Capítulo II

I: A vovozinha, o lobo e o caçador

Despertou pela nona vez naquela noite, sentia um calafrio constante e até mesmo uma brisa inocente lhe fazia abrir os olhos para espiar em volta cautelosa. Quem visse a garota de lábios vermelhos como sangue, cabelos negros como a noite e pele branca como a neve não a imaginaria tão fria quanto era. Margareth White Snowlles não gostava de dormir, sentia-se inerme toda vez que deitava na cama e só Deus entendia o quanto odiava aquela carapuça de donzela indefesa. Se pudesse dormiria com um olho aberto. Decidiu levantar, já deveria estar quase amanhecendo de toda forma. Foi até a janela e fitou a rua do primeiro andar da pobre hospedaria. Era aquela cidade que a fazia sentir assim, tinha algo ali, algo familiar e sombrio. Seu chefe a chamava de paranoica e a mandava esquecer Pandora. Como? Como esquecer o nome da ruína dos seus pais e mais que isso, por quê? Como caçadora não era comum que tivesse como alvo uma bruxa? O homem lhe criara desde os nove anos então vez ou outra lhe dava ouvidos, mas nesse caso não podia.

Seu nome de guerra ficaria sem sentido se o fizesse. Desde o princípio de seu treinamento tinha um objetivo apenas, degolar aquela que destruíra sua vida, nem sequer teve a decência de matá-la também, queria que sobrevivesse para ver tudo ou não teria brincado daquela maneira.

Ainda lembrava-se do cheiro de morte que a perseguia enquanto corria floresta adentro para encontrar sua avó, a única parenta que tinha viva depois do massacre na mansão White Snowlles. Usava um vestido branco banhado de sangue e corria chorando, seus cabelos negros e, na época, compridos voavam as suas costas, estava certa de que a fera a perseguia ainda. Por mais de uma vez caiu, assustada com as formas da floresta. As árvores pareciam sorrir malignas e os olhos amarelos, vermelhos e verdes dos animais a assustavam horrivelmente. Corria tão desesperada que errou o caminho levando muito mais tempo para chegar à casa de veraneio. Quando enfim reconheceu o campo vasto de grama baixa correu gritando pela velha senhora, tinha folhas e galhos nos cabelos desgrenhados, estava toda suja e ralada pelas quedas, quase não tinha força para manter a marcha manca e acelerada.

- Vovó? – chamava subindo para o quarto.

Tão assustada estava não reparou na ausência dos cavalos imperiais do lado de fora, ou dos empregados que sempre esperavam à porta, ou mesmo as manchas de sangue que figuravam no salão principal e nas escadas. Foi até o quarto controlando o choro e limpando o nariz na manga do vestido. Empurrou a porta do quarto e viu sua avó deitada na cama, ressonando tranquilamente. As paredes estavam arranhadas e a maior parte dos móveis destruídos. Com o corpo encolhido e trêmulo ela sussurrou pela velha.

- Vovó.

- Margareth. – ela respondeu com a voz fraca. – Se aproxime. – ouviu um estralar de ossos quando a mão lhe chamou a se aproximar, os dedos longos demais parecendo travar várias vezes no movimento.

Ao chegar mais perto, a menina pode distinguir na pouca luz as pupilas muito dilatadas da senhora.

- Que olhos grandes a senhora tem. – disse ainda chorando baixinho, sem coragem para perguntar à idosa se tudo estava bem, apenas chamou atenção ao que parecia estranho.

- São para te ver melhor, meu bem.

Andou um pouco mais na direção da sua velha e ouviu o ar passar sonoramente pelas narinas dela, já era de família ter o nariz um pouco mais avantajado, mas não tanto assim, não tão adunco.

- E que nariz grande a senhora tem. – andava mais devagar já pronta para dar meia volta a correr, algo estava definitivamente errado.

- É para te cheirar melhor, meu bem. – a voz ficou grave por um segundo perdendo a nota como um disco arranhado.

A menina parou no lugar e a mulher continuou chamando-a com a mão, ela negou com a cabeça e ficou onde estava. A idosa sentou-se na cama com dificuldade, todo seu corpo estralava, ela pôs os pés no chão e só então afastou a coberta revelando a barriga protuberante, anômala que já começava a rasgar o tecido da camisola. A mulher abriu a boca, a fenda se partindo muito além dos lábios. A Margareth menina deu alguns passos para trás, tão espantada que não podia correr.

- Que... Que boca grande a senhora tem. – disse com a voz trêmula voltando a chorar e viu a velha se levantar, a pele ficando negra e crescendo pelos esparsos.

- É para te comer melhor. – a mulher sorriu e passou a língua comprida por toda extensão da fenda – Vem com a vovó. – falou com a voz grave se pondo de quatro no piso de madeira e avançando lentamente em direção à criança.

Ela adquiria a aparência de um lobo perfeito, o mesmo que matara seus pais, a menina se encolhia na parede assustada, de olhos apertados, implorava por sua vida, mas a fera apenas rosnou já pronta para o último ataque. Margareth lembra-se bem do cheio horrível que sentira e do baque surdo no piso de madeira. Arriscou abrir um olho e depois o outro, viu um sangue arroxeado escorrendo do lobo, uma espada de cabo dourado cravada em seu pescoço.

- Vovó? – perguntou estupidamente preocupada com seu quase carrasco.

- Era sua parenta? Foi mal.

Ela se espantou ao ouvir a voz do homem e recuou instintivamente com os olhos castanhos bem atentos na figura parada ali em frente. Era um homem alto, com vestes surradas, barbudo e sujo, o cheiro ruim voltou a suas narinas e tapou o nariz infantil. Ele apenas riu bonachão indo buscar sua espada.

- Não me admira que meu cheiro te incomode. – limpou o sangue da lâmina na veste sem se importar em sujá-la ainda mais – ainda mais com um nariz desse tamanho. – completou cretino.

A adrenalina estava mesmo alta demais, senão era teria retrucado a piada de mal gosto. Ele colocava a espada nas costas junto com a outra, formando um x com as lâminas.

- Sua vovó comeu meu cavalo, fiquei sem ter o que montar. – contava desolado – Era um bom cavalo, merecia a vingança. – encarou os olhos cor de chocolate e a viu desconfiada – Onde estão seus pais? – a menina apenas fitou inconsciente a barriga protuberante do lobo – Ah, entendo. – cruzou os braços e a encarou de cima – Tem pra onde ir? – ela negou incerta com a cabeça – Vem comigo então. Vamos lhe arrumar um bom lugar pra ficar.

Disse estendendo a mão suja para a menina, ela olhou mais desconfiada ainda, mas acabou pegando, que escolha tinha afinal? Margareth estava certa de que Dohko não tinha intenção nenhuma de pegá-la para criar, mas foi o que acabou acontecendo. Descobriu que ele estava no encalço de Pandora e o fez treiná-la a perfeição. Acabou herdando seu jeito debochado, mas não o desleixo, era uma caçadora perfeita. Olhou para as altas torres do castelo e crispou insatisfeita. Que custava levá-la junto? Ajeitou os cabelos curtos atrás das orelhas e decidiu sair, pegando a capa vermelha e alinhando sobre os ombros. Para onde não sabia bem, só queria matar o tempo até ele voltar, se é que ia, não raro o mestre a deixava para trás dizendo que aquilo não era vida para uma donzela e isso lhe dava uma baita vontade de lhe chutar entre as pernas.

