Capítulo IV

I: O lago na noite

Shura bufava pela terceira vez, se embrenhava pela mata em direção a onde ela sentia cheiro de água. Ela era um problema, nada muito além disso, era agressiva, debochada e não perdia uma única chance de tentar escapar. Ah, Shion, por quê? Ele se perguntava. Por que o conselheiro tinha intenção de dar mais chances do que ela precisava para fugir. E não só escapar, vê-la andar solta assim, os quadris se insinuando de um lado para o outro, lhe olhando por cima do ombro com aquela expressão predatória, a respiração forte, aborrecida. Shura não gostava nada. Uma mão segurava a espada firme e alerta e a outra levava uma corrente enrolada ao pulso e bem segura nos dedos fortes do rapaz. Na ponta oposta uma coleira de metal se fechava em torno do pescoço esguio da moça, quase completamente encoberta pelas mechas castanhas. E a cada balançar dos aros de metal ele sentia como se a qualquer momento ela fosse lhe atacar sem dó.

Mas Shion achava que era digno. Leve-a para tomar banho, Shura, ele disse, uma moça deve ter esse direito, ele disse. Bem, aquela criatura não era exatamente uma moça, não é?

- Está nervoso por quê? – ela dizia divertida com o rapaz.

- Não estou nervoso. – o cavaleiro era estoico, a voz não vacilava, se não fosse o cheiro vindo dele Anúbis até poderia acreditar.

- Cuidado para não soltar essa corrente. – ela olhou pra trás e fitou a figura no peitoral da armadura – Não sabe como eu gostaria de comer um cabrito agora. – sorriu com sua boca felina, a curva invertida do lábio superior se alargando e os olhos oblíquos estreitando charmosos.

Por instinto ele puxou um pouco mais a corrente fazendo a moça rir debochada e levantar um pouco o queixo.

- Onde fica esse lago afinal? Já estamos longe do acampamento.

Era noite ainda, aquela mulher só vivia a noite praticamente, dormia o dia inteiro, quando o cavaleiro estava em marcha o que fazia Shura ficar sonolento e irritadiço, a espada trepidando na mão e a mente traiçoeira começava a pensar se não seria melhor fazer como o sacerdote disse e simplesmente joga-la numa fogueira. Do nada sentiu um solavanco, a mulher tinha se jogado com força a frente – e ela era bem mais forte do que seu corpo feminino sugeria. Shura foi ao chão, mas não soltou a espada nem a corrente, virou o corpo ficando com as costas no chão e preparou a Excalibur para se defender de um ataque feroz, mas nada ocorreu. Ouviu o barulho de ossos quebrando e pele rasgando. Levantou o mais rápido que pode e viu a mulher encolhida no chão de cócoras, estraçalhando com os dedos de unhas afiadas um pobre coelhinho que tivera o azar de cruzar seu caminho. Ela abria a pele felpuda e arrancava a carne dos ossos, em condições normais brincaria com o coelho por quase uma hora antes de pegá-lo, mas com o cavaleiro na sua cola achava difícil poder fazer como gostaria. Ah, mas como era bom comer de sua própria caça, estava cansada de ser alimentada com carcaças frias. Shura a observou com uma ponta de repúdio, mas foi paciente em esperar que ela acabasse. A metamorfa se ergueu do chão lambendo os dedos sujos de sangue e com um sorriso satisfeito nos lábios. Olhou para o cavaleiro e o viu sério, isso assustaria a muitos, mas para Anúbis ele parecia calmo como uma brisa de primavera.

- É ali. – disse voltando ao seu andar sinuoso e avançando por entre arbustos.

A lua refletia na água fracamente, a luz era pouca, se não fosse pelo barulho dos ondas ele não teria consciência do lago. Andou atrás dela e desviou o olhar quando a viu deslizar as alças do vestido pelos ombros e começar a entrar na água, mas a corrente tilintou, havia esticado ao máximo, ele teria que chegar mais perto. Pé ante pé, Shura seguiu, ainda respeitando a nudez dela.

- Você é como aquele coelho. – ela começou a falar quando tentava sem sucesso submergir na água rasa – Um ser indefeso perdido na noite.

- Minha espada discorda.

- Esperando por um predador – ela o ignorou – que vai brincar contigo com requintes de crueldade até cansar. E depois vai te matar e se alimentar de seu corpo. – Ann passou a língua nos lábios e arrastou as mãos pelo colo ensanguentado molhando-o fracamente – Se esperar o bastante, e estiver perto o bastante – virou-se para ele e vislumbrou seu rosto desviado, sorriu debochando – Eu posso ser seu carrasco.

- Termine logo com isso. – bufou de novo apertando o cabo da Excalibur.

- Para que a pressa?

O cavaleiro bufou e sentou onde estava. A corrente era curta, não tinha mais de dois metros e ela parecia jogar de propósito algumas gotas de água em seu rosto. Olhou-a de esguelha com a expressão carrancuda, Ann parecia distraída, deliciando-se na água congelante da madrugada, ela tinha o rosto felino mesmo em forma humana, mas isso parecia fazê-la ainda mais bonita, exótica, agora com os cabelos molhados, puxados para trás, a face dela pareceu muito mais atraente sem aquela expressão arisca ou sádica de sempre. O âmbar de seus olhos brilhava na noite e mesmo na luz fraca as formas dela saltavam a escuridão. Sem que o cavaleiro tivesse muito controle sobre isso, os olhos negros desceram sozinhos pelo pescoço sinuoso e pelo colo, os seios avantajados e pele morena o fizeram engolir em seco.

- Quer se juntar a mim, cabrito? – ela disparou pregando-lhe um leve susto. Rapidamente ele desviou os olhos e ela riu em deboche. – Pelo jeito quer. – se voltou para ele – Vem cá, eu não mordo. – riu.

- Isso é mentira. E não estou interessando. – falou com seriedade.

- Isso também é mentira.

O sorriso no rosto dela se sustentou por um tempo, mas morreu de súbito e seu corpo afundou na água quando ela ouviu um ruído vindo da mata. Não demorou muito para que o cavaleiro também ouvisse. Era só o que faltava. Ele estava com a espada em riste para defender-se da metamorfa e agora podia ser atacado pelo outro lado. Bufou, ah, Shion, que ideia idiota você teve. Olhava na direção do som, puxando bem a corrente para garantir que estava ainda bem presa na mulher. A tensão se tornou quase sólida no ar quando o barulho se aproximava deles, ouviu uma voz masculina, mas não pode reconhecê-la. Logo os mesmos arbustos por onde passaram se abriram para dar passagem àquela figura.

Luna recuou um passo, pareceu um tanto assustada ao ver a imagem clara de um cavaleiro esperando para atacar. Bateu as costas no peitoral metálico de Camus que a segurou pelos ombros e delicadamente empurrou para frente.

- O que foi? – Milo perguntou atrás dos dois, tomando a frente em seguida.

Os três apareceram e Shura voltou a sentar como estava.

- Achei que pudesse ser alguma ameaça. – Shura justificou-se e fincou a Excalibur na terra a seu lado sem soltar o cabo da espada e encarou Anúbis que estava submersa até a metade do rosto, os olhos felinos se mostravam agressivos, ela lembrava muito um crocodilo esperando para atacar.

- Desculpe. – Luna começou a com a voz débil – Só achei que eu poderia vir tomar um banho também. – torceu a toalha entre os dedos.

- E eu vim acompanhando. – disse Milo sentindo necessidade de se justificar e cruzando os braços fortes em frente ao peito.

- Você veio espiar, Milo. – Camus repreendeu com a voz baixa.

Milo deu-lhe uma cotovelada provocando e Luna sorriu de leve passando pelos dois.

- Tem algum problema, cavaleiro? Ou posso ir? – ela perguntou ainda insegura.

- Vá, mas não chegue perto dela, é perigosa. – o moreno advertiu.

Luna olhou para trás desconfiada e os templários lhe fitaram de volta assentindo, Milo sentou ao lado de Shura, mas de frente para as moças, Camus pousou um olhar tão pesado sobre ele que o rapaz acabou virando-se emburrado e o ruivo sentou confortável, perto dos dois. A menina de cabelos lisos tirou as roupas olhando cautelosa para os três homens que pareciam estar respeitando sua privacidade, gostaria de não estar nessa situação. Podia muito bem ter vindo sozinha, conhecia aquela área e se movia muito bem a noite, aliás, se não fosse pelo ruivo tentando conduzi-los já teria tomado banho e voltado ao acampamento. Tinha que banhar-se, por que, pelos céus, Ceres parecia que passava o dia rolando no chão, estava suja de terra, gravetos, o cabelo que ela penteara com tanto cuidado cheio de nós e havia uma meleca roxa grudada nele que Luna tinha medo de descobrir o que era. Entrou na água fria e não pareceu se incomodar com a temperatura, mergulhou de vez atenta a outra mulher que se banhava ali. Anúbis mantinha-se imersa até o queixo e encarava-lhe de um jeito incomodo.

- Eu estava no meio de uma coisa aqui. – falou para a menina um tanto irritada.

- Perdão. – pediu com a voz moribunda – Eu não sabia.

- Claro que não. – disse emburrada e irônica – Ouvi que você tem um dom de Pandora. – iniciou a conversa de súbito chamando a atenção os outros presentes.

Shura e Camus apenas aguçaram mais os ouvidos, Milo por instinto – ou não – virou o pescoço focalizando bem as duas moças e Luna afundou na água encabulada com o olhar nada discreto dele. Depois a jovem de olhos azuis pálidos encarou Anúbis um tanto desconfiada.

- Sim, tenho. – falou baixinho.

- O que ela lhe pediu em troca? – a menina olhou curiosa para a metamorfa e apenas negou com a cabeça.

Anúbis a olhou desconfiada de cima a baixo, nadando um pouco na direção dela, fazendo a corrente esticar ao máximo, Shura apertou bem os aros entre os dedos e puxou olhando para água de esguelha como quem diz: "Fique onde está". A morena rosnou de leve e voltou-se a menina fazendo menção para que ela se aproximasse, mas Luna desconfiada e muito comedida não se mexeu.

- Ela sempre pede um pagamento.

- Ela fez um acordo com meus pais, queria abrigo. – disse com seriedade.

- Humm... Pandora nunca pede muito, deve ser muito fácil pra ela fazer esses feitiços.

- Você também fez um acordo com ela? – Luna recuou um pouco mais se dando conta do quão perigosa aquela mulher podia ser.

- Fiz. – ajeitou a coleira no pescoço como se pudesse fazer o metal afrouxar, os três homens que apenas ouviam a conversa moveram um pouco as cabeças deixando os ouvidos mais atentos – Ela me pediu apenas para atrasar um caçador que a perseguia. Como eu disse, nunca pede muito.

