Parte II

O dia amanheceu tão frio quanto o anterior.

O Guardião da Nuvem deixou o quarto somente quando foi importunado por Mario. O Braço Direito de Ivan entrou devagar, fazendo sinal para que ele saísse do cômodo. Os dois se encontraram na divisa entre porta e corredor, e tudo o que o homem de longos cabelos ruivo disse foi que ficaria ali até que o Inspetor de Polícia tomasse um banho.

Alaudi não pestanejou ou repreendeu aquela pessoa. Ele estava cansado, exausto, não pela noite não dormida, pois, como Chefe da força policial, era costume perder noites enquanto trabalhava. Sua exaustão derivava da culpa, da angústia e do medo de que poderia nunca mais ver aquela garotinha correndo pelos corredores, fazendo perguntas indevidas e pendurando-se nas pernas dos demais. O Inspetor seguiu até o quarto de Ivan, indo maquinalmente até o banheiro da suíte. Seu banho foi rápido e ele declinou a banheira e optou pelo chuveiro. A segunda parada foi escovar os dentes e a terceira pegar uma troca de roupas limpas. Alaudi deixou o quarto em menos de 15 minutos, não ficando surpreso ao ver o corredor cheio de preocupados subordinados. E, no meio de todos aqueles rostos pseudo-estranhos, havia uma face conhecida.

"Ela acordou. As empregadas estão ajudando no banho." Giulio vestia a mesma roupa da noite anterior e, pela expressão cansada em seu rosto, ele provavelmente passara a noite na mansão, esperando.

"Peça para trazerem o café da manhã. Eu a acompanharei." O louro virou-se para um dos subordinados antes de se dirigir ao Vice-Inspetor. "Você precisa ir?"

"Sim. Não posso deixar a sede sozinha." O moreno estava visivelmente contrariado, não por precisar voltar ao trabalho, mas por não querer deixar a casa naquela situação. Quando Ivan viajava, o Guardião da Nuvem se afastava do trabalho e Giulio assumia as funções. Sua ausência naquela semana já estava certa, então não haveria problema.

"Você tem certeza? Eles podem sobreviver um dia sem nenhum de nós." O Inspetor de Polícia se surpreendeu ao dizer aquilo. De repente trabalho se tornou a menor de suas preocupações.

"Eu sei, mas o trabalho me ajudará a esquecer." Giulio abriu um meio sorriso. "Se for possível eu voltarei à noite para ver como ela está. Não se preocupe com mais nada, Alaudi. Tudo está sob controle."

O louro meneou a cabeça em positivo. Apesar do cansaço, sua mente estava clara e as preocupações que o assolaram na noite anterior não o assombravam mais. O Guardião da Nuvem fez um breve comentário sobre o relatório que havia recebido e ambos decidiram que uma reunião seria feita na semana seguinte para planejarem o rumo das investigações. Giulio despediu-se com uma polida reverência, descendo as escadas e deixando a mansão no mais puro silêncio. O Inspetor de Polícia o observou do andar de cima e foi impossível não notar que em momento algum o moreno olhou para trás, e que, ao deixar o quarto de Catarina, Mario sequer perguntou sobre o Vice-Inspetor.

Os dois não se olharam ou trocaram uma única palavra.

Ao avistar o homem de cabelos ruivos, uma parte de Alaudi sabia que precisaria dizer uma ou duas palavras, mas seu orgulho não permitiu. O Braço Direito de Ivan passou por ele e deu algumas ordens aos subordinados (tirar a neve e limpar o caminho) antes de descer as escadas. Duas empregadas faziam o caminho inverso e o louro sentiu-se satisfeito ao vê-las carregando as bandejas com o café da manhã.

A garota ruiva deixou o banheiro, desejando um bom dia animado para o Guardião da Nuvem. Fisicamente Catarina ainda parecia pálida e abatida, porém, seu corpo se movia com mais vivacidade e não parecia que na noite anterior ela havia desmaiado por causa da febre. As bandejas foram colocadas sobre a escrivaninha e os dois tomaram café juntos, como sempre faziam. Sua filha perguntou sobre Mario e elogiou o café da manhã, entretanto, em momento algum mencionou o que havia acontecido. O Inspetor de Polícia também não tocou no assunto, mas, quando as bandejas foram levadas, Alaudi acompanhou Catarina até a cama, cobrindo-a com a roupa de cama que havia sido trocada enquanto ela estava no banho.

A pequena não pestanejou ou reclamou. O louro sentou-se em uma cadeira ao lado da cama e permaneceu ali durante horas. Catarina cochilou várias vezes naquele dia, acordando vez ou outra, apenas para perguntar sobre as horas. Em todos esses momentos o Guardião da Nuvem esteve lá, atento e vigilante, respondendo com um fio de voz e pedindo que ela voltasse a dormir. À noite, a pequena de cabelos ruivos parecia mais corada, e o Inspetor de Polícia a convidou para dormir em seu quarto. Os olhos de Catarina brilharam com os prospectos de passar a noite na gigantesca cama e em segundos ela havia entrado em seu quarto, pegado seu travesseiro e corrido até Alaudi. Francesco fez a mesma expressão quando eu, há cinco anos, o chamei para dormir na cama do pai. Pode não parecer, mas Ivan é extremamente firme quando o assunto é disciplina e limites.

A noite passou tranquila. O louro permaneceu um bom tempo acordado, até ter certeza de que sua companhia dormia calmamente. O sono o pegou desprevenido, enquanto ele observava a respiração nivelada de Catarina. Seu corpo rendeu-se totalmente ao cansaço e ele teve um sono sem sonhos, revigorante. Os olhos azuis se abriram devagar, na manhã seguinte, recebendo a claridade do dia. Ele viu a sombra de alguma coisa próxima à janela, algo pequeno e afastado. A garota ruiva deixou a janela e correu até ele, subindo sobre a cama e o olhando com olhos brilhantes e um sorriso travesso. Ela já está melhor... provavelmente melhor do que eu.

O bom dia foi acompanhado por um puxão e os dois seguiram juntos até o banheiro da mansão. Catarina havia buscado sua escova, mas disse que queria escovar os dentes junto do Guardião da Nuvem. O Inspetor de Polícia levou uma cadeira até o banheiro e ambos ficaram lado a lado. Aquela cena o fez erguer uma sobrancelha e bagunçar os cabelos de sua companhia, recebendo em troca um empurrão de leve. Os dois seguiram para o quarto e juntos arrumaram a cama. A menina parecia elétrica novamente, correndo para os lados e ajeitando as partes amassadas da colcha. A despedida aconteceu quando uma das empregadas bateu na porta do quarto e anunciou que havia subido para "Ajudar a senhorita a trocar de roupas".

"Não desça sem mim, Alaudi!" A garota disse apenas com a cabeça dentro do cômodo, desaparecendo em seguida.

O louro soltou um longo suspiro, indo até o closet e escolhendo uma troca de roupas. Ele conhecia Catarina e sabia que ela estaria na porta do quarto em segundos, então, nada mais justo do que esperá-la dessa vez. O Guardião da Nuvem vestiu uma calça escura e uma blusa de lã da mesma cor, o que o deixou ainda mais pálido. O corredor estava frio e seu estômago pedia um pouco de atenção. Ele chega esta noite. O Guardião da Nuvem engoliu seco, passando a mão na nuca de maneira desconfortável. Seu rosto tornou-se quente e seu coração bateu mais rápido ao pensar que, naquela noite, ele não dormiria sozinho.

Catarina deixou o quarto e afastou os pensamentos do Inspetor de Polícia. Ela vestia um longo casaco vinho e havia um cachecol branco em seu pescoço. Os dois desceram as escadas lado a lado, porém, ao avisar o hall, a garota de cabelos ruivos aumentou o passo e correu ao encontro da pessoa que vinha de fora. Mario fingiu surpresa, ajoelhando-se e pegando-a no colo em um único movimento. Alaudi não diminuiu a velocidade de seus passos, descendo com gentileza. Eu ainda não agradeci. A ideia de que, eventualmente, precisaria dizer a palavrinha mágica para aquela criatura era suficiente para afastar sua fome.

"Bom dia." O cumprimento polido foi o máximo que deixou os lábios do louro. Eu agradecerei... não hoje.

"Bom dia."

