Vamos aos disclaimers de hábito.

Saint Seiya não me pertence. Blá, blá, blá. Essa fic não tem fins lucrativos. Blá, blá, blá.

Avisos:

- Essa fic não é yaoi. Nesse universo paralelo, todos os cavaleiros (todos!) são (ou alegam ser) héteros. E eu não vou questionar (muito). Está classificada como M por conter situações maduras. E eu não tenho a mais mínima idéia de como a história vai se desenrolar daqui pra frente, mas NÃO TEREMOS CASAIS YAOI, salvo prova irrefutável em contrário.

- Por ser uma fic de tentativa de comédia, eu não poderei garantir que alguns personagens não fiquem meio OOC, embora eu esteja tentado ao máximo que isso não aconteça. De qualquer forma, eles estão, sim, bem mais comunicativos que o costume.

De qualquer forma, estejam avisados.

On with the show.


No capítulo anterior...

Nossos bravos guerreiros, depois de uma jornada cheia de perigos, chegam ao Salão do Grande Mestre para então iniciar a busca por uma solução para o problema que aflige Kanon, o segundo Cavaleiro de Gêmeos e General Marina de Poseidon, que foi transformado em uma mulher após cair nas águas medicinais, ops, mágicas de uma lagoa encantada na China. Em seguida, nossos heróis conseguem localizar um antigo manuscrito chinês que contém preciosas informações a respeito dessa situação. Graças à inteligência e à presteza de nossos bravos cavaleiros, o pergaminho é traduzido, mas as informações contidas criam um outro problema, ao invés de chegar em uma solução.


SUI GENERIS


Capítulo 8

Ou:

Axioma de Alley: A justiça sempre prevalece... Três a cada sete vezes.


Casa de Gêmeos, final da tarde...

Saga estava sentado no sofá agora úmido de sua casa, olhando fixamente para a velha mesa de centro de madeira maciça, talvez a única coisa, além da televisão, que tinha ficado no lugar depois do ataque de fúria de Kanon. Era bem certo que ele precisaria arrumar toda aquela bagunça, porque com certeza Shion ralharia com ele se deixasse a arrumação por conta do irmão, que era o que antes lhe passara na cabeça.

O cavaleiro oficial de Gêmeos sentia o corpo protestar dos recentes maus-tratos a que foi submetido. Doía bem menos do que antes, mas a dor surda em todo seu corpo, ainda que fraca, o irritava. Não que não fosse acostumado à dor, afinal era um cavaleiro e não um mariquinha, mas estava irritado porque pensava que, daquela vez, seu corpo doía sem um motivo nobre.

Apanhara do irmão, basicamente, porque estivera no lugar errado, na hora errada.

Bom, era verdade que tinha falado algumas coisas erradas também... Mas, honestamente falando, Kanon não podia culpá-lo por seu erro de avaliação.

Porque não era como se seu irmão fosse uma pessoa justa, idônea e correta, não? E, no calor do momento, uma mulher desacordada em seu sofá pareceu-lhe algo típico demais para ser atribuído a qualquer outra pessoa...

Uma vozinha em sua cabeça, que devia ser sua consciência, o lembrou das coisas terríveis que fizera quando em poder da entidade maligna que surgiu dentro de si. Mas seu ego consciente imediatamente replicou amargado para a voz que até isso tinha sido culpa dele, já que fora Kanon quem despertou aquele mal em seu coração, como ele mesmo dissera quando era um espectro naquela terrível batalha contra Hades...

E ele não pôde evitar a tristeza, pois apesar de repetir de si para si essa explicação, já não acreditava tanto assim nela.

Saga soltou um suspiro resignado. Era muito bem verdade que seu irmão havia se metido em um problema grande como jamais vira, até hoje. E ressalte-se que ele conhecia o irmão o suficiente para ser capaz de fazer uma folha corrida bastante extensa do histórico de problemas que ele já causara, até a fatídica separação dos dois por... aquela ocasião do Cabo Sounion e tudo. E, depois disso, os fatos simplesmente falavam por si, não era verdade?

A propósito, Kanon seguia em seu quarto, sem dar sinal de vida.

O outro levantou-se num pulo, em direção à cozinha, para pegar a garrafa e o copo de água que Shion tinha lhe pedido para colocar no quarto do irmão. Mentalmente, pedia aos deuses que ele estivesse tão adormecido quanto esperava que estivesse, porque se ele entrasse no quarto de Kanon com ele acordado, seria certamente enxotado para fora. Felizmente, estava certo: O irmão seguia imóvel, profundamente adormecido, na mesma posição que o Grande Mestre o deixara. Aproximou-se para deixar o que trouxera no criado-mudo do lado da cama, e não conseguiu deixar de reparar na agora moça que estava deitada na cama, alheia a tudo e todos, com os cabelos louros espalhados pelo travesseiro e o rosto placidamente calmo. Era uma visão perturbadora, sem dúvida. Não pelos óbvios atrativos da forma feminina de seu irmão; mas porque, apesar de todo o estranhamento por ter que associar ao seu irmão aquela imagem de moça bela e adormecida; ainda conseguia claramente ver nos traços da garota uma similaridade incrível... consigo próprio.

Desde que se entendia por gente, estava acostumado à presença do irmão, para o bem e (geralmente) para o mal. Saga sabia que isso era muito clichê, mas nem ele mesmo podia negar que ele e Kanon eram a personificação escarrada e cuspida de todas as muitas histórias e lendas de irmãos gêmeos iguais na aparência e totalmente diferentes na alma, com direito a todos as histórias adicionais possíveis de 'gêmeo bom e gêmeo ruim'.

A triste verdade é que, desde sempre, tinha problemas de relacionamento com seu irmão mais novo (por dez minutos que fossem, mas era sim mais novo do que ele!). Enquanto ele, Saga, era calmo, educado e obediente, Kanon sempre foi um menino de pouco traquejo social e temperamento difícil (para dizer o mínimo). E muito apesar deles não terem notícia de nenhum parente de sangue conhecido e serem portanto sozinhos no mundo, simplesmente não conseguiam se dar bem. Era assim quando viviam no velho orfanato em Corinto, a primeira 'casa' de que se lembrava e para onde foram levados ainda bebês, por ocasião da morte da mãe e da falta de notícias em relação a seu pai; e nada mudou quando foram levados do orfanato para o Santuário de Atena, posto que foram identificados por um 'olheiro' que apontou neles o talento para se tornarem cavaleiros. No Santuário, foram recebidos como aprendizes e, depois que 'as estrelas falaram' ao Patriarca, ele foi considerado aspirante à armadura de ouro de Gêmeos, e Kanon seria treinado em separado do Santuário para ser uma espécie de 'sucessor' ou segundo em comando, e sua existência seguiria em segredo de estado.