- A troco de que? – a voz dura de Shura se fez ouvir, já não tinha Anúbis em alta, depois daquilo ela estava em sérios apuros com o cavaleiro.

- Uma amiga minha foi morta e eu queria o poder de me vingar.

- Então ela te transformou em metamorfa. – Camus concluiu seriamente e Ann riu.

- Não, eu sempre fui assim. Não foi algo que ela me deu, foi o que ela tirou de mim que mereceu o pagamento.

- E o que foi? – Luna perguntou afastando-se ainda mais.

- Misericórdia. – respondeu num sussurro macabro e imergiu de novo.

Acima dos cinco, flutuando em uma copa de arvore os cabelos negros voavam escondendo o rosto queimado e comovido de uma bruxa cruel.

- Oh, minhas pequenas crias. – falou em um sussurro tão baixo que foi sobrejulgado pelo som do vento nas folhas – Logo estaremos todas juntas. Nós e mais algumas amiguinhas e então aí... – ela apenas ri macabra e desaparece na noite.

Tanto Luna quanto Anúbis sentem um arrepio e olham para cima no mesmo segundo, levando Milo, que era um espiador de donzelas profissional, fazer o mesmo. Por um momento achou ter visto algo, por um momento seu peito apertou diante da sensação de perigo iminente, por um momento sua mão forte apertou o braço de Camus para colocá-lo em alerta também. Mas o momento passou, ele acreditava ser sua imaginação e nada mais, apenas deu de ombros quando Camus perguntou o que tinha. E ai do caçador que não confia em seus instintos.

II: O estranho no caminho

Ao amanhecer do Sol seguiram com a expedição, Ann já recostava confortavelmente em sua cela e bocejava, logo cairia no sono. Ceres por sua vez despertara com todo gás, andava mais rápido que o resto do grupo, escalava uma árvore sempre que via uma fruta que lhe chamasse a atenção. Ela permanecia próxima ao grupo de templários apesar de Shaka lhe lançando olhares nada amistosos. Quando voltara ao corpo encontrara um bilhete em seu bolso, a irmã estava mesmo economizando nas palavras naqueles dias. "Não se aproxime de Anúbis", era o que dizia, e logo abaixo o mesmo sermão de sempre: "Pare de assanhar meu cabelo!", ora, Ceres não estava assanhando o cabelo dela, mas sim o seu próprio e achava muito justo que pudesse, afinal era dela também, não é? Que irmã mandona. A menina de olhos azuis vivos corria a frente do grupo explorando a área antes de avançar por ela. Mais de uma vez se perdeu no caminho e se não fossem os olhos atentos de Milo e Camus sobre si teria rumado em uma direção completamente oposta a da pequena armada.

Mais uma vez ela rumava à frente, passara por entre os cavalos dos príncipes e seguia com os braços abertos como se fosse voar, correndo o mais rápido que seus pés descalços podiam. Parou por um instante para esperar os demais e se pôs a subir em uma árvore, ela tinha a energia de um moleque nos melhores anos, no meio do tronco ela parou, um som ressonou em seus ouvidos e ela deslizou suavemente pondo os pés de volta no chão. Olhou para o caminho de onde esperava surgir a armada e joga os cabelos castanhos por sobre um ombro e pensou se devia aguardar o grupo, lembrou de Camus com um tom paternal lhe dizendo que não deveria ir longe. Deu a língua à direção de onde ele viria contrariada com a lembrança. Ela não era uma donzela indefesa, ora, ele estava achando que era quem? A Luna, por acaso? Revirou os olhos e sorriu travessa indo investigar o barulho.

De início tinha pensado que era algum bicho ferido e pretendia garantir o almoço, mas quando foi se aproximando a voz ficou mais parecida com um choro humano. Ela atravessou alguns arbustos e encontrou uma jovem garotinha tentando acordar um rapaz muito magro caído na grama.

- Ei, menina, o que aconteceu? – disse se aproximando preocupada.

- Ele dormiu e não acorda! – A pequena Sara tinha os olhos vermelhos de tantas lágrimas e assim como o irmão era magra demais, com o rosto seco para sua pouca idade.

Ceres não era a pessoa mais inteligente do mundo, mas "dormir e não acordar" era quase sinônimo de morrer. Ajoelhou ao lado do rapaz e pôs uma mão perto do nariz dele, bem, ele estava vivo. E a garota estava realmente aliviada por isso, não era muito com palavras e não queria nem imaginar como contaria à criança que aquele homem tinha partido. Ela segurou o rapaz por um braço e com algum esforço levantou com ele nas costas. Não que fosse tão forte assim, mas era determinada e teimosa, queria ajudar os dois e iria ajudar. Sorriu para a garotinha de cabelos negros.

- Vem comigo, vamos cuidar dele. – falou andando com esforço e a menina secou as lágrimas e limpou o nariz com as costas da mão – Qual seu nome?

- Sara. – disse falando baixo – E esse é meu irmão, João.

- Oh. – compreendeu e ajeitou o rapaz nas costas - Eu sou Ceres. – sorriu de novo passando confiança a pequena.

Quando ela conseguiu sair do meio da mata a pequena armada já aparecia na trilha e se apressaram quando viram que não estava sozinha. Milo que não gostou anda de ver um rapaz sendo carregado por ela daquela forma o pegou nos braços, ele era terrivelmente leve, podia sentir cada osso sob a roupa. Recostaram o garoto de forma confortável e tanto Camus quanto Mu e Shion verificaram, um após o outro, que estava vivo. Era difícil acreditar nisso naquelas condições. Dohko pediu algum espaço a todos e tirou uma das botas pondo no rosto do garoto. Ele acordou tossindo e tirou forças não sabia de onde para afastar o calçado do antigo cavaleiro. Shion levou a mão à face não acreditando no que vira e o caçador pôs o sapato de volta sorrindo satisfeito.

- Nunca falha. – encheu o peito, orgulhoso por seu poderoso chulé.

Shion revirou os olhos e depois de uma conversa muito breve com o garoto concluiu que seria melhor que ele e a menina comessem algo antes de fazer mais perguntas. A menina comeu bem, mas João mal conseguia suportar a dor no estômago sem falar do resto do corpo, a descida da montanha não havia sido menos cruel que a subida, ao chegarem na base se depararam com uma cidade fantasma. Ele esperava algo para comer, mas não havia nada. Andaram pela floresta por uns poucos dias, a maior parte do alimento que encontrava dava para a irmã, e seguiu assim até finalmente cair de exaustão e fome. Olhava para os homens ali com suas armaduras de ouro e prata, corpos vigorosos e fortes, sentiu que enfim tudo tinha terminado e depois de comer a força um terço do que lhe fora oferecido deixou o prato de lado. Shion, Mu e os príncipes vieram falar com ele. João contou de Cheshire, a cidade isolada do mundo pela Floresta do Sorriso de Gato e a Grande Montanha Branca onde ele descobrira morar uma mulher de neve. Eles se olharam um tanto céticos, afinal nenhuma das duas histórias que ele contara era meramente conhecida, mas pelo estado do garoto ele não parecia estar de brincadeira, podia estar alucinando, mas brincando não.

- Temos que fazer algo quanto a isso. – Kanon falou na sua posição de príncipe herdeiro e tomou fôlego para começar os planejamentos e a mudança de rota, mas foi interrompido.

- Você, meu príncipe, só tem que ir a um baile. – Shion falou balançando uma mão aristocrata – Tomarei conta disso. Leve Afrodite e meu criado com você, e também alguma escolta se achar adequado.

- Mas, Shion...

- Sem mas. – foi resoluto – O resto de nós vai até Cheshire verificar isso, é uma viagem perigosa, temos que ter um plano para...

Shion foi interrompido pela tosse alta e seca do jovem rapaz, ele põe a mão na boca envergonhado, mas não consegue parar. Cai de onde está sentado de joelhos no chão e continua a tossir, Aiolia lhe dá tapinhas leves nas costas se agachando ao seu lado. Então de sua garganta sai sangue, uma mancha vermelha espessa e em mais uma tosse uma massa negra lhe escapa pela boca, ele enfim consegue respirar fundo com lágrimas nos olhos e a voz arranhando, a tosse cessa. Dohko põe uma mão no ombro de Shion e sussurra ao seu ouvido:

- Acho que foi envenenado. – seu tom era sério e grave – Se o pai matou a mãe e as irmãs... – falou mais baixo ainda expressando seu receio e a pequena Sara também tossiu rapidamente.

- E o que devemos fazer? – Olhou de volta preocupado.

- Cuido do garoto, conheço uma curandeira não muito longe daqui. – já falava um pouco mais alto – Acha que vai precisar de mim? – Shion sorriu confiante.

- E já precisei alguma vez?

- Já. – respondeu – Só aconteceu de eu não estar lá na ocasião. – sorriu de volta debochado.

- Leve Máscara da Morte e Mu com você, para garantir uma viagem segura, e nos encontrem em Cheshire assim que puderem.

Dohko assentiu e sem demora pôs o rapaz e sua irmã sobre seu cavalo, em menos de dez minutos os três haviam partido. O Mestre Conselheiro se virou aos príncipes, Aiolia tinha uma expressão emburrada, provavelmente porque Mu fora para o outro lado.

- Quanto a Vocês, Altezas, eu ficaria mais tranquilo se não fossem. – os dois abriram a boca para falar algo, mas Shion fez um gesto de mão para pará-los – Mas não tenho esperança alguma de dissuadi-los.

- Que bom que sabe. – Aiolia cruzou os braços com ar de falsa autoridade.

Shion riu de leve do jovem príncipe e começou com os planos de ir a Cheshire.

III: Bruxas e maldições

Era início de noite, estava caindo um sereno fraco e por acidente uma gota pingou na pálpebra da mulher que dormia, os olhos reviram dentro da órbita e ainda meio dormindo ela balbucia: "Eu te odeio, mamãe". Seu semblante era irritado, as sobrancelhas muito finas contraídas de raiva, ainda não conseguira entender porque ela fizera isso, afinal, que tipo de mãe era essa que dava um castigo eterno? E que castigo pior podia haver para uma bruxa? Outra gota de água pingou em seu rosto que se contrai de leve, ela move a língua dentro da boca e a sente seca, sem despertar por completo, a bruxinha de longos cabelos loiros trás o cantil que segurava firmemente na mão direita à boca, estava vazio.

- Mas que merda. – abre os olhos e boceja, sentando-se na grama.