II: Sapos e rosas

Na calada da noite, Afrodite revirava-se em seu quarto. As imagens de garotas queimadas não lhe saiam do mente, lhe apareciam em pesadelos ou mesmo em sonhos comuns atrapalhando seu sono de beleza. A certa altura resolveu simplesmente levantar, a noite estava quente e iluminada por uma lua que parecia rir dele, debochada no céu. O loiro de belos cabelos ondulados levantou-se desistindo de cochilar, acendeu uma vela e pôs um robe sobre os ombros, deixando-o aberto, revelando o peito nu. Saiu do quarto bagunçando os próprios cabelos enquanto andava.

Não deveria, mas se não soubessem, o que teria de mal?

Foi até a base da torre do principado, atravessando corredores vazios, os pés descalços não faziam barulho algum ao tocar o piso frio, mas a luz desaparecendo a cada curva chamou a atenção de certa convidada indesejada. Assim como Afrodite, a bruxa estava insone por sonhar com rostos queimados, na verdade, por sonhar com seu rosto queimado, mas infelizmente para ela isso não se resumia a um pesadelo. Seguiu o jovem cavaleiro que tinha aquele jeito de quem desfilava para multidões mesmo quando sozinho, havia nascido para a realeza, pensava ela, mas vocação para príncipe não bastava, o sangue azul que definia a linhagem. Como percebendo a presença a bruxa o loiro olha para trás desconfiado e pensa ter visto algum movimento, vira-se em parte e troca a vela de mão a empurrando mais em direção à treva. Pandora desenvolve uma clara expressão de surpresa ao ver a face do cavaleiro, a luz era fraca, mas aquela pele iria reluzir em qualquer nível de iluminação, ela branca e lisa como mármore, os olhos grandes se mostravam em azul e laranja em decorrência do fogo, os lábios rosados se destacavam na face como pétalas de rosa e o sinal acima da bochecha não poderia significar nada além da mais pura beleza. A bruxa levou a mão ao peito que ardia de inveja. "Outro", pensou, "Outro espinho". Ela recuou dois passos quando o cavaleiro avançou em sua direção deveras desconfiado.

Ele não sabia dizer o que era, não havia som ou visão, encarava a escuridão imaculada do corredor e de alguma forma sabia que havia algo lá. Os olhos se estreitavam tentando focar alguma coisa na pouca luz, continuava avançando na direção da treva com aquela sensação no peito, tateou a cintura, onde deveriam estar seu chicote e espada mas lembrou-se de estar completamente desprevenido em sua veste de dormir, não gostava, mas se fosse o caso saberia lutar com as mãos nuas. Mas da mesma forma súbita que a sensação veio, ela se foi como se tivesse se desfeito em fumaça no ar. Ele ainda moveu a vela de um lado a outro procurando por uma última vez, mas acabou por convencer-se que era coisa de sua imaginação, a falta de noites bem dormidas lhe estava afetando. Virou-se novamente retomando a curta caminhada a seu destino e a bruxa se refez a suas costas tomando uma distância maior para evitar que a percebesse de novo. O instinto de um caçador realmente não era algo para se brincar.

Chegou ao salão de banho dos príncipes, aproximou-se de uma das colunas de pedra e girou uma chave dourada, para depois encostar o fogo da vela em uma lamparina de mesma cor que figurava logo ao lado. Quando o fez o fogo acendeu azul diferente da luz amarelada do candelabro, e logo à frente em outra coluna quadrada de pedra rústica outra lamparina acendeu, e outras mais em seguida circundando a piscina até iluminar por completo o ambiente. No lado oposto ao pequeno lago de mármore havia um vasto jardim de inverno que espalhava o cheiro de folhas de eucalipto por todo o recinto. Estava tão silencioso que era possível ouvir o som da seda bordada deslizando pela pele alva do cavaleiro. Ele ficou nu e a água levemente morna pareceu emitir um ruído se satisfação quando ele lentamente imergiu na piscina. Um ou outro sapo coachava formando uma singela orquestra com um grilo e uma cigarra distante.

Relaxou músculo por músculo no lago artificial e caminhou um pouco até o meio arquejando o tronco como se deitasse na água, molhando os cabelos loiros e bagunçados, depois ficando ereto e mergulhando com os fios formando uma onda sobre a cabeça. A bruxa sentia a boca seca e engolia a cada ação do cavaleiro escondida na sombra da copa do frondoso eucalipto, cada movimento parecia ser ensaiado para seduzir-lhe e isso a desgostou. Se pelo menos seu rosto estivesse são não teria dúvidas e pular na água naquele segundo e o deixar que mostrasse que os traços delicados não faziam dele menos homem. Mas do jeito que estava, queimada como um porco esquecido no forno não havia a mais remota chance de ele deixá-la se aproximar. Então se não podia tê-lo... Ela deixou um sorriso macabro surgir nos lábios e com as duas mãos jogou os cabelos esvoaçantes para cima deixando-os quase na vertical, deslizando pelo tronco retorcido até tocar os pés na grama rala que interpelava as raízes.

Agachou-se, tomando cuidado para esconder-se sem perder a visão do cavaleiro tomando fôlego com a mais pura expressão de deleite. Ele penteava os cabelos com os dedos e acariciava a face perfeita, descia as mãos pelo pescoço e logo pelo peitoral definido, fazendo a bruxa salivar mais uma vez. A boca do rapaz entreaberta, uma gota de água pendia no lábio superior contornando-o em seguida e sendo recolhida prontamente pela língua. Era difícil afastar os olhos, mas aquele espetáculo a estava irritando.

Ela encostou a mão no chão e sete sapos se aproximaram de seus dedos, um a um, ela os catou na mão queimada e deu um beijo ardoroso, envenenado, tinha como propósito destruir a beleza do cavaleiro em cada ponto que eles o tocassem, o deixando com horrendas verrugas, assim como aqueles anfíbios. Em fila eles foram até a água mergulhando sem barulho. Ela deu um sorriso inteiro, aberto, quando viu as sete manchas escuras sob a água cristalina. A luz azulada fazia os olhos do loiro brilharem como neon, e esses mesmos olhos viraram em sua direção encarando a treva entre o tronco e os arbustos vizinhos, certo de ter visto algo reluzir ali, mas uma segunda vez seu instinto se esvaiu de súbito. Ele contraiu o rosto desconfiado, mas logo deu de ombros, voltando a banhar-se alheio aos animais nadando em sua direção.

