Vamos aos disclaimers de hábito.
Saint Seiya não me pertence. Blá, blá, blá. Essa fic não tem fins lucrativos. Blá, blá, blá.
Avisos:
- Essa fic não é yaoi. Nesse universo paralelo, todos os cavaleiros (todos!) são (ou alegam ser) héteros. E eu não vou questionar (muito). Está classificada como M por conter situações maduras.
- Por ser uma fic de tentativa de comédia, esta NÃO É uma releitura fiel do canon (embora eu, pessoalmente, duvide que isso exista dentro do fandom, uma vez que o 'canon' de StS é a colcha de retalhos que é e blábláblá... Mas isso, definitivamente, não é uma coisa para se comentar aqui, né?). Então, muita coisa foi adaptada para o melhor andamento da história. E, isto posto, eu não poderei garantir que alguns personagens ou situações não fiquem meio OOC, embora eu esteja tentado ao máximo que isso não aconteça. Mas no geral eles estão, sim, bem mais comunicativos que o costume.
- E esta fic, a partir de agora, conterá piadas politicamente incorretas e alguns cavaleiros envolvidos em situações mais politicamente incorretas ainda! Logo, alerto que algumas almas mais cândidas e puras poderão se sentir incomodadas. E, neste ponto, gostaria de salientar que as piadas e situações potencialmente ofensivas aqui descritas são fruto de obra ficcional que não reflete as opiniões pessoais da autora, ou dos personagens envolvidos. É tudo em prol da piada, ok?
Assim, estejam todos avisados.
On with the show.
No capítulo anterior...
Os cavaleiros de Atena, convocados pela secreta organização internacional conhecida como S.H.I.E.L.D, são enviados para uma missão em Mônaco onde deverão atrair e capturar o terrível e perigoso mafioso Benicio Basili, que comanda os negócios da Máfia Napolitana conhecida como Camorra. Com a ajuda dos dotes femininos de Kanon, cavaleiro de Gêmeos e general Marina de Poseidon convertido em uma curvilínea mulher pelas graças de um mergulho involuntário nas águas mágicas de uma lagoa na China, os intrépidos defensores da justiça enfim conseguem fazer contato com o alvo, para atraí-lo para uma engenhosa armadilha...
SUI GENERIS
Capítulo 16
Ou:
Teorema de Ginsberg: Você não pode vencer. Você não pode empatar. Você não pode nem mesmo abandonar o jogo.
Cassino Royale, Principado de Mônaco...
Saga de Gêmeos acompanhava o mafioso Benicio Basili com os olhos, tentando disfarçar sua apreensão enquanto via os olhos do mafioso passear pela figura da agora moça. Que, aparentemente, estava fazendo um bom trabalho em atrair o alvo, diga-se.
Mas algo dentro dele lhe dizia que algo estava errado. Fácil demais.
Não disse nada enquanto Kanon acompanhava o mafioso e o crupiê até a mesa de jogo, e saia que dali para frente não entenderia patavinas do que estava por acontecer naquela mesa. Apesar de saber sim os rudimentos de uma partida de pôquer, não tinha habilidade para sustentar um jogo de buraco, quanto mais uma mesa de pôquer daquele porte.
Bem, talvez o 'finado' Ares tivesse, mas ele decididamente não.
Enquanto isso, outra parte de seu cérebro se divertia enquanto via o irmão, agora uma mulher linda e bem-vestida, lutar para discretamente se livrar do já patente assédio do mafioso, que o guiava até a mesa de jogo pela cintura com uma mão que teimava em baixar mais em seus quadris do que o recomendável. 'La vendetta è un piatto che si mangia freddo'(1), diria Máscara da Morte, e bem que Saga lamentava não ter uma câmera fotográfica para registrar o momento.
Afastou os pensamentos jocosos, tinha uma missão a cumprir.
O crupiê aproximou-se do ex-rapaz, polidamente, para falar do seu valor de buy-in, no que foi reprimido pelo mafioso que logo se gabou:
- Ora vamos! Coloque a mocinha para jogar, que o passe dela fica por minha conta!
Kanon sentou-se na mesa, um tanto incomodado pela proximidade do mafioso ao seu lado, cuja mão-boba estava perigosamente próximo de sua coxa. Mas mandar o cidadão às favas não era uma opção.