Ela coça a cabeça um tanto desnorteada, seus cabelos poderiam ser facilmente com um ninho de pássaros pela cor de palha e a situação em que se encontrava no momento. Analisou o cantil por mais alguns segundos e o jogou com força em um canto qualquer, não podia encher nem um mero cantil de vinho! Que vida ingrata! Bocejou novamente, estava no meio de uma floresta sem ideia nenhuma de onde. Os olhos azuis piscaram algumas vezes antes de conseguir focar o ambiente, ainda estava um pouco zonza, teve dificuldades para se levantar, suas pernas estavam fracas, ah, era a velha ressaca, mesmo uma imortal consegue uma quando bebe vinho o suficiente. Coçou a cabeça e tirou algumas folhas da roupa enquanto forçava a memória para lembrar o que havia acontecido. A última coisa que recordava era de estar em uma taberna, bebendo claro. Tentou pentear os cabelos com os dedos, mas estes pararam nos nós. E então... Franziu o cenho tentando lembrar, taberna, vinho, ah, sim! O dono do lugar descobrindo que não tinha dinheiro pra pagar a conta, como sempre, e ela começando uma briga para escapar da dívida. Tinha que parar de fazer aquilo, se continuasse causando brigas coletivas assim todas as tabernas das terras de Drepanon à Hargreaves ficariam destruídas e aí então onde ela iria beber?

Talvez fosse melhor roubar algumas moedas, ou voltar a cobrar seus honorários como Fada Madrinha, porque, ao que lembrava, quase metade de suas beneficiadas viravam princesas ricas, com castelo e tudo. Droga de vida. Saiu andando por aí resmungando, chutando galhos, e xingando quando tinha vontade. Não estava muito certa do caminho, apenas escolheu uma direção e pensou que se andasse em linha reta o suficiente encontraria uma estrada ou uma vila onde pudesse encher seu cantil. Onde estava mesmo o cantil? Olhou em volta procurando, mas deu de ombros, arrumaria outro.

Não andou muito e encontrou uma figura muito curiosa, ele estava sentado em uma pedra um pouco mais alta em posição de lótus, tinha nas mãos um rosário e estava tão imóvel que mais parecia uma estátua sob a luz da tocha fincada no chão. Se não fossem os cabelos loiros balançando com a brisa, Kendra teria passado por ele sem sequer notar. Achou por um segundo que estivesse dormindo, mas quando se aproximou pode ver os lábios se mexendo e as contas passando entre os dedos de tempos em tempos. Ela flutuou um pouco para ficar a altura de seu rosto, observou-o durante algum tempo, parecia bem concentrado paa não notá-la. Depois a loira olhou para baixo e sorriu travessa, era uma queda de pouco mais de um metro, seria muito divertido se ele desse de cara no chão, não seria?

O acampamento era um baderna, sobretudo para aquele homem que vivera desde criança de templo em templo, de vida santa em vida santa. Cada vez mais orações e menos pecados, ele era um líder espiritual, a igreja vira sua áurea santa quando ainda estava no berço e Shaka cresceu sendo moldado para o sacerdócio. Estava muito incomodado com as pessoas interrompendo suas orações a todo momento e quando finalmente cansou de pedir algum silêncio, apenas catou seu rosário e procurou um lugar calmo onde pudesse rezar. Ele se sentia uma pessoa melhor quando estava sozinho, gente demais a sua volta só o fazia pecar. Orgulho, inveja e ira. Ali ele voltava a ser santo. Deixara seu monastério em uma missão de provação, era cedo para isso na verdade, mas a situação pedia. Aldebaran, Camus e Milo foram designados para fazer sua escolta, três meninos também criados no templo, mas diferente dele, claro. Como soldados de Deus. Mesmo a presença dos três o estava incomodando naqueles dias, não sabia bem dizer por quê. Em seu âmago sentia que algo se aproximava, algo maligno e por isso rezava mais e mais. Fechava os olhos e emitia as mesmas orações, sua boca murmurando as palavras e sua mente pedia por sabedoria, para ter a força para avançar pelo que quer que fosse.

Kendra o rodeava e pensava qual seria a melhor maneira de empurrá-lo, com as mãos, pés, ou derrubá-lo com um susto talvez fosse melhor. Ela sentou flutuando no ar de pernas cruzadas e pôs a mão no queixo enquanto decidia. Mal notara ela que o clérigo já havia chegado a cruz do rosário, sua oração estava chegando ao fim. A loira se aproximara bem dele com um sorriso maldoso e levou um susto no momento em que os olhos azuis se abriram. Ela voou pra trás rapidamente pegando distância. "Merda.", pensou, e instantaneamente despencou do ar caindo de bunda no chão. Shaka não muito diferente levara um susto com a mulher e em um movimento mal pensado tentou se afastar, escorregando pela pedra e rolando com as pernas em lótus até parar com os pés para cima com as costas na grama. O sacerdote se levanta em tempo recorde. E logo alcança a tocha para ir correndo em direção à bruxa. Kendra ainda estava alisando o traseiro dolorido quando ele veio como um raio em seu encontro, ela saiu correndo na direção oposta. Shaka exclamava:

- Bruxa, bruxa, bruxa! – e corria com o fogo trepidante em sua mão.

Kendra dava pulos vez ou outra tentando voar, seu corpo esguio definitivamente não havia sido feito para correr. Mas era difícil voar assim sobre pressão, quer dizer, mesmo que ele a queimasse ela não morreria, a maldição de sua mãe garantia isso. Mas isso também não quer dizer que quisesse ficar toda queimada e feiosa. "Pense em coisas boas!", dizia a si mesma, mas sua boca não parava de exclamar:

- Merda, merda, merda! – como se fosse um mantra.

Ela se calou e tentou pegar fôlego, já estava cansando e o clérigo avançava como uma locomotiva.

- Ok, coisas boas. – disse a si mesma – Corações, amor, amizade, arco-íris, - seus pés não deixavam o chão, o máximo que conseguia era pular – Gatinhos! – deu um pulo mais alto, mas voltou a pousar no chão sem conseguir se manter no ar – Vinho! – gritou e seus pés deixaram o chão com tanta força que seu corpo girou no ar como se tivesse as solas impulsionadas por foguetes.

Ela subiu rápido saindo do alcance dele, mas Shaka não deixou de persegui-la. Ela teria que descer em algum momento, ele pensava. A bruxa lhe dava a língua voando de costas serelepe e rindo do rapaz, até que esbarrou em alguém. Quais as chances de esbarrar em alguém quando você está em pleno voo? Ela virou e deu de cara com uma figura de cabelos negros e pele queimada, metade do rosto seco como uma caveira, os lábios como pedaços de carvão. O vulto escuro voava também e sumiu em névoa em frente a seus olhos.

- Não pode ser ela. – pensou consigo mesma e desceu um pouco de sua altura acompanhando a figura sombria a uma distância aceitável e segura.

A bruxa morena confrontou o sacerdote e os dois ficaram se encarando como em um duelo de faroeste, não havia medo em nenhum dos dois lados.

- Seus olhos. – Pandora começou – Eles acusam demais.

- E não erram em acusar, bruxa. – ele disse com uma calma completamente destemida – Onde está a outra? – ela ri.

- São mais desagradáveis do que fogo queimando a pele. – ignorou o que ele havia dito e continuou risonha – Acredite, eu sei. – mostrou a própria pele chamuscada, vermelha e negra, seus cabelos esvoaçavam para cima, como se ela estivesse afundando lentamente em um lago – Então que eles sejam como fogo! – disse com um sorriso ensandecido.

Ela se desfez em fumaça e sua mão queimada apareceu de súbito no rosto do loiro, tapando-lhe os olhos. Shaka estava pronto a virar-se e atingi-la com o fogo, mas não pode, seu corpo não o obedecia. Ela cheirou seus cabelos sonoramente, o doce aroma de jasmim. Passou a segunda mão por seu peito.

- Seu coração já foi puro. – podia senti-lo bater sobre o metal da armadura – pena que não seja mais. – desenhou um "x" com o dedo no peito dele – A partir de agora tudo o que seus olhos virem irá queimar, como pecadores no seu inferno, até que seu coração e não os olhos sejam juízes da sua corte. – sussurrou em seu ouvido. E se desfez novamente em fumaça.

Shaka abriu os olhos e virou procurando a bruxa desesperado, mas quando sua visão tocou a mata, da grama até as grandes copas de árvore, tudo começou a queimar, um fogo mais dourado e brilhante do que qualquer um que já tenha visto, reluzia como ouro assassino e Shaka pareceu compreender o que a maldição da bruxa significava. Fechou os olhos sem querer causar mais destruição e tentou recuar do calor. Como iria voltar ao acampamento daquele jeito? Shaka sentiu-se perdido e mesmo indo na direção contrária às chamas, podia sentir o calor perto, em volta de si como se o demônio em pessoa fechasse os braços em volta de seu corpo.

- Que Deus me ajude. – pediu em um tom muito baixo.

Não era do tipo de homem que gritaria socorro, muito menos do tipo que choraria sua própria morte, mas não queria morrer. Não daquela forma, seria ironia demais se fosse carbonizado. Kendra estava prestes a deixá-lo onde estava.

- Babaca. – mas ela não se virou – É bem feito pra ele. – mesmo assim não foi embora, na verdade, havia uma vozinha bem fraca e baixa no fundo de sua mente lhe dizendo pra salvá-lo, parecia mais um zumbido de mosquito que uma voz, e de fato, poderia estar dizendo qualquer outra coisa, era difícil ouvir, mas mesmo assim... A garota bufou – Sério, Kendra? Esse cara tentou te matar. – ralhou consigo mesma – Merda.

Ela saiu de onde estava flutuando no ar com uma facilidade que a fez estranhar um pouco, quase subiu demais. O rapaz já estava quase completamente cercado pelo fogo quando ela lhe agarrou uma mão e o levantou do chão. Shaka levou um leve susto e moveu a cabeça para cima. Era aquela bruxa, tinha certeza, devia abrir os olhos e acabar com ela ali mesmo. Agora que tinha esse poder que o usasse para algo útil, não importava se iria morrer por isso. Mas algo o parou, algo que ele já havia esquecido há muito tempo: misericórdia. Misericórdia dela e de si mesmo, afinal se ele abrisse os olhos poderia morrer da queda e mesmo sendo uma bruxa estava ajudando e salvá-lo era a coisa cristã a fazer, certo? Ele baixou a cabeça e apenas se concentrou na estranheza de não ter os pés no chão.

Logo ela o pôs em um lugar seguro e já estava indo embora, mas a voz dele a parou.

- Obrigado. – disse com a expressão séria.

- Não vai acontecer de novo, entendeu? – ela falou irritada. Sua própria atitude lhe irritava, afinal, que estava fazendo? A frase era mais para ela mesma que para o loiro.

- Tudo bem. – disse enrolando o rosário em um dos braços – Poderia por gentileza me ajudar a encontrar meu acampamento?