Submergiu lentamente fechando os olhos. Os sapos envenenados se aproximaram de sua pele, mas ele era tão lindo, tão absurdamente belo que o plano não correu como Pandora esperava. Em vez de Afrodite ficar deformado ao toque dos bichos, os seis primeiros sapos que tocaram sua pele é que se transformaram em viçosas rosas vermelhas que aos poucos flutuavam à superfície. O sétimo subiu em sua cabeça e lá ficou quando ele emergiu puxando o ar para os pulmões. Por um breve segundo a bruxa achou que ao menos o último vingaria, mas para sua frustração esse também se transfigurou. Virou um botão de rosa branca que se enroscava aos cabelos molhados e quando ele, estranhando o novo contato o pegou na mão, ele abriu-se revelando as alvas e delicadas pétalas ao toque de seus dedos.

Quando viu as rosas Afrodite teve certeza que algo estava errado, olhou na direção do jardim pronto para ir até lá e verificar. Caminhava em direção ao eucalipto atrás do qual a bruxa se encolhia furiosa por não ter conseguido seu intento e então some deixando apenas a fumaça negra e fumegante para trás. Mesmo que o cavaleiro sentisse que estava agora completamente só, continuou a andar intrigado, as ondas cantando enquanto abriam caminho. As rosas pareciam segui-lo a cada passo formando uma comitiva atrás de si. Ele pegou uma na mão e a esmagou soltando pétalas vermelhas na água.

O cavaleiro foi surpreendido por um estrondo da porta abrindo violentamente, mirou para trás e viu os olhos de uma besta assassina, era uma íris escura, azulada e destacada pelas chamas do local, enquanto se movia para luz, Afrodite outrora alarmado estampou na face uma expressão de desprezo.

- Máscara da Morte. – falou o nome revirando os olhos e depois reparou nas mãos e roupas do cavaleiro embebidas em sangue, devia ter deixado uma bela trilha no caminho até ali – Será que não se cansa disso?

- Nunca. – disse com o jeito matreiro, os ombros faziam um movimento charmoso enquanto andava e ele passou a mão no queixo de forma desleixada – Faz parte de mim, não posso evitar. – falou levando as duas mãos as costas e puxando a camisa rápido – Não acredito que está perfumando o banho com rosas. – zombou.

- Não estou. – respondeu torcendo o nariz e esmagando outra rosa vermelha na mão.

Pensou em explicar ao outro a sensação estranha e o aparecimento das rosas, fitou o jardim de inverno mais uma vez sentindo o peito apertar de forma estranha, mas resolveu não tentar falar com ele. Máscara da Morte, a despeito de tudo que já tinha visto, era cético ao extremo, provavelmente riria de sua cara. Não, melhor deixar pra lá.

Ouviu o baque pesado na água e olhou para o outro que relaxava, recostando na parece e apoiando os braços na borda como se estivesse em um sofá de luxo.

- Isso é que é vida. Esses príncipes sabem o que é bom. – dizia afundando mais na água, mas sem preocupar-se em limpar as mãos e o rosto sujos de sangue.

- É, e você não deveria estar aqui. – disse em tom arrogante.

- Nem você. – disse franzindo o celho, mas o ignorando em seguida – Fica falando de mim, mas também está aqui no meio da noite. Que diabos está fazendo acordado? – disse com um semblante sério e estranho.

Só então Afrodite sentiu o cheiro de bebida vindo dele e fez uma careta, será que não passava uma noite sem alimentar seus vícios? Andou até uma borda da piscina distante dele, e recostou com calma, suspirando, não estava a fim de falar com bêbado.

- Insônia, pra variar. – disse olhando pra cima e torcendo a boca – E você? Não dorme não, é?

- Só quando preciso. – disse encarando o outro com um sorriso malicioso que deixou Afrodite incomodado.

- Sei que sou lindo, mas fica estranho pra você ficar me encarando assim. – falou de forma arrogante, passando as mãos pelos cabelos que ondulavam na água.

- Não se ninguém souber. – riu debochado e esticou-se um pouco na direção dele, sem sair do lugar – Sabe que quando entrei você estava parecendo muito com uma mulher.

- Credo, homem. – Afrodite o olhou vagamente ofendido e com um tom mais firme completou – Não quero nem imaginar o quanto você bebeu para estar falando essas besteiras. – o outro riu e Afrodite se levantou e com seu andar elegante foi até seu roupão – Boa noite e vê se dorme! Não quero ter que salvar sua pele porque está com sono. – repreendeu e saiu enquanto vestia seu robe.

- Você me salvar? – riu alto – Essa é boa. – falou num tom que ele pudesse ouvir lá de fora – É, não foi tão difícil espantá-lo quanto pensei. – disse satisfeito para si mesmo e mergulhou tingindo a água de vermelho.

Não ficava nada confortável dividindo a mesmo ambiente com outro homem nu, Máscara da Morte era do tipo solitário e gostava disso, nada contra o loiro, mas preferia assim.

III: A princesa e o prisioneiro

Ainda era noite quando a moça se movia furtivamente pelas ruas de Paris, usava um manto como capuz e tomava todo cuidado para que as pulseiras não fizessem tanto barulho, chegava ao tronco onde um prisioneiro dormia de pé, as mãos e pescoço presos na peça de madeira. Um soldado estava de guarda, mas o homem pançudo estava quase cochilando, talvez pudesse ir até lá sem despertá-lo, mas preferia não arriscar. Mexeu na grande bolsa que pendia a altura do quadril e tirou dela um pandeiro com fitas balançando-o rispidamente para que fizesse barulho. O guarda pareceu despertar, mas logo as pálpebras se fecharam novamente pesadas demais. Esmerald torceu a boca e caminhou até um beco, um pouco mais perto de onde os homens estavam. Aquele que estava no tronco a viu e ela acenou sorrindo, ainda que ele parecesse horrorizado com sua presença ali, as mãos sacudindo como se a mandasse embora. Ela fez uma expressão de não se preocupe e soou o pandeiro uma segunda e terceira vez em seguida. O guarda acordou de vez e estreitando os olhos procurou pela origem do som, pode discernir uma figura encapuzada, sentada de forma largada no beco com o instrumento na mão e ralhou a silhueta. Esmerald puxou o capuz relevando os volumosos cabelos negros e pedindo um perdão meloso demais quando o gordo a repreende.

Ao ver que era uma moça bonita o guarda se levantou puxando as calcas para cima, e com um sorriso grosseiro andou até ela. A morena puxava um pouco a saia mostrando o joelho e final da coxa, certa de atrair a atenção do gordo.

- Desculpe, moça. Não pode ficar aqui. – disse encarando a pele morena – Mas se lhe agrada, posso arrumar uma cama quente onde possa dormir. – ele passa a mão na boca limpando o vestígio de baba que escorrera pela boca durante o sono com um olhar de quem jurava estar sendo sedutor.

- Oh, gentil senhor! – dizia melosa enquanto levantava lentamente, vendo os olhos do homem irem de sua perna ao ombro nu – Seria maravilhoso, estou a muito tempo jogada nessa rua fria e deserta. – dizia em tom quase teatral.