Obviamente, isso só piorou a relação entre eles, que já era capenga o suficiente por si só.

Era fato que seu irmão o irritava mais do que qualquer coisa nesse mundo, e o sentimento era recíproco. Era fato que não eram amigos, talvez nem mesmo colegas, e que brigavam feito loucos até que um decidisse simplesmente parar de falar com o outro. Isso quando as brigas não tomavam proporções maiores e descambavam para tentativas de agressão física (o que nos últimos tempos felizmente era mais raro...) Ou, no caso de Sounion, num rompimento que por mais que estivessem todos de volta e eles dois morando na mesma casa pela primeira vez em muito tempo, ainda parecia definitivo demais para ser revogado por palavras amigas, promessas de paz e amor eternos e mesmo até a ordem divina da Deusa Atena em pessoa.

Por isso o estranhamento tão grande em entrar no quarto do irmão, uma espécie de 'zona proibida' a seu acesso. Ele podia contar com folga nos dedos de uma mão as vezes que tinha entrado ali, desde que se instalaram os dois na casa de Gêmeos.

Olhou em volta do quarto espaçoso, mas parcamente decorado com poucos outros móveis além da cama e do criado-mudo onde tinha deixado a garrafa d'água que trouxera: Um armário grande, uma escrivaninha com uns livros em cima, fazendo conjunto com uma cadeira de madeira, uma pequena estante com mais alguns livros, cadernos, revistas, discos, fitas cassete e outros objetos de uso pessoal, um conjunto de som com toca-discos, toca-fitas e rádio com fones de ouvido em cima de um dos alto-falantes, e um pequeno baú nos pés da cama. Chamou-lhe a atenção o canto vazio ao lado do armário, onde costumava ficar a escama de Dragão Marinho que não estava ali, e que o lembrava do fato de que seu irmão, apesar de (agora) fiel a Atena, seguia tendo laços estreitos com outra Ordem e outra deidade, o que deixava Saga bastante apreensivo.

Na verdade, Kanon ficara na casa de Gêmeos porque, com a destruição do Templo Submarino, o próprio Poseidon adormecido em Julian Solo (bom, nem tão mais adormecido assim, a propósito...)e seus marinas trazidos de volta à vida seguiam sem ter onde ficar. Então, como solução, Julian ficou em sua propriedade nababesca na Grécia e seus generais foram alocados em propriedades das Empresas Solo próximas aos seus oceanos de atuação, com exceção de Kanon, que foi alocado dentro da Terceira Casa como um pedido pessoal de Saori a Julian.

Assim foi como os dois gêmeos se viram vivendo sobre o mesmo teto.

Não que Saori e Shion não tivessem sido avisados de que esse fato poderia muito bem desencadear outro abalo sísmico nas estruturas das Ordens envolvidas, mas todos simplesmente se recusaram em acreditar que os dois, finalmente convivendo juntos como deveria ter sido desde o começo, não deixassem as diferenças de lado e passassem a conviver em relativa harmonia como os outros dois cavaleiros de ouro irmãos do Santuário, Aiolos e Aiolia. A convivência diária entre eles, porém, insistia em provar a todos o quanto estavam errados.

Um barulho na sala o tirou de seus pensamentos; e, ao sair do quarto para ver o que era, deu de cara com um Mu de Áries bem menos desgrenhado do que antes, trazendo a caixa dourada onde estava a escama de Dragão Marinho de seu irmão.

- Oi... - Mu esboçou uma tentativa de sorriso, abortada com a expressão de estranhamento impressa na cara do cavaleiro de Gêmeos. - Eu vim trazer a escama do seu irmão. É... Nós saímos meio apressados para vir para cá, e na correria acabamos deixando todas as armaduras na minha casa...

- Ah... Tá. - Saga ainda parecia profundamente incomodado.

- Onde é que eu deixo? - Mu perguntou.

- Ah... Oi? - Saga franziu a testa.

- A caixa, onde eu deixo?

- Bem... Deixa aí em cima, eu coloco no lugar depois.

- Tá... - Mu deu uma olhada geral no lugar desordenado a seu redor. - Você... tá precisando de alguma coisa?

- Eu? Não... - Saga franziu ainda mais a testa.

- E o Kanon, está melhor? - Mu desviou levemente os olhos para a porta do quarto do ex-rapaz.

- Está...

Mu abaixou a cabeça, também constrangido, mas depois de pouco tempo quebrou o silêncio incômodo que se formou entre eles.

- Olha, eu... Eu sei que não vai adiantar muito, mas... Eu queria pedir desculpas pra ele. - Mu coçou a cabeça. - É... Eu estou me sentindo meio que responsável, sabe?

- Bom... - Saga apertou os lábios e encolheu os ombros. - É como você disse: Não vai adiantar muito. Mas agora, pelo menos, ele está dormindo.

Mu soltou um suspiro, para depois assentir com a cabeça enquanto se dirigia até a porta.

- Saga?

- Hm?

- Tenta... Ter um pouco de paciência com ele.

Saga não pôde evitar a vontade de esganar o pacato cavaleiro de Áries. Sabia que ele não estava dizendo aquilo por mal, mas estava ficando exasperado de todos agora ficarem lhe pedindo para tratar seu irmão com cuidado, como se ele fosse uma boneca de louça! E, ademais, sabia bem que ele não tratava seu irmão tão mal assim como que para inspirar tantos cuidados por parte dos outros!

A propósito, e antes que alguém tivesse a ideia de mencionar alguma coisa, a situação do Cabo Sounion foi um episódio pontual e extremo, onde não só estava em jogo a rivalidade fraternal deles, mas sim o bem estar da própria Deusa e da ordem; portanto havia plenas justificativas para que ele tivesse agido daquela forma.

E, em relação a outras ocasiões, também não era como se Kanon não tivesse plenas condições de se defender. Seu atual estado era uma prova disso.