E ela, por acaso, parecia uma pessoa gentil? Ok, ela parecia afinal, tinha a mais angelical das faces, mas bem, ela não era! "Ele lhe fez um pedido", a mesma vozinha chata de antes advertiu. Ela gemeu entre dentes e deixou os ombros caírem. Fazia já algum tempo que não atendia a desejos e Shaka não era exatamente uma donzela indefesa, quer dizer, ele podia matá-la só em abrir os olhos, não é? Este pensamento a deixou nervosa por um segundo, nem considerara isso ao tirá-lo do fogo, poderia facilmente ter batido as botas por seu ato heroico.

- Espero que esteja vendo isso, velha maldita. – sussurrou entre dentes para a falecida mãe – Espere aqui um segundo. – falou para ele com candura infinita.

Ela voou acima das árvores e não foi difícil avistar a fumaça de fogueiras. O sereno leve de mais cedo começava a engrossar e se transformar em uma chuva forte. Ela desceu e parou ao lado dele que apertava os olhos com força tentando manter-se concentrado em não abri-los. Sentiu Kendra tocando sua mão, pronta para ergue-lo de novo.

- Será que não podemos andar? – perguntou já sentindo os pés soltos no ar.

- Assim é mais rápido. – explicou-se.

Os dois voaram por pouco tempo, estranhamente para ela estava mais do que fácil pensar em coisas boas. Shaka pode ouvir as muitas vozes masculinas enquanto descia do céu todo molhado. Aldebaran veio recebê-lo de imediato, muito preocupado com o modo como chegara, os outros chegariam um pouco depois e não ouviriam a ordem do sacerdote.

- Adprehenderent eam. – falou em latim quando ouviu a voz do gigante próxima o suficiente.

"Prenda-a", essa era a ordem, Aldebaran não estava muito seguro sobre isso, afinal ele parecia estar sendo ajudado por aquela moça. Mas era uma ordem afinal de contas. Quando os dois chegaram ao solo Aldebaran se aproximou um pouco temeroso, Shaka mantinha uma mão sobre os olhos e a outra segurava a de Kendra de uma forma até inadequada para um clérigo.

- Agora me vou. – fez menção de sair voando, mas Shaka segurava sua mão com firmeza.

- Fique conosco. – pediu e Aldebaran aguardou por um segundo.

- Por quê? – perguntou confusa, mas ainda fingindo uma doçura que causaria diabetes no mais saudável dos homens – Você tentou me matar.

- Não o farei de novo. – falou com seriedade, esperava que o templário já a tivesse segurado, mas ele não o fez – Fique conosco, você é uma bruxa, não é? – mudou a entonação de forma que o gigante percebesse que esperava por uma ação.

- E o que isso tem haver com alguma coisa? – perguntou desconfiada.

Shaka não tinha uma resposta, mas também não precisou, Aldebaran segurou a loira pelos braços e com um homem tão pesado perto de si não pode levantar voo. Xingou e amaldiçoou todos no acampamento em todas as línguas que conhecia antes de ser finalmente presa em uma jaula cônica com o teto em meia esfera, muito semelhante a uma gaiola de pássaro. Bateu contra as grades e instintivamente puxou sua varinha para fazer ameaças. Era um objeto negro de madeira retorcida como se tirada de uma árvore em agonia que terminava em uma caveira talhada em ébano. Ameaçou, ralhou, esperneou e gritou até que Camus percebeu:

- Ela não consegue usar isso. – e Kendra o xingou especialmente em francês.

E sentou emburrada no chão acolchoado de sua prisão.

IV: Veneno e cura

Não tiveram de andar tanto quanto esperavam, antes do raiar do dia Dohko já avistava o rastro fraco da fumaça da chaminé. O rapaz caíra no sono de novo, ele mal ficara acordado durante a viagem e Máscara da Morte sugerira mais de uma vez matá-lo, para o caso de aquilo que ele tinha ser contagioso. Ele não conseguira comer nada de tanta tosse. Chegaram à clareira onde se levantava a pequena cabana de pedra, madeira e palha. Sentada de um barril, encostado a casa havia uma ruiva de cabelos cacheados e pele sardenta, ela afiava uma espada antiga, o metal já corroído pelo tempo, usava calcas de caçador um colete e tinha o abdômen e peito muito bem enfaixados. Quando os viu ficou de pé e ergueu a espada olhando-os agressiva com seus olhos de ametista.

- Uma bruxa? – Máscara da Morte perguntou com uma sobrancelha erguida pela débil figura de uma mulher ferida os ameaçando com uma espada velha.

- Bruxas não usam espadas. – Mu lhe sussurrou de volta um pouco incerto, alcançou o cabo de um de seus martelos nas costas.

- Estamos procurando a curandeira que vive nessa cabana. – Dohko falou alto para que ela escutasse sem que eles tivessem que se aproximar muito. Tirou a menina e depois o rapaz de cima do cavalo, segurando-o desacordado nos braços – Eles precisam de ajuda.

- Eu não ajudo mais! Vão embora! – Scarlet gritou.

Os três permaneceram estáticos por um momento e Máscara da Morte já começou a resmungar sobre como aquela ideia havia sido brilhante. Dentro da cabana, Sophia pousava sua colher no prato de sopa, o pescoço esticado e olhando para a porta de onde ouvira a voz de Scarlet gritar, ela se levantou da mesa e a cadeira rangeu longamente com se soltasse um suspiro de alívio. Mexeu de leve no cabelo escuro ajeitando a trança que lhe caia pelo ombro como se tentasse ficar apresentável, caminhou até a porta com cautela, só queria espiar o que ocorria, nada de ir para o meio da baderna, afinal podia saber tudo sobre lutas de espadas, mas ainda não estava hábil para levantar uma – nem sequer tinha uma! Abriu a porta com cuidado, apenas uma brecha e levou um susto de imediato.

- Volte pra dentro! – a ruiva ordenou sem nem mesmo olhar para trás e Sophie deu um passo para o lado batendo em uma mesa cheia de frascos de vidros e derrubando vários deles, fazendo o maior estardalhaço.

- Ops. – disse estreitando os olhos ao contemplar a bagunça.

Do lado de fora Scarlet bufava, mas que menina tola, pelos céus, se não sabia lutar que pelo menos fosse capaz de ficar quieta. O ferimento já começava a doer, Kourin havia dito desnecessariamente para não fazer esforço, que ainda não estava boa, mas a ruiva não se importava. Era como se estivesse se obrigando a curar-se mais rápido, se ajudasse, talvez até desse tapas no próprio rosto e dissesse a si mesma para deixar de ser tão fraca.

- Escute, não queremos fazer mal, só precisamos que o ajude. – a voz de Mu era tão mansa que soava como uma calmante natural, mas a mão segurando a maça em suas costas não era nada amigável, não mesmo.

- Já disse que não ajudo mais.

- Mas não é você que estou procurando. – Dohko disse erguendo as sobrancelhas, quem era aquela mulher afinal?

Procurava por uma velhinha amalucada que o havia ajudado sem necessidade alguns anos atrás... Muitos anos atrás, na verdade. Ele parou para coçar sua cabeça, bem, fazia muito tempo mesmo e ela já era velha na época, não surpreenderia se tivesse morrido. Ah, ele e essa sua noção conturbada de passagem de tempo. Coçou um pouco a barba rala e ficou sem jeito de virar para os outros dois e dizer que tinha um pequeno detalhe que se esquecera de mencionar.

- Que está havendo aqui?

Uma outra jovem carregando uma cesta de frutas e ervas surge da floresta, essa tinha cabelos tão cacheados quanto os da outra, mas eram compridos, castanhos e amarrados em um rabo de cavalo mal feito, trazia uma capa velha sobre os ombros. Isso pareceu estalar na cabeça de Dohko, lhe veio a imagem de uma menina pequena muito simpática com aqueles mesmos cabelos, só que assanhados e os grandes e sorridentes olhos bruxos, levantou um braço devagar e apontou para ela de forma até mal educada.

- Kourin! – exclamou contente por vê-la e com isso Scarlet baixara a espada e saíra da tão custosa posição de guarda. Sophia por sua vez espiou novamente pela brecha da porta – Onde está sua avó? – A morena lhe olhou confusa.

- Você o conhece? – Scarlet perguntou.

- Eu te conheço? – ela própria indagou não fazendo ideia de quem seria aquele homem.

- Claro que sim! – avançou alguns passos e a viu recuar – Sou eu, ora. – parou e coçou o queixo de novo se lembrando de outro detalhe esquecido – Olhe, me imagine com uma barba longa, cabelos assanhado e roupas velhas.

Ela tentou imaginar, se aproximou um pouco, analisou as feições e seu rosto se iluminou. Apontou com o dedo em riste de forma semelhante a ele e exclamou:

- O mendigo sujo e fedido! – e riu.

- Por que todo mundo me chama de mendigo? – resmungou – Eu andava por aí pedindo coisas por acaso? – resmungou de novo e então se lembrou do rapaz desfalecido nos braços – Ah, isso não importa. Ouça, onde está sua avó? Esse rapaz precisa de ajuda já!

- Leve-o para dentro, depressa. – andou em direção a cabana e quando se aproximou de Scarlet ordenou – E você descanse senão te amarro na cama. – A ruiva sentou de novo no barril como uma criança posta de castigo.

Kourin abriu a porta de súbito batendo no nariz de Sophia que continuava espiando pela brecha e tinha a morena fora de seu campo de visão. A menina caiu sentada no chão e a curandeira levou as duas mãos a boca.

- Oh, Sophia! – disse preocupada e então viu os vários frascos quebrados no chão – Oh, Sophia. – falou em tom de repreenda, a garota sorriu amarelo e se levantou saindo do caminho, indo sentar naquele mesmo lugarzinho próximo à lareira.

Dohko entrou com o garoto e Kourin disse pra pô-lo na cama enquanto mexia em um armário velho buscando um pequeno frasquinho e torcendo para que sua hóspede não o tivesse quebrado também. Depois de ter saído do choque Sophia começara a explorar a pequena cabana em seus mínimos detalhes, das aranhas e os padrões de suas teias no teto aos insetos que viviam debaixo da casa, e no processo, bem, não se pode dizer que ela tinha lá muito jeito com as coisas. Enquanto analisava as teias no teto ela caíra duas vezes, uma da lareira, outra de cima da mesa e em uma terceira a mesinha onde estava apoiava virou e ela ficou pendurada em uma viga no teto. Enquanto mexia nos bichinhos do piso conseguira prender a mão entre duas tábuas de madeira e Scarlet com toda sua delicadeza a ajudou a tirar. Agora havia um grande buraco no meio da sala. Kourin apenas ria, era uma moça de muito boa índole de fato, qualquer outra já as teria expulsado de casa a pontapés.

