Temporada de Caça: Aberta - Sarah Mlynowski


Capítulo Onze

Oh, irmão


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Estou prestes a começar a revisão de O Sheik se Apaixona, quando as palavras mensagem nova começam a piscar no meu monitor. Não aguento mais reuniões para falar de vírgulas. Mas espera, o que é isso?

Bella,
Aqui vai um retrato do meu irmão, Mike. Se ficar interessada, avise-me que eu dou o seu telefone para ele.
Julie.

Humpf. Que tipo de pessoa horrivelmente superficial ela pensa que eu sou? Será que acha que só vou sair com seu irmão se o achar fisicamente atraente? E quanto à personalidade? Inteligência? Senso de humor? Dinheiro?

Abro o arquivo anexado.

Ele é bonito.

E parece ser alto, tem pelo menos vinte centímetros a mais que Julie e está ao seu lado na foto. Parece que foi tirada por um profissional, com aquele fundo azul-claro. Seria um presente para o aniversário de vinte anos de casamento de seus pais? Até onde consigo me lembrar, sempre quis ter uma foto minha feita por um profissional. Mas meu pai tinha essa fantasia de que era fotógrafo e, quando eu era pequena, vivia com uma câmera e uma lente enorme penduradas no pescoço, e estava sempre pronto para flagrar qualquer coisa. Parecia um turista na Disneylândia. "Oh, veja, Renée!", costumava gritar. "Ela está sorrindo!" ou "Oh, veja, Renée! Nasceu um novo dente!" Fico grata por meus pais terem se separado muito antes de eu ganhar meu primeiro sutiã.

Não é que ele fosse tão constrangedor – coisa que de fato era – mas em todas as suas fotos, as pessoas tinham os pés ou as cabeças cortadas. Estranho. Em todos os meus primeiros anos neste planeta, ele não tirou uma só foto decente de mim. Mas quando fiz treze anos, bolei um plano. Convenci Renée a ter uma foto sua toda produzida tirada por ocasião do seu aniversário. São aquelas fotos em que profissionais fazem a sua maquiagem e o seu cabelo, e vestem você com peles de animais e bustiês resplandecentes. Disse a ela que pagaria pela foto e tudo que Renée precisava bancar seriam as cópias. Evidentemente, assim que chegamos ao estúdio, eu também quis que tirassem a minha foto, e a conta chegou a 25 dólares. Ou seja, 25 dólares pelo trabalho do fotógrafo e mais 450 pelas cópias. Mas eram boas fotos, eu juro. Especialmente as minhas.

Valia tanto a pena. Pelo menos para mim.

O cara não é apenas bonito, tem rosto de bebê. Cabelos de um louro suave, que parece querer cair sobre seus olhos azuis de filhote. Vem cá, cachorrinho, vem cá.

Por que ela não me disse que tinha um irmão tesudo? Qual é mesmo o nome dele? Ah, Michael. Micha... Quer dizer, Mike.

Que enigma. Se eu disser que estou a fim de encontrar seu irmão, ela saberá que é apenas por causa da sua aparência, caso contrário eu teria dado uma resposta positiva antes. Será que respondo ao seu e-mail, admitindo que sou superficial? Ou digo que não tive tempo de olhar para a foto? Não, isso pareceria suspeito. Talvez eu lhe diga que meu computador não consegue abrir anexos, mas adoraria que ela me pusesse em contato com seu irmão, mesmo sem ter visto sua imagem. Agora, pensando bem, por que ela está fazendo isso? Será que viu, através da minha mentira, que tenho um namorado? Ou será que pensa que sou uma puta que sairá com dois caras ao mesmo tempo? Ou, Deus me perdoe, será que pensa que tenho um namorado com o qual sou totalmente incapaz de manter um relacionamento?

Clico em "Responder esta mensagem". Não há motivos para ficar pensando muito.

Querida Julie,
Pode dar o meu telefone para ele!
Bella.