Ainda assim, engoliu a vontade de mandar Mu cuidar da própria vida com palavras rudes.

- Pode deixar, Mu.

OOO

Casa de Gêmeos, manhã do dia seguinte...

Saga, apesar de usualmente ser um madrugador, levantara um pouco mais tarde do que o habitual. Mais dolorido também. No banheiro, olhou com certo grau de desgosto para algumas manchas roxas em seu maxilar, mas nada que o impedisse de fazer sua higiene matinal e sair do quarto para a cozinha e tomar seu desjejum.

- Bom dia, Bela Adormecida. - A voz feminina não lhe era familiar, mas o tom de ironia carregado nela sim. - O Príncipe Encantado só apareceu agora pra te despertar com um beijo? Você já teve mais prestígio...

Se virou para dar de cara com a forma feminina de seu irmão, no momento com uma camiseta e bermuda de pijama alguns números maiores do que ela. Ainda assim, uma visão e tanto, não fosse pelo fato de que os olhos azuis que o olhavam de volta ainda eram facilmente reconhecíveis como os de Kanon.

- Você dormiu bem? - Saga desviou o olhar, se esforçando para ignorar a provocação.

- Dormi feito uma pedra, isso sim. E agora estou morto de fome... - Disse o ex-rapaz na cozinha, enquanto voltava a se dedicar à sua anterior tarefa, que era tentar ajeitar algo comestível para o café da manhã. Saga acompanhou seus movimentos com os olhos enquanto se sentava na mesa da cozinha, vendo a agora moça se aproximar do fogão. - A propósito, qualquer insinuação sobre eu esquentando a barriga no fogão ou esfriando a barriga no tanque colocará seus preciosos ovinhos em risco, de novo.

- Eu não estava pensando em nada disso.

- Sei...Tá com fome? Quer alguma coisa?

Saga levantou uma das sobrancelhas. Kanon se oferecendo para fazer café para ele?

- Certo. - Saga ajeitou os cotovelos em cima da mesa. - O que você quer?

- Como assim?

- Como assim o quê? Tá me achando com cara de idiota? - Saga não conseguiu evitar o tom levemente irritado na voz, até que o meio sorriso de Kanon o fizesse perceber o que tinha acabado de falar. - Não, não precisa responder. Mas, convenhamos, você se oferecendo pra me fazer comidinha? Você quer alguma coisa.

- Mas que absurdo, Saga! - Kanon fez um muxoxo de falsa indignação. - Então um irmão não pode se oferecer para te fazer uma gentileza?

- Kanon...

- Ok, ok... - O ex-rapaz suspirou. - Eu vou precisar de um favor seu.

- Meu?

- É. Bem, como você já sabe, eu estou... impossibilitado de usar meu cosmo. E, assim sendo, de abrir portais dimensionais...

- Hein? Mas você quer abrir um portal dimensional?

- Na realidade, eu preciso te treinar para que você execute minha técnica do Triângulo Dourado.

- Hã?

- Veja bem, Saga... - Kanon circundou o irmão, colocando diante dele uma torrada com manteiga. - É uma oportunidade única para você aprender uma técnica minha. Muito útil, se me permite dizer!

- Kanon, eu não estou entendendo...

- É bem simples, olha só: Você vai abrir um portal interdimensional até o Triângulo das Bermudas.

- Isso eu sei. O que eu não estou entendendo é por que você quer que eu faça isso.

- Bom... - Saga levantou de novo a sobrancelha, num sinal inequívoco de que a hesitação de Kanon tinha algo a ver com o motivo daquilo tudo. - Eu preciso ir até lá e...

- Ir até o Triângulo das Bermudas? Para quê?

- Nada demais...

- Kanon... - Saga cortou o ex-rapaz com um tom severo. - Eu só vou fazer o que você quer se você me explicar tim-tim por tim-tim o que é que você quer fazer lá. Com riqueza de detalhes.

- Eu preciso ir até lá pegar umas coisas, só isso.

- Hein? Mas que tipo de coisa poderia ter lá que você tem que abrir um portal pra pegar?

- Umas velharias, só isso... Nada de importante.

- Se não fosse importante, você não precisaria ir até lá. Que tipo de velharia é essa, então?

- Ah, uns restos de barcos naufragados, só isso.

- Espera aí. - Saga parecia concatenar algo. - Você quer abrir um portal dimensional pra pegar espólios de naufrágios no Triângulo das Bermudas? E, se me permite perguntar, o que você vai fazer com eles? Porque até onde eu sei, maninho, você não é colecionador de antiguidades nem nada! Então pode ir falando direitinho o que você quer fazer...

Kanon suspirou, entre aborrecido e desconsolado.

- Tá, eu vou vender as tranqueiras, Saga.

- Vender? Kanon, você vende essas relíquias de naufrágio que você encontra no Triângulo das Bermudas?

- É...

- Mas isso é inadmissível! - Saga começou a se exaltar. - É um absurdo! Essas relíquias são patrimônio histórico da humanidade! Você está vendendo uma parte da história como se não fosse nada! Como é que você pode fazer uma coisa dessas? Isso é... Isso é praticamente um roubo!

- Alto lá! - O ex-rapaz imediatamente se espigou. - Eu não roubo nada! Eu acho os objetos pelo meu próprio esforço, então o que eu acho é MEU! E se é meu, eu tenho o direito de fazer o que me dá na telha!

- Mas isso é imoral, Kanon! - Impacientou-se o outro.

- Mas o que você quer que eu faça?

- Doar seus achados para as instituições responsáveis?

- E não levar um centavo por isso? Tá ruim, hein!

- E além do que... Você está usando o poder do seu cosmo e da sua escama em benefício próprio! - Saga se exaltou ainda mais, com o dedo em riste. - Isso é uma afronta ao poder que os Deuses nos confiaram! Um absurdo! Uma indignidade! Uma vergonha para a Ordem! Mas que diabos, Kanon! Por um acaso você se esqueceu do nosso juramento de jamais usar nossos dons e nossas armaduras em benefício próprio?

- Chega, maninho! - Kanon interrompeu o mais velho, destilando ironia em sua voz. - A única pessoa aqui que fez juramento pra pegar uma armadura foi você. Eu, no caso, consegui minha escama sem fazer juramento de nenhuma espécie ou natureza. Então eu não estou incorrendo em nenhum tipo de delito ou afronta que seja, e seu discursinho moralista de meia-tigela não está aplicável à minha pessoa.