- O que aconteceu com ele? – perguntou se aproximando da cama e pondo a mão no pescoço do rapaz e sentindo seu pulso lento e fraco.

- Não sei ao certo. – se aproximou ainda mais de João e levando uma caçarolada, olhou indignado para a moça e ela lhe murmurou um "afaste-se", muito, mas muito enfático, ele o fez e tentou desconversar enquanto alisava o machucado – Onde está sua avó?

- Nos cinco picos. – respondeu e Dohko suspirou aliviado por a velha não estar morta – Ela achou melhor fugir depois que começaram com as fogueiras. Vovó não pode correr muito, você sabe. – riu e depois ficou com o semblante muito grave – A boca dele está preta por dentro, alguém o envenenou.

- Foi o que pensei.

Ela pegou o frasco que tinha recolhido no armário e deixou de lado, era melhor não tentar despertá-lo. Ouviu uma tosse infantil vinda da porta de casa e observou a pequena menina de cabelo negro espiando com seus olhos grandes e preocupados.

- Espere lá fora, Sara. – Dohko falou fazendo um gesto de mão para a menina que assentiu e obedeceu.

- Ela também? – Kourin perguntou preocupada.

- A princípio pensei que sim, mas agora não estou mais tão certo. – olhou desconfiado para fora.

- Ele vai morrer. – Kourin falou com a voz pesada – Só posso tentar prolongar sua vida, mas ele vai morrer em alguns dias. Não há nada que eu possa fazer.

- Entendo. – baixou o olhar e viu a moça se levantar e pegar as ervas de sua cesta.

- Vou fazer um preparado para que não sinta dor. – explicou-se falando baixo – Eu não sei seu nome, senhor.

- Dohko. Não me chame de senhor me sinto velho. – ela riu por um segundo.

- Pelo que sei você deveria ser.

Do lado de boa da cabana Mu se sentava em um caixote ao lado de Scarlet e Máscara da morte andava de um lado para o outro como uma fera em uma jaula.

- Que missão mais chata! Eu deveria ter ido com Shion. – brandiu – Vou dar uma volta. – avisou sem olhar para Mu e se embrenhou na mata procurando algo que acalmasse sua índole.

Scarlet voltava a afiar sua espada com a pedra na mão, as faíscas que o metal soltava quase iam direto para o rosto do jovem conselheiro.

- Posso fazer isso pra você.

- Posso afiar minha espada sozinha. – respondeu irritada com ele, achava que porque era mulher não poderia arrumar sua própria arma?

- Estou certo disso. – ele ainda tinha aquela voz mansa que lhe acalmava e irritava ao mesmo tempo – Mas eu posso fazer melhor. – ela o olhou indignada – Sou ferreiro. – ele explicou-se.

Scarlet ainda estava um pouco desconfiada, movendo rápido a lâmina em riste e parando muito perto do rosto dele, Mu arregalou os olhos verdes com o susto e depois de alguns segundos recolheu a espada com as duas mãos. Concluiu que precisava fazer uma fogueira, o metal estava torto, tinha que aquecer. Scarlet apenas o observou com seriedade.

V: O escuro da noite

À noite Sophia acordou de súbito de novo. Ouvia aquela mesma melodia de antes, um canto infantil, distante e sombrio. Ela dormia ao lado da lareira. A única cama estava ocupada, Kourin dormia em uma rede improvisada, Scarlet devia estar tomando sereno de novo, não iria se curar nunca daquela forma. Dohko dormia sonoramente em uma cadeira qualquer se equilibrando só os deuses sabiam como. Mu recostara-se em uma parece e cochilava como uma criança.

Sophia levantou e olhou a sua volta, ninguém mais estava ouvindo aquele som, ou pelo menos não parecia incomodá-los. A garota bocejou longamente, a última vez que ouvira aquela canção foi durante as fogueiras e isso lhe trousse uma angústia ao peito tão grande que não pode ficar quieta. Achou melhor sair da cabana antes que começasse a derrubar as coisas e acordar todo mundo. A noite estava escura, havia nuvens no céu bloqueando as estrelas, mas Sophia não se importava, já estava acostumada a não enxergar bem, não importava o ambiente. Apenas se envolveu mais forte com o xale e estreitou os grandes olhos avermelhados. Saiu andando aos poucos e a música ficou mais alta e próxima. Ela tremeu, de repente pode ouvir a voz infantil perfeitamente atrás dela e virou-se tentando focar algo na escuridão. Andou de ré por alguns segundos como se tentasse se afastar aquela melodia e bateu com as costas em algo firme. Virou de súbito e pode ver os olhos escuros e o sorriso maligno na escuridão, assustada e trêmula pode reparar, mesmo na pouca luz, o sangue descendo pelo peitoral dourado, apavorou-se e numa atitude mais do que estúpida correu para dentro da floresta.

Havia corrido pouco, mas percebeu seu erro, podia ter gritado, ido pra dentro de casa onde havia dois cavaleiros e Scarlet para protegê-la, mas não, ela preferiu ir para dentro de uma floresta sombria no meio da noite sozinha e indefesa onde um assassino podia matá-la sem chamar nenhuma atenção. Burra! Ralhou a si mesma. Olhando para um dos lados entre as árvores ela viu surgir uma figura miúda, baixinha e feminina. Tinha longos cabelos brancos e os olhos brilhavam como rubis na noite, parecia que havia um luz posicionada sobre ela de forma que podia vê-la claramente. E então Sophia, distraída pela imagem tropeça e cai de frente no chão. Levanta apressada e olha em volta procurando a figura, ouve a canção sombria sussurrada em seu ouvido, vira para trás e vê a expressão séria a lhe encarar. Sente algo crescendo no peito e tentando subir pela garganta, um frio pesado no estômago como se tivesse engolido uma grande pedra de gelo, era sensação de dor, tristeza, solidão e os olhos escarlates pareciam ser o centro de tudo aquilo. Estava certa de que iria morrer ali, com sua alma roubada pelo ser feminino a sua frente, mas algo inesperado ocorreu.

Uma faca cortou a noite pareceu atingir a figura de cabelos brancos no meio da testa, foi certeira, mas a lâmina apenas continuou voando distante até encontrar um tronco de árvore. A criatura se ergueu com seriedade e sumiu em frente aos olhos.

- Você está bem? – ouviu a voz grave perguntar e seu coração disparou, não sabia qual dos dois lhe assustava mais.

Ele a catou por um braço e quase a levantou completamente do chão, para que ficasse de pé. Suas mãos sujas mancharam o xale de sangue e Sophia estava fraca, só o cheiro metálico já a deixou semi acordada. Ele a segurou pela cintura e a cabeça dela recostou no ombro do cavaleiro. A outra mão dele trazia uma faca pronta para ser atirada, caso o ser aparecesse de novo.

- Ei! – ele a sacudiu um pouco – Está viva ainda, mulher? – ela despertou um pouco e se afastou.

- Estou.

Sophia voltou a ouvir a canção, mas estava distante, se afastando, indo embora. Uma comedora de almas, era isso que era. Uma mulher miúda, albina com aparência e voz infantil que se alimentava de almas, mas por que a perseguia? Há dias ouvia aquela canção, até mesmo se pegou cantando uma vez ou outra, mas foi a primeira vez que a viu de fato. Que soube o que era e isso lhe causou um calafrio tão intenso que apertou o peito como se tentasse tocar seu próprio coração.

- Nemuru. – sussurrou muito fracamente e a canção cessou.

- O que? – o cavaleiro perguntou rude.

- Nada.

- Venha, vamos voltar. Isso não é hora de estar andando por aí. – disse já se virando para caminhar.

Se ele a tivesse encontrado no meio da floresta não queria nem pensar no que poderia ter feito. Máscara da Morte era um assassino nato e viveu entre bárbaros por tempo demais, não conseguia largar os velhos hábitos. Mas a viu sair da cabana, concluiu então que deveria evitar fazer dela uma vítima. Sophia demorou um pouco para ir atrás do cavaleiro. Sua mente se encheu das páginas de um livro que lera sem permissão de uma das acusadas de bruxaria. A inscrição da página – a única no livro com uma caligrafia diferente – dizia com clareza: para o dia de minha morte. E não soubera bem porque, mas quando estava na fila da fogueira pronunciou aquelas palavras, os versos em uma língua estranha e desconhecida, nem sabia o que significava ou se a pronúncia estava correta, apenas repetiu como tinha lido. Talvez aquilo pudesse salvá-la, pensou. Lembrava-se com clareza da assinatura no rodapé.

"Nemuru."

E temia pelo que tinha invocado.

- Vem logo! – Máscara da Morte exclamou, ela levou um susto e o seguiu tropeçando pouco antes de alcançá-lo.

Ele virou e a olhou de cima com um sorriso estranho, malicioso. Segurou o braço dela de novo e a ergueu pondo sobre os pés como uma facilidade incrível.

- O que há de errado com você? – ralhou.

- Comigo? – perguntou ajustando os óculos inexistentes no rosto e se sentindo muito estúpida depois - Você que está cheio de sangue no meio da noite!

- Há! Você que saiu correndo feito uma louca floresta adentro. – rebateu.

- Porque você que está cheio de sangue no meio da noite!

Ele apenas soltou o riso pelo nariz e voltou a caminhar, agora com a moça seguindo o lado dele. E a canção infantil voltou a soar somente em seus ouvidos.

VI: Gatos, ilusões e bruxaria

O grupo de Shion chegou à dita Floresta de Sangue, o lugar realmente cheirava a morte e a luz não penetrava mais de poucos metros mata adentro. Devia ser a noite eterna naquele lugar. Em algumas árvores era possível perceber caminhos de seiva escarlate descendo pelos troncos, era grossa e escura em alguns pontos, como sangue coagulando em um corte profundo. Daí vinha o nome da floresta. Aquela espécie de planta era rara e antiga, mas originou a lenda de que a madeira sangrava porque era regada a morte e dor humana. E a lenda do Sorriso de Gato, aquele que simbolizava morte certa, só dava mais força ainda ao mito.

Shion cravou o cetro na terra aos arredores da floresta e a caravana parou, ele sentiu uma áurea vindo da mata, como a respiração de um dragão faminto, quente e sonora. O mestre conselheiro avaliou o chão, a grama alta e dourada morria ao sinal da primeira raiz retorcida, e o chão seguia limpo de plantas menores, eram apenas árvores de grande porte, de copa cheia, completa, como o teto de uma cripta, folhas castanhas sobre a terra úmida pareciam se despedaçar sozinhas fazendo estalos secos ecoarem entre os galhos. E havia além de tudo aquela ausência de fauna, nem pássaros, nem olhos brilhando pela mata, nem mesmo morcegos que tinham tanta afinidade com aquele tipo sombrio de escuridão. Isso deixou o conselheiro nervoso, se aproximou mais da pedra vermelha no topo do cetro e acariciou o pequeno dragão de ouro agarrado a ela. Estava ficando tenso, até mesmo sua mandíbula apertou.