Mexeu o quadril bruscamente fazendo as medalhas do lenço em sua cintura tremerem e imitarem o som do pandeiro, os olhos verdes muito atentos ao gordo que umedecia os lábios. Aproximou-se dele, pondo uma das mãos em seu peito de metal. Era ridículo, a armadura parecia ser feita para encaixar num peitoral trabalhado, másculo, forte, no entanto estava era encobrindo a banha daquele homem, que em muito lembrava um sapo velho. Mas a veste protegia bem, o que dificultava as coisas para a cigana, mas Esmerald era esperta demais. Em suas costas a outra mão guardava um adaga, e ela sabia bem como usar, a expressão sedutora e maliciosa distraiu o homem enquanto ela colocava a mão em sua nuca, tendo certeza de deixa-la firme. Chegava mais perto o vendo levantar as mãos pronto para tocá-la. Mas ele nunca iria.

Em um movimento destro e rápido a garota atravessou a lâmina no queixo duplo, em riste na vertical, na direção do cérebro. Ele caiu morto no instante seguinte e ela o puxou com dificuldade mais para o beco, assim demorariam mais para encontrá-lo, pegou sua adaga de volta, limpando em um lenço que tirara de entre os seios e jogando-o em cima do morto.

- É o mais próximo que vai chegar deles. – disse sorrindo e correu divertida em direção ao prisioneiro.

- Isso foi loucura, princesa. – dizia preocupado e angustiado, ela riu de leve – E foi em vão, veja, o sol já está nascendo. – a cigana olhou para cima, e se apressou em ir em direção as trancas, quase entrando em pânico ao vê-las.

Haviam três cadeados encima, fora correntes com pesos nos pés, não conseguiria livrá-lo a tempo. Mas é claro, depois de ter ajudado o amigo e súdito em tantas fugas eles tinham que tomar providências para que isso tivesse um fim. Ela ajoelhou pondo a mão em seu rosto, era fácil ver sua expressão de desespero.

- Você já havia previsto isso. Está tudo bem. – tentava acalma-la – Mas você tem que deixar Paris. O ministro não vai parar até acabar com todos nós.

- Mas eu...

- Ciganos tem natureza nômade, Esmerald. Eles vem e vão, não faz bem para você viver em um só lugar a vida toda. Principalmente sendo este o lugar onde seus pais morreram como eu morrerei. Já basta.

Ele falava com a calma e sabedoria que só um condenado a morte poderia ter, quando não se estava mais no jogo era possível visualizá-lo com mais clareza e aquele homem já se considerava morto.

- Os ciganos que vieram do norte lhe deixaram mapas de um reino onde não fazem fogueiras com nosso povo, fuja para lá e viva sua vida. – foi mais uma ordem que um conselho.

- Você... – ela começava tentando engolir o nó na garganta.

- Eu já estou morto. – lhe sorria conformado, ao longe podia se ouvir a multidão que viria assistir o espetáculo na praça de pedra – Agora vá.

Ela lhe deu um beijo sofrido na testa e se afastou endireitando o capuz na cabeça. Ficou a certa distância de onde a pira estava preparada, a multidão aumentou a sua volta camuflando-a entre os rostos. Engoliu qualquer ânsia de choro quando o amarraram ao tronco. Ele estava certo, ela deveria partir, mas antes... Quando o fogo acendeu, ela não mais quis olhá-lo, além do mais tinha que concentrar-se em outra tarefa mais urgente. Tanta gente distraída no mesmo lugar, não havia ambiente mais propício, colocava os dedos leves para trabalhar. E assim ela decidiu deixar sua nem tão querida Paris: com peso em seu coração e muitas moedas de ouro nos bolsos.

IV: Espada, martelo e arco

Em um bosque próximo ao castelo, em uma vasta clareira de grama amarelada dois homens disputavam um duelo. Muito mais leve com a armadura de treino Shura se movia com maestria, seus membros superiores se alongavam como lâminas e a Excalibur parecia apenas ser um complemento para o braço, como se fosse parte do corpo, como se tivesse nascido com ele presa ao punho. O sol mal surgira no horizonte e o bosque ainda guardava uma agradável penumbra, mas nunca é cedo ou tarde de mais para o treino para quem almejava a perfeição. A Excalibur lhe foi mais um fardo do que uma honra, ela trazia atrelada a si o nome de El Cid, seu último portador, o cavaleiro de um braço apenas e um braço, ele costumava dizer, era tudo que precisava para empunhar uma espada. Shura tinha ganas de superá-lo, mas se não fosse possível honraria sua lenda igualando a ele em habilidades, não importava quanto suor tivesse que derramar.

A lâmina vibrou ao chocar-se diretamente com o martelo quadrado de aço, não sabiam qual o segredo aquele metal, se fosse qualquer outra espada teria se partido ao meio. Seu adversário era mais hábil do que jamais pudera imaginar, quem conhece sua índole gentil e vê sua aparência frágil – em comparação à dele, ao menos – não imaginaria a força que guardava naqueles braços. O martelo sozinho devia pesar mais de cinco quilos, mas ele o girava na mão como se fosse feito de papel, sem esforço aparente o erguia e golpeava sem dificuldades e isso não o fazia menos ágil. Sua outra mão, também experta, trazia um segundo martelo, menor e pontiagudo parecia frustrar toda e qualquer tentativa de Shura de medir forças com o Primeiro Conselheiro, enganchando-o no fio da espada e movendo-a do lugar. Mu era inteligente demais e não precisaria ser um gênio para saber o que aconteceria se todo aquele embate dependesse unicamente de músculos.

O rapaz mais jovem se movia de forma fluída, cada o golpe ou defesa anterior estiva sempre preparando caminho para o próximo movimento e mesmo os ataques de Shura se encaixavam em seu estilo, como se o moreno estivesse fazendo exatamente o que ele queria. Os dois mantinham-se sérios em um embate que não dava espaços nem para tomar fôlego, cada golpe tinha uma resposta pronta o esperando. O Sol nasceu assistindo ao duelo, jogando luz amarela e rósea por toda extensão da clareira, passarinhos cantarolavam todos de uma vez, dando o fundo ao ritmo do confronto de metal contra metal e exclamações de esforço a cada ataque.

Um ronco alto atrapalhou a sinfonia e fez os duelistas olharem para o príncipe que dormia abraçado a sua espada, acomodado entre duas raízes de árvore e já com baba escorrendo pela boca. Mu encarou o cavaleiro e fez uma leve reverência colocando o treino em hiato por um segundo. Shura apenas assentiu enterrando a Excalibur na terra e sentando-se ao lado da mesma. Havia cansado, o conselheiro havia ditado o ritmo da batalha e não estava acostumado aquele estilo de luta tão rápido.

O rapaz segurando seus martelos, que na verdade eram ferramentas de ferraria, uma vez que além de conselheiro do principado – e babá de Aiolia – era ferreiro interino da armada, andou até Aiolia, e dando um sorriso gentil soltou as duas armas pesadamente sobre o príncipe, que acordou com um urro de dor. Estava ainda confuso por ter acordado de um sono tão profundo e demorou a reconhecer Mu sorrindo de forma travessa e com as mãos unidas sobre o abdômen, em uma posição clássica para os conselheiros. Empurrou os martelos para o lado e pôs-se sentado encarando o rapaz ferinamente.