- Mas... - Saga arregalou os olhos, ainda indignado.

- E, de mais a mais, não é como se você fosse inocente das acusações que você me faz. Ou eu realmente vou ter que te lembrar dos teus tempos de usurpador do posto de Grande Mestre?

- Não... N-não é a mesma coisa! - Gaguejou o outro.

- Se é ou não é a mesma coisa, não tem a mínima importância. - Kanon deu um meio-sorriso vitorioso. Podia, sim, ter perdido algumas vezes para Saga em brigas físicas; mas em discussões verbais era um experto inconteste. - Não é você mesmo que me dizia que 'que uma coisa se explique, não quer dizer que ela se justifique'?

Ok, para isso Saga realmente não tinha resposta.

- Então, já que você não vai me ajudar... - Kanon saiu da cozinha e foi até a sala, com o irmão em seu encalço.

- Espera, o que você vai fazer?

- Ora, eu vou abrir o portal eu mesmo!

- De jeito nenhum! - O mais velho protestou. - Você vai por sua vida em risco! Eu não vou deixar que faça isso!

- Ai, Saga, você fala como se ligasse muuuito para a minha integridade física! Nós dois sabemos que esse não é o caso, então já que o Shion não está aqui pode parar com essa palhaçada de bancar o irmãozão protetor, que isso nunca te caiu bem.

- Kanon, pare com isso já!

- Não é como diz o ditado? Se você quer que algo seja bem feito, faça você mesmo... - Disse o ex-rapaz, já elevando levemente seu cosmo.

- Tá bom! Tá bom... Eu... Faço.

- Faz?

- Faço.

- Bom menino... - Kanon deu outro meio-sorriso, já não escondendo a sensação de vitória. - Mas não precisa ser hoje. Eu só vou começar a te treinar para fazer isso, por enquanto. Porque apesar de tudo, não é uma técnica assim tão fácil.

- Mas que diabos, pra quê você precisa tanto pegar essas coisas? - Saga continuava resmungando. - Porque não é como se você ganhasse mal. Você até recebe dois soldos!

- Dinheiro nunca é demais, Saga...

- ...Aliás, a propósito, eu disse que eu faço esse favor para você, mas em contrapartida nós temos que conversar sobre a divisão das contas aqui de casa. Você ganha mais, é justo que arque com mais despesas...

- ...Droga... - O ex-rapaz resmungou, enquanto Saga continuava aproveitando a brecha que encontrou para introduzir (mais) esse assunto espinhoso.

- ...Porque, além do mais, eu não sabia dessa sua nova fonte de proventos. Então, nada mais justo do que a gente rediscutir a divisão das contas. Essa história de 'cada um paga metade' não é justa. Você ganha o soldo de cavaleiro, o soldo de general marina e agora me vem com essa de vender relíquias pra tirar um extra. Não dá pra eu, ganhando tão menos assim, arcar com metade das contas e você com a outra metade. É mais do que justo que você pague as contas proporcionalmente ao que ganha!

-...Oh, droga.

OOO

Salão do Grande Mestre...

Enquanto o dia se desenrolava no Santuário de Atena, ainda em processo de reconstrução, o jovem Grande Mestre Shion e Dohko de Libra seguiam empenhados em buscar uma solução para o problema de Kanon de Gêmeos.

- Shion, meu amigo, não adianta. Nós já traduzimos, retraduzimos, viramos esse maldito pergaminho de cabeça para baixo e nada! Não há uma única informação nova que nos ajude aqui!

- Dohko, pelos deuses, a gente tem que encontrar uma solução! - Exasperou-se o Patriarca. - Porque, só para te lembrar do que está acontecendo, o cavaleiro suplente da armadura de Gêmeos E General guardião do Oceano Atântico Norte está preso em um corpo de mulher E impossibilitado de usar seu cosmo! Isso não é uma situação que possa se dar ao luxo de não ser resolvida!

- E você fala como se eu não soubesse! Mas infelizmente, o que o pergaminho diz é o que já sabemos. A pessoa afetada pela maldição tem que aplacar o espírito da Feiticeira uma demostração de amor puro, incondicional e verdadeiro!

- E isso faz algum sentido para você, amigo?

- Não. Mas é o que está escrito!

- Dohko, pelos deuses, homem, não dá para nós simplesmente desistirmos. Só pra constar, eu estou quase mandando você voltar à China para ir em busca da tribo Joketsuzoku.

- Shion, o que é isso, você deu de acreditar em lendas agora? - Disse um Dohko razoavelmente pálido. - Desse jeito também é uma opção escrever uma cartinha ao Papai Noel, ou ao Coelhinho da Páscoa.

- Engraçadinho. - Shion apertou os olhos. - Mas amigo, o que aconteceu? Você está pálido e...

- Eu? Imagina, impressão sua...

- Imagina nada! Está pálido sim e...

- E então? - A entrada de Saori Kido no salão interrompe os dois. - Algum avanço?

- Senhorita? O que você está fazendo aqui a uma hora dessas? - Shion estranhou que Saori estivesse em seu salão a essa hora da manhã, um bom par de horas mais cedo do que seu habitual para encontrar a Deusa.

- Aconteceu alguma coisa? - Dohko perguntou, também partilhando da estranheza de Shion.

- Sim, aconteceu, e para variar não é uma boa notícia... Adivinhem quem me ligou hoje cedo atrás de notícias de seu General Marina?

- Oh, não... - Shion e Dohko disseram em uníssono.

- Pois é. - Saori puxou uma cadeira e sentou-se, apoiando o rosto na palma da mão e o cotovelo na mesa. - Eu bem que tentei dar uma despistada, mas agora que Poseidon está cada vez mais acordado dentro da cabeça de Julian, está bem mais difícil.

- Por quê?

- Ah, Julian está ficando bem mais maduro, inteligente, experiente... - Saori jogou o corpo para o encosto da cadeira, enumerando as atuais características de seu amigo com uma nota discreta de contentamento e malícia na voz, que não passou desapercebida para o jovem Grande Mestre, que fez uma careta de desaprovação; imediatamente percebida pela jovem que recobrou sua compostura. - Uhm, então, está bem mais difícil de enganá-lo, né?

- Sei... - Shion seguia olhando a jovem com dureza. - Hum, e o que você disse para ele?