O Braço Direito de Ivan respondeu baixo, tentando fugir das mãos ousadas de Catarina, que tentavam bagunçar seus longos cabelos vermelhos. Daquele ângulo os dois pareciam pai e filha. Não é a primeira vez que tenho essa sensação, o louro sentiu-se desconfortável. Quando a pequena começou a crescer, tornou-se rotineiro ouvir perguntas como se ela não era, na verdade, filha de Mario. Ivan sempre ri da brincadeira e vez ou outra entra no clima. O Guardião da Nuvem nunca gostou daqueles comentários, ainda mais quando seu amante e melhor amigo decidiam se abraçar e dizer que os boatos eram verdadeiros. Insolente!

Catarina foi colocada ao chão e ambos seguiram até a sala de jantar.

O café da manhã foi reforçado e dessa vez a garota trocou as frutas pelos pães e um rico mingau de aveia. O Inspetor de Polícia observava a tudo por trás de sua xícara de café, esperando qualquer reação decorrente da gripe. Entretanto, nada aconteceu. A garota não espirrou ou tossiu. Sua voz não soava mais anasalada, mas energética e animada.

"Nee, Alaudi..." Catarina havia se servido de mais mingau.

"Nós não vamos brincar lá fora." Alaudi respondeu primeiro. Ele não correria outro risco. A lição havia sido aprendida.

"Eu sei." A garota respondeu enquanto balançava a mão em negativo. "Nós podemos chamar Mario para brincar?"

O louro juntou as sobrancelhas e pousou a xícara sobre a mesa. A visão dos três, juntos e brincando o fez perder totalmente o restante do apetite.

"Mario está triste, então acho que se o chamarmos para brincar ele vai se animar." Catarina continuou.

"Triste?" O Guardião da Nuvem tentou parecer sério. Ele não se importava se aquela pessoa estava triste ou alegre, viva ou morta, mas não seria polido simplesmente não demonstrar interesse.

"Sim." A menina de cabelos ruivos mexeu o mingau com a colher. "Todo mundo parece triste nesses dias. Mario e você, então vamos brincar todos juntos. Eu tenho certeza de que vai ser divertido!"

"Eu não estou triste."

A resposta saiu automática dos lábios do Inspetor de Polícia. Ele estava preocupado, mas triste? E como ela sabia que o insolente está triste? Ele está a mesma coisa!

"Sim, está. Sempre que papà não está em casa você parece triste. Você chamou o nome de papà três vezes ontem à noite, Alaudi." Catarina falou displicentemente, mas sua voz se tornou mais baixa, um sussurro. "Mas eu não contarei a ninguém, está bem? É o nosso segredo!"

Alaudi sentiu suas bochechas se tornarem quentes e foi impossível permanecer impassível.

Suas mãos voltaram a segurar a xícara, mas não havia certeza ou firmeza no ato. Ele se sentia nu, completamente à vista, e quem o observava era uma criança de cinco anos, perspicaz e inteligente o suficiente para ver por trás de sua máscara de indiferença.

"Acredito que Mario não tenha tempo para brincar. Ele precisa terminar o trabalho com a neve." O louro mudou de assunto. Desde que a atenção não estivesse nele, tudo era válido.

"Hm... Entendo."

Catarina voltou a atenção para o prato de mingau e o assunto oficialmente morreu entre eles. O Guardião da Nuvem não se sentia inclinado a comer mais nada e deu sua refeição por encerrada com aquela xícara de café. As palavras da garotinha ecoavam por sua mente e infelizmente seria impossível não confirmá-las. Ele sentia falta de Ivan. A ausência que aquele homem criara em sua vida era profunda, a ponto do Inspetor de Polícia não conseguir sequer cogitar a ideia de não vê-lo mais. Esta noite. Ele estará de volta esta noite. A menina de cabelos ruivos limpou o canto da boca com o guardanapo e abriu um sorriso.

Era hora de sobreviver a mais algumas horas...

x

Com a saúde restabelecida, seria simplesmente impossível esperar que Catarina Maria Cavallone se comportasse. A garota declinou todas as propostas feitas por Alaudi, e isso incluía leituras ou qualquer atividade calma e sadia. Catarina sabia que não poderia sair da mansão, mas isso não significaria que sua energia não poderia ser canalizada de outra maneira. Francesco era bem mais maleável e realista, o louro pensou ao sentar-se na poltrona do quarto e Ivan. A menina de cabelos ruivos havia decidido que ajudaria Mario e os subordinados da casa com as rondas, então o Guardião da Nuvem teria a tarde livre. A ideia é benéfica para mim, porém, os empregados provavelmente estarão em pânico o tempo todo.

As horas passaram calmas. O Inspetor de Polícia se concentrou totalmente no relatório de Giulio e conseguiu pensar em um plano que resolveria o assunto de uma vez. Pensar em seu amigo foi difícil, ele precisaria reconhecer. Por várias vezes a mente de Alaudi retornou há duas noites, lembrando-se da expressão séria e triste naqueles profundos olhos verdes. O Vice-Inspetor não era uma pessoa fácil de ser lida. O moreno era muito profissional e os anos naquele ramo de trabalho o ensinaram a ocultar seus sentimentos e ninguém sabia disso melhor do que Alaudi. Todavia, entre eles era fácil e simples ver quando havia algo errado e, no fundo, o louro não sabia o que poderia fazer. Havia duas opiniões divergentes dentro de seu peito: uma queria simplesmente dizer para Giulio seguir em frente e procurar outra pessoa. Esse seu lado provavelmente nunca mudaria. Para ele, Mario jamais estaria aos pés de alguém como seu amigo. Entretanto, a outra opinião sabia que havia mais naquele homem insolente do que aparentava. Ivan jamais confiaria em alguém por confiar. Apesar de achar que a confiança muitas vezes é cega, ele nunca duvida de Mario, nunca. Entre uma e outra, o Guardião da Nuvem decidiu que se focar no trabalho era muito mais relevante.

Não havia pôr do sol no inverno italiano, mas não seria necessário um espetáculo tão belo naquele fim de tarde. O céu nublado tornou-se mais escuro e gordas e grossas nuvens anunciavam que choveria naquela noite. O Inspetor de Polícia estava sentado no mesmo local em que passara a tarde quando o barulho chegou aos seus ouvidos. Seus olhos se arregalaram e seu coração pulou uma batida, no instante em que seu corpo colocou-se de pé. Foi instintivo. Em um segundo ele estava sentado, repassando o relatório que havia escrito naquela tarde, tentando ao máximo encontrar um erro ou qualquer informação desnecessária, para no segundo seguinte seu corpo estar próximo à porta, abrindo-a e ganhando o corredor, como uma criança que ouviu o barulho das chaves dos pais... exatamente como Catarina havia feito.

Os dois abriram a porta ao mesmo tempo, e foi também ao mesmo tempo que eles se olharam. Os quartos não eram próximos, mas Alaudi notou que a garota virou o rosto e o viu. Catarina saiu do quarto às pressas, indo até ele e abrindo um sorriso tão genuíno que o louro sentiu o coração bater mais rápido. Ela estava linda. O casaco de inverno havia dado lugar a um belo vestido verde de veludo e que parecia quente e confortável. Os cabelos selvagens foram devidamente penteados e estavam presos a uma trança enfeitada por pequeninas flores. Ela parece uma princesa.

"Vamos, vamos, Alaudi!" A garota ruiva o puxou pela mão e foi impossível não acompanhá-la.

A escadaria foi transposta por passos rápidos e o Guardião da Nuvem sentiu-se ofegante ao chegar próximo ao hall de entrada. Ele sabia muito bem que o motivo que fazia seu coração bater tão descompassado não havia sido a corrida. Seu rosto estava corado e a cada segundo que seus olhos azuis encaravam a porta branca, era como se ele envelhecesse um pouco mais, cansado de esperar. Cansado de ficar sozinho...

A porta abriu-se no meio, permitindo que a comitiva entrasse por inteira.

O primeiro rosto que o Inspetor de Polícia viu foi o de Francesco. O menino – que não parecia tanto um menino – estava com seus quase dez anos e era alto para sua idade. Seus cabelos estavam perfeitamente arrumados e castanhos. Os olhos cor de mel se arregalaram ao ver as duas figuras paradas ao pé da escada e seus lábios esboçaram um sorriso tímido, de canto.

"O-Olá!" A voz do herdeiro dos Cavallone soou baixa e levemente feminina. Em poucos anos ele terá a voz máscula e rouca do pai. É incrível vê-lo crescer. E naquele momento Alaudi achou que Francesco parecia ainda mais com Ivan.

"Francis! Francis! Bem-vindo!"