- Ora, Basili... - Disse outro membro da mesa, um senhor de meia idade, magro e mal-encarado. - Trouxe uma patinha para jogar conosco?
- Oh sim... A jovem senhorita quer um pouquinho de diversão. Não é, benzinho?
- Ah... - Kanon fez um esforço para fazer sua melhor cara de mocinha inocente. - Eu sou Tessália.
- Muito prazer, senhorita Tessália. - O homem mal-encarado sorriu, mostrando um dente de ouro brilhante na boca. - Será realmente muito agradável contar com sua presença aqui.
Kanon reprimiu, no fundo de sua alma, a vontade de rir da cara daqueles pobres coitados na mesa. Mal sabiam eles com quem realmente estavam lidando...
- Pois bem, senhores... - Disse o crupiê, já dispondo os lugares na mesa e tomando as cartas para embaralhar. - Como vocês sabem, o valor do blind é de mil dólares, a começar pelo jogador à minha esquerda.
Saga arregalou os olhos, involuntariamente. 'Mil dólares?', pensou consigo, porque pelo pouco que sabia todos ali teriam que apostar mil dólares, para começar. Mas Kanon não parecia dar mostras de preocupação. Internamente, deu de ombros, já que aquele, como o irmão dissera, era um problema da S.H.I.E.L.D.
OOO
Cassino Royale, no salão...
Camus e Shura seguiam vigiando o salão, na ala oeste do mesmo. O capricorniano, porém, já estava ficando estressado, e quando isso acontecia seu humor piorava um tanto.
- Olha, eu detesto ser pessimista e tudo, mas você há de convir comigo que essa missão aqui tem tudo pra dar errado. - Shura franziu a testa, enquanto acompanhava um Camus impassível. - Ambiente fechado, prédio de andares, cheio de civis dentro, e tudo gente rica.
- Hum-rum. - O outro cavaleiro meneou a cabeça.
- Uma bela de uma emboscada, isso sim.
- Hum.
- Eu realmente queria saber o que se passa na cabeça daquele americano imbecil de colocar a gente numa ratoeira dessas. Porque olha, só ele mesmo pra planejar uma captura num lugar que nem esse aqui. Perfeito exemplo de 'falar é fácil', porque não é ele quem tem que fazer...
- Fique tranquilo, Shura... Nós temos o time de resgate e o time de apoio para nos amparar, caso alguma coisa dê errado.
- Time de resgate que você diz é a van com o Mu, o Aldebaran, o Aiolia e o Milo dentro? - Shura franziu a testa, agastado. - Nossa, estou me sentindo bem melhor agora. Obrigado, Camus...
OOO
Enquanto isso, dentro da van...
- P*** que pariu, abre essa janela que eu vou morrer de calor aqui dentro! - Exasperava-se Aiolia. - A gente não pode nos comunicar por cosmo, não pode tirar esses macacões, não pode abrir a janela desse caixote... Falta mais alguma coisa?
- Falta, você calar a boca. - Respondeu Milo, ríspido.
- E ainda por cima ter que ficar aqui perto desse lulu estressadinho que fica o tempo todo me enchendo. Socorro! Cadê a cordinha? Eu quero descer dessa m****!
- Lulu? - Aldebaran levantou uma sobrancelha, enquanto Mu rolou os olhos.
- Ah, vai falar que você não sabe quem é o dublê de poodle do Santuário? - Aiolia deu uma risadinha, compartilhada com Aldebaran, que seguramente sabia do que o outro falava. - Bota uma coleirinha de strass no pescoço desse aí que fica o próprio.
- Até parece que alguém aqui tem moral pra me chamar de dublê de poodle. - Milo fez um muxoxo. - Especialmente os senhores aí.
- Ei, nem vem, eu nunca tive a falta de senso de cortar meu cabelo cacheado repicado e com franjinha pra ficar parecendo um lulu de madame tosado! - Aiolia imediatamente replicou. - Vai negar que você não fez isso?
- Ei, meu cabelo não é cacheado! Ele é ondulado, é diferente!
- Ondulado nada! Ondulado é o meu, o teu é cabelo ruim mesmo!
- Não é, não!