Envio.

Ele liga exatamente às oito horas daquela mesma noite. Incrível. Completamente implausível. Ele pegou o meu número hoje e ligou hoje. Está vendo? Nem todos os homens ficam com joguinhos. Há alguns homens por aí que não cantam em peças, não fogem para a Tailândia, não traem suas namoradas e não perdem seu número. Pelo menos espero que sim. Eu economizaria um bom tempo se Mike tivesse uma namorada, estivesse planejando uma viagem para a Tailândia ou cantasse em peças.

E se ele quiser me levar a uma peça? E se tiver comprado ingressos para O Apartamento? Será que terei que ir novamente?

- Bella! – grita Alice do seu quarto enquanto estou vendo o final de Ally McBeal. – É pra você.

- Diga que eu ligo mais tarde! – droga, por que alguém ligaria no meio do episódio de Ally? Dois minutos depois eu dou um berro. – Quem era?

- Um cara aí... Mickey? Não, Mike.

- Mike? Por que você não me passou o telefone?

- Você disse que ligaria de volta.

- Sim, mas pensei que fosse Iris ou alguém parecido. Não imaginei que Mike fosse ligar tão rápido.

- É só ligar de volta. Eu anotei o número.

Pensei.

- Como é a voz dele? Inteligente? Bonita? Engraçada? – eu não precisava de Alice para me dizer que era a voz de um gato. Já sabia que ele era. Pelo menos espero que o seja; aparentava isso na foto. Mas espera aí. Será que a foto estava retocada? – Ele parecia um gato?

- Como posso saber se a sua voz parecia com a de um gato?

- Deixa para lá. Ele parecia engraçado?

- Não. Só pediu para falar com você.

- Não dá para você me dizer mais nada?

- Ele era educado.

Educado é melhor que rude.

- Ok, vou ligar de volta. – oh, não. – Não posso ligar de volta. E se Julie atender?

- Ele mora com a irmã?

Bem pensado. Espero que não. Mas pode ser.

- E se morar? Será que digo oi? Isso é muito estressante.

- Se você não ligar de volta, – ela começou num tom já irritado. – ele não irá ligar novamente.

É verdade. Faz sentido.

- Vou deixar uma mensagem! As propriedades miraculosas da secretária eletrônica virtual. Posso ligar através do serviço e irá parecer que tentei ligar, mas não consegui.

- Será que vamos ter mensagens simuladas novamente?

Hum.

- Não. Nem vou ficar nervosa porque ainda não o conheço. Veja. Posso fazer isso com frieza.

Ela me passa o número de telefone e me vê discar.

- Alô. Aqui é a residência dos Newton. Não podemos atender agora. Para deixar um recado para Mike, aperte o um. Para Norman ou Sandra, aperte o dois. – bipe.

Aperto o um.

- Oi, Mike, é Bella. A amiga de Julie. Ligue de volta quando você puder. Ligue de volta quando você puder, tchau. – e desligo. Ri, ri. Não sei por que dei uma de James Gradinger, mas não consegui resistir.

- E aí, como é a voz dele?

- Velha. Acho que era a do pai.

- Do pai? Ele mora com os pais?

- Acho que sim. – oh, não.

- Quantos anos ele tem?

- Não sei.

- Quantos anos tem Julie?

- Não sei! – e se ele for apenas um menino de 18 anos? Um Mike de 18 anos que ainda está na escola?

- Como é que ele ganha a vida? Será que tem um emprego? – Alice continua me metralhando.

- Não sei. – devia ter feito uma pesquisa um pouco mais profunda do que simplesmente olhar sua foto com cobiça. Se ele não tiver um emprego, será que terei que pagar tudo no encontro?

O telefone toca.

- Alô?

- Oi, posso falar com a Bella, por favor? – sua voz não falhou. Bom sinal. Ele não tem doze anos.

- É ela.

- Oi, é Mike, irmão da Julie.

