Memórias - Rose POV

Não sei bem o que aconteceu depois daquele dia, só sei que a partir daí não tive mais visões infelizes dos passatempos do Malfoy. Não sei se ele tinha desistido de levar para além as suas conquistas ou se simplesmente tenha aceitado o meu concelho e ido para o seu quarto. No entanto, sem me aperceber, todos os dias à noite quando o Malfoy não estava na sala eu passava pela porta dele e parava um pouco à escuta, à espera de ouvir alguma coisa, um gemido, um ranger, uma voz, qualquer coisa.

Mas não havia nada. Nem gemidos, nem rangeres, nem vozes, nem roupas no chão. Ou o Malfoy tinha sido suficientemente esperto para por feitiços de silêncio à volta do quarto ou então ele tinha acabado com as suas actividades extra curriculares. E eu rezava a Merlin para que fosse a última hipótese.

Hoje estava quase a cair para o lado quando sussurrei a password ao quadro e ele se abriu relutantemente, e assim que entrei tratei de tirar os sapatos que estavam a magoar-me desde manhã. Olhei em volta mas Scorpius Malfoy não estava em lado algum, e então suspirei e comecei a subir os degraus para o meu quarto, quando algo, ou alguém veio de encontro a mim. Por momentos os cabelos loiros fizeram-me querer que era o Malfoy mas só depois é que compreendi que eram demasiado longos para serem dele.

- Sai da frente Weasley! - gritou-me Jessica Carter e eu nem tive tempo de reagir, porque aquilo apanhou-me de surpresa.

Não a arrogância, porque era sabido que a Carter não era das pessoas mais simpáticas de Hogwarts. Pelo contrário, para além de presunçosa, andava sempre com o raio do nariz virado para cima e os rapazes todos a seus pés. Não que ela quisesse algum deles, o que ela queria era Scorpius Malfoy. Foi a cara dela que me apanhou desprevenida, porque grossas lágrimas vinham a escorrer-lhe pela cara que estava totalmente encarnada, como se ela estivesse envergonhada ou irritada.

Tive tempo de notar tudo isso em alguns segundos porque depois ela passou por mim e desceu escadas abaixo, saindo depois pelo retrato e deixando-me de novo sozinha, sentada nos degraus onde tinha caído. Levantei-me calmamente quando me apercebi da figura que estava a fazer ali sentada, apesar de ninguém me estar a ver.

O que raio acabou de acontecer?

Quando cheguei à porta do meu quarto não consegui conter em olhar para a porta que dava para o quarto do Malfoy. Estava fechada, como sempre nos últimos dias, e não dava indicações do porquê de uma Jessica Carter ter acabado de sair a correr e a chorar dali para fora. Tive vontade de ir bater à porta e perguntar o que tinha acontecido, mas segurei os pés no chão. Eu não era amiga dele, já não. Não tinha o direito de lhe ir bater à porta e perguntar o que tinha acontecido na vida dele... pois não?

E sem que eu pedisse, imagens começaram a passar pela minha cabeça, puxando-me para fora da realidade e transportando-me para momentos longínquos, que eu já nem me lembrava terem alguma vez acontecido. Primeiro estava na plataforma e o meu pai estava a dizer o nome dele. Scorpius Malfoy, dizia ele, e quando a memória se desvaneceu a voz dele ficou a flutuar na minha cabeça.

Scorpius Malfoy.

Mas agora já não estava na plataforma, estava na biblioteca e o olhar dele cruzava-se com o meu e um arrepio percorreu o meu corpo e eu voltei a esconder os meus olhos atrás do livro. Mas agora já não havia livro nenhum, ele estava mesmo à minha frente e eu estava estender-lhe a mão. O meu nome é Rose Weasley, dizia-lhe eu, e ele olhou para mim e esticou-me a mão também e respondeu, Scorpius Malfoy. E depois ele sorriu para mim, mas agora já não sorria, agora gritava, e depois pedia-me desculpas e eu sentia que a minha vida estava a passar-me à frente dos olhos. Depois estávamos a ver o pôr do sol e riamos os dois, e depois estavamos no baile a dançar. E ele abraçava-me, e ele salvava-me, e nós beijava-mo-nos.

E depois tudo desapareceu, e a única coisa que restava era o nome dele, a boiar na minha cabeça, e sem saber como estava mesmo à frente da porta dele. Levantei a mão a medo para bater, mas no último segundo não consegui, baixei a mão e com ela baixei também a cabeça.

São só memórias, memórias não vão mudar nada.

E quando me voltei para trás ouvi um clique atrás de mim.

- Rose?

E voltei-me para ele. Não era uma memória. Era Scorpius Malfoy, e ele estava ali, mesmo à minha frente, a chamar-me Rose e não Weasley, e a mandar embora as putas dele. Ele estava ali de porta aberta, e parecia tão vulnerável que me apetecia abraçá-lo.

- Isto é ridículo. - disse eu, e só depois de o dizer é que percebi que o tinha dito em voz alta.

Ele olhou para mim por alguns segundos e depois respondeu:

- É, não é?

E depois larguei a merda dos sapatos, a merda dos livros, os rancores, as mágoas e agarrei-me às memórias. Larguei tudo aquilo que não restava e quando dei por mim estava a correr para ele e a deixar tudo o resto para trás e não tive de parar para lhe dar tempo para me agarrar, porque ele já tinha o braços abertos, pronto para me agarrar, e com alguma sorte, para não me largar mais.

E de um momento para o outro eu estava em casa outra vez, nos braços dele, sem mais nada do que isso.

E visto bem, era tudo o que eu precisava.


N/A: Oii *-* Pronto, cá está, não saiu como eu estava à espera, mas acho que saiu melhor ainda. Digam-me o que acharam. Beijos enormes!