- É, sim! Cabelo ruim, pixaim, sarará!(2) - Aiolia agora esmerava-se em dar adjetivos pouco lisonjeiros ao cabelo do colega. - E não contente com essa palha seca que você chama de cabelo, você ainda foi lá e tosou ele na petshop mais próxima de Rodório pra ficar com cara de poodle-toy!
- Ah, esperem aí... Nós vamos falar de cabelo? - Milo irritou-se, dando um tapa no banco onde estava sentado. - Então tá, nós vamos falar de cabelo. Então, com que direito logo você, senhor Aiolia Cajuzinho(3) de Leão, vem falar dos meus cortes de cabelo?
- Cajuzinho?
- Sim senhor: Ca-ju-zi-nho.
- Que m**** é essa, Milo?
- É o quê? Vai negar agora que pintava o cabelo de Acaju?
Aldebaran não conseguiu conter uma gargalhada.
- Ai minha infinita paciência... - Mu resmungou, afastando as madeixas lisas enquanto massageava as têmporas. - Gente, vamos mudar de assunto, por favor?
Mas foi solenemente ignorado pelos dois colegas em contenda.
- Epa, epa, epa! Eu não pintava meu cabelo de Acaju não! - Aiolia protestou. - A cor que eu usava era castanho médio!
- Deixa de mentira, gatinha!
- É verdade! - O outro exaltou-se.
- E como uma tintura castanho-médio ficava vermelhinha daquele jeito, hein? - Milo sorriu de lado, desafiador. - Deixa de conversa fiada que você pintava os cabelinhos de acaju. A-CA-JU!
- Mentira!
- Aiolia, eu vi a caixa! Tava escrito lá: Imédia Excellence de L'Oreál Paris, cor ACAJU!
- Foi a tonta da Lithos que comprou errado!
- E mais tonto foi você que NÃO VIU que era outra cor de tintura! Aí depois quer ter moral pra falar dos outros, tinha muita graça mesmo! Vai falar o quê agora, que o acaju ressaltava a cor dos seus olhos, gatinha?
- Ora, pois ainda assim fiquei melhor do que você ficou com aquele cabelo horroroso!
- E isso você diz se baseando em que espelho, mesmo? Porque que eu me lembre, aquele cabelo cor de chico foi a coisa mais ridícula que eu já vi na minha vida!
- Olha, pessoal... - Um já preocupado Aldebaran agora tentava contornar os ânimos. - Acho que era melhor vocês deixarem isso pra lá, hein...
- E cala a boca você também, Touro, que você com aquele cabelão oxigenado não ficava atrás! - Soltou um Milo já possesso.
- Ui, socorro, o bichinho vai apelar, que medo! - Aiolia disse, irônico. - Apelão!
- Falou o que nunca apelou no Santuário, nossa! - Milo devolveu. - Mas é muito cínico mesmo e...
- CHEEEEGAAAA! - Mu, logo ele, finalmente perdeu as estribeiras. - Calem essas malditas bocas de vocês ou eu JURO que vou teleportar vocês para a P*** QUE OS PARIU! EU NÃO AGUENTO MAIS VOCÊS BRIGANDO COMIGO NO MEIO, CACETE!
Um sepulcral silêncio se instaurou na van, e três pares de olhos estavam agora cravados no lemuriano.
- Tão olhando o quê? - Mu perguntou, ainda um tanto alterado, já um tempo depois de ter a van imersa em silêncio com os olhares dos amigos em cima de si.
- ...Nossa, Mu, como você tá estressado, hein? - Aiolia começou a resmungar. - Desse jeito você vai é ficar velho cedo, sabia? E não vai ter longevidade lemuriana que dê jeito. Eu, hein?
- ...Fora o exemplo que fica dando pro Kiki quando dá esses pitis cheio de palavrão no meio. Pelo amor dos deuses! - Completou Milo. - E eu que pensava que o pessoal lá do Tibete era zen... Engano meu, né! Tá precisando meditar com o Shaka, viu?
Aldebaran, ao ver a expressão agora desconsolada do defensor da Casa de Áries, rolou os olhos.
OOO
Enquanto isso, Afrodite e Máscara da Morte seguiam ao longe, na ala leste, observando o movimento na mesa de jogo onde Kanon se instalava, enquanto Saga o vigiava mais de perto.