- Eu disse que ele ainda não tinha voltado da China.

- Hm, isso pode nos dar algum tempo. - Observou Shion. - Mas eu realmente acho que vai ser difícil manter algo assim oculto.

- Bem, talvez não... - Dohko se pronunciou. - Vejam bem, Kanon mesmo enganou a Poseidon por treze anos...

- É, mas ele tinha acabado de acordar, devia estar morrendo de sono. - Saori retorquiu. - Tiro por mim, que também fico lesadinha das ideias quando estou com sono e...

Saori interrompeu seu raciocínio ao ver os olhares ininteligíveis de Shion e Dohko sobre si.

- Não me olhem assim. - Disse a Deusa com a voz baixa e pausada, mas que não disfarçava sua irritação. - Ou por acaso vocês querem insinuar alguma coisa?

- Insinuar? O quê? - Shion piscou repetidamente. - Imagine, ninguém estava nem pensando nisso, minha Deusa!

- Claro! O que nós poderíamos insinuar... - Continuou Dohko.

- Sei... - Saori estreitou os olhos. - Mas enfim, o que eu estava querendo dizer é que uma coisa é enganar alguém que acabou de acordar de um sono de sei lá quantas centenas de anos, por mais que seja uma divindade; outra completamente diferente é enganar um Poseidon cada vez mais acordado na cabeça do Julian!

- Nisso você tem razão, senhorita. - Assentiu Shion. - Por isso eu acho uma ideia melhor que nós mesmos o procuremos para daí contar tudo a ele.

- Mas... O Kanon é bem capaz de tentar me matar de novo se eu fizer isso! - Saori protestou.

- Pior será se Julian e os outros Generais descobrirem sozinhos. Pois nós não estamos nem perto de uma solução, aqui... - Shion observou, desgostoso.

- Mas como é que eu vou dizer uma coisa dessas pra ele? Eu não posso pegar um telefone e dizer simplesmente 'oi, seu general marina virou uma moça'! - Saori protestou novamente.

- Nós não temos muita opção, senhorita... - Dohko parecia concordar com Shion. - Mas, para que você não tenha que dar uma notícia dessas por telefone, seria melhor marcar uma reunião com ele. A portas fechadas, vale salientar.

- Bom... - Saori olhou para o telefone na outra sala. - Não tem outro jeito mesmo, não é?

Dohko e Shion balançaram a cabeça negativamente.

- Outra coisa: Enquanto essa situação não se resolve, o que faremos com o Kanon? - Shion perguntou, depois de uns minutos em silêncio.

- Como assim?

- Senhorita, obviamente Kanon terá de ser afastado de suas atividades regulares. E, pelo que eu conheço dele, será extremamente necessário que ele se ocupe com alguma outra coisa.

- Mestre Shion, ele não poderá se engajar em trabalhos ou missões se não puder elevar seu cosmo. É perigoso demais. - Saori respondeu, taxativa.

- Eu sei, e concordo, mas alguma outra atividade ele tem que ter. Acredite, Kanon pode ser um perigo se entregue ao ócio...

- Ele poderia ajudar a treinar as amazonas... - Dohko sugeriu.

- Eh?

- Sim, Shion... Kanon, apesar de impedido de usar seu cosmo, ainda sabe técnicas de lutas e artes marciais como poucos, não é?

- Isso realmente pode ser uma boa ideia, amigo... Afinal, como foi treinado longe do santuário e sem as obrigações que Saga tinha, ele se dedicou por mais tempo para treinar artes marciais. E o infeliz aprendeu muito bem. Bem até demais...

- Como assim? - Saori perguntou, curiosa.

- Ah... É uma longa história. - Shion suspirou, evocando memórias da época de treinamento dos gêmeos. - Mas, mesmo longe do Santuário, Kanon era mestre em arranjar problemas. Mesmo lá na ilha, ele vivia empregando seus conhecimentos para arrumar confusão e se meter em encrenca. Imaginem, um dos passatempos preferidos dele era disputar... torneios de lutas de rua, que ele obviamente vencia sem grandes problemas, para conseguir dinheiro.

- Sério? - Saori pareceu surpresa.

- Calma, eu ainda nem entrei no assunto das jogatinas e das apostas de pôquer...

- Espera aí... - Saori tentava organizar as ideias. - Eu acho que estou pegando a história pela metade... Você disse que o Kanon não treinou no Santuário, certo? Como e onde foi o treinamento dele, então?

- Senhorita... Como eu disse, é uma longa história...

- Mestre Shion, minha única obrigação no momento é dar a boa notícia sobre Kanon para o Julian... Você há de entender que eu tenho uns minutinhos para escutar essa história...

- Então está bem. Comecemos do início. Saga e Kanon foram trazidos para o Santuário ainda novinhos, creio que com uns seis anos, se tanto. Saga era um menino muito calmo, educado e bonzinho, e o Kanon era uma verdadeira peste. Ao contrário dos cavaleiros de Gêmeos da minha geração, não parecia que haveria dúvidas de que Saga era o 'lado bom' da constelação, e o Kanon era o 'lado mau', mesmo antes das estrelas falarem... Mas, pela experiência prévia daquele combate com Hades(1), foi decidido que ambos receberiam treinamento para portar a armadura, embora Saga fosse o sucessor natural. Ainda assim, Kanon teria que ser mantido afastado do Santuário, pois senão ele seria marcado como o 'gêmeo maldito', como seu antecessor foi...

- Mas... Por que isso? - Saori parecia confusa. - Eu sempre pensei que, havendo dois candidatos à armadura, eles deveriam duelar por ela...

- No caso de Gêmeos, nunca foi assim. - Shion continuou. - Aliás, no início dos tempos, era raro que sequer existisse o segundo gêmeo...

- Como assim? - Agora foi a vez de Dohko perguntar.

- Bom, eu estudei muito a história da Ordem enquanto estive no posto de Grande Mestre. E mesmo antes disso, não pude deixar de me intrigar com o que aconteceu com os cavaleiros de Gêmeos de nossa geração. Você sabe, Dohko, a loucura de Aspros, ele se voltar ao mal e tentar usurpar o cargo de Grande Mestre...

- Como é? Você está dizendo que o cavaleiro de Gêmeos anterior a Saga fez isso também?