- Oi, Mike. – bela voz. Isso é bom.

- Oi, Bella. Que bom te encontrar.

- Também fico feliz que tenha me encontrado. – isso foi estúpido, eu sei.

Pausa.

- Então, aparentemente, você é o meu tipo.

Bela fala de abertura. Três vivas para Mike!

- Nunca ninguém me disse que eu sou "o seu tipo".

- Pelo que minha irmã me disse, você é o tipo de todo mundo. Bonita, inteligente e doce.

Dois pontos para Mike. Quatro para Julie. Espera um minuto. Tem algo um tanto impróprio no que diz respeito a ser o tipo de todo mundo. Porém, no momento, vou lhe dar – e a Julie também – o benefício da dúvida.

- Obrigada.

- De nada. – pausa. – Você gostaria de tomar um café comigo esta semana? – indo direto aos finalmente, hein?

- Adoraria. – espero que você não seja um mala, do fundo do meu coração.

- Você está livre na sexta-feira à noite?

Sexta-feira à noite? Sexta-feira à noite é dia de Orgasmo – e como você ainda não é uma aposta certa, Mike querido, não dá para desistir dela. Quem sai para tomar café na sexta-feira à noite? A sexta-feira é para ir a bares.

- Hum... Quinta-feira à noite é melhor.

- Oh, durante a semana? Ok. É que eu acordo às 5:30 e fico meio cansado à noite. E tenho que acordar cedo no dia seguinte...

Ele está falando de cinco e meia da manhã? O que diabos uma pessoa poderia fazer às 5:30? Decido guardar minhas dúvidas para o encontro, para que tenhamos bastante assunto.

- E quanto ao sábado? – pergunto, correndo o que sei que é um alto risco. Um primeiro encontro num sábado à noite? Isso é que nem jogar com fichas de dois dólares em vez de apostar as de 25 centavos.

- Perfeito. – diz ele.

Uau! Agora ainda posso ir ao Orgasmo e ter planos para o sábado à noite também. Está vendo isso, Iris?

- Ligo para você no sábado à tarde para pegar o seu endereço.

E vem me pegar em casa, não numa esquina qualquer! Ele deve ter vindo do século XIX!

- Ok, nos falamos depois. Boa noite.

- Boa noite. – ele desliga.

- E aí? Que tal? – interroga Alice ao meu lado.

- Ele parece... Legal.

- Legal é bom, não é?

- Não sei. Você iria achar, não?

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Vamos para o Orgasmo na sexta-feira à noite e, quando digo nós, me refiro a Alice, Rosalie e eu. Estou usando uma saia jeans, uma blusa branca amarrada na cintura, um chapéu de caubói (todos comprados numa lojinha da vizinhança) e as botas de caubói de Alice. Ela ainda não me deu um bom motivo para ter essas botas no armário. Infelizmente, elas são muito pequenas e estão, no momento, apertando meus pés. Meu cabelo está cheio de tranças e pintei pequenas sardas no rosto. Não, não decidi cometer um suicídio estilístico – trata-se de uma festa de Halloween.

Rosalie não está fantasiada; ela é fina demais para isso. Alice está usando calças pretas de couro bem apertadas e um top que deixa o umbigo à mostra, orelhas de coelhinha da Playboy e um rabo bem fofo. Ela está determinada a agir de acordo com o que a roupa impõe e começou a flertar com todo mundo à vista, incluindo Edward, que apareceu do meu lado usando uma blusa preta com gola olímpica, calças pretas, sapatos pretos e uma placa em volta do pescoço que diz: "Sou um niilista, não ligo para nada". Perdoo-o pela gola olímpica; afinal de contas, é apenas uma fantasia – uma fantasia que realça seu tronco musculoso.

- Você tirou essa ideia de O Grande Lebowski? – pergunto rindo da sua criatividade.

- Isso mesmo. Mas acho que você foi a única que entendeu a piada.