Catarina acenou para o irmão com os dois braços erguidos, mas não se aproximou, permanecendo ao lado de Alaudi. O louro desviou o olhar apenas por um segundo, mas aquele fora o tempo necessário para que a pessoa que ele tanto esperava surgisse. Lentamente o Guardião da Nuvem sentiu cada fibra de seu corpo reconhecer o alto homem de cabelos negros que entrava ao lado de Mario. Os dois conversavam sobre alguma coisa, porém, quando os olhos cor de mel olharam para frente e Ivan viu o amante parado na escada, não houve mais conversa. O Chefe dos Cavallone arregalou os olhos devagar, sem saber se entrava no hall ou ficava parado na soleira. Catarina afastou-se do Inspetor de Polícia e Alaudi sorriu consigo, imaginando que ela correria até os braços do pai, abraçando-o forte e dizendo o quanto sentiu sua falta. O moreno pareceu pressentir o mesmo, pois pousou a mala ao chão, pronto para receber sua filha caçula.

Porém...

A garota de cabelos ruivos passou por Ivan e parou próximo à porta. Suas mãozinhas ajeitaram o vestido com pressa e seu rosto tornou-se mais vermelho do que seus cabelos quando a última pessoa entrou. Naquele exato instante o louro sorriu. Ele queria rir da situação, mas sabia que não conseguiria fazer aquilo na frente de todas aquelas pessoas. O Chefe dos Cavallone virou o rosto, completamente desolado. Mario gargalhou, batendo de leve no ombro do amigo enquanto Francesco tornou-se terrivelmente sério. E, vindo por último, estava o motivo de toda a tristeza de Catarina naqueles últimos dias.

Giuseppe parou na entrada, sentindo os olhos de praticamente todos os presentes.

Em cinco anos o Braço Direito do herdeiro dos Cavallone havia deixado de ser um adolescente de 17 anos para se transformar em um homem de 22. A mudança do louro foi notada aos olhos. Fisicamente Giuseppe ainda mantinha os traços delicados de sua beleza, mas seus cabelos agora estavam mais curtos e sua posição na Família exigia decisões mais firmes. O louro não acobertava mais os momentos mimados de Francesco, sendo responsável por ser a mão firme quando a situação pedia uma posição de seu Chefe. O Braço Direito de Francis corou, olhando ao redor e abrindo um largo sorriso ao ver a pessoinha que batia em seus joelhos e estava parada ao seu lado.

"Bem-vindo, Peppe!" Catarina abraçou as pernas do louro no mesmo instante.

"Oh! Eu estou de volta." O Braço Direito do futuro Chefe da Família riu, mas era evidente seu constrangimento por ser o centro das atenções.

"Catarina!" Francesco aproximou-se na irmã, puxando-a e ficando entre ela e Giuseppe. "E... E-Ele está cansado da viagem. Não saia abraçando as pessoas desse jeito!"

"Não é justo, Francis! Você ficou todo esse tempo com Peppe, agora é minha vez!"

"Hey, hey." Mario ainda estava rindo da situação quando se aproximou. Seus olhos encararam o irmão e naquele momento os dois sorriram e se cumprimentaram em silêncio, como tinha de ser. "Bambina, não é justo que somente Giuseppe receba as boas-vindas, não?" O Braço Direito de Ivan segurou a menina como se ela fosse tão leve como uma pluma. "E quanto a seu pai?"

Catarina virou o rosto e somente naquele momento pareceu notar que o Chefe dos Cavallone estava presente. Seus bracinhos se esticaram e o moreno a segurou, mesmo ainda tendo o olhar triste por ter sido esquecido.

"Bem-vindo, papà."

A garotinha ruiva passou os braços ao redor do pescoço do pai, abraçando-o forte. Ivan agradeceu baixo, retribuindo a carícia, mas colocando-a no chão em seguida. Catarina o olhou séria, porém, o Chefe dos Cavallone apenas sorriu e tocou a cabeça da filha.

"Giuseppe precisa de ajuda com as malas, por que não vai ajudá-lo? Tenho certeza de que ele não se importará se você for levá-lo em casa."

"E-Eu posso?!" A voz da menina transbordava animação.

"Sim, sim, mas você não vai sair por ai desse jeito, Bambina." Mario retirou o próprio casaco e o passou ao redor de Catarina, cobrindo-a totalmente.

"Eu também vou!" Francesco olhou a cena e sua voz soou insultada.

Giuseppe olhou os dois irmãos e deu de ombros, desculpando-se com Ivan.

O Chefe dos Cavallone apenas riu e Mario disse que faria companhia a eles. Ivan e o amigo trocaram meia dúzia de palavras e não mais do que de repente o hall tornou-se vazio novamente. Alaudi ainda encarava a porta que havia acabado de ser fechada, ouvindo o barulho de o carro ser ligado, imaginando que Catarina havia ganhado sua noite. Ela adorava visitar a casa de Giuseppe, e eram tão raros aqueles momentos que uma parte do louro sentiu-se feliz por vê-la tão animada depois de tudo. O silêncio do local só foi quebrado pelo som oco que os sapatos de Ivan fizeram ao tocarem o piso de mármore. Naquele momento o Guardião da Nuvem precisou lembrar-se de que não estava sozinho. Seus olhos fitaram o homem caminhando em sua direção e ele sentiu sua garganta engolir seco. Seu corpo tremia e sua mão direita fechou-se em forma de punho, tentando canalizar a ansiedade que sentia.

O moreno caminhou até ele, pousando a mala ao chão e abaixando os olhos cor de mel. Sua mão direita tocou o rosto pálido do Inspetor de Polícia e foi impossível não corar. Alaudi entreabriu os lábios, pensando que desejar boas-vindas não era de todo ruim, mas educado, polido. Entretanto, as palavras nunca saíram. Sua voz nunca teve a chance de receber verbalmente seu amante, pois, assim que abriu a boca, o Chefe dos Cavallone o beijou. As mãos do louro encontraram imediatamente o peito musculoso de Ivan, apertando o tecido do sobretudo e retribuindo a carícia. As línguas se encontraram de imediato e o Guardião da Nuvem inclinou o rosto, permitindo que o beijo se tornasse mais intenso. A mão do moreno massageava sua nuca, fazendo-o sentir pequenos arrepios de excitação. Palavras jamais seriam capazes de transmitir o que o Inspetor de Polícia sentiu naquele momento. A maneira como seu coração sorria, a sensação de ter aquele homem entre seus dedos e, principalmente, o alívio que se instaurou em seu peito por saber que a espera havia sido recompensada.

O beijo durou longos minutos. Os lábios de Ivan desceram devagar pelo pescoço de Alaudi, fazendo-o apertar os lábios para não gemer ali mesmo, no hall de entrada. A ponta de seus dedos subiu pelos cabelos escuros de seu amante, sentindo os fios macios e gostosos ao toque. A respiração do moreno em sua pele, a proximidade e a carência por contato o deixaram fraco e suscetível aquele homem.

"Você está ocupado, não?" A voz do louro soou baixa. Naquele momento ele esqueceu-se do local e da ideia de que alguém poderia aparecer e vê-los ali em um momento tão íntimo. Cinco anos e não cinco dias. O Guardião da Nuvem entreabriu os olhos, encarando a porta de entrada. Ele soube, no exato momento em que Mario deixou a mansão e se prontificou a acompanhar os pequenos, que o Braço Direito estava oferecendo ao Chefe alguns minutos livres. Não é a primeira vez que isso acontece. A respiração de Ivan tornou-se pesada e o Inspetor de Polícia teve sua resposta.

"Eu tenho tempo apenas para tomar um banho." O moreno respondeu com o tom de voz sério. Sua testa encostou-se a um dos ombros de seu amante e ele pareceu cansado. "Por que não sobe comigo? Podemos tomar banho juntos."

Se Alaudi fosse uma pessoa dada a risadas ele teria gargalhado. Todavia, sua única expressão foi um quase inexistente meio sorriso. Seria humanamente impossível aceitar aquela proposta e esperar que o Chefe dos Cavallone trabalhasse em seguida. Um banho nunca é um banho e ele sabe disso melhor do que ninguém. Os olhos azuis fitaram Ivan de soslaio. Era tentador, ele precisaria reconhecer, mas improvável.

"Vá tomar o seu banho eu pedirei que levem algo para você comer no escritório. Acredito que já tenha jantado."

O Chefe dos Cavallone desencostou-se do louro, abrindo um sorriso triste.

"Sim. Nós paramos em um restaurante, em Roma. Você já comeu?"

"Sim. Catarina não faz refeições sozinhas." O estômago do Guardião da Nuvem afundou-se um pouco. Ele havia esquecido completamente o que acontecera. "Nós precisamos conversar sobre ela."