- Sim, Senhorita. Embora que com algumas variantes, mas a essência dos fatos foi muito semelhante. Pelo menos em relação a Saga. E, naquela época, eu achei bastante curioso que um cavaleiro de ouro perdesse a razão assim dessa forma... Mas, ao estudar a história da Ordem, vi que isso é quase que uma constante no posto de Gêmeos. As encarnações anteriores deles eram muito propensas à loucura e à dupla personalidade. E outra coisa chamou bastante minha atenção: na maior parte das vezes, os cavaleiros de Gêmeos anteriores não tinham irmãos vivos. Eram, todos eles, gêmeos; mas o outro irmão na maioria das vezes nascia morto ou, mais no inicio da Ordem, era... tratado pelas tradições espartanas...

- Como assim? - Saori perguntou, assustada com a expressão de pesar no rosto de Shion e Dohko.

- Em Esparta, crianças defeituosas eram descartadas. E o gêmeo nascido na Estrela do Caos era considerado como tal, quando não nascia morto...

- Que horror! - Bradou Saori. - Eu não acredito que o Santuário corroborava esse tipo de atitude!

- Eram outros tempos, senhorita. Mas, felizmente, mesmo antes da minha geração esses costumes bárbaros foram abandonados, visto que meu próprio mestre tinha um irmão gêmeo...

- Mas Hakurei não era nascido sob a Estrela do Caos, Shion. - Dohko observou. - Porque Defteros passou sua infância sendo maltratado e com o rosto encerrado em uma máscara de ferro...

- Eu não acredito! - Bradou Saori, novamente. - Mas que espécie de lugar era esse aqui?

- Como eu disse, outros tempos... - Shion continuou. - Mas enfim, voltando à minha linha de raciocínio, os cavaleiros de Gêmeos anteriores eram muito propensos à loucura e a transtornos psicológicos. E quando eu estudava suas histórias, cheguei à conclusão de que isso podia se dever ao fato de que todos eles não tinham seus irmãos para lhes dar o contrabalanço necessário à constelação.

- Aspros tinha... - Dohko observou, novamente.

- Tinha e não tinha. - Rebateu Shion. - Porque, como você mesmo disse, Defteros foi muito maltratado aqui, e além disso lhe foi negado o acesso ao treinamento para receber a armadura... E Aspros, antes de ficar louco, alegava que queria o posto de Grande Mestre para dar ao irmão um destino melhor. E foi muito bom que Defteros tenha encontrado seus meios para treinar e se fazer digno da armadura, porque ele foi fundamental para a vitória que obtivemos naquela batalha e para curar a loucura do irmão...

Shion deu uma pausa para respirar, enquanto Saori e Dohko mantinham seus olhos cravados em si.

- ...E, bem, quando eu assumi o posto de Grande Mestre e passei a estudar a Ordem, me pareceu imperativo que eu deveria impedir que o cavaleiro de Gêmeos fosse acometido novamente pelo seu habitual surto de loucura, e também treinar o segundo irmão para que ele pudesse lutar em nome da Deusa, caso necessário. Mas era fato que manter dois cavaleiros de Gêmeos dentro do Santuário poderia ser bastante problemático, já que um deles apenas seria o candidato à armadura, fora toda a questão da lenda do Gêmeo Maldito aqui. A solução que eu encontrei, então, foi manter Saga dentro do Santuário como aspirante oficial à armadura de Gêmeos, e Kanon foi mandado para um refúgio na ilha de Patroklou, próximo do Cabo Sounion, e lá sua existência ficaria em segredo para o Santuário e o restante da Ordem, mas ele poderia viver uma vida mais ou menos normal.

- Foi uma boa solução... - Saori ponderou.

- Na época, me pareceu perfeita. E eu também tentei muito fazer com que, apesar da distância, os dois irmãos convivessem e mantivessem seus laços, mas... Não dava muito certo. Kanon era muito rebelde e indisciplinado, apesar de responder ao treinamento muito bem. Mas tinha um verdadeiro fraco por problemas e só fazia o que queria. E se dava terrivelmente mal com Saga. Bom, acho que não preciso dizer que não deu muito certo...

- Mas não deu errado, também... - A Deusa tentou tranquilizar o Grande Mestre. - Porque apesar de tudo, Kanon terminou se redimindo, e Saga está livre da influência de seu lado maléfico. Todos os dois foram fundamentais na vitória contra Hades. E estão tendo uma chance de se conhecerem melhor, e aprenderem a se gostar...

- E isso não está dando muito certo, de novo. - Shion admitiu.- Eles já estavam em pé de guerra antes. Deve piorar ainda mais agora, com essa situação. Eu não sei como resolver isso.

Seguiu-se um momento de silêncio no salão, cortado depois de um tempo pela voz de Dohko.

- Mas e então, vamos ou não vamos chamar o Julian aqui?

- Eu disse a ele que Kanon ainda não tinha chegado da sua missão. - Respondeu Saori. - Acho melhor esperarmos um pouco, até para que eu não passe por mentirosa. Mas... Eu posso ligar para ele de novo, e tentar ver o que ele quer com o Kanon, meio como quem não quer nada.

- Acha que vai funcionar? - Shion perguntou.

- Não custa tentar... - Saori ficou pensativa. - Bom, eu também não preciso ligar, tipo assim, agooora. Mais tarde eu ligo. Enquanto isso a gente ganha tempo.

OOO

Área afastada de treinamentos, nas proximidades das doze casas, início da tarde.

- Muito bem, Saga. Vamos começar pela teoria, certo? Só pra te lembrar, o Triângulo Dourado é um pouco mais difícil do que a Outra Dimensão, porque na Outra Dimensão você abre um portal para uma dimensão aleatória, enquanto que aqui a localização do destino é a alma do negócio...

Saga escutava o ex-rapaz discorrer sobre a técnica que ele teria de executar. Não que estivesse particularmente animado, mas se isso fosse preciso para convencer o irmão a rever o esquema de divisão de despesas da Casa de Gêmeos... Estava valendo.

- ...Está me ouvindo, Saga? - O ex-rapaz estalou os dedos próximo ao rosto do irmão, que estava um tanto distraído.

- Claro.

- Sério? Então o que eu acabei de dizer?

- Você estava dizendo que a sua técnica é mais difícil do que a Outra Dimensão porque ela destina a um lugar específico e não aleatório.- Saga suspirou, entediado. - Até aí, nada de mais.

- Então, se é uma coisa tão à toa, por que você nunca fez algo parecido?

- Eu nunca me importei muito para onde estava mandando as vítimas da Outra Dimensão...

- Ok. Então, tenta abrir um portal para o Triângulo das Bermudas.

Saga franziu a testa, vendo que, agora que era impelido a abrir o tal portal, a coisa não era tão fácil quanto na teoria. Mas, enfim, tentou fazer o que achava que funcionaria: Se concentrou no Triângulo das Bermudas, se concentrou em abrir o portal e...

...O portal que se abriu NÃO ia dar no Triângulo das Bermudas.

- Mas... O que deu errado? - Saga estava confuso.

- O que deu errado foi você querendo fazer as coisas de má vontade! - Resmungou Kanon. - Você não estava prestando atenção no que eu estava falando!

- Eu estava! Eu fiz do jeito que você falou. E eu não tenho culpa se você não sabe ensinar.

- Então seu problema é que você é muito burro pra fazer uma coisa tão simples e...

- AHÁ! - Os dois gêmeos ficaram paralisados pela voz inconfundível (e levemente anasalada) de Shaka de Virgem, que apareceu por ali sabem os deuses como.

- Ah, não... - Kanon suspirou longamente.

- Shaka? O que você está fazendo aqui?

- Então agora essa... Messalina está jogando suas teias de sedução sobre você, Saga? - Shaka, de olhos abertos e com um ar meio obsessivo, aproximou-se do mais velho dos gêmeos e do ex-rapaz. - Depois de se refestelar nos pecados da carne com Kanon, depois de tentar baixamente me seduzir ao lamaçal da concupiscência, agora essa moça de vida fácil está tentando seduzir você?

- Shaka... - Kanon tinha um tom meio cansado na voz. - Sem ofender, tá legal?

- Essa... Aliás, que roupas são essas? Uniforme de amazona? - Shaka imediatamente reparou nas roupas que o ex-rapaz usava, que era as roupas de amazona que vestira no dia anterior - Não venha me dizer que você é uma amazona! Seria o cúmulo, o cúmulo da perdição desse Santuário! A propósito, não tinha um uniforme mais composto não? Isso lá é jeito de uma amazona sair para treinar? Esses protetores peitorais estão escandalosamente pequenos!

- Isso é um elogio dele para dizer que meus peitos tão bonitos nessa roupa aqui? - O ex-rapaz perguntou ao irmão.

- Mas olha... Eu nem ia falar nada, mas ele bem que tem razão. Tá... Chamando a atenção, isso aí.

- 'Et tu, Brute' (2)? - A agora moça assumiu um ar incrédulo. - Já não me basta o Máscara da Morte e o Aiolos, eu agora vou ter que aguentar você com isso também?

- Ooooh, não vá me dizer que você seduziu também Máscara da Morte e Aiolos! - Shaka estava horrorizado. - Bem, Máscara da Morte é um caso perdido, mas Aiolos... Ele é um menino! Um santo puro e devoto à Ordem e à Causa! Como você pôde ser tão baixa?...

Saga e Kanon olharam incrédulos para o cavaleiro de Virgem, que continuava escandalizado.

- ...Que absurdo! Que despautério!

- Shaaaka... - Kanon saiu de perto do irmão, que arregalou os dois olhos, e foi em direção ao indiano andando languidamente, brincando de maneira sensual com as amarras dos protetores peitorais (que, verdade seja dita, mais parecia um espartilho) - Mas você sabe que, no fundo, no fundo... Sempre foi você que eu queria, não sabe?

- O-o-o que vo-vo-você está f-fazendo? - Shaka deu alguns passos para trás, corando até as orelhas; enquanto Saga via tudo aquilo, mais incrédulo do que nunca.

- Ai, Shaka, não me maltrata assim não, vai... - A agora moça ronronava com a voz rouca, ainda avançando lentamente na direção do indiano vermelhíssimo que se esquivava.

- CHEGA, KANON! - Saga rugiu, interrompendo os dois. - Pare de fazer isso com o Shaka AGORA!

- Q-que K-K-Kanon, Saga? - O indiano ofegava, enquanto a moça imediatamente parou seus avanços para soltar um bufido em direção do outro.

- Saga, Saga... Sempre estragando a brincadeira... - A agora moça soltou outro suspiro, e olhou de novo na direção do indiano, mas dessa vez sem segundas intenções. - Tá bem, Shaka, pode ficar calminho que sua 'virtude' não está em risco. Eu sou o Kanon.

- É ele sim, Shaka. - Saga completou, em vista da cara totalmente embasbacada do cavaleiro de virgem.

Shaka piscou. E piscou. E piscou de novo.

- Shaka? Oi? Fala alguma coisa... - Kanon tentava arrancar alguma reação do indiano, que seguia piscando com uma cara totalmente atordoada.

- Vocês... Vocês andaram usando alguma substância entorpecente?

- Shaka, a única substância entorpecente de que eu tenho conhecimento aqui dentro desse Santuário são esses incensos que você acende. - Kanon resmungou.

- Ei, meus incensos não... - Shaka já ia dizer algo para defender seus incensos, mas parou em seco. - Como você sabe dos meus incensos?

- Elementar, meu caro Shaka. Porque eu sou o Kanon!

- Impossível! Você é uma mulher!

- É, tem isso também. - O ex-rapaz suspirou. - Eu caí numa lagoa amaldiçoada por uma feiticeira há milênios atrás e virei uma mulher. E aparentemente, não há uma maneira conhecida de me deixar normal de novo. Embora Atena tenha me prometido que trabalharia numa solução para o meu problema...

Shaka voltou a piscar e piscar, para cravar então os olhos em Saga.

- É verdade... - Saga bufou. - Ninguém aqui tá alto ou doidão, e essa mulher aí agora é Kanon de Gêmeos. Se estiver duvidando, inspeciona o cosmo dele para ver.

- Ah... - Shaka, com os olhos azuis arregalados, se volta para a moça e faz o indicado por Saga. - Mas... Isso é inacreditável!

- É, já ouvi isso também. - Fungou o ex-rapaz.

- Mas... E aí?