- Vou mandar matar-lhe por atentado contra a vida do príncipe. – disse duramente.

Mu apenas alargou o sorriso e sustentou seu olhar nem um pouco intimidado pela ameaça vazia.

- Se queria dormir, Aiolia, devia ter ficado no seu quarto, não precisava ter vindo. – lhe falou sabiamente.

- Eu quero treinar. – retrucou de imediato – Mas é que ainda estava meio escurinho e quando está meio escurinho me dá sono. – disse manhoso coçando o olho e bocejando.

Atrás deles Aioros ria do irmão, é bem a cara dele, discutir que queria porque queria treinar e acabar dormindo no primeiro lugar que se encosta. Ainda risonho mirava um flecha em um alvo distante dali, meio escondido entre as árvores quase não se podia ver o ponto vermelho já espetado por mais de seis setas. Puxou a corda do arco com mais força e a expressão tornou-se dura os olhos estreitaram e segurando o ar nos pulmões soltou a flecha acertando o alvo em cheio e indo mais fundo no tronco de árvore, abrindo uma rachadura alongada.

- Pois não está mais meio escurinho. Já pode ir treinar, sua alteza. – disse Mu dando um chute na coxa de Aiolia.

O príncipe loiro reclamou afastando-lhe o pé rudemente e praguejando alguma coisa sobre atrevimento ser o caminho mais curto para a guilhotina. Pegou a espada e ficou de pé indo em direção a Shura que também se erguia do chão secando o suor com as costas da mão. O príncipe ficou em guarda com sua posição única. Aiolia tinha os trejeitos de um pugilista, não raro usava o cabo da espada para golpear o oponente, tirava muito mais da espada do que o fio da lâmina. Era violento, pouco elegante, mas eficaz, provavelmente ficaria melhor com uma adaga em cada mão, mas teimava na espada longa. De fato, não fazia feio com ela. Shura se pôs em guarda e os dois começaram o duelar, Aiolia com uma vantagem clara por estar completamente energético enquanto Shura já mostrava sinais de cansaço.

Mu sorria observando os dois, satisfeito por o príncipe ter enfim se movido do lugar, mas logo seu sorriso se resumiu a uma curva leve que lhe dava uma expressão amigável quando ouviu o príncipe mais velho suspirando não parecendo muito contente. Caminhou até ele prestativo. Aioros brincava de envergar em arco e olhava um tanto insatisfeito para seu alvo já destroçado a frente.

- Quer que eu lhe arrume outro alvo, alteza? – com Aioros se mantinha cordial, mesmo que o príncipe lhe dissesse que não era necessário.

- Não estou satisfeito com esses alvos, preciso de algo móvel, não é como se nosso inimigo fosse ficar parado esperando que eu vá acertá-lo. – o conselheiro assentiu.

- Então ponha um alvo nas costas do Mu e mande-o correr! – disse o jovem loiro entre ataques, mal conseguindo se esquivar de um golpe no pescoço – Hey! Isso é só treino, não é? – deu passos rápidos para trás e encarando o outro enquanto passava a mão pelo pescoço assegurando de que não havia sido atingido.

Shura apenas sorriu de canto o que fez Mu soltar uma gargalhada rápida e um "Bem feito!", irritando mais o jovem príncipe.

- Levo meus treinos muito a sério, alteza. – falava com seriedade – Achei que já sabia. – avançou em uma série de ataques fortes que Aiolia tinha dificuldade em defender.

Isso divertiu os outros dois rapazes que riam de um Aiolia desajeitado com a espada desconfortável na mão, recuando e esquivando cada vez com menos equilíbrio.

- Aiolia, vê se não morre. – Aioros advertiu.

- Não seria melhor você dizer para ele não me matar?! – exclamava com os olhos arregalados vendo as espadas se chocarem cada vez mais perto de seu rosto.

Aioros apenas riu por um segundo e depois suspirou voltando a fitar as flechas amontoadas no alvo. Pegou outra seta e mirou com a mão ainda frouxa.

- A lenda diz que o príncipe Sisyphos era capaz de arrancar as asas de uma libélula sem matá-la. – disse ficando sério.

- Uma libélula que não voa não tem destino diferente da morte, alteza. – falou seriamente o que fez Aioros sorrir de leve e desarmar a flecha, soltando uma mão e bagunçando os cabelos do jovem conselheiro como se fizesse carinho em um cachorro.

- Está certo. – concordou, pegando as flechas e pondo nas costas – Mas irei acertar uma mesmo assim. Volto logo. – disse levantando uma mão e adentrando a parte mais densa do bosque.

Mu assentiu sério arrumando seus cabelos castanhos claros, não muito contente com o afago de há pouco. O conselheiro voltou sua atenção para a luta que Aiolia parecia levar melhor agora, e depois olhou para o lugar onde ele cochilava a pouco, indo até lá e acomodando-se, verificando que era mesmo confortável. Puxou as mangas da camisa deixando os braços brancos de fora e unindo as mãos sobre o abdômen, fechou os olhos tranquilo, pronto para tirar a soneca dos justos.

V: A seta e o salgueiro

Ela dormia entre canteiros de flores que se fechavam em forma circular escondendo a silhueta feminina encolhida na grama verde, provavelmente a única em todo bosque que não havia perdido a cor ainda. O cabelo demasiadamente liso lhe cobria o corpo como um cobertor, tinha a cor das castanheiras e reluzia aos primeiros raios do sol. A luz mal havia tocado seu rosto e ela já despertara sentando e esticando os braços para cima, espreguiçando-se sonoramente, o movimento leve da fada fez com que os botões de flores nos canteiros também abrissem, como se também espantassem a preguiça.

- Bom dia. – disse coçando o olho e sorrindo em seguida.

Todas as plantas balançaram suas folhas de leve ao vendo, murmurando-lhe uma resposta amigável. Ela ficou de pé e caminhou ainda sem rumo pelo chão que cobria-se de folhas com a chegada do outono. A cada canto que pisava o capim amarelado morria e em seu lugar nascia um tipo único de grama, com a cor meio azulada em um tufo que se apresentava como uma semiesfera, e no centro dele, viçosa, porém solitária, uma única violeta abria lentamente, deixando um rastro de flores onde a garota passava. Olhava desolava para as pequeninas pétalas e suspirava, sabia o que significavam. "Penso em ti em segredo", era o que aquele lilás tímido queria dizer. E Flora pensava nele assim, só a floresta entendia o quanto aquilo era verdade. Já havia mais de mês desde a última que o vira, mas seu sentimento parecia teimoso demais para esmorecer. Alongou o corpo moreno quando sentiu os raios do Sol alcançarem o rosto delicado. Estava bem quente naqueles primeiros dias de outono, como se o verão estivesse relutando em partir, mas as plantas estavam carregadas de frutos e sementes prontas para iniciar seu lento namoro com a terra e dar origem aos mais adoráveis bebês. Ela ia despreocupada até seu pessegueiro favorito se fartar de fruta no café da manha, mas então viu algo que fez eu coração martelar no peito. Nas raízes do único salgueiro negro daquele bosque uma flecha de pena nobre abria espaço na madeira, e ainda que o objeto fosse para ela repugnante uma vez que feria seus amigos queridos, o que ele significava lhe trouxe uma doce ansiedade ao peito. Levou ambas as mãos ao colo olhando em volta, procurando aquele que disparara a seta. Em volta dela o chão se enchia das mais diversas flores, um para cada sentimento que implodia em seu coração.