- E aí, tem algum capanga do poderoso chefão a postos? - Máscara da Morte disse ao outro, discretamente.
- Vários. - Respondeu um Afrodite compenetrado. - Não é pra dar uma de Shura nem nada, mas isso aqui tem todo o potencial de dar bode.
- Esse povo da CIA é tudo um bando de maricona mesmo. Porque na hora de ter uma missão que a m**** pode feder, aí correm pra botar a gente pra dançar. - O italiano resmungou. - Mas pelo menos tem umas gatas pra gente ficar olhando.
- Olha, até agora não achei nada que valesse a pena.
- Nossa, novidade! - Máscara da Morte fez um muxoxo. - Por quê? Dessa vez elas têm o dedo mindinho do pé torto?
Afrodite rolou os olhos.
- Vem cá, vamos parar de encher meu saco pra prestar atenção no que a gente tem pra fazer? Até porque eu tô a fim de que isso tudo acabe logo sem grandes acontecimentos.
- Ué, mas eu que achava que você até que curtia uma emoção a mais...
- Eu curto, mas é que eu realmente não estou a fim de estragar essa roupa. Porque nem a pau que eu devolvo esse smoking. Não mesmo.
- Ave, Rudy... É muita questão de ficar com essa fantasia de pinguim. Porque eu tô doido por ação. E a roupa que se lixe.
Afrodite, porém, fez ouvidos moucos para a última declaração do italiano; e se pôs a andar no salão enquanto era seguido pelo outro.
Porém, no meio do caminho, seus olhos foram atraídos por uma figura no salão.
Uma figura alta, de cabelos loiros platinados perfeitamente penteados, rosto anguloso mas simétrico, olhos esverdeados, maquiagem perfeita e um vestido decotado e de fenda nas pernas mais caro ainda do que usava o ex-rapaz; arrematado com um casaco de peles que deve ter custado a vida de algumas (muitas) martas e chinchilas. Isso sem falar nas joias de tirar o fôlego.
E eis que o cavaleiro sueco conhecido por sua beleza se viu em uma situação raríssima: ficar de queixo caído pela beleza de outro alguém.
- Ei, Rudy, que é que tá pegando?
- Olha aquela mulher ali! - Afrodite apontou discretamente para a figura no salão.
- Que é que tem?
- É linda!
Máscara da Morte reparou então com mais atenção à mulher que o colega apontava, já que não era todo dia que ele achava uma mulher linda. Aliás, isso era raro o suficiente para se estranhar.
- Ah... - Máscara franziu um pouco a testa. - Meio altona, né? Não sabia que 'cê era chegado numa loirona pernuda.
- Olha o par de pernas que ela tem! Como que eu não ia ser chegado numa maravilha dessas?
- Mas é bonita mesmo... Mas sei não, tem alguma coisa esquisita...
- Esquisito é você, que não tá acostumado a pegar mulher bonita de verdade, fica só pegando essas barangas horrorosas que você pega.
- Rudy, vai por mim... Eu sei que esse negócio de sexto sentido é coisa de boiola, mas eu tenho um desses aí que é especial pra mulher-armadilha...
- Olha, se não é pra ajudar não atrapalha, certo? - Afrodite respondeu ao colega, ríspido. - Eu vou lá tentar uma aproximação.
- Epa, mas nós não 'tamos em missão?
- Eu só vou lá saber o nome da moça, oras! - O sueco completou, já se afastando enquanto o italiano resmungava alguns impropérios impublicáveis.
Ainda assim, o guardião da quarta casa mantinha os olhos no colega, que conseguiu entabular uma rápida conversa com a tal loira pernuda, e que parecia bastante animada.
"E não é que o filho da mãe tá lá cantando a pernuda?" - Pensava Máscara da Morte, retorcendo os lábios enquanto o colega parecia ter sucesso em sua aproximação. - "Depois eu que levo a fama de sumir pra catar mulher."
Aproximação essa, aliás, que não passou desapercebida pelos outros dois cavaleiros no salão.
Shura soltou um suspiro desolado.
- Mas é o cúmulo, viu? - Shura impacientou-se. - Agora olha lá o Afrodite de conversinha com a loirona.