- Por que paramos? – Aiolia se apresentou ao seu lado tentando ver o que ele tanto encarava naquelas árvores.

- Mau pressentimento.

- O que acha, Conselheiro? – Aioros, mais calmo, encarou o loiro com peso o suficiente para lhe incomodar.

- Eu certamente ficaria mais tranquilo se vocês não fossem. – suspirou pesadamente e pegou o cetro na mão, com ele sentia mais autoridade, virou para os outros e ergueu a voz o suficiente para chamar a atenção – Devemos nos dividir por aqui. – começou e todos pararam o que estavam fazendo – Precisamos investigar também a mulher da Grande Montanha Branca e quanto a Shura, ele deve ficar para tomar conta da metamorfa, seria bom que tivesse ajuda para não ficar sozinho com as três donzelas. - Kendra bufou e quase riu: "Donzela? Tá falando de quem, ô do olho de coelho?!".

- Eu fico. - Milo se ofereceu batendo a mão no peito.

- E eu posso liderar a subida pela montanha. – Camus se apresentou, sua voz sóbria não saindo do tom indiferente em momento algum e Shion assentiu.

O Conselheiro já havia percebido que os dois templários pareciam se pronunciar juntos nas discussões e nos últimos dias, bem, desde que Ceres e Luna apareceram, pareciam estar competindo para ver quem era mais útil ao grupo, mas isso sem toparem de frente um com o outro. Se o francês iniciava uma tarefa o loiro também o fazia o mais rápido possível e vice versa.

- Acho que seria prudente que o sacerdote ficasse aqui. – o mais velho do grupo falou também.

- Você acha? – o clérigo carregou sua voz com ironia.

Mas é claro que acha, ele só iria atrapalhar, um homem cego que nunca tivera de fato habilidades de luta em uma missão perigosa, ele estaria pedindo para morrer, não é? Um silêncio pesado se instalou no ar e só foi quebrado pelo pigarro sem jeito de Aioros.

- Acho que Aldebaran deve subir a montanha com seu companheiro, já que estão acostumados a trabalhar juntos. – o príncipe falou tentando desviar a atenção da condição do sacerdote.

Discutiram um pouco mais sobre o que fariam e os cuidado que deveriam tomar e ficou acordado assim: Shura Milo e Shaka ficariam no acampamento e esperariam o regresso dos outros, caso os grupos não voltassem, eles deveriam encontrar Saga e voltar ao castelo em Drepanon com as prisioneiras. Camus e Aldebaran partiram de imediato para Grande Montanha Branca para procurar pela donzela das neves que João descrevera e Shion e os príncipes procurariam o sorriso de gato na Floresta de Sangue. Parecia um bom plano, não? Mas havia um pequeno detalhe que não fora considerado, um pequeno, mas importante detalhe. Shion não poria a vida da realeza em risco. Pois veja bem, ele havia sentido todo tipo de calafrios ao observar aquela mata, iria contra sua função deixar que metade do principado se embrenhasse por ela procurando pela morte certa, pois fora assim que o aldeão definira o Sorriso de Gato, morte certa. Na calada da noite o loiro de olhos avermelhados levantou-se de sua tenda. Deixou de lado as roupas pomposas e pôs uma capa escura sobre os ombros. Saiu em silêncio sorrateiro e levando o cetro em uma das mãos andou a passos firmes pela treva sólida da floresta sombria. Quando estivesse mais fundo na mata iria acender uma tocha para não chamar a atenção dos que dormiam o sono dos justos.

No entanto, Shion também deixara de considerar uma variável, uma bela e jovem variável: Luna não dormia. Ela analisava as poucas estrelas do céu coberto de nuvens e o vira sair como um ladrão de onde estava. Mas sabe-se lá porque, ela achou aquilo perfeitamente normal, talvez por não ter ouvido a conversa mais cedo ou sobre o quão perigosa era a floresta, mas simplesmente ficou onde estava por algum tempo.

Ele não precisou acender a tocha. Mais a frente os caminhos de seiva vermelha brilhavam como neon, espalhando a luz escarlate por todo o ambiente.

- Curioso. – pensou tocando a seixa e a vendo apagar em seu dedo.

Nas copas das árvores pontos vermelhos se abriam em par, como olhos malignos a lhe olhar de seu esconderijo. Ele se aproximou de uma das árvores e percebeu que o que pareciam pequenos vagalumes vermelhos eram na verdade flores que se abriam em pares e estavam molhadas da mesma seiva que corria o tronco. Ele continuou avançando mata adentro e sentiu um pingo lhe tocar o rosto. Olhou para cima e era como se estrelas cadentes vermelhas descessem pelo céu, o líquido rubro escorria pelas pétalas e caia brilhando, apagando-se apenas ao tocar o chão. O conselheiro percebeu que a luminescência não ia durar muito e tirou a tocha que trazia amarrada a cintura tendo alguma pressa em acender.

- A floresta está chorando sangue. – suspirou tentando fazer fogo com duas pedras – Por quanto tempo ela lamentará por você, Sasha? – sussurrou abrindo um sorriso melancólico, muito perdido em lembranças distantes.

A tocha acendeu e ele voltou à caminhada, não tinha um rumo certo, apenas esperava que o Sorriso fosse lhe encontrar. Não demorou muito para a floresta voltar à escuridão total, Shion tinha um andar muito suave e ao contrário do que imaginava a bruxa que habitava entre aquelas árvores não era antiga, na verdade, o martírio de Cheshire começara há pouco tempo antes por culpa dos próprios habitantes. Havia um homem bondoso na cidadela, ele era sensato, diferente da maioria ali e não era do tipo que julgava. Tinha olhos verdes de um tom singular. E esse homem se apaixonou por uma bruxa poderosa, com os olhos de ametista, cor que denunciava o toque de magia que habitava em seu corpo. Juntos tiveram uma filha, meio bruxa, meio humana, uma íris verde e outra roxa: Merida.

Ela vivia com o pai em Cheshire, a mulher lhe lançou um feitiço de ilusão para que seus olhos parecessem ambos de cor normal. Sua mãe ia e vinha, não podia ficar sem causar alvoroço, mas também não queria deixar a filha e o amado. Quando Merida tinha seus sete anos sua mãe a visitava e, como sempre, lhe dava aulas de bruxaria quando homens irromperam pela porta a arrancando de casa e levando a uma fogueira. A menina bruxa assistiu enquanto a mãe era queimada deixando um sorriso vivo para tentar tranquilizar a criança, mas ocorreu algo que não haviam previsto. A cor falsa acima do olho bruxo se dissolveu como água de um lago evaporando e as atenções se voltaram para a menina. O pai a pôs em cima do ombro e fugiu, mas não foi longe, viveram dentro da floresta de sangue por anos. Mas perder a mulher que amava foi um golpe duro demais, o homem morreu de tristeza algum tempo depois e a jovem bruxinha ficou só com seu coração cheio de vingança.

A floresta era seu lar e sua arma, qualquer um que entrasse ali morreria. Naquela noite estava dormindo em um enlaçado de galhos de uma grande árvore vermelha, se espreguiçava de um lado para o outro, a floresta era sempre escura, então seu horário de sono era sempre que tinha vontade. Encostados nela ou em galhos da mesma árvore dormiam dezenas de gatos e dois filhotes brincavam no emaranhado negro de seus cabelos. Um dos felinos, no entanto estava bem desperto, acabara de chegar e seus olhos amarelos estavam quase tomados pela pupila dilatada. Ele pôs a patinha peluda no rosto da bruxa e cutucou de leve, ela se mexeu um pouco incomodada e rolou para o lado, com gatos acompanhando o movimento. Depois a insistente criatura pulou seu corpo e de novo cutucou-lhe o rosto, ela apenas afastou a patinha com um movimento sonolento de mão. O gato perdeu a paciência e lhe deu uma patada no nariz.

Merida acordou no susto sentando-se e olhando em volta, os gatinhos rolaram por seus cabelos e todos os outros reviraram nas árvores. O gato que a chamara miou e ela o olhou piscando os olhos bicolores.

- Oh, temos visita. – abriu o sorriso divertido e se espreguiçou longamente bocejando e quando pareceu que ia levantar despencou de volta no lugar onde estava dormindo – Vão lá receber, sim? – sorriu preguiçosa e se aninhou com os dois filhotes para dormir mais cinco minutos.

Shion andava um pouco mais e decidiu que já fora longe o bastante, achou um lugar onde pudesse esperar e apenas sentou recostando-se e fincando a tocha no chão. Ainda estava um pouco sonolento, mas não ia ser inconsequente de dormir no meio de uma missão, era pelos seus príncipes afinal. Pouco tempo depois percebeu um gatinho parado lhe observando e segundos depois um outro felino miou ao seu lado. Ele fez um carinho leve em sua cabeça e um terceiro apareceu se aproximando. Em menos de cinco minutos Shion perdeu a conta de quantos bichinhos tinha ali e imaginou que isso fosse o primeiro presságio, apoiou-se no cetro e levantou procurando algum sinal da bruxa.

De repente do meio da selva um leão selvagem se levanta e corre na direção do conselheiro com ganas de atacá-lo, Shion em um movimento completamente instintivo se apoia em um joelho e se defende do animal com o cetro. A figura se desfaz em fumaça e sussurros.

- Uma ilusão? – se põe de pé e alcança a tocha, os gatos começam a miar – Por que não aparece de uma vez? - seguiu com os olhos muito vermelhos pela luz da chama – Não vou te fazer mal. – concluiu.

"Você? Me fazer mal?", ainda no leito Merida ouvira a voz dele e riu tentando não fazer barulho. Ela levantou bocejando de novo e ajeitou de leve os cabelos cacheados e rebeldes. Pensava qual seria seu próximo truque. Ele não se apavorava com criaturas assim, então podia tentar uma abordagem diferente. Esfregou um pouco o dedo indicador e o polegar até senti-los quentes, soprou levemente a junção e dela saiu aos poucos uma névoa acinzentada que se propagou por entre as árvores até alcançar os pés do conselheiro. Tudo em volta dele perdia a cor, até mesmo o fogo trepidante da tocha ficara sem vida. Merida pôs a mão sobre sua própria garganta e soltou um lamento prolongado que se espalhou em ecos de diferentes vozes vindos de diferentes pontos. Shion olhou em volta, as árvores pareciam retorcer seus galhos e petrificar por onde ele passava, era um cenário sombrio que lhe causava arrepios violentos.