Mas antes, lembrou-se, caminhou até o salgueiro preocupada em tirar-lhe a flecha e usar seu poder fechar a ferida na raiz. Ajoelhada ao lado da árvore anciã arriscou fitar sua copa com os olhos cor de mel, a árvore parecia compreender o que a flecha deixada tão carinhosamente em seu colo significava e pareceu repreender-lhe, mas Flora não deu importância, embora geralmente respeitasse a opinião de suas amigas, aquele salgueiro sempre lhe havia sido rabugento.

Ela levantou-se apressada e saltitando pela mata pôs-se a procurar o tão querido arqueiro. O encontrou pouco depois de um tropicão que a havia feito ir de cara no chão, estava posição de guarda, certamente a havia ouvido se aproximar e se alarmou. A morena deu um sorriso mordendo o lábio inferior, mal cabia em si de tanta excitação, seu peito subia e descia rápido, queria rir um pouco de tão alegre, mas se controlou inspirando profundamente e observando o rapaz que girava em seu próprio eixo, o arco pronto, mas a mira baixa tentando precisar a direção do som que ouvir a pouco. Ela o espiava por entre as árvores, os cabelos lisos se confundindo aos tons da mata, mas ainda estava tão longe, podia fazer melhor.

Juntou as mãos sobre o colo, soltou um suspiro sonoro que mais parecia uma nota de flauta, se viu envolta de um fraco brilho dourado e diminuiu de tamanho, ficando pouco menor que uma borboleta. Suas asas cintilantes batiam emitindo um zumbido adocicado como o som de guizos. Iniciou um voo inocente circundando-o de longe, esperando que o que restava do brilho dourado se desfizesse antes de ir voar em volta dele como uma mosca chata. Se pudesse o encantaria para que a amasse para sempre.

Os ouvidos aguçados do príncipe captaram o zumbido e ele sorriu satisfeito, fechou os olhos por um momento, concentrando-se na direção, seus pés moviam-se lentos, deixando que girasse o corpo sem pressa, levantou um pouco a mira, preparando a flecha, mas ainda sem um alvo em vista. A pequena fada se aproximava a cada volta que dava formando uma trajetória em caracol e Aioros já havia se dado conta disso, mesmo não assimilando o comportamento singular do zumbido. Não demorou para que os belos olhos verdes vissem o movimento mínimo de asas destacar-se entre galhos. O bosque parecia sussurrar com o som das folhas, o ruído ficando mais alto, criando tensão para o príncipe, tentavam avisar à morena, mas Flora estava tão encantada que não os ouviu.

Focou perfeitamente seu pequenino alvo na mira. Asas, apenas as asas, como o grande Sisyphos. Ele ainda girava, acompanhando a trajetória do que acreditava ser um inseto e assim que teve a visão limpa puxou mais a corda, deixando a seta deslizar voraz por entre os dedos.

O bosque calou-se, nenhuma folha mexia, até mesmo os passarinhos deram fim ao seu canto, o único som era o do jovem moreno esmagando folhas secas com os pés enquanto avançava excitado até sua flecha. Flora não entendeu muito bem o que tinha acontecido, em um segundo flutuava no ar risonha, feliz como sempre ficava quando o via e no segundo seguinte... No seguinte estava...

Caiu no chão, felizmente entre folhas macias, mas ainda assim sentiu o corpo doer com o impacto, suas costas pareciam queimar como brasa, as sentia arder de tal maneira que nem conseguia curvar para levantar-se, um gemido agudo de dor saiu de sua garganta quando tentou mexer, e ficou ainda pior quando a folha seca cedeu ao seu pouco peso e rasgou fazendo-a cair de dolorosamente de costas na folha seguinte. Estava zonza e sua visão nublada de dor, limitada por um rasgo na folha a cima, mas pode distinguir dois pontos cintilantes rodopiando enquanto desciam com leveza, como se brincassem com o ar.

- Minhas asas. – deu-se conta, sem muita força para falar.

Os olhos se enchendo de lágrimas e o rosto se contraindo em choro, agora entendia aquele flagelo lascivo e incessante. Viu depois com muita dificuldade uma mão a agarra-las suavemente no ar e com mágoa crescente em seu peito viu um sorriso no rosto do belo príncipe.

- Por quê? – lhe perguntou, mas ele dificilmente ouviria mais que um zumbido de onde estava, tão alto e agora inalcançável.

Ele retirou a flecha da árvore e parecendo muito satisfeito se foi. Quando não mais ouviu seus passos Flora voltou ao seu tamanho normal e ainda entre soluços correu pelo bosque, tropeçando e esbarrando em troncos, ainda sentia dor no corpo, mas nenhuma seria mais forte do que a do seu coração, jogou-se aos pés do velho salgueiro.

- Não quero! – disse lamentando-se, soluçando – Não quero mais!

Pôs uma mão sobre o peito que abriu uma ferida profunda, Flora a adentrou com os dedos fazendo sangue saltar dela em jatos fracos, e quando tirou a mão puxou um botão rosa vermelha com o talo cheio de espinhos. Fitou-o hipnotizada por algum tempo chorando copiosamente e a cada suspiro acalmando-se até não sentir mais nada.

- Que cada pétala dessa rosa seja um dia ou noite que sonhei com você. – disse com a respiração ainda alterada, pós a rosa plantada na terra fofa, em uma cavidade entre as raízes do salgueiro negro – Cada espinho dela seja uma lágrima que me fez derramar. – com seus poderes fez surgir uma redoma de cristal em volta da rosa – E que ela murche sem cuidados como meu amor que morre sem seus beijos.

E o bosque permaneceu em silêncio por todo aquele dia, a morena ficou ali, deitada entre as raízes do salgueiro, a árvore desprendendo algumas de suas folhas sobre o corpo trêmulo da bela fada como um avô que acaricia a neta que caiu. Ao bosque ela pertencia e o bosque seria o único a amá-la.

VI: A máscara

Shion descia as escadas da sua torre com um embrulho nas mãos, não fazia muito tempo que amanhecera, mas seria melhor que fosse conversar com eles antes do café da manhã. Andava muito alheio, perdido em pensamentos, em problemas na verdade. Olhou para o embrulho o tanto incerto, mas não viu solução mais viável para o momento. Suspirava ainda lembrando-se do sacerdote, esse sim era um problema sério, tinha certeza de que ele queimaria a si mesmo caso houvesse algum rumor de bruxaria contra ele, o loiro seria uma dor de cabeça ambulante.

- Bom dia. – ouviu o cumprimento e mirou Dohko parado a porta de seu próprio aposento com cara de sono, os cabelos bagunçados e sem camisa com a mão apoiada no batente da porta e uma expressão muito relaxada, de quem não dormia bem assim há décadas.

- Já de pé? – perguntou, pelo que lembrava, Dohko era do tipo que gostava de dormir.

- Você me acordou. – disse sorrindo.

- Eu? – perguntou confuso.

- O som dos seus sapatos na escada ecoa direto pra dentro do meu quarto. – disse coçando a cabeça preguiçosamente. – Estava um barulho muito alto mesmo. Você está usando salto por acaso? – perguntou com uma expressão cínica no rosto.

- Eu? – perguntou, não esperava que ele começasse a irritá-lo logo pela manhã, ainda mais porque a sola de seu sapato era um tanto mais... Grossa na parte do calcanhar e havia de fato uma pequena diferença de nível, mas... Ora, que importava?! – Não diga besteiras assim tão cedo. – repreendeu com a voz fingindo calma, mas um tanto sem graça pela pergunta. Era aquele tipo de sapato que os nobres usavam, o que podia fazer? Seu rosto ficou levemente corado.

- Onde está indo uma hora dessas? O Sol mal nasceu. – perguntou bocejando.

- Falar com o Saga. – respondeu.

- E com Kanon também, presumo.

Shion chiou para que ele ficasse quieto, olhou escada a baixo e verificou se não havia algum servo abelhudo atento à conversa. Depois mirou Dohko duramente, mas o moreno estava, pra variar, estupidamente despreocupado e até riu de sua cautela.

- Entra, conversamos isso aqui. – disse dando passagem ao conselheiro.

O loiro mal entrara e já vira algo que o desgostou, Rozan, o dragão, dormia aninhado na cama aproveitando a ausência recente de seu dono.

- Você ainda não se livrou do dragão? – crispou baixinho enquanto o outro fechava a porta.

- Não é tão fácil dar um fim nele. – disse colocando ambas as mãos atrás da cabeça.

- Apenas mande-o embora. – falava apoiando a testa nos dedos afastando um pouco a franja.

- E como se supõe que eu deva fazer isso? – franziu o celho – Espera que eu diga "Vá! Voe, nobre criatura! Voe para longe, voe por sua vida! – falou simulando que gritava a frase, mas sem erguer a voz – Ele é um dragão, Shion, não fala nossa língua. – cruzou os braços.

- Por que não o levou para fora ontem? – perguntou puxando paciência só os deuses sabiam de onde.

- E como eu ia voltar? Andando? – disse como se fosse o maior absurdo do mundo – Não se esqueça, Shion, já sou um homem de idade. – o loiro bufou.

- Sim, sim, como quiser. Está muito cedo ainda pra discutir com você. Eu tenho mesmo que ir, não sei nem porque entrei aqui.

- Quero ir também. – disse animado indo caçar algumas roupas no baú, furtadas do quarto de Shion na noite anterior, claro.

- Ir para onde? – ergueu uma sobrancelha.

- Ver os gêmeos! – falou animado vestindo uma camisa e pela segunda vez Shion reparou na cicatriz artística.

- O que foi isso nas suas costas?

- Nada demais. – cobriu a figura com pressa – Vamos, vamos logo! Não era você que estava apressado?

O conselheiro bufou, mas concordou e juntos seguiram para a terceira torre mais alta do castelo, a morada do herdeiro ao trono. Enquanto andavam o loiro tentava arrancar do outro a história da tatuagem, ou mesmo de onde tirara Rozan, mas aquele idiota sabia ser muito esperto quando queria ser evasivo. De frente ao quarto de Saga, Shion usou a chave que trazia no pescoço para destrancar a porta, abrindo-a sem muita cerimônia e fechando logo que passaram. Dohko sorriu com a cena que via. Um dos gêmeos virado na direção oposta ao outro na cama e o outro espalhado por ela, muito folgado em mais da metade do espaço, os dois segurando o cobertor com uma das mãos em agarre firme, como se mesmo dormindo brigassem pelo lençol.

Shion pigarreou e viu ambos se mexerem na cama por um segundo e parando de fazê-lo em sincronia, decididos a voltar a dormir.

- Alteza. – chamou ainda com a voz suave, esperava que ambos estivessem mais despertos. O que estava folgado na cama deu um soco preguiçoso no outro.

- Estão te chamando, Saga. – murmurou preguiçoso.

- Não. – gemeu o outro – É sua vez, lembra? – disse bocejando.

- Mas eu não quero. – disse manhoso e Dohko quase riu.

- Saga! Kanon! Acordem os dois! – o moreno falou fingindo rispidez.

Os dois levantaram completamente despertos ao ouvir o nome do segundo gêmeo, que praticamente não era usado. Shion não sabia diferencia-los e sempre os chamava de Saga, para estar certo de não falar o outro nome quando não devia.

- Mas o que é isso, Shion?! – disseram ao mesmo tempo.

- Não contei a eles, altezas, Dohko já sabia, soube da boca de vosso próprio pai.

Ambos pareceram suspirar aliviados e aos poucos se espreguiçaram, Kanon fitava os dois homens e Saga estava atenta a luz fraca do sol na janela.

- O que querem tão cedo? – o mais velho disse ainda sonolento.

- Como disse antes, alteza, irei viajar com vocês.

- Sim, disso já sabemos. – Kanon falou.

- Então não vai haver alguém aqui para trazer comida à torre. – completou e os gêmeos se encararam por um momento.

- Tinha esquecido disso. – Saga disse.

- E essa viagem vai demorar pelo jeito, não seria bom que você ficasse aqui por tanto tempo. – o gêmeo mais velho concordou.

- Por isso, altezas, eu... – hesitou olhando para Kanon e desfazendo o embrulho – Eu trouxe isso. – mostrou uma máscara de metal em uma das mãos e viu o mais novo encolher-se de leve.

- Dê-me aqui. – Saga disse, contornando a cama e pegando a peça.

- Eu direi que estou levando um servo, vão me chamar de fresco, mas... – o príncipe pousou uma mão no ombro do conselheiro.

- Obrigado, Shion. É bom tê-lo por perto. Sempre pensa em tudo. – olhou para o objeto e forçou um sorriso – Acho que vai me servir bem.

- Mas... – Kanon começou a dizer.

- Você já usou isso por tempo demais. Tudo bem, irmão. Você irá como príncipe.

- E irei cortejar sua noiva também? – Kanon gracejou, tinha mesmo que informá-lo daquilo mais cedo ou mais tarde.

- Ah, não. – Shion disse massageando as têmporas – Ela fez.

- Fez. – o mais novo confirmou.

- Que história é essa? – Saga levantou uma sobrancelha tentando não acreditar no que estava entendendo – Não. Saori não faria... Ou faria? – disse negando com a cabeça e ensaiando um sorriso nervoso.

- Ela não faria, ela fez, já disse. – Kanon se segurava para não rir do irmão.

Saga ficou incrédulo por mais alguns segundos, mas depois começou a xingar descontroladamente, usava nomes que nem mesmo Dohko com toda sua experiência de vida tinha ouvido antes, ele gesticulava exasperado e só parou com seu pequeno chilique quando esmurrou com força uma parede, machucando a mão. Ofegava enfurecido quando ouviu a voz de Kanon.