- Aí... Aí que eu tava aqui me esmerando pra ensinar essa best -Ops- o Saga a executar uma das minhas técnicas. Porque, como se não bastasse, eu não posso usar meu cosmo. Ele está aí, mas eu não posso usar. Então, enquanto eu não acho um jeito de solucionar o problema, eu tenho que ir resolvendo meus assuntos.

- Falando nisso, devíamos tentar mais uma vez. pra ver se dá certo. - Saga rebatou, irritado.

- Mas você vai tentar fazer direito, dessa vez?

- Eu já disse que eu fiz direito.

- Então tá. Agora você se concentra, pensa no Triângulo das Bermudas e abre essa coisa!

E mais uma vez Saga tentou, e... O portal NÃO se abriu no Triângulo das Bermudas.

- Saga, eu sei que você nunca foi a criatura mais iluminada da terra, mas assim também já está demais! - Kanon bateu com o pé.

- Mas eu já disse que eu fiz tudo certo! - Exasperou-se o outro. - Eu não sei o que pode estar dando errado!

- Ah... A propósito... - Shaka seguia confuso, mas resolveu intervir. - Saga, por que você quer ir para o Triângulo das Bermudas? Você já esteve lá antes, ou alguma coisa assim?

- Eh? Não!

- Droga! - Kanon deu uma palmada na testa. - É isso.

- O quê? - Shaka perguntou.

- Ele não pode abrir um portal dimensional para um lugar onde ele nunca foi.

- É verdade... - Saga colocou o dedo indicador levemente dobrado no queixo. - Então... Como eu vou abrir esse portal?

- Ah... Depois a gente pensa num jeito. - O ex-rapaz suspirou. - Enquanto isso, já que você não abre o portal, Saga, não vai ter revisão de divisão de custos lá em casa.

- ...Droga.

OOO


Conseguirá o Grande Mestre, o Cavaleiro de Libra e a Deusa Atena encontrar uma solução para o problema de Kanon? Conseguirá Saga de Gêmeos executar a técnica do Triângulo Dourado e assim conseguir uma revisão da divisão das despesas da Casa de Gêmeos? Conseguirão os irmãos gêmeos superarem suas diferenças para trabalharem uma solução para esses tempos de crise? E que história é essa dos incensos de Shaka de Virgem conterem substâncias entorpecentes?

Tudo isso e muito mais nos próximos capítulos!

Stay tuned!


1 - Vide a história de Aspros e Defteros em Lost Canvas. Aspros, apesar de relacionado com Saga, era bem mais 'ativo', enquanto Defteros era bem dependente do irmão. Já Saga e Kanon são retratados pela ótica tradicional do 'anjo e demônio' e tudo. Lendo LC, essa dualidade tão exacerbada não me pareceu tão óbvia no universo de Shiori Tenshigori... É necessário salientar que Defteros não recebeu treinamento oficial, apenas viu o irmão treinar escondido. Já no mangá e no anime de StS, Saga dá a entender que Kanon recebeu treinamento para substituí-lo caso alguma coisa acontecesse.

2- "Et tu, Brute?" (Até tu, Brutus?) é uma frase em latim imortalizada por Shakespere na peça Julius Caesar para representar as últimas palavras do ditador romano. A citação é amplamente utilizado como um epítome da traição. Sim, porque é esperado que as crianças aos cuidados do Santuário da Deusa da Sabedoria tenham cultura, não?


Hello, folks!

Em primeiro lugar, desculpem pelo atraso! E aqui agora eu vou inserir as desculpas usuais para o atraso de uma fic: agenda atribulada, falta de tempo, real life demands and so on. Mas enfim, Sui Generis tarda, mas não falha!

Aí está o novo capítulo, e na verdade o outro já está bem adiantado também, porque era para ser um beeem mais enorme do que esse e eu resolvi dividi-lo em duas partes. E, como vocês podem ver, agora a história vai ganhar suas pitadinhas de drama.

Esse capítulo foi mais um interlúdio para explicar algumas coisas que eu vou deixar mais claro no decorrer da fic: como Saga e Kanon chegaram até o Santuário, como eles se comportam um com o outro, e como eles vão fazer para se aturarem e ainda por cima tentarem trabalhar uma solução. Mas não pensem que eu esqueci do restante dos cavaleiros não! Eles aparecerão muito, muito, muito em breve!

Agora, respondendo às reviews que não têm conta no FFnet:

- Needy, eu ri, EU RI HORRORES COM SUA SUGESTÃO DE CROSSOVER. Gentem, como isso não passou pela minha cabeça antes? Mas está anotada a dica, você me autoriza a usar? HAHAHAHAHAHA. My my my, eu mal estou tendo tempo de fazer essa fic e a Skandalón acontecerem, e já estou pensando em um crossover. Mas enfim, curti a idéia demais. Mande mais mais mais reviews, que eu adoro!

- Ana, não pense que eu esqueci a lista dos rapazes não! É que para os rapazes eu tenho mais dificuldade de imaginar as carinhas que eles teriam na vida real, sabe? Porque aqueles cabelões e aquelas franjas não ajudam em NADA a deixarem os rapazinhos mais másculos. E, quando a coisa vai para os anos oitenta, aí as opções ficam ainda mais limitadas. Enfim, ainda assim eu imagino muito o Aiolia com a cara do Tom Welling (ator que faz o Clark Kent em Smallville). Saga e Kanon... Cara, já pensei muuito em quem encarnaria os gêmeos de Gêmeos (quem falar irmãos Nelson APANHA) mas penso que o Jensen Ackles ou o Chris Evans dariam certo (ainda assim, não é exatamente o que eu queria, tinha que ser ainda MAIS bonito! -Oi?-). Quanto ao Milo... Muita gente fala do Bon Jovi, mas eu acho ele muito 'velho'. Meu Milo teria que ter olhos azuis, um rosto bem jovial, cabelos ondulados e nariz arrebitado, o rosto poderia lembrar um pouco o do Zac Efron (embora eu o deteste). Os outros... Gente, é muito homem pra pensar ahahaah. Aceito sugestões! Ah, mas o Afrodite de Peixes tem candidatos perfeitos, como o Andre Pejic ou o Cillian Murphy (homens lindos, mas com rosto tão delicado que facilmente passam por mulheres!) Então, fica a sugestão de poll: quem seriam os dourados na vida real? E os bronzeados?

Enfim, turma, o capítulo já está enorme de novo, mas vem outro logo logo por aí!

Continua!