A sua frente se ergueram do chão figuras em capuzes negros similares as dele, gemendo, arrastando correntes, implorando misericórdia. Andavam todas na direção dele, arrastando os pés enquanto passavam, mas o homem não se abalou tanto assim, sim, era um cenário terrível, assustador e os túmulos que apareceram mais a frente entre as árvores não ajudavam em nada. Os nomes, os nomes nas lápides que o fizeram tremer onde estava: Hasgard, Manigold, Asmita, Albafica, El Cid... Todos os seus antigos companheiros... Kardia, Dégel... E finalmente seus senhores... Regulos, Sisyphos, Deuteros. Mas não havia o último túmulo, não havia Aspros. De repente as figuras tiraram o capuz e revelaram os rostos conhecidos, os companheiros de batalha, passaram por ele com os olhares mórbidos, Shion tinha lágrimas nos olhos. Por quê? Por que mostrar algo assim?

- Você deveria ter vindo conosco. – ouviu a voz feminina, conhecida de muito tempo, um amor latente, um amor morto.

- Yuzuriha... – sussurrou o nome da falecida.

- Você me deixou, Shion. – disse com seriedade, acusando – Olhe para mim! – ela gritou.

- Lasciate ogni speranza voi ch'entrate. – fechou os olhos e pode sentir o peso de uma mão no ombro - É uma ilusão. – disse para si mesmo – Apenas uma ilusão.

Mas a mão seguia firme em seu ombro. O seu nome soou na voz dela e isso foi doloroso demais. O passado estava morto e assim que deveria ficar. Sem esperança, repirou fundo, a dor deveria passar, já fazia tempo demais. Levantou o queixo e se pronunciou pondo a mão no ombro sobre a dela e sentindo nada além de sua própria capa.

- Isso é cruel. – ele disse e a névoa subiu mais alta até nublar por completo sua mente.

Merida o observava do topo de uma árvore, batia os dedos na madeira, estava irritada. Qual o problema com aquele homem? O que ele sabe sobre crueldade? No entanto, mesmo irritada os olhos continuavam risonhos, escondida na segurança da névoa ela se aproximou e apagou sua tocha. E logo o conselheiro se viu na escuridão total.

- Se os mortos não o assustam...

Sussurrou e uma luz branca e fraca iluminou a treva. Por entre os galhos a lua minguante se apresentava e ele pode ver mais a frente a figura de um homem. Aproximou-se pouco, bem pouco e pode reconhecer o mais jovem dos príncipes que sorriu ao vê-lo. Shion arregalou os olhou e se aproximou ainda cauteloso. Aiolia andou dois passos e cuspiu um jato fino de sangue, sorria derrotado. De seu peito surgia uma lâmina velha e o rapaz loiro caia de joelhos para depois desfalecer no chão. O coração de Shion apertou, mas ele não se deixaria levar, não podia.

- Apareça de uma vez, não vou cair nos seus truques. – tentava se manter calmo, mas ela o havia conseguido irritar.

Merida também não estava contente. A lua minguante desceu rapidamente do céu e ao se aproximar Shion pode ver os caninos pontudos despontarem no brilho.

- O Sorriso de Gato. – e o mesmo se alargou – Essa é a parte que você me mata, não é? – segurou o cetro firmemente com as duas mãos.

- Seria... Em outra ocasião. - Respondeu risonha e o olho bruxo apareceu na imagem.

Ele ouviu o som de palmas e os caminhos de seiva se acenderam de novo, a luz logo chegava às flores e a clareira se iluminava. O corpo de Aiolia não sumiu. Ao poucos os cabelos negros e cheios apareceram e só então o olho verde, as sardas e por fim a pele clara ofuscada pelo brilho ametista.

- E não nesta ocasião? – ele arquejou a sobrancelha.

- Você não foi uma presa muito boa. – ela se aproximava e o olhou de cima a baixo – E não veio de Cheshire. – parou ponto as mãos na cintura ainda risonha – E tem um cetro bruxo. Onde conseguiu isso?

- Não importa. Poderia vir comigo, por favor? – pediu um tanto sem paciência, o jogo dela era cruel demais.

- Para onde? – ela perguntou risonha e irônica, achou divertido o pedido – Não posso deixar a floresta, tenho uns ratinhos presos na armadilha. Vai logo embora que você está atrasando o serviço, tá? – disse enxotando-o com uma mão, mas ainda sorrindo.

- Você deve vir comigo. – ele enfatizou cada palavra, o jeito infantil dela deixava claro que não era velha como pensava, devia ter no máximo vinte anos.

- Obrigada, mas não dá. – piscou para Shion e sua imagem já estava começando a sumir no cenário enquanto a luz vermelha enfraquecia, ela se virava para ir.

- Muralha de Cristal. – a conselheiro estendeu o cetro e exclamou e Merida bateu de cabeça contra uma superfície dura, levou as duas mãos a testa.

Exclamava sutilmente de dor e olhou para trás para dizer que havia mudado de ideia e que iria matá-lo pela ousadia, mas quando o fez viu os olhos vermelhos muito próximos. Um vento quente balançou os cabelos loiros com força e uma segunda vez Shion lhe apontou o cetro.

- Revolução Estelar! – foi como se mil estrelas despencassem do céu e parassem atrás dele para depois se encontrarem na pedra vermelha do cetro e se atirarem contra a jovem bruxa.

Não ouve dor. Merida apenas sentiu como se o corpo realmente se desfizesse como nas ilusões que provocava, estava distante, sua mente viajava no limbo, havia apenas o vazio, então seus olhos fecharam e já não havia mais nada.

VII: Prometida

Em uma torre alta do castelo a jovem princesa suspirava contrariada. Sentada em frente à penteadeira e cercada de criadas, ela as via puxar, repuxar, esquentar e enrolar seu cabelo com uma lentidão que só podia vir de quem nunca estivera no mesmo lugar que ela. Odiava bailes. Não que a festa fosse ruim, se divertia dançando, mas todo aquele protocolo... Pelos céus, estava sentada naquela cadeira já fazia duas horas e isso depois de uma hora imersa em água de cheiro e uma sessão de tortura que sua mãe chamava amorosamente de manicure. Bufou. Além de tudo iria descer e falar com cada convidado, ouvir comentários desnecessários sobre sua beleza e com um pouco de azar seria tratada com a mais bela porta do salão. Sua mãe ficaria ao seu lado o tempo todo lhe impedindo de falar de qualquer que pensasse ser interessante e naquele dia em especial havia aquele pequeno agravante.

Um noivo. Um noivo desconhecido que poderia muito bem ser um bárbaro misógino e ignorante. Ou poderia ser um homem refinadíssimo que seguisse os mesmos dogmas de sua mãe. Jurava a si mesma que não suportaria passar a vida toda se fosse para ser como nos últimos quatro anos. Era sempre sobre postura correta, vestidos espalhafatosos e fingir ser burra na frente dos nobres. Pelos céus, não poderia estar acontecendo. Quanto mais pensava nesse casamento mais sua mente fervilhava e pegava cada personagem caricaturado dos livros que lera e lhe punha uma coroa na cabeça. Saga era bonito, sua mãe dizia, mas e se ele também não quisesse casar? Se o fizesse tão somente para tomar o reino de seu pai e depois a trancasse numa torre alta com a comida lhe sendo passada por debaixo da porta? Juliet era filha única, se casasse o marido passaria a ser rei um dia, seus pais tentaram ter outros filhos, mas a mãe sempre os perdia, sabia que ela sofria com isso, mas o fazia com um sorriso no rosto. Por isso era tão difícil acreditar nela, estava sorrindo mesmo quando queria chorar. Então como poderia dizer a jovem garota que seria feliz como ela se Juliet não conseguia nem mesmo crer completamente nessa felicidade? Sim, seu pai a amava, não tinha duvidas disso, mas bastava? Era como se a mãe tivesse a vida toda anulado seus próprios desejos e lhe ensinasse a fazer o mesmo.

- Terminamos, sua alteza. – a menina levanta os olhos para o espelho.

Seu longo cabelo ruivo estava todo enrolado e puxando em um coque complexo, cheio de torcidos e tranças q com bastante volume encima deixando uma cama perfeita para sua coroa de cristais. O penteado revelava seu rosto completamente, a pele rosada não apresentava falha alguma e o rosto era tão harmônico que não havia necessidade de pintura. Por um momento ela se perdeu das preocupações analisando sua imagem, estava muito, mas muito parecida com... Sua mãe. Suspirou e os olhos foram automaticamente para os sapatos altamente quebráveis que teria de usar. Havia torcido internamente para que não coubessem, mas quando provara viu que se ajustavam com perfeição a seus pés. Mesmo que fossem grandes ou pequenos sua mãe daria um jeitinho para que os usasse. E falando no diabo...

- Ele está aqui! – a rainha entra como um furacão pela porta da frente – Saiam! Saiam! Quero ficar a sós com minha filha. – Ordenava animada e as criadas saíram com o mesmo entusiasmo, provavelmente curiosas para ver o príncipe – Ele é lindo, filha! Simplesmente lindo! Loiro, alto, forte e muito cortês! Se eu mesma não fosse casada...

- Mamãe! – a garota repreendeu.

- Ora, não precisa ficar com ciúmes de sua velha mãe.

Juliet a olhou com estranheza, de velha sua mãe não tinha nada, muito pelo contrário, era jovem e parecia ter a idade dela vestida com aquele cetim azul tão jovial. Era ruim vê-la tão animada e agora então que o príncipe parecia corresponder todas as expectativas da mais velha a princesinha tinha certeza de estar perdida.

A garota pega sem muita vontade a máscara de gatinho que lhe esperava na penteadeira. Era toda trabalhada em porcelana e cristais e tinha leves ganchos e finas correntes que se prendiam a coroa e ao cabelo. Sua mãe lhe punha a tiara com cuidado para depois ajeitar o vestido rendado, cor de perola. Fez a menina ficar de pé e ajustou com as mãos a saia cheia, pela mãe teria mais babados, mas não importava, Juliet estava linda de toda forma.

- Ponha os sapatos. Vamos descer para conhecê-lo. Vou mandar tocar uma valsa para que dancem e se apaixonem. Ai, filha, irá amá-lo assim que o vir.

- E se não amar? – dizia desanimada enquanto pousava um pé e depois o outro no forro de seda dos sapatos.

- Você vai!

- Mas e se...

Não teve tempo de concluir a pergunta, já estava sendo puxada para fora de seu quarto, descendo as escadas com demasiado cuidado, os sapatos faziam um barulho fino ao tocar o chão de mármore e pareciam taças tilintando ao tocar um no outro. E isso só a fez lembrar de como taças de cristal eram frágeis, estava mais nervosa a cada segundo. Como iria dançar se nem sequer conseguia andar direito sobre aquele salto? Estava perdida. Perdida.

Chegaram às portas do salão de baile e a mãe enfim soltou sua mão enquanto sozinha e indo ter com a orquestra, provavelmente para pedir aquela valsa da qual falara. Juliet respirou fundo e como que tendo o efeito contrário, o oxigênio a deixou ainda mais nervosa. "E se não amar? E se olhar para ele e não..."

- Vossa alteza real, a princesa herdeira Juliet! – o mestre de cerimônia anunciava e foi como se os olhos verdes pudessem ver todo o salão virar-se para a porta esperando que entrasse.

Respirou fundo mais algumas vezes. Juntou as mãos sobre o abdômen e andou para onde todos os convidados pudessem vê-la, parou encarando todos por cima e fazendo uma leve e demorada reverência, muito difícil de ser executada sobre aqueles sapatos. E depois caminhou com elegância até onde havia avistado seu pai conversando de forma estranha e até um pouco agressiva com um jovem loiro. Os cabelos dele estavam presos com fita e ele tinha na mão uma máscara segura por uma aste dourada. As vestes ostentavam riqueza e a tiara que cortava sua testa não o deixaria negar. Era ele. Era Saga. Ela se aproximava observando os trejeitos dele, com certeza a vira entrar, mas não parecia ter dado importância. A princesa não sentira nada por ele e com certeza ele também não. Ela suspirava, respirava com certa dificuldade e cumprimentou as pessoas com deliberada lentidão para que o trajeto até ele fosse o mais demorado possível.

Mas sabia que não poderia evita-lo para sempre, a valsa começou e viu sua mãe se meter na conversa dos dois e de alguma forma fazer com que Saga fosse dançar. O príncipe pareceu relutar, mas já conhecia daquelas, não era sensato discutir com uma rainha. Ele deixou a máscara com seu acompanhante e caminhou até ela, que ainda estava no meio do trajeto. Ele lhe fez uma reverência demorada e perfeitamente executada e a menina se atrapalhou um pouco na sua. As pessoas em volta se afastaram dando espaço para os dois. Saga tinha um olhar intenso que a deixou rubra na hora, mas ainda assim não era nada como imaginara... Nada como nos livros.

- Desculpe por isso princesa. – disse a tomando em posição de dança – Também não foi ideia minha.

Os dois começaram a bailar, muito lentos a princípio acompanhando as notas doces da valsa. Ela se sentia ainda mais envergonhada, as pessoas lhe assistindo enquanto conhecia seu noivo, o olhar de aprovação cega de sua mãe e o rosto estoico do príncipe que apesar de tudo lhe tentara ser gentil. Ele dançava divinamente e parecia estar sendo muito paciente quando ela trocava os pés. Juliet se sentia sufocada. Já não bastassem os sapatos perigosos, a saia estava pesada e as muitas camadas de tecido se enroscavam entre suas pernas. O espartilho que sua mãe fora pessoalmente apertar lhe impedia de respirar como gostaria. Os diversos suspiros que dava não iam muito longe, mas a despeito de tudo isso, só havia um pensamento em sua mente.

E quanto ao amor? Não estava sentindo, não tinha nada contra aquele homem, mas tampouco o tinha em alta, ele era bonito, sim, mas nem sequer sorrira. Não havia amor em seus olhos, na verdade, não parecia haver nada relacionado a ela. Era o protocolo mais uma vez, os dois só estavam seguindo o maldito protocolo e ela não podia mais. Não aguentava!

Ouviu uma interjeição de espanto geral e olhou em volta já então percebendo o que havia feito. Empurrara Saga e o deixara com os braços em arco a sua frente. Olhou em volta sentindo as lágrimas vindo aos olhos sem que realmente caíssem.

- Não posso fazer mais isso. – disse em um sussurro para Saga.

- Princesa...

- Desculpe! – exclamou e sem dar tempo ao rapaz saiu correndo porta a fora.

Os sinos anunciavam a meia noite e a princesa descia o vão de escadas na entrada do castelo em marcha acelerada. Na porta dos castelo sua mãe lamentava: "Ela nunca me ouve, se ia fugir tinha que ter deixado para trás um sapatinho, ah, essa menina...". Seu coração batia forte como nunca e só entendia que devia fugir, fugir de uma vida sem amor. Era a única solução! Não havia como ir contra a rainha. Só poderia fugir. Havia até mesmo esquecido de seus sapatos delicados. Até que sentiu um e depois o outro quebrarem sob seus pés. Se desfizeram em pedrinhas pequenas e pontudas que cortaram sua pele e encravaram na carne, mas não pode se importar. Apenas continuava a correr sem destino, se emprenhando em uma floresta escura até enfim tropeçar a cair de frente no chão fofo de folhas de outono. Ofegou com dificuldade e chorou de leve.

- Pobre menina rica. – ouviu a voz melodiosa e se alarmou.

Olhou em volta e viu um vulto feminino sentado em uma pedra na escuridão.

- O que te aflige, criança? – a mulher estranha perguntava.

Juliet secou as poucas lágrimas e sentou-se, respirou fundo uma ou duas vezes e falou.

- Estão me obrigando a me casar.

- Mas é seu dever de princesa. – falou compreensiva.

- Como você sabe...?

- A coroa, querida. - ainda que os cabelos estivessem desgrenhados era possível ver a tiara e a máscara de gato presa a ela – Além do mais, não é como se uma princesa pudesse ser de todo desconhecida.

- Pois queria ser! Queria que ninguém jamais me reconhecesse! Queria outra vida que não a de princesa. – dizia em um misto e raiva e melancolia.

- Talvez eu possa ajudar. – a voz disse com um riso leve – Seus pés doem?

A princesinha olhou pra baixo e se viu suja até o tornozelo de sangue e terra, estava tão cheia de adrenalina ao fugir que só sentiu a dor com toda sua força no momento em que vira os cortes nos pesinhos delicados. Olhou para a bruxa e assentiu, e ela, em um aparente gesto de boa fé, lhe jogou duas botas de couro marrom.

- Ponha e a dor vai passar.

Ela calçou as botas sem levantar e fitou o vulto com curiosidade. Juliet arrumou tímida os fios de cabelo que se desprendiam do penteado.

- Agora... Quanto ao seu desejo...

- Meu desejo? – perguntou estreitando os olhos para tentar ver a mulher envolta de escuridão.

- De não ser reconhecida...

- Ah... – ela falou sorrindo triste – Quero encontrar meu verdadeiro amor, alguém que queira ser meu por mim e não por minha coroa.

- Entendo. – a bruxa disse e a ruiva pode ver um sorriso se abrir na escuridão – Acho que posso fazer algo por você. Posso deixá-la irreconhecível.

- Mas meus pais...

- Não se preocupe, é só até encontrar o que procura, quando tiver o beijo do amor verdadeiro o feitiço se desfará. O que acha?

- Parece maravilhoso! – seus olhos verdes brilhavam como nunca.

- Podemos fazer um acordo então? – o sorriso se alargou.

- O que quer em troca?

- Oh, nada demais, pergunto por pura formalidade. – disse com a voz melódica.

- Então sim! Temos um acordo! – disse levantando feliz.

Antes que pudesse ter alguma reação a figura negra de pele queimada se materialisou a sua frente e com as mãos ásperas em seu rosto beijou seus lábios com a crosta eca em volta da boca. A princesa sentia-se fraca, eu corpo estava petrificado imóvel e em um segundo começou a sentir a pele queimar em brasa, cada vez mais quente até que os olhos verdes, arregalados, podia ver o fogo negro subindo pelos braços, alcançando torço e pescoço. EO rosto da bruxa descamava carvão, revelando uma pele macia como pêssego, rosada, os cabelos chamuscados caiam e cresciam ali longas ondas negras, agora mostrando um reflexo vermelho, antes visto nos cabelos longos da jovem menina. Juliet queria se mexer, fugir e dar um jeito de apartar a dor da queimadura, mas não conseguia, só podia deixar as lagrimas escorrerem por seus olhos, a íris também perdia a cor viva, como seus cabelos que pareciam ter sido encobertos por uma nuvem cinzenta, como tinta se apagando pelo tempo. Por ultimo, a ruiva sentiu dor na face e pode sentir as cheias mancas de seu rosto murchando. Então a bruxa a soltou.

Pandora parecia agora mais bela do que nunca. A pela rosada e com sardas delicadas que roubara da outra, os olhos escuros, mas agora verdes e os cabelos brilhando como um profundo lado de vinho. A menina caíra de joelhos e a cruel mulher já se virava para ir embora, mas antes olhou para a figura decadente chorando e tossindo e isso pareceu lembra-la que atravessado, lotado de espinhos como uma almofada de alfinetes em seu peito havia um pequeno e singelo coração, que por menor que fosse ainda batia e ainda lembrava de como era perder todos os dons. A bruxa debochou de se mesma, revirou os olhos e bufou.

- Ouça, eu não sou de todo mau. Vamos, vou lhe dar uma chance. – a menina ergueu os olhos chorosos para ela – Do badalar das onze horas até o ultimo sino das doze você voltará a ser como era, linda e bela como a mais bela rosa. – e sorriu sincera.

Mas Juliet tinha mais que tristeza em sua alma, tinha ódio, raiva e vingança e isso se transpassava por seu olhar. Pandora lhe sorriu com desdém, podia sentir sua fúria nos ossos e o coração que sentira antes ficou um pouco menor.

- Não deveria guardar rancor, princesa, você não sabe o que isso faz com as pessoas. – se aproximou dela e baixou a máscara de gatinho em seu rosto sorrindo macabra – Poderia até mesmo te transformar em uma fera.

Juliet sentiu a máscara criando espinhos e se fundindo ao rosto, furando a pele já castigada. E sua raiva ficou ainda maior, crescendo em seu peito, afastando os ossos das costelas uns dos outros, fazendo seu torso crescer, entortando o joelho na direção oposta. Pelo espesso e macio rasgava os poros da pele e as orelhas da mascara sobretinham as suas. A metamorfose só cessou quanto assumira aparecia felina, com olhos verdes brilhantes atravessados por um único risco vertical negro, furiosos. Uma fera felina e humana, cega com sua ira. A risada da bruxa cortou a noite e ela sumiu sem esperar para ver que vitima inocente a princesa besta faria. E ela faria vítimas, Pandora não tinha dúvida.

~0~

Yoo, minna!

Ai, que emoção :~~ Terminei o capítulo infinito! \o/ Tenho que diminuir o tamanho dessas coisas, eu, hein? xD Eu queria agradecer aqui pelas reviews, acho que não vou ter tempo de responder nem tão cedo x.x Muito obrigada, suas lindas!

Espero que continuem gostando!

Beijinhos,

V. Lolita