- Hum? - Camus olhou atentamente para o vizinho de casa zodiacal, que seguia conversando animadamente com a dama. - E de onde saiu essa moça?
- Eu sei lá onde ele se arrumou essa pernuda aí. - O outro resmungou. - Nem pra se concentrar na missão aquele tonto serve. Olha lá a situação, sério. Tudo bem que é bonitona, mas precisava ser logo agora?
- Hum... - O francês levantou um sobrolho, mas terminou por dar de ombros. - É bonita sim, mas... Não acharia que ela passasse pelo 'padrão Afrodite de qualidade'...
OOO
Enquanto isso, Kanon tomava posição enquanto o crupiê terminava os preparativos. Em suas tentativas de fugir do já ostensivo assédio do mafioso Basili, ele viu Afrodite interagindo com uma mulher loira e até mais alta do que ele; mas deu de ombros, embora Saga continuasse a observar a cena com cara de pouquíssimos amigos.
Bem que ele devia atazanar o irmão para que ele desamarrasse a cara e deixasse o sueco se divertir com o que ele, em outros tempos, definiria como 'cabritona'; mas naquele exato momento ele estava bastante ocupado em se manter ao largo das tentativas agora explícitas de bolinação do italiano ao seu lado.
Ah, os sacrifícios que ele estava fazendo por essa missão. E depois dessa ainda tinha gente com coragem para dizer que ele não tinha postura adequada para ser um cavaleiro...
Então, o crupiê sinalizou que começaria a distribuir as cartas. "Salvo pelo gongo", pensou o ex-rapaz, enquanto o mafioso recebia as cartas assim como ele agora fazia. Percebeu então sobre si o olhar atento de Saga, que entendeu que o jogo iria começar, e sorriu de si para si ao ver a cara que o irmão fez ao vê-lo colocar na mesa o valor do pingo, junto com os outros jogadores.
Recebeu sua mão, que, rigorosamente, não tinha coisa alguma. Mas bem, era o começo do jogo, podia administrá-lo com tranquilidade. Ainda mais com o fato de que, bem, não era seu dinheiro indo para aquele monte.
Ao mesmo tempo, Saga seguia de olhos pregados no irmão, que realmente convencia muito bem como uma mocinha despreocupada numa mesa de endinheirados apostadores. Ele mesmo, não sabendo a verdade, a tomaria como uma linda riquinha qualquer se divertindo naquela mesa. E, bem, a ideia era exatamente essa: não seria necessário ganhar a partida; tudo que Kanon deveria fornecer ali era uma distração para que ele conseguisse atrair o tal mafioso até a emboscada que eles armaram. E, enquanto o ex-rapaz seguia jogando na mesa, Nick Fury seguia falando em sua orelha direita; embora desgraçadamente Saga não pudesse responder sem dar bandeira, já que estava sozinho...
A não ser, claro, que quisesse ser tomado como doido. E ser tomado como o doido que ouve vozes, fala sozinho ou tem 'dupla personalidade' era algo que ele evitava mais do que diabo fugia da cruz.
OOO
Mais adiante, um sorridente Afrodite de Peixes retorna ao posto que ocupava antes, com a loira e alta dama acenando charmosamente ao fundo.
- E aí, faturou a grandona?
- Para tua inveja, carcamano, a grandona é uma fina herdeira alemã que atende por Kathleen Bismarck. Linda e rica, iguaria que você não está acostumado. - O sueco respondeu. - E já já ela vai estar bonitinha nos meus braços pra descobrir o que é que o loiro aqui tem.
- Rapaz, sei não. - Máscara da Morte torceu os lábios. - Tem alguma coisa me dizendo que essa moça aí é encrenca.
- Encrenca é o teu senso estético inexistente na hora de escolher suas parceiras.
- Sei... - Máscara da Morte soltou um muxoxo. - Ainda por cima usa um casaco de pele!
- Que é que tem? Um casaco daqueles é coisa finíssima!
- Vem cá, florzinha, 'cê tem ideia de quantos "bichinhos indefesos" morreram pra fazer aquela porcaria lá? - Colocou o italiano, fazendo com os dedos um sinal de 'aspas' no momento em que se referiu aos animais.