"Pelo brilho em seus olhos alguma coisa aconteceu." O moreno abriu um largo sorriso, e não parecia curioso ou preocupado. "Talvez só possamos conversar amanhã, então descanse esta noite, está bem?" Ivan tocou pela segunda vez o rosto do Inspetor de Polícia e, como anteriormente, Alaudi ansiou pelo contato por menor que fosse. "Você parece cansado, Alaudi."

A resposta do louro foi um simples menear com a cabeça.

O Chefe dos Cavallone bagunçou levemente seus cabelos antes de se abaixar, pegar a mala e subir as escadas. O Guardião da Nuvem manteve os olhos fixos no hall, sentindo cada fibra de seu corpo implorar para que ele subisse e aceitasse o banho. Pois, se havia algo que o Inspetor de Polícia realmente desejava naquele momento era poder matar um pouco da saudade que sentia daquele homem e só havia uma maneira de saciar aqueles dias solitários. Um banho não seria suficiente, Alaudi abaixou os olhos e pisou no hall, eu jamais ficaria satisfeito em tê-lo uma única vez. Os olhos azuis fitaram o céu escuro através dos vidros das janelas e o louro pensou se a estadia do moreno seria mais longa desta vez... Se ele teria algum tempo para aproveitar a companhia do homem que amava.

x

Francesco e Catarina retornaram quando o relógio marcava quase 21h.

Mario voltara antes e a primeira coisa que fez ao pisar na mansão foi procurar seu Chefe. O Guardião da Nuvem assistiu a tudo de longe, observando Ivan descer a longa escadaria, de banho tomado e trajando um belo casaco escuro, e entrando no escritório ao lado do Braço Direito. Aquela cena não era incomum, pelo menos nas últimas viagens. Quando o assunto era sério ou imediato, o Chefe dos Cavallone mal tinha tempo de descansar. Giuseppe é quem o acompanha, mas aparentemente existem coisas que somente o Insolente pode resolver, o que duvido, claro. O Inspetor de Polícia estava no hall quando Giuseppe entrou, acompanhado do herdeiro da Família e uma inconsciente garota de cabelos ruivos em seus braços. Alaudi viu a cena e, embora soubesse que Catarina estava apenas dormindo, foi impossível evitar que seu coração batesse mais rápido, recordando o que havia acontecido há dois dias.

"Ela dormiu no caminho." Giuseppe aproximou-se timidamente e o Guardião da Nuvem ficou surpreso e parcialmente sem ação ao ver que ele tinha a intenção de passar a menina para os seus braços.

"Obrigado por ter se dado ao trabalho." O louro respondeu a primeira coisa polida que correu por sua mente, segurando Catarina.

"Não se preocupe." O futuro Braço Direito esboçou um meio sorriso. "Eu vou me retirar agora."

"Eu vou acompanhá-lo até a porta." Francesco respondeu de imediato, encarando o Inspetor de Polícia. "E-Eu posso?"

Alaudi juntou as sobrancelhas, sem saber direito o que deveria dizer. Ele já havia se surpreendido por ter-lhe sido confiado a desacordada garota em seus braços, mas a pergunta do menino de cabelos castanhos o surpreendeu ainda mais. Ele está pedindo minha permissão. A realização fez o louro sentir-se estranhamente lisonjeado. Como se eu fosse seu pai...

"Apenas não demore. Está frio lá fora. Suba o capuz do casaco, Francesco."

A voz do Guardião da Nuvem soou baixa, mas séria. Francesco esboçou um sorriso largo, cobrindo a cabeça com o capuz do sobretudo. Chefe e Braço Direito caminharam lado a lado e o Inspetor de Polícia virou-se para subir. Entretanto, antes que saíssem do hall, Alaudi viu o exato momento em que o garoto de cabelos castanhos estendeu o braço, segurando a mão direita de Giuseppe entre seus dedos. A porta fechou-se e o Inspetor de Polícia permaneceu alguns segundos naquela mesma posição. Eu estou vendo coisas, deve ser o cansaço. O louro balançou a cabeça e se pôs a subir as escadas. Talvez ele realmente precisasse de uma boa noite de sono.

Catarina não acordou durante o caminho e o Guardião da Nuvem a colocou delicadamente em sua larga cama. A garota murmurou alguma coisa indecifrável e o Inspetor de Polícia a cobriu com três grossos cobertores. A segunda etapa foi checar se as janelas estavam bem fechadas e somente após ter certeza de que nada poderia atrapalhar o sono da menina foi que Alaudi retirou-se para o quarto de Ivan. Seus passos foram lentos e suas costas pareciam doloridas, mas ele não sentia sono. O cômodo estava bem iluminado pela lareira acessa, além de aquecido e confortável. O louro arrastou-se até a cama, retirando os sapatos com os pés e sentando-se. Havia um livro do seu lado da cama e somente naquele momento o Guardião da Nuvem se lembrou que o havia pegado da biblioteca, quando o Chefe dos Cavallone partiu, mas que desde o incidente com Catarina ele não tivera a chance de dar continuidade à leitura.

O Inspetor de Polícia não precisou ponderar sobre suas escolhas. Ele sabia que precisava descansar, provavelmente dormir longamente por horas a fio, entretanto, Alaudi também sabia que jamais conseguiria fazer aquilo, não quando o moreno estava no andar de baixo, tão próximo e tão acessível. O louro acomodou-se melhor embaixo dos cobertores, colocando dois fofos travesseiros em suas costas e pegando o livro. Eu lerei algumas páginas, até o sono chegar. O Guardião da Nuvem disse a si mesmo. Não é como se eu estivesse fazendo isso para esperá-lo.

O sono não chegou e o Inspetor de Polícia se pegou entretido com o livro até altas horas da noite. Ele não viu quando a chuva começou a cair, batendo levemente na janela. Ele não sentiu a passagem do tempo, e o ponteiro anunciar que a sexta-feira havia ficado para trás e que o sábado começava naquela madrugada. Durante horas Alaudi permaneceu sentado, os olhos atentos, passando por palavras e descendo linhas. Seus dedos viraram as páginas e vez ou outra seu rosto esboçou alguma reação: as sobrancelhas se juntavam ou seus lábios formavam um discreto meio sorriso. Há muito tempo ele não tinha aquele tipo de momento: uma leitura leve, algo que não fosse relacionado à sua profissão, em um momento calmo, sabendo que não seria interrompido ou incomodado. Bem, sua leitura não seria completada naquela noite, mas o que interrompeu sua concentração não poderia ser chamado de incomodo.

Ivan retornou ao quarto depois da uma da manhã. O moreno ficou visivelmente surpreso por ver o louro acordado, e seus lábios formaram um satisfeito sorriso. O Guardião da Nuvem marcou a página em que estava e fechou o livro, encarando sua companhia se aproximar.

"Fico feliz por ter me esperado." O Chefe dos Cavallone optou por ignorar o movimento em que o Inspetor de Polícia apontou para o livro como causador de sua insônia.

"Você deve estar realmente cansado para começar a delirar desse jeito." Alaudi sentiu-se bem ao dizer aquilo. Ele havia se esquecido como era agradável conversar com aquela pessoa.

"Não seja assim, Alaudi. Eu sei o quanto você sentiu minha falta. Por que não consegue ser honesto?"

"Isso é o que você quer acreditar, não?" O louro sentiu os lábios se repuxarem. Sem perceber ele havia sorrido. O livro voltou para a cômoda ao lado e ele soube naquele exato momento que não terminaria a leitura naquela noite.

A resposta de Ivan foi uma gargalhada baixa. Ele retirou os sapatos e sentou-se na beirada da cama, tocando o rosto de seu amante com uma leve carícia.

"Mario me contou sobre Catarina. Obrigado por ter tomado conta dela."

O Guardião da Nuvem se tornou sério. Ele ainda não estava preparado para ter aquela conversa.

"Eu não sei o que aquele homem contou, mas eu não fiz nada." O gosto que aquelas palavras deixaram em sua boca foi muito mais amargo do que ele imaginava. Os olhos azuis se abaixaram e naquele momento o Inspetor de Polícia soube que não conseguiria encarar seu amante.

"Ele apenas me disse que Catarina ficou muito resfriada e que você passou a noite ao lado dela." A voz de Ivan soou séria, mas a expressão em seu belo rosto dizia justamente o contrário.

"Como eu disse, não fiz nada. No final foi seu Braço Direito quem fez tudo. Ela procurou por você. A empregada a achou em sua cadeira. Eu não fiz absolutamente nada."

"Não seja tão duro consigo mesmo, Alaudi." O moreno bagunçou os cabelos louros como sempre fazia com os filhos. "Você nunca precisou cuidar de uma criança doente, não? É perfeitamente normal reagir daquela forma." O Chefe dos Cavallone arrastou-se para o meio da cama, sentando-se ao lado de sua companhia. "Na primeira vez que Francesco adoeceu, eu fiquei tão desesperado que mal consegui me mover. Mario cuidou de tudo. Giuseppe costumava ser uma criança fraca, então ele tem experiência com esse tipo de coisa. Você vai melhorar com o tempo e chegará um momento em que nada irá te surpreender, você vai ver! E sobre Catarina sentir minha falta, eu duvido muito." Havia um pouco de tristeza naquele comentário. "Ela mesma disse a Mario que desceu para a cozinha porque estava com sede, mas sentiu-se cansada e sentou na primeira coisa que encontrou, logo, a minha cadeira."

As palavras de Ivan soaram otimistas demais para alguém tão realista quanto o Guardião da Nuvem. A ideia de passar novamente por todo aquele sofrimento e angústia o deixou levemente temeroso, porém, nada o assustou mais do que pensar que talvez aquilo não fosse impossível. Que muito em breve ele estaria sozinho novamente.

"Desculpe por afastá-lo de seu trabalho." Os olhos azuis se ergueram e os pensamentos do Inspetor de Polícia se tornaram embaralhados. "Eu sei que é egoísmo de minha parte pedir que abdique da sua vida profissional para estar aqui, então a partir de hoje seria melhor se conversássemos sobre minhas viagens. Acredito que Mario não se importe em ficar com Catarina e assim você pod—"

"Eu não me importo." A resposta de Alaudi saiu rápida e ríspida. Seus olhos se desviaram de seu amante e por um momento ele se sentiu ofendido. Por cinco anos ele não sabia mais o que significava passar os fins de semana longe daquela mansão. Todas as sextas-feiras, após o expediente na sede de Polícia, o louro dirigia até a propriedade dos Cavallone, retornando para o centro de Roma somente na segunda de manhã. Aquela rotina muito lhe agradava e imaginar-se em sua casa, completamente sozinho, o assustava. Minha melhor amiga já não é bem-vinda. Se esse homem disser que já não tenho serventia eu precisarei de alguns minutos para pensar o que farei com a minha vida.

"Eu não quis ofendê-lo." O Chefe dos Cavallone esticou a mão para tocar o rosto do Guardião da Nuvem, mas seu toque nunca foi completado. O Inspetor de Polícia virou o rosto, incomodado com o rumo que aquela conversa tomara. "E nem dizer que você não é importante. Eu só não quero tirá-lo de seu trabalho."

"Do meu trabalho cuido eu, obrigado." Alaudi não virou o rosto. Não seria fácil dizer aquilo diretamente. "Eu não estou aqui por obrigação e não estou negligenciando nada para passar meu tempo nesta casa."

"Então não temos nada para conversar." Ivan abriu um sorriso, puxando o louro com força. Houve resistência e o Guardião da Nuvem tentou fugir mais de uma vez, porém, no final, não havia outro lugar em que ele gostaria de estar do que nos braços de seu amante. O moreno o trouxe para o seu colo, segurando-o pela cintura e aumentando o sorriso quando os olhares se encontraram. "Eu sei que nossa filha ficou doente, mas e você? Eu quero saber como você passou esses dias."

"Bem..." A resposta do Inspetor de Polícia foi breve. Suas mãos repousavam sobre os ombros de Ivan e as pontas de seus dedos sentiam o tecido da blusa escura, ansiando por um pouco mais de contato direto.

"Eu trouxe algumas coisas para você. E sim, eu sei que não precisava e sei que você não gosta, mas deixe-me mimá-lo um pouco a distância, está bem?" As mãos do moreno subiram pela cintura de Alaudi, colocando-o melhor sobre seu colo. "Comprar essas bobagens me faz esquecer um pouco a saudade."

O louro não retrucou. Intimamente ele queria pedir para que o Chefe dos Cavallone parasse com aquelas palavras fáceis, mas seria impossível. Uma parte do Guardião da Nuvem entendia aqueles sentimentos e principalmente a saudade. Ela o visitou praticamente todas as noites em que ele precisou deitar-se sozinho naquela gigantesca cama, sabendo que, não importasse o quanto quisesse ou desejasse, o lado direito continuaria vazio na manhã seguinte e na seguinte. Ivan aproximou o rosto devagar, depositando um casto beijo no pescoço do Inspetor de Polícia. Aquele mero toque foi capaz de arrepiá-lo e seus dedos apertaram os ombros de seu amante.

"Nee, Alaudi..." A voz do moreno soou baixa e seus lábios subiram devagar pelo pescoço, tocando a orelha esquerda do louro. "Eu quero matar um pouco da saudade esta noite."

Alaudi nunca sabia o que dizer naquele tipo de situação. Ele sempre foi uma pessoa objetiva, de poucas palavras. Seu trabalho exigia um nível colossal de objetivismo e poderia ser dito que aquele traço acaba sendo levado também para a sua vida pessoal. A resposta para aquele comentário era fácil, ou melhor, inexistente. O louro estava sentado sobre o colo do Chefe dos Cavallone, apoiando os joelhos sobre o colchão, enquanto suas mãos estavam sobre os ombros de seu amante. Não seria preciso confirmar o óbvio, todavia, muitas vezes o Guardião da Nuvem não sabia o que dizer. Suas sobrancelhas se juntaram e o Inspetor de Polícia depositou um tímido beijo entre o pescoço e o ombro de Ivan, esperando que aquela pessoa entendesse que aquela seria a sua resposta. As mãos do moreno subiram pelas costas de Alaudi, apertando-o com um pouco mais de força. Os dedos tocaram seu abdômen, fazendo-o tremer levemente e então tudo o que ele ouviu foi o barulho de algo sendo retirado à força.

O botão de sua camisa voou para além da cama, batendo com barulho contra a janela. O louro tentou balbuciar alguma palavra, mas as letras morreram em seus lábios, pois aquele não seria o único botão a cruzar o espaço da cama e cair ao chão. Os seis pequeninos detalhes brancos que serviam para fechar sua camisa foram retirados com um único puxão. O Guardião da Nuvem sentiu os olhos azuis se arregalarem levemente, apenas para se fecharem no segundo seguinte, quando o Chefe dos Cavallone beijou seus lábios com vontade. Aquele nível de tratamento não era uma constante. Botões jogados, roupas rasgadas... Ivan era uma pessoa bem controlada e consciente, porém, naquela noite, o beijo que invadia a boca do Inspetor de Polícia era tudo, menos contido.

O tecido branco da camisa deslizou por seus ombros de maneira desajeitada. As mãos de seu amante o despiam com pressa e fome, a ponto de Alaudi sentir-se aliviado quando a calça e a roupa de baixo foram fazer companhia aos botões. Ele gostava de um pouco mais de ação naquelas ocasiões, principalmente quando o moreno tinha momentos inusitados de espontaneidade. Entretanto, quando os lábios do Chefe dos Cavallone beijaram seu pescoço, o louro o tocou na altura do peito, afastando-o gentilmente. Ivan ergueu o rosto, olhando-o confuso. A expressão deixava aquele belo rosto ainda mais atraente e o Guardião da Nuvem sentiu o coração bater mais rápido. Às vezes ele se esquecia que o homem que o envolvia era absurdamente bonito aos olhos.

O Inspetor de Polícia empurrou seu amante para o lado, virando na cama e ficando por cima. Seu corpo deitou-se sobre o do moreno e seus lábios beijaram com possessividade o pescoço daquele homem, marcando-o sem pudor. A carícia pareceu agradar ao Chefe dos Cavallone, que riu baixo e parou de lutar. Alaudi sentiu-se satisfeito, subindo a blusa de frio por cima da cabeça de Ivan e fazendo o mesmo com a camisa que estava por baixo. Seus lábios desceram do pescoço para o peito, sentindo a pele quente em sua boca e provando aquele homem como ele bem queria. Os mamilos receberam um pouco de atenção, mas o louro não se demorou muito naquela região. Em sua mente só havia um local em que ele deveria estar depositando aquela atenção e, ao abrir os botões da calça escura que o moreno vestia, o Guardião da Nuvem arrepiou-se.

Não era algo rotineiro para o Inspetor de Polícia oferecer aquele tipo de serviço. Geralmente era o Chefe dos Cavallone quem tomava as rédeas da situação e em suas mãos (e lábios) Alaudi perdia as contas de quantas vezes gemia em uma só noite. Todavia, intimamente, o louro gostava de dedicar aquela carícia. O gosto da pele, a sensação de sentir seu amante tornar-se excitado entre seus lábios, o sabor, os gemidos baixos que chegavam até seus ouvidos... tudo naquele ato o deixava satisfeito por ser capaz de proporcionar prazer. Durante aqueles cinco dias, o Guardião da Nuvem não possuiu muitas oportunidades para satisfazer seus anseios. Os poucos momentos que teve para si mesmo nunca seriam tão proveitosos como ter o moreno em sua cama, tocando sua pele, o fazendo gemer, corar e tremer. Aqueles anos não serviram somente para que ele conhecesse melhor seu amante no quesito pessoal, mas também sexual. O Inspetor de Polícia aprendeu a agradar e ser agradado, mesmo que seus mimos acontecessem em momentos especiais, como aquele.

Alaudi não precisou se empenhar muito para colocar o Chefe dos Cavallone no clima. Em poucos minutos a voz rouca de Ivan começou a ecoar pelo largo quarto, misturando-se aos sons que a língua no louro fazia. Os movimentos eram vagarosos e precisos. O Guardião da Nuvem sabia exatamente onde e como tocar. Sua mão direita auxiliava nos movimentos, mantendo a ereção em uma mesma posição e facilitando o ato. A mão esquerda do Inspetor de Polícia estava ocupada com seu próprio membro, masturbando-o com a mesma velocidade com que sua língua trabalhava. A excitação aumentava a cada segundo e em certo momento Alaudi apoiou a mão esquerda sobre a cama ou teria chegado ao orgasmo. Seu corpo ansiava pelo auge do prazer, mas ele não queria daquela forma. Nos últimos dias aquela fora a maneira como ele se aliviou e, com seu amante literalmente ao toque de seus dedos, o louro não perderia a chance.

O orgasmo de Ivan aconteceu sem aviso verbal, porém, o Guardião da Nuvem já estava preparado. Seus olhos se fecharam e ele se concentrou em engolir tudo o que recebeu. Uma parte do Inspetor de Polícia se sentiu constrangido por assumir para si mesmo que sentira falta daquele tipo de coisa. Os olhos se abriram e Alaudi subiu os beijos devagar, provando a pele úmida por suor. A respiração do moreno estava alta e o louro arrepiou-se ao sentir as mãos grandes de seu amante segurarem sua cintura. Os dois se entreolharam por um curto momento; o tempo necessário para que o Guardião da Nuvem se sentasse sobre o colo do Chefe dos Cavallone. Sua mão direita tocou o peito daquele homem, sentindo o coração bater rápido e descompassado, e seus dedos desenharam figuras inexistentes, esperando que Ivan se acalmasse para que pudessem continuar. O Inspetor de Polícia passou os olhos para o lado, encarando a cômoda e ficando um pouco desapontado. Há algum tempo eles não deixavam óleos lubrificantes no quarto, então um deles precisaria andar até o banheiro.

"Travesseiro..." A voz do moreno soou rouca e era visível a maneira como havia sido difícil dizer aquela palavra. "E-Embaixo..."

Alaudi inclinou-se para o lado, esticando a mão e a enfiando sob o travesseiro do Chefe dos Cavallone. Algo duro e gelado atingiu seus dedos e seus olhos se apertaram ao segurar o frasco. Havia alguma coisa escrita em francês, que o louro achou melhor não traduzir. Seus olhos azuis se fecharam e ele abaixou-se, encarando Ivan nos olhos.

"Você colocou isto ali de propósito, não? Você tinha tudo planejado desde o começo."

O moreno abriu um largo e satisfeito sorriso que respondeu a qualquer pergunta que o Guardião da Nuvem pudesse ter.

"Se você soubesse o quanto eu desejei que você simplesmente aparecesse na França." O Chefe dos Cavallone subiu as mãos pelas coxas do Inspetor de Polícia. "Para que eu pudesse amá-lo como eu queria. Esses dias foram muito solitários, por favor, entenda."

"Eu entendo." Era difícil falar naquela posição. O corpo de Alaudi havia se arrepiado e foi preciso morder o lábio inferior quando Ivan tocou sua ereção com uma das mãos e começou a masturbá-la devagar. "Eu entendo que você é um pervertido."

"Todos somos." O moreno riu e puxou o louro para baixo, invertendo as posições. "Não me diga que fui o único a pensar essas coisas. Que fui somente eu quem desejou esse momento todas as noites." O Guardião da Nuvem estava pronto para protestar, mas seria humanamente impossível retrucar quando o Chefe dos Cavallone afastou suas pernas sem nenhuma gentileza. "Eu conheço você, Alaudi..."

O Inspetor de Polícia sentiu quando o frasco foi retirado de seus dedos com certa facilidade. O líquido tinha um leve aroma cítrico e uma consistência mais viscosa do que o óleo lubrificante que eles costumavam usar. O corpo de Alaudi moveu-se instintivamente para cima, como se tentasse fugir do que aconteceria. Todavia, quando a cabeça não encontrou mais o apoio da cama, o louro soube que seria mais sábio simplesmente não lutar. O Guardião da Nuvem deixou seu pescoço pender para baixo, encarando a porta do quarto de ponta cabeça. Seus olhos azuis se fecharam no exato momento em que ele sentiu o dedo de seu amante o penetrar. O movimento foi rápido e forçoso, como sempre. Os lábios gemeram, emitindo um pouco do prazer sentido quando seu ponto especial fora tocado. Uma, duas, três... na quarta vez Ivan já conseguia mover-se com certa facilidade e um segundo dedo foi adicionado ao primeiro. A sensação que já era excitante tornou-se duplamente torturante. A voz do Inspetor de Polícia soava mais alta e suas mãos começaram a apertar a roupa de cama.

"Você precisa relaxar, Alaudi."

A voz do moreno vinha do lado esquerdo, mas ele não conseguia juntar forças para abrir seus olhos. Os lábios do Chefe dos Cavallone mordiscavam sua orelha, enquanto um terceiro dedo pedia passagem, penetrando-o com mais insistência. Alaudi puxou a colcha escarlate, inclinando um pouco mais o pescoço para trás. Era difícil não gritar, mas ele jamais daria esse gostinho a seu amante. A voz de Ivan voltou a cantar em seu ouvido, primeiro pedindo que ele relaxasse e depois começando uma torturante e erótica narrativa sobre quantas vezes o moreno havia se tocado naqueles dias.

As palavras se alojavam na mente do louro e sua imaginação lhe mostrava imagens nem um pouco castas, mas totalmente excitantes. Imaginar seu amante se masturbando ao pensar nele, o som de sua voz, os movimentos, a calmaria do quarto, fazia automaticamente com que o Guardião da Nuvem se recordasse das vezes em que ele próprio se pegou, no quarto ou no banho, tocando-se ao pensar no Chefe dos Cavallone. Como na primeira noite de ausência em que o Inspetor de Polícia vergonhosamente chegou ao clímax duas vezes enquanto abraçava o travesseiro de Ivan, fantasiando com seu amante o possuindo devagar, exatamente como ele gostava. Aquele homem o conhecia bem demais, e sabia exatamente como jogar quando queria uma reação. E, infelizmente, para aquela pessoa, Alaudi era tão simples de se ler quanto um livro de criança.

O orgasmo do louro chegou enquanto ele estava perdido em imagens mentais. Seu corpo tremeu e sua voz soou alta. Chegar ao clímax sem nenhum outro estímulo era sempre mais intenso, a ponto de, às vezes, fazê-lo perder a consciência. A sensação de prazer absoluto percorreu cada fibra de seu corpo, e ele ainda estava afogado no momento quando se sentiu puxado para o centro da cama. Suas pernas se afastaram por vontade própria e suas costas arquearam-se do colchão ao sentir o membro do moreno penetrá-lo. Os lábios voltaram a gemer, mas dessa vez de maneira diferente. Os olhos azuis se abriram, devagar e incertos, enxergando tudo um pouco embaçado, em nuvens. O Guardião dos Vongola, porém, viu a expressão de completo deleite que o Chefe dos Cavallone tinha ao estar totalmente dentro dele. Ele também viu e ouviu quando Ivan perguntou, em sussurros, se poderia começar a se mover. A resposta foi um rápido menear de cabeça e no segundo seguinte a ereção retirou-se e voltou a penetrá-lo, arrancando novamente um gemido dos lábios do Inspetor de Polícia. Era indescritível. Palavras nunca descreverão o que sinto por esse homem. Como eu o desejo...

Fazer amor com o moreno sempre foi muito mais do que o ato em si. Como homem, ele não mentiria sobre não gostar daquilo, independente se o papel que tivesse na ação não fosse o esperado de um membro do sexo masculino. Depois daqueles anos, Alaudi não conseguia sequer cogitar a ideia de não estar naquela posição, dando e recebendo prazer em um mútuo ciclo. No início, quando eles começaram a dividir a mesma cama, o louro se pegou pensando se algum dia sentiria falta de ter as rédeas da situação, em estar por cima de uma bela mulher ou de outro homem. O pensamento saiu tão rápido de sua mente que o Guardião da Nuvem precisou rir, sozinho em sua sala de estar. A lareira estava acessa, ele havia bebido meia garrafa de vinho e, tão rápida a memória do Chefe dos Cavallone brotou em sua mente, seu corpo reagiu. Coincidência? Destino? Como explicar que no instante seguinte seu amante batia na porta de sua casa para uma visita surpresa? Não seria preciso dizer o que aconteceu depois que o Inspetor de Polícia atendeu a porta, porém, o chão de seu corredor nunca lhe pareceu tão confortável e necessário como naquela noite. Então, o que importava se ele nunca daria um filho a uma mulher? Se o que ele realmente apreciava era estar naquela exata posição, recebendo e sentido o homem que amava, observando as expressões mudarem no rosto de Ivan de acordo com o ritmo das estocadas? E, com essas certezas em seu coração, o louro sabia que havia feito a escolha certa.

O moreno aumentou o ritmo após alguns minutos, arrancando gemidos tão eróticos dos lábios do Guardião da Nuvem, que em determinado momento não havia outro som no quarto além do timbre rouco do Inspetor de Polícia. O clímax chegou primeiro para Alaudi, e ele precisou apenas tocar-se duas vezes para sentir-se completamente satisfeito. O Chefe dos Cavallone ainda moveu-se por alguns segundos até gemer um pouco mais alto, apoiando as mãos sobre o colchão e penetrando seu amante com força. O louro virou o rosto para o lado, não conseguindo omitir um baixo gemido ao sentir-se preenchido. Ele adorava aqueles momentos; a realização de que aquele homem tão belo e atraente era seu... somente seu.

O moreno tocou uma de suas bochechas e o Guardião da Nuvem voltou a virar o rosto, encarando-o diretamente. Os olhos se encontraram e Ivan abaixou o rosto beijando-o delicadamente. A carícia que, a princípio, deveria ser apenas um gentil contato, transformou-se em um envolvente e profundo beijo quando o Inspetor de Polícia segurou o rosto de seu amante com ambas as mãos e entreabriu os lábios.

Por longos minutos tudo o que Alaudi fez foi beijar aquele homem. Ele sentiu quando o moreno retirou-se de dentro dele, fazendo-o sentir-se um pouco solitário. O Chefe dos Cavallone deitou-se sobre ele, unindo os corpos úmidos com suor, mas que no momento nenhum deles parecia se importar. As noites sozinho naquele gigantesco quarto e a preocupação sentida com o inusitado resfriado de Catarina pareciam insignificantes quando Ivan estava em seus braços. Não é como se ele fosse resolver todos os meus problemas ou fazer a vida ser perfeita, o louro manteve os olhos fechados mesmo após o beijo. Os lábios do moreno desciam por seu rosto, alojando-se em sua orelha direita e sussurrando mais uma vez aquela melosa declaração de amor que aquele homem adorava cantar aos quatro cantos quando estavam a sós. É apenas por ele estar aqui. Agora.

Os dois amantes permaneceram por algum tempo naquela posição. O Guardião da Nuvem precisaria de um bom banho, mas não havia nada que o tirasse da companhia do Chefe dos Cavallone, e ambos acabaram concordando que poderiam dividir a banheira na manhã seguinte. Ivan retirou a roupa de cama suja, empurrando-a para fora da cama e cobrindo-os com dois grossos cobertores.

"Eu não sei sobre isso." O Inspetor de Polícia normalmente dormia do lado direito da cama, mas naquela noite ele estava do outro lado. Seus olhos azuis encararam diretamente a porta do quarto e mentalmente ele pôde ver a elétrica Catarina aparecendo na manhã seguinte e pegando-os completamente nus sobre a cama. Por Deus, as perguntas nunca acabariam.

"Eu tranquei a porta, ninguém vai entrar, garanto." O moreno respondeu entre gracejos e não parecia preocupado com a situação. "Você pode dormir tranquilo."

Alaudi manteve os olhos na porta por algum tempo, mas seria impossível pensar em outra coisa que não fosse a mão de seu amante em suas costas. Ela subia e descia em delicados toques. O louro estava parcialmente sobre o Chefe dos Cavallone. Metade de seu corpo repousava sobre a cama, de lado, mas a outra parte, como sua perna e braço direito, estava por cima do moreno. Sua cabeça repousava no peito nu de sua companhia, ouvindo as leves batidas do coração e sentindo o ritmo da respiração. É aqui que eu pertenço agora...

Por dez minutos Ivan contou um pouco sobre como havia sido sua viagem. Os relatos eram basicamente sobre os lugares que visitou, as comidas que experimentou e o que ele havia observado em relação a Francesco. O assunto trabalho nunca era comentado entre eles. Aquela era uma muda regra, um silencioso acordo que ambos haviam concordado e que servia para selar aquela relação. Ele era um Inspetor de Polícia. O moreno era um mafioso. Simples, direto e eficaz. O Guardião da Nuvem tinha pela consciência do que aquilo significava, mas, por mais sério e centrado que fosse com seu trabalho, ele jamais se permitiu algum pensamento sério sobre a situação, exatamente por saber que, no dia em que tivesse que encarar aquela realidade, seria o dia em que teria de dizer adeus aquele homem. Não hoje. Não esta noite...

A narração do Chefe dos Cavallone terminou quando sua voz se tornou preguiçosa. Sua mão parou de mover-se sobre a pele do louro e os olhos azuis se ergueram. Um sorriso discreto cruzou os lábios do Guardião da Nuvem e ele permaneceu algum tempo imóvel, apenas admirando seu amante dormir. Seu sono chegou pouco depois, fazendo-o apoiar a cabeça novamente sobre o peito de Ivan. Ele não ouviu a chuva que batia na janela, ou sentiu o frio que se instaurou no quarto quando a lareira apagou-se. Nada mais importava naquele momento além de estar ali, com aquela pessoa. Nem o passado e muito menos o futuro. Talvez amanhã...

x

A chuva da noite anterior trouxe um frio ainda mais rigoroso para a manhã seguinte.

O Inspetor de Polícia não era do tipo preguiçoso, que passava horas na cama. Seu corpo havia se adaptado aos anos na força policial e raramente ele conseguia permanecer na cama depois das 7h. Todavia, naquele dia, em especial, Alaudi só deixou o quarto principal quando o relógio marcava pouco mais de 10h. Verdade fosse dita, ele despertou às 8h, junto com Ivan, mas aparentemente ainda havia muita saudade para resolvida, fosse novamente na cama ou na banheira da suíte. Então, quando os dois amantes estavam fora do quarto, o que os recebeu, no andar debaixo, foram dois grandes e suspeitos olhos castanhos que emolduravam um belo e pequeno rosto cheio de sardas. Catarina indagou várias vezes porque fora a primeira a acordar e deixou claro que "Alaudi havia quebrado a promessa do café da manhã". O louro desculpou-se, mas não soube ao certo o que dizer para apaziguar a ira da pequena.

"Agora eu terei de tomar outro café da manhã!" A garota de cabelos ruivos ergueu os braços como se aquilo fosse ultrajante. "N-Não é como se eu quisesse comer de novo! M-Mesmo que eu esteja com fome... mas só um pouco de fome!"

Ivan assistia a tudo de longe, rindo consigo mesmo enquanto o Guardião da Nuvem precisava lidar com aquela promessa quebrada. O sermão de Catarina só terminou quando a porta do hall foi aberta e a figura de Giuseppe apareceu. O jovem homem fez uma polida reverência, desejando um sorridente bom dia. A garota calou-se no mesmo instante, correndo até ele e o puxando pela mão na direção da sala de jantar. Estranhamente, no exato momento em que o louro apareceu na casa, Francesco deixou seu quarto e desceu a escadaria às pressas, desejando um bom dia extremamente rápido. Seus passos o levaram pelo mesmo caminho que Catarina havia feito e a próxima coisa que o Inspetor de Polícia ouviu foi o garoto ralhando com a irmã.

"Eu vou na frente, Alaudi." O moreno caminhou até ele. O louro o olhou, sem entender. "Acredito que você queira resolver isso sozinho. Ele está lá fora."

Foi preciso alguns segundos para que o Guardião da Nuvem entendesse do que seu amante estava falando. A realização de que o Chefe dos Cavallone viu além da situação o fez engolir seco, mas nada foi pior do que o sorriso companheiro que Ivan ofereceu antes de se afastar. Os olhos azuis fitaram a entrada da mansão e o Inspetor de Polícia soltou um longo e cansado suspiro antes de iniciar sua caminhada. Cada passo pareceu difícil e sofrido, como se ele andasse para sua própria execução. Sua mão girou a maçaneta dourada com pesar e, ao sentir o vento gelado tocar suas bochechas, Alaudi cogitou seriamente a ideia de simplesmente dar meia volta e deixar as coisas como estavam. Entretanto, seria impossível. Sua personalidade não permitia assuntos inacabados, principalmente quando envolvia pessoas que ele não queria ficar em dívida. O céu estava nublado, mas o dia extremamente claro, e, parado bem em frente, no primeiro degrau da curta escadaria de mármore que levava ao jardim, estava a pessoa que ele procurava.

Mario estava de costas, vestindo um grosso sobretudo cinza. Suas mãos estavam dentro dos bolsos e havia um cachecol negro ao redor de seu pescoço. Os longos cabelos ruivos estavam soltos e escondidos dentro do cachecol. O Braço Direito virou-se ao sentir que tinha companhia, mas em seus olhos verdes o louro não viu nada. O ruivo voltou a olhar para frente, como se não houvesse ninguém ao seu lado. Eu preferiria levar um tiro...

"Bom dia." A voz do Guardião da Nuvem soou baixa. Ele estava oficialmente arrependido de não ter pegado um cachecol.

"Bom dia." Mario respondeu baixo. Seus olhos não saíram um segundo sequer do horizonte.

Os dois homens permaneceram em silêncio por um tempo que pareceu muito mais longo do que meros segundos. O Inspetor de Polícia sentia-se incomodado, sabendo que aquela pessoa deveria ter pelo menos uma vaga ideia do motivo que o levou até ali. Em circunstâncias normais não haveria razão para estar naquela posição, próximo do homem cujas únicas relações entre eles eram obrigatórias.

"Eu gostar―"

"Não há necessidade." O Braço Direito ergueu um pouco mais o queixo e seus olhos verdes se apertaram, como se ele conseguisse enxergar além daquele monte de neve. A mansão ficava na parte alta da propriedade, então dali não era possível ver nada além de árvores. "Eu não fiz aquilo por você. Se veio agradecer por obrigação, não o faça."

"Eu não estou aqui por obrigação." Mas é claro que estou aqui por obrigação, seu insolente!

"É mesmo?" A ironia transbordava através do timbre daquele homem. "Eu aceito o seu sincero agradecimento, Alaudi. Porém, você não vai querer ficar aqui por muito tempo."

O louro apertou as sobrancelhas, sem entender o que aquele comentário ultrajante poderia significar. A situação só fez sentido quando o barulho de alguma coisa chegando o fez virar a cabeça e encarar o carro negro que entrava na propriedade. As mãos do Guardião da Nuvem se fecharam em forma de punho e seu maxilar trincou com força. Era a mais pura e direta insolência!

"Oh!" O Braço Direito dos Cavallone abriu um largo sorriso. Ele era alguns centímetros mais alto. "Não me diga que está aqui porque quer ver o quão passional eu sou quando recebo meu amante. Eu não sabia que você tinha o hábito de observar."

A resposta ficou presa nos lábios do Inspetor de Polícia, pois, no exato momento em que pensou em responder, o carro foi parado na entrada e a figura de Giulio o fez engolir as próprias palavras. O moreno vestia um sobretudo claro e um cachecol escuro, e pareceu tão visivelmente desconcentrado por ver aquela cena diante de seus olhos, que seus pés permaneceram parados no mesmo local. Mario riu baixo, dando um passo à frente e tudo o que Alaudi conseguiu fazer naquela fração de segundo foi menear a cabeça para seu Braço Direito antes de dar meia volta e entrar na mansão com passos rápidos e firmes. Nunca, naqueles cinco anos, ele cruzou o espaço do hall até a sala de jantar com tanta rapidez. Suas mãos abriram as duas portas de madeira escura, recebendo os olhares dos presentes. A mesa estava posta, e naquela manhã Giuseppe aparentemente havia sido arrastado pelos dois herdeiros dos Cavallone como companhia. O louro fez menção de se levantar, mas o Guardião da Nuvem moveu a mão, mostrando que ele não devia se dar ao trabalho. O Inspetor de Polícia sentou-se em seu lugar costumeiro, do lado direito, sentindo o rosto absurdamente quente.

Catarina e Francesco estavam em um longo debate sobre algum dos pratos na mesa, então não fizeram nenhuma menção em indagar aonde Alaudi havia estado. Ivan foi o único a notar a mudança no humor de seu amante, e a maneira que ele encontrou de transmitir aquilo foi um gentil toque sobre a mão do louro que estava embaixo da mesa de jantar. O Guardião da Nuvem ficou surpreso e seu coração bateu mais rápido pelo contato. Seus dedos se moveram devagar, entrelaçando as mãos e deixando que aquele gentil toque o acalmasse.

O moreno não fez comentário algum. Em determinado momento Catarina exigiu a atenção do pai, perguntando a opinião dele sobre o assunto do tal prato (que era uma discussão tola sobre pães). O Chefe dos Cavallone entrou na conversa, e em segundos aquilo virou um debate sobre porque a mesa não tinha mais frutas. O Inspetor de Polícia permaneceu algum tempo em silêncio, mas, quando sua opinião foi requisitada – novamente por Catarina –, Alaudi não hesitou em compartilhá-la, concordando com a garota. Francesco o acusou de tomar o partido da irmã e não mais do que de repente a conversa se direcionou a Giuseppe, que passara o tempo todo quieto, apenas saboreando o café da manhã. Ivan riu e recostou-se à sua alta cadeira, apertando os dedos do louro entre os seus e oferecendo pela primeira vez um olhar direto para seu amante. O Guardião da Nuvem tentou não fazer contato visual, mas seria humanamente impossível ignorar aquela tão exclusiva atenção. Os olhos azuis se ergueram e imediatamente Alaudi corou, como sempre corava quando se dava conta de que, não importasse seu humor ou a situação em que ele estivesse, os olhos daquele homem sempre estariam sobre ele. Protegendo-o. Animando-o. Amando-o. Sempre.

- FIM.


Notas da autora:

Depois de um longo tempo finalmente eu pude escrever sobre esses dois novamente!

Reconheço que senti saudades, principalmente conforme fui escrevendo sobre outros personagens e fandons. Intimamente Primo Cavallone x Alaudi conquistaram um lugar mais do que especial no meu coração, e sinto um prazer enorme em trabalhar com esses personagens.

Antes de começar meu breve comentário, eu preciso dizer que essa fanfic é dedicada a envy_love. Foi graças a um comentário que ela fez em um review que eu tive a inspiração necessária para escrever essa fanfic. Por isso eu sempre digo: para mim, reviews não servem para inflar-ego, eles me ajudam a ter ideias e melhorar meu trabalho. Então, envy_love, meu mais sincero obrigada!

Agora, voltando a fanfic, "Family Business" serve como a primeira parte do prólogo pré-continuação de "Between you and me". A segunda parte serão os especiais de fim de ano. Esses personagens, em especial, ganharam bastante espaço, pois eu escrevi sobre os três casais (Ivan x Alaudi; Giulio x Mario e Francesco x Giuseppe). Sei que muito dos leitores gostaram dos meus OCs, então me senti tentada a colocá-los nos especiais, principalmente o Francesco, já que percebi que tem muita gente curiosa sobre o desenvolvimento do personagem. E, claro, como não escrevo shotacon, haverá outro timeskip nos especiais, então o Francis já será um adolescente.

Muito obrigada por terem lido até aqui. Minhas postagens retornam com os especiais, provavelmente próximo ao dia de Natal. Deixarei algumas coordenadas no profile para facilitar e zaz. Novamente, obrigada!

Nos vemos por ai!