Emmett está vestido como o bêbado da cidade – oh, sim, esse é seu traje padrão. Quando ele vê a fantasia de Alice, ela recebe a sua saudação suja e costumeira. E quando ele nos paga uma rodada, é para minha colega de quarto que ergue um brinde.

- Por que você não brinda mais à minha pele macia? – reclamo, ouvindo Edward murmurar algo como "ou brindar à minha amiga gostosa". Ignoro isso.

- Você foi substituída. – pelo menos, Emmett é honesto. Suas mãos deslizam até a cintura de Alice, abaixo da sua cintura e depois vão para na sua bunda. Ela lhe dá um tapa? Tira a mão do sujeito delicadamente? Não e não. Ela ri e se inclina na direção dele.

- Por que você não está usando um top? – pergunta Edward, olhando para minha barriga coberta.

Hum... Não.

- Só pessoas especiais podem ver o meu piercing de umbigo.

- Eu o vi. – ele sorriu triunfante.

- Você deve ser especial, então. – inclino-me e beijo o seu rosto recém-barbeado.

Acho que foi bom nunca ter saído com Edward. Conhecendo a mim mesma como conheço, provavelmente teria estragado a nossa amizade.

- O que está acontecendo com Liam? – pergunto a Alice no banheiro feminino. Depois do dia que foram provar vinhos, os dois saíram mais duas vezes, o que dá um total de quatro programas juntos.

- O que tem ele?

- Vocês não estão meio namorando? Como é que você se joga toda em cima de Emmett?

- Em primeiro lugar, não estamos namorando, estamos apenas saindo. Não quero começar um outro relacionamento. Estou gostando de ser solteira. Preciso de algum tempo para mim mesma. Posso ficar, sair e dormir com quem quiser. Segundo, Emmett é bonito. E só porque estou ficando não quer dizer que irei para casa com ele. Ok, mamãe?

Como é possível Alice parecer tão bem adaptada? Foram só duas semanas e ela já virou uma mulher solteira e liberal!

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Mike liga às 3:00, confirmamos nosso encontro e lhe dou meu endereço.

Papai liga às sete para confirmar se irei passar o Natal com ele e com a Alimente-o-Seu-Espírito (mais conhecida como Sue).

- Sim, irei.

Como se não tivesse mais nada para fazer. Mal posso acreditar que já estamos quase no Natal. Será que já estou em Boston há seis meses? Iris liga um pouco antes das oito para perguntar por que eu não posso visita-la.

- Porque Renée não celebra o Natal e meu pai comemora.

- Que ótimo. Você gosta mais desse lado da família do que de mim.

- Iris, não seja boba. Passei duas semanas com você no verão antes de me mudar para cá.

- Oh, agora eu sou boba. Obrigada. Muito obrigada. – ela bate o telefone.

Ah, o drama adolescente.

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Mike interfona às oito. Digo a ele que não precisa subir. Não estou a fim de apresenta-lo para Alice, assim como também não estou com vontade de arrumar minha cama, catar as minhas meias espalhadas pela sala de estar... Estranho. A Alice-solteira-e-moderna não ficou me atormentando para limpar a casa nos últimos dias. Talvez a separação tenha servido para que ela reavaliasse o mundo e o seu lugar nele, forçando-a a perceber que não pode controlar todo mundo à sua volta como se fossem bonecos. Ou talvez esteja tão ocupada em vagabundear por aí que não pensou nisso.

Estou usando minha roupa para primeiros encontros, é claro. Mas deixei meu cabelo ondulado. Não há sentido em me mostrar linda demais, no caso de eu não gostar dele. É difícil se livrar de um sujeito que é louco por você depois que está fisgado. Suponho.