- Hein? - Afrodite não pôde reprimir um riso seco. - E desde quando você liga pro que é feito de bichinhos indefesos? Logo você, o cara que pendurava rostos de gente morta na parede?
- Tá, eu não ligo; mas não era por isso que todo mundo me crucificava naquele Santuário? 'Nossa, que horror, ele pendura máscaras de gente morta na parede!', não era o que todo mundo falava? Pois pior é essa aí, que usa os restos dos bichos pendurados no corpo!
- Máscara... - Afrodite não sabia se ria mais ou ficava incrédulo. - Mas é um pouco... Diferente, não acha?
- Onde? Eu não tô vendo diferença nenhuma. Aliás, tem sim: Nem foi ela que matou os bichos, no meu caso eu pelo menos tive a decência de matar todas as minhas 'vítimas' eu mesmo! Eu não me aproveitei do árduo trabalho dos outros desse jeito.
Afrodite rolou os olhos.
OOO
Kanon olhava para suas cartas, mantendo o rosto despreocupado embora sua mente trabalhasse a todo vapor durante o jogo ainda de poucas rodadas, mas que se mostrava violento como poucos em que já participara.
Pudera, seus habituais 'patos', ou seja, parceiros de jogo que se aventuravam a jogar com ele; tinham bem menos posses do que os presentes ali.
Benicio Basili também adotava uma postura tranquila na mesa, o que lhe dizia que ele não era o mau jogador que ele pensara que ele fosse. Apesar da arrogância e das óbvias tentativas de lhe impressionar (e das ocasionais mãos bobas que ele esquivava já com certa dificuldade). Mas era experiente, sem dúvida, e ainda tinha um revés adicional: era difícil de se ler em suas expressões e cacoetes. Num jogo onde ele estivesse empenhado em ganhar, certamente daria trabalho.
O magro mal-encarado que o 'saudou' no início, porém, era quase um profissional. Tinha uma expressão facial sisuda até quando sorria, e uma ótima leitura de jogo. Mas Kanon logo identificou seu cacoete: quando recebia uma boa mão ele sorria tão discretamente quanto o costume nas mãos ruins, mas mostrava o dente de ouro.
O outro jogador, um senhor calvo e magro que também fedia a dinheiro, era inicialmente o mais agressivo nas jogadas e o que mais vinha fazendo raises para aumentar os valores de aposta; mas isso mesmo o levou a perder já um bom dinheiro no monte. Dali, ele seria o primeiro a cair fora.
E ele fazia jus a seu disfarce de mocinha airada na mesa, mantendo um perfil discreto e sem grandes surpresas. Mas estava sendo divertido ver os três jogadores se alternarem e o montinho de fichas crescer no centro da mesa.
Bem que ele sabia que não seria necessário ganhar o jogo, porque não era; mas ver todas aquelas fichinhas se acumulando no monte lhe dava uma certa 'fissura' que ele adorava sentir desde o começo de sua adolescência na ilha, onde aprendera a jogar pôquer por influência dos marinheiros e vagabundos com quem tinha amizade... Apesar da reprovação veemente de Shion, devido ao fato de que sua existência deveria ser um 'segredo'; e para o desespero de Saga, que se empenhava o quanto podia para fazer valer os desígnios do Grande Mestre como o bom cachorrinho do Santuário que ele era. E, como era de se esperar, quanto mais Shion e Saga tentavam evitar que ele seguisse se misturando com a 'ralé' da ilha, mais ele mergulhava no ambiente que eles tanto se esmeravam em reprovar, claro.
E ele gostava do jogo porque ele era bom nisso. Muito bom. Afora seu raciocínio analítico que o fazia bom em matemática, ele também sempre soube 'ler' as pessoas com perfeição; e isso melhorou muito com o treinamento em artes marciais que recebeu na ilha e no Santuário, através dos mestres que instruíram a ele e a Saga. Então, para si era muito fácil entender as entrelinhas de rostos, expressões faciais, gestos e posturas de uma mesa de jogo.
E, ali, ele tinha uma vantagem adicional: Ninguém naquela mesa, nem mesmo Benicio Basili, lhe colocava um tantinho de fé que fosse.
Todos receberam suas cartas, e Kanon deu um relance nos seus parceiros.
- Mesa - Disse ele sem quase nem sentir, vendo os outros dois jogadