece? – pergunta o senhor Sam-deus-do-sexo. Sua mão está na curva das minhas costas e estou tendo dificuldades para respirar. Ainda estou tentando descobrir com quem ele se parece. Tão familiar, contudo não lembro de tê-lo encontrado antes.

- Quem? – uma atriz? A sua primeira namorada?

- Chelsea Clinton.

Afaste-se de mim, Sam-deus-do-sexo. Você fede, senhor.

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- Não sei qual é o problema. – diz Alice.

Estou sentada em cima de um balcão no seu banheiro, vendo ela passar um negócio branco nas pálpebras. Está se preparando para o seu segundo encontro com Liam. Está solteira há menos de duas semanas e já tem um segundo emprego. Um segundo emprego! Inacreditável.

- Chelsea é famosa por ser feia. – contorço-me, percebendo que estou sentada em algo molhado.

- Não acho que ela seja feia.

- O problema não é esse. O problema é que ela é conhecida como feia. Letterman e o Saturday Night Live vivem sacaneando a garota. Como alguém pode pensar que é um elogio me dizer que pareço com alguém que é famosa pela feiura?

- Talvez ele a ache bonita.

- Opinião subjetiva e irrelevante. – não adianta ficar discutindo, pois Alice não está nem prestando atenção. Hoje à noite, Liam a levará a uma aula de provadores de vinho. Uma aula para provadores de vinho! Não é ridículo? Ele obviamente quer embebedar minha amiga e dormir com ela.

Ótimo. Estou com ciúme. Verde tipo aquelas-horríveis-lentes-de-contato de ciúme.

O que vou fazer hoje à noite? Hoje é sábado. Alice tem um encontro. Rosalie também. Até mesmo Edward está com Tanya, a atriz perfeita.

Sento-me no sofá, me enrolo no cobertor de Alice e, desesperada, ligo para a minha meia-irmã Iris.

- Oh, meu Deus. Você não vai acreditar. – começa ela.

- O quê?

- Oh, meu Deus. O cara pelo qual a minha melhor amiga ficou obcecada durante mais ou menos sete anos me quer e eu gosto muito dele. O que eu faço?

Ansiedade adolescente. Suspiro. Os bons e velhos tempos...

- É Mandy que gosta dele?

- Não, Tamara.

- Achei que Mandy era sua melhor amiga.

- Mandy costumava ser a minha melhor amiga, mas agora ela é meio a segunda melhor. E, então, o que eu faço?

- O que você quer fazer?

- Estávamos todos numa festa à noite passada e a toda hora Kyle vinha conversar comigo. Tamara ficou me fuzilando com os olhos e por isso não consegui bater papo com ele, a não ser quando ela ia ao banheiro. É um verdadeiro absurdo porque ela gostava de dez caras no ano passado e não pode querer segurar todos os sujeitos de quem já gostou! Você concorda, Bella?

Acho que deixei de prestar atenção na hora em que ela falou da confusão com Mandy e Tamara. Não que Iris esteja esperando por uma resposta. Ela raramente para e vem à tona para pegar ar.

- Ele trabalha na Abercrombie, o que prova que ele é gostoso, pois todos os caras que trabalham lá são gatos...

Depois de mais quinze minutos escutando o quão gostoso é o Abercrombie-Kyle, fico inexplicavelmente cansada.

- Iris, vou dormir.

- Mas são dez horas. Num sábado à noite!

Jura?

- Deixe-me em paz. Estou cansada.

- Você não tem planos?

Planos? O que são planos? Decido mentir.

- Eu tinha, mas resolvi ficar em casa hoje. Você vai sair à noite? – bipe. – Espera aí, tenho outra ligação. Alô?

- Bella, você é a minha salva-vidas literária e tem sessenta segundos para responder a esta pergunta. A contagem já começou. – é Sue, minha madrasta. Não tenho a menor ideia do que ela está falando.

- Sou sua o que literária?

- Estou jogando Quem Quer Ser um Milionário com o seu pai e alguns amigos, e não sei a resposta para esta pergunta. Você é a minha salva-vidas literária.

Tenho uma pergunta para mim mesma: por que meus pais estão se divertindo mais do que eu numa noite de sábado? Uma resposta final?

- Espera aí! Deixa eu sair de outra ligação. – aperto o botão de espera. – Iris?

- Você não estava escutando nada do que eu disse? – ela reclama. – Vou a uma festa na casa da Wendy, e tanto Tamara quanto Kyle estarão lá.

- Podemos falar sobre isso amanhã?

- Mas a festa é hoje à noite!

- Tenho que ir.

- Por quê?

- Sue precisa de algo na outra linha. Tchau.

Volto para Sue.

- Ok. Fala.

- Pronta? O timer está ligado.

- Estou no viva-voz? Detesto viva-voz. Oi, pai! Dá para desligar? – de jeito nenhum eu vou deixar alguém ouvir eu e expondo ao ridículo.

Toda essa história de salva-vidas está me deixando nervosa. E se eu errar? O que Sue está perdendo exatamente? Quanto ela ainda tem? Eu tenho que saber o que estou enfrentando. De repente, tudo fica muito silencioso; fui tirada do viva-voz.

- Para quem T.S. Eliot dedicou The Wasteland? Andrew Marvell, Ezra Pound, sua esposa Jennifer Eliot, William Carlos Williams ou nenhuma das respostas acima?