Ele está em pé ao lado do carro azul-claro – você conhece o tipo, parecido com o que Kevin Arnold herdou do avô em Anos Incríveis. Felizmente, ele é mais bonito que seu automóvel. E do que Kevin. Bom para Julie, por ter um irmão como ele. Fico me perguntando se não é difícil para ela ser a irmã mais feia. Será que pelo menos é a mais inteligente? Espero que não. Não que eu saiba o que é isso. Minha irmã parece comigo quando eu tinha 16 anos, só que é mais baixa, mais magra e tem seios maiores. Apesar de ter muito de Charlie em mim, sou bem parecida com Renée, assim como Iris. Ambas temos o formato do rosto de mamãe, Iris tem os seios dela e eu as coxas. E, acima de tudo, somos excepcionalmente inteligentes. Não há rivalidade entre nós. Apenas vaidade. Pergunto-me se Julie e seu irmão são próximos assim. Imagino se as garotas não se aproximam dela apenas para poder conhecer Mike. Elas o fariam se ele fosse mais velho que a irmã. Será que ele é mais velho que eu ou tem a minha idade?

Mike sorri para mim, ou pelo menos o sujeito que suponho ser Mike sorri na minha direção, já que é o único que está ali em pé e parece muito com o sujeito que vi na foto. Por isso, a não ser que Mike tenha um irmão gêmeo secreto e ambos estejam fazendo uma daquelas brincadeiras estúpidas como em Operação Cupido, provavelmente é ele. Não parece exatamente igual ao moço que eu vi na foto – tem os ombros e a compleição menos larga do que eu pensava (será que estava usando enchimentos?), mas seu sorriso é mais bonito e isso até compensa um pouco.

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Em vez de irmos a um café, Mike me convida para vermos uma exposição no Museu de Belas Artes. Ele marca três pontos por isso: um por criatividade, um por ter um lugar para ir sem ficar dizendo "não sei, o que você quer fazer?", e outro por ter cultura e saber de coisas como exposições.

Conversamos rapidamente sobre Julie no carro. Ainda não sei muito sobre ele. Como, por exemplo, onde trabalha. Eu quero perguntar isso, mas trata-se de uma pergunta muito delicada. Não quero que pense que eu sou o tipo de garota que só sai com caras que ganham muito dinheiro, mas quero saber se vou perder o meu tempo. E se ele atuar no mercado negro pornô? Será que não tenho o direito de saber isso imediatamente?

Ele não perde tempo dando voltas quando chegamos ao museu; simplesmente estaciona num pátio privado. Outro ponto. Quer me impressionar. Embora isso possa significar preguiça.

Aparentemente, o museu bomba nas noites de sábado. Quem poderia imaginar isso? Acho que cultura está na moda. Na hora de comprar os ingressos, é ele que paga (meu gesto falso de enfiar-a-mão-na-bolsa faz com que o moço diga "Não seja tola, fui eu que te convidei para sair e o prazer é meu"). Outro ponto para Mike.

Assim que entramos naquele recinto, sob um teto alto, branco e levemente intimidante, uma sósia de Jessica-Stanley-a-editora-metida nos pergunta se gostaríamos de pegar fones de ouvido. Não há nenhum custo adicional nisso, mas o clone de Jessica deixa muito claro que uma doação para o museu seria muito bem-vinda, além de olhar Mike com uma cobiça desmedida. Era o que me faltava.

- Eu fico com eles. – assim que coloco os fones, tomo consciência do erro lamentável que cometi. Como vou conhecer Mike se não pudermos conversar um com o outro?

Tarde demais. Uma voz nasalada e gravada já está me mandando olhar para a pintura da direita. Mike está ao meu lado concentrado. Aceno. Ele acena de volta. Oficialmente sou uma idiota. Além do mais, devo estar parecendoa cópia fiel da Princesa Léia, de Star Wars. Devia ter pedido um único par de fones para dividir – uma versão moderna do milk-shake com dois canudos.