- Ora, não faca algo assim. – disse inconformado – Não quero ter que meter o punho em uma parede só porque você não se controla.

- Noiva! – o gêmeo mais velho exclamou ignorando o irmão – De onde aquela mulher tirou que quero casar? Está completamente louca! Não vou firmar compromisso com uma desconhecida nem em um milhão de anos! – Kanon sorriu por ter estado certo na noite anterior.

- Juro que tentei dissuadi-la, mas...

- Mas ela é a Saori. – Saga levava a mão machucada a fronte e respirava profundamente tentando ficar calmo – Sempre consegue o que quer. Às vezes penso que ela é uma maldita bruxa.

- Não duvidaria. – Dohko falou e Shion lhe lançou um olhar muito significativo repreendendo-o.

- Posso tentar falar com ela, mas...

- Mas não vai adiantar, já sabemos Shion. – Saga disse agradecendo e depois xingou a rainha baixinho logo antes de voltar a praguejar – Resolvo isso depois. Agora temos uma viagem para preparar.

VII: O café da manhã

Em uma das seções no térreo do castelo os quatro convidados sentavam-se a uma vasta mesa de madeira que mais e mais servos enchiam das mais belas e cheirosas comidas que aqueles quatro já haviam visto. Os três cavaleiros estavam famintos, haviam ido para cama sem jantar na noite anterior por causa do jejum infringido pelo sacerdote e podiam sentir seus estômagos roncarem como bestas abissais. Milo e Aldebaran enchiam seus pratos com vontade, certos de provar de tudo um pouco para saber o que iriam colocar na hora de repetir – e com certeza eles iriam repetir. Camus também se servia, um pouco mais comedido, ficar de jejum em um dia de ressaca era das piores coisas que um homem jovem podia fazer para sua saúde, sentia nos membros uma fraqueza que não lhe era normal, seus movimentos precisos hora ou outra vacilavam e até mesmo o peso de uma maçã estava lhe causando problemas. Mas havia um esforço que nunca estaria fraco demais para fazer, estava certo de poder erguer sua taça. Uma criada enchia uma de vinho e a outra de água, satisfeito ele pegou a primeira e aspirou o aroma. Nada mal, nada mal mesmo.

- Já vai começar? – o loiro a seu lado perguntava com seu sorriso debochado.

- Nunca é cedo demais para receber o sangue de cristo, Milo. – respondeu estoico.

- Não, claro que não. – devolveu irônico – Mas considerando as doses que você toma desse sangue, meu amigo, já pode ser confundido com um maldito vampiro.

- Não seja tolo. – falou indiferente – Vampiros não existem. – disse levando a taça a boca com muita calma e ouvindo o outro rir de leve.

- Nem pense nisso, Camus. – o francês levantou os olhos para o sacerdote que mantinha as pálpebras fechadas. Como? Como ele podia saber o momento exato de Pará-lo? – Antes devermos rezar para dar graças.

Os três templários assentiram, cerraram os olhos e juntaram as mãos, entrelaçando os dedos prontos para iniciar uma oração apressada, pois estavam ansiosos pelo banquete. O loiro tirou o rosário do pescoço e o barulho das contas fez os três o olharem alarmados.

- Está brincando. – disse Milo com tom de indagação.

- Não, não estou. – respondeu o loiro abrindo os olhos azuis – Devemos rezar um rosário por nossos pecados.

- Não tivemos tanto tempo de cometer pecados assim de ontem à noite para hoje. – Aldebaran gracejou um pouco tenso, não queria esperar um rosário inteiro para poder comer, seu estomago já estava doendo.

- Cometeram um capital e isso é suficiente para que rezem um rosário. – explicou calmo.

- Um capital? Qual? – o gigante perguntou indignado pela acusação.

- A gula. Olhe para seu prato. – o cavaleiro maior olhou e Milo coçou a cabeça um pouco sem jeito. Shaka sorriu vitorioso.

- Isso não é gula, reverendíssimo. Sou um homem grande, preciso comer esse tanto mesmo. – elucidou batendo bonachão no peitoral largo, e era fato, com todo aquele tamanho necessitava mesmo, já o pretendido segundo prato que prepararia depois daquele, aí sim, seria a mais pura gula.

Camus aproveitava a distração do diácono com o maior e bebericava seu vinho despreocupadamente. Até perceber os olhos azuis de Milo condenando-o, ele deu de ombros e pousou a taça na mesa juntando as mãos para rezar de novo.

- Senhor, agradecemos pela comida que nos oferece nessa refeição. Amém. – o ruivo iniciou e encerrou a oração antes de Shaka pudesse retrucar.

- Amém. – os outros dois cavaleiros o seguiram e sob o olhar ainda pasmo do sacerdote encherão a boca de comida. Milo sorrindo amarelo para ele em seguida.

Shaka suspirou e sorriu de leve, ao menos haviam agradecido. Iniciou também uma prece rápida e silenciosa, deixariam o rosário para depois. Logo também se servia do banquete preocupando-se em não escolher nada que lhe parecesse saboroso demais e comeram em paz os guerreiros de Deus. O diácono estava um pouco preocupado, na verdade, nenhum dos outros reinos havia antes sido adverso a interferência da igreja por isso estava muito cauteloso quanto ao envolvimento com aquela corte e a rainha em especial... A mulher lhe dava calafrios violentos. Percebia que a essência dos príncipes era a justiça, mas havia muito mais naquele reino do que os mesmo jamais haviam reparado. A realidade ali se confundia com contos de fada.

- O senhor também acha que estão escondendo alguma coisa? – Milo perguntava reparando na expressão do superior enquanto mastigava uma maçã.

- Achei que só eu tinha tido essa impressão.

- Todos tivemos, acho. – Aldebaran falou e o ruivo assentiu – A rainha...

O diácono levou um dedo aos lábios pedindo silêncio e depois o apontou vagamente para a porta da qual empregados entravam e saiam. O gigante entendeu que não seria nem um pouco prudente discutir o assunto nas barbas do provável inimigo e desconversou.

- É muito bonita, não acham? – deu um de seus melhores sorrisos.

- Até demais. – Camus observou.

Se bem conheciam o clérigo, ele devia estar planejando um jeito de tacar fogo no castelo todo de uma vez, Shaka era assim, preferia pecar por excesso e não tinha misericórdia para com os mais fracos.

~0~

Olá, pessoas!

Dessa vez não vou conversar muito u.u Então, segundo capitulo aí e já estão aparecendo mais das meninas, vai ser mais ou menos assim até ir juntando o grupos aos poucos. Paciência e sempre, galera :D Tem calma que chega... Ah, e por favor ignorem o momento Chaves do Aiolia xD Huahauahauh Essas partes assim são de quando escrevo com sono. E me empolguei com o Dite de novo, como é bom escrever com esse homi, gente =x

A parte do significado das violetas vi em uma fic, "Sobre rosas e violetas", da Lune-sama ;) Lune, espero que não se importe!

Mas é isso! Obrigada a todo mundo que tá lendo! \o/

Beijinhos,

V. Lolita