Nenhuma das respostas acima? Espera um instante; nunca há um "nenhum das respostas acima".

- Cinco opções? – pergunto.

- Tentamos fazer com que a versão caseira seja levemente mais desafiadora. – responde a doida que casou com meu pai.

Ok, ok. Calma. Fique calma, Isabella. Li sobre isso durante os meus cursos de pesquisa, modernismo e poesia do século XX. Nunca entendi de fato nada nele a não ser o título. Ok. Sei que não é Marvell. The Wasteland foi escrito no começo do século XX. Espera um minuto... Eu sei isso.

- Marvell. – respondo.

- Você tem certeza?

Não! Não! Por que eu disse isso? Sabia que estava errada! Será que posso mudar a escolha? Será tarde demais? Será que perdi?

- Marvell não! Quis dizer Ezra Pound. – devia ter terminado o meu mestrado. Por que não terminei meu mestrado?

- Ok. Ezra Pound. Você tem certeza?

- Não. Pode ter sido William Carlos Williams. Não tenho certeza. Acho que foi Pound.

- Qual a porcentagem de possibilidade de ter sido Pound? – pergunta ela confusa.

- 51% Pound, 45% William Carlos Williams, 4% sua esposa. Espera. Não tenho certeza se ele era casado.

- Então pode ter sido sua esposa se ele fosse casado?

Talvez.

- Não sei. Acho que foi Pound.

- Ok. Obrigada e boa noite. – e ela desligou.

Boa noite? Boa noite! Como eu posso dormir se ela não me disse se eu estava certa? Graças a Deus e a Edward, minha estante está totalmente operacional. A prateleira superior está cheia de antologias escolares, a segunda de clássicos, a terceira de livros comerciais, a quarta com meus livros dos séculos XIX e XX e a quinta está mais lá embaixo com todos os romances. Organizei cada seção por editora, uma perda de tempo. Uma perda de tempo extremamente divertida que eu deveria ter deixado para uma noite como a de hoje.

Encontro uma cópia de The Wasteland em uma das minhas antologias da Norton. Ele foi dedicado a Ezra Pound. Obrigado, meu Deus. E obrigado, T.S. Talvez eu devesse começar a me chamar de I.S. em tributo.

Ah, deixa para lá.

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Meu telefone toca exatamente à 1:07 da manhã.

- Alô?

- Que bom, não te acordei. – é a Iris.

- Você me acordou, pirralha. Eu disse que ia dormir há três horas.

- Eu sei, mas isso é uma emergência.

Lá vamos nós.

- Por quê?

- Porque Kyle deixou a festa mais cedo e Michael me deu o número dele e disse que eu devia telefonar para ele.

- Ligar para Michael? – isso fazia sentido?

- Não, para Kyle.

- Quem é Michael?

- Um amigo do Kyle. Esquece ele, Bella.

- Você ligou?

- Ainda não. Será que devia?

- Mas a Tamara não vai ficar furiosa?

- Ela não vai descobrir nada. – então por que me acordou se já tinha a resposta, pilantra? – Vou só ligar para conversar e, com sorte, ele me convidará para sair ou coisa parecida. Ainda estou com toda a minha maquiagem.

- Você vai sair agora? É 1:08! Você não tem uma hora de recolher como eu tinha?

- Sim, mas, se for necessário, posso sair pela janela. Situações de desespero pedem medidas desesperadas.

- Então, ligue.

- Ok, mas quero que você fique ao telefone. Vou ligar e deixar você na linha.

- E se eu rir?

- Não faça isso.

- E se não der para evitar? É uma boa ideia?

- Por favor? Por favor? Por favor? Por favor?

Ela faz uma ligação rápida (obviamente programou um botão para ele) até que ouço uma voz masculina e penetrante.

- Sim?

- Kyle está?

- Sou eu.

- Ei, qualé? É Iris.

- Oi, Iris. Qualé?

O que é "qualé"? Por que eles não respeitam mais os verbos?

- Nada. Tô aqui sentada em casa. O que cê tá fazendo?

- Cê sabe. Tremendo de frio aqui no meu apart.

O garoto tem um apartamento? Por que ele tem um apartamento? Quantos anos ele tem? Por que ele está tremendo de frio? Será que usa drogas?

- Oh. – isso vem de Iris.

Silêncio. Mais silêncio. Será que devo fazer um aparte? Biiiipe. Opa. Foi um acidente, eu juro.

- Bem, divirta-se. – diz ela. – Vejo você depois.

- Ok. – ouço uma pontada de confusão na voz uma-oitava-mais-baixa-do-que-eu-esperava de Kyle.

- Ok, tchau. – Iris desconecta o rapaz. Mais uma vez, silêncio.

Eu dou um berro.

- Pare! – diz minha irmã, incapaz de conter sua própria risada.

- Belo trabalho! Estou muito impressionada, meia-irmãzinha.

- Oh meu Deus. Oh meu Deus. Oh meu Deus.

- Por que ele tem um apartamento?

- Oh meu Deus. Oh meu Deus. Oh meu Deus. Em algum ponto da minha vida eu conseguirei tratar garotos como pessoas normais, certo? Certo, Bella?

- Eu te mantenho informada.

Todas essas risadas estão fazendo o meu umbigo com o piercing doer.


Peço mil desculpas pela demora e espero que tenham gostado. Beijinhos e até a semana que vem!