E o passeio continua. Vemos algumas pinturas abstratas, umas peças de arte da Antiguidade, um Renoir... Muitas pinturas impressionistas. E então o vejo. Um quadro do pintor francês Paul Gauguin chamado De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? Estas, aliás, são excelentes perguntas. De onde eu venho? Isso eu sei: Danbury. Mas o que eu sou? Para onde estou indo? Essas são mais desconcertantes. A pintura a óleo mostra aparentemente grupos de nativos do Taiti (a voz gravada diz que ele foi para o Taiti uma em busca de uma sociedade primitiva). Tenho que ter esta pintura. Uma cópia, quero dizer. Preciso ter como observá-la constantemente. Por algum motivo desconhecido ela faz com que eu me sinta menos confusa, sabendo que os nativos do Taiti também estavam confusos.

Uma hora depois, chegamos ao final do passeio e tiramos nossos fones.

- Você se incomoda se formos até a loja? – pergunto. – Preciso ter uma reprodução daquele Gauguin.

Que sorte a minha, a loja de souvenir está fechada.

- Você quer tomar um drinque? – sigo na direção do café do museu.

- Na verdade – ele começa. – vou ter que ir embora, se não se importa. Tenho que levar minha avó ao aeroporto amanhã de manhã. Talvez possamos fazer alguma coisa na semana que vem.

Oh, meu Deus. Essa é a pior dispensada que eu já levei. Por que ele tinha que contaminar sua avó com as mentiras sujas? Que sujeito diz não para um drinque? Alguém que crê que ficará um pouco cansado no carro amanhã. Passo metade da minha vida como se estivesse num coma. Grande coisa.

- Claro. – respondo sem alternativa. – Tudo bem. – por que ele não está interessado? Eu não sou... o quê? Atraente o bastante? Graciosa o suficiente? Ele não gosta de Guerra nas Estrelas? Ouça, cavalheiro, você é até bonito, mas não é dono de uma personalidade explosiva.

De volta para o vovô-móvel (ele provavelmente roubou o carro da vovó e depois a abandonou numa esquina), deduzo que, já que obviamente não está interessado, posso muito bem ser um pouco grosseira e perguntar como ele ganha a vida.

- Sou assistente social numa escola secundária. – conta Mike. – Era isso ou a loja de suprimentos esportivos do meu pai.

Hum. Isto é bacana.

- Então por que você precisa acordar tão cedo? Sua escola abre às seis?

- Não, eu corro de manhã e depois, antes das aulas começarem, atuo como voluntário de consultoria de grupo para o anuário.

- Você quer ministrar seus próprios exercícios algum dia? – pergunto.

- Talvez. No momento, gosto de poder interagir com muitas crianças.

Se outra pessoa tivesse dito isso, eu poderia ter entendido da maneira errada. Ok, então ele nunca ficará rico, mas possui integridade. Isso não é apenas sorte. Finalmente conheço um sujeito que é bonito, planejador, culto, ama crianças e gosta de usar as mãos, mas que não quer nada comigo. Por que por que por quê? O que há de errado comigo?

Ele me deixa na porta de casa.

- Eu te ligo.

- Boa noite. – respondo segurando as lágrimas.

Por que ele não gosta de mim? O que vou dizer para Julie? Ela ficará terrivelmente incomodada ao meu lado, como acontece quando você vê alguém com comida presa no dente. Você não quer olhar, mas não consegue evitar. Ela irá me ignorar quando eu entrar no refeitório. Talvez se sinta tão culpada por ter me levado a ficar com o coração partido que me trará um pouco de chocolate. Ou passas vermelhas. Elas são doces e amargas ao mesmo tempo. Como quando você arranca as sobrancelhas. Hummm. Acho que vou levar um pacote para casa.

Adeus, meu doce e amargo Mike.

Acho que eu devia ter alisado o meu cabelo.


Bom, não vou dizer que o chato do Mike vai sumir tão rápido quanto o James e o Riley, mas aviso que logo o Jake vai dar as caras para confundir a Bellinha (:

Beijos e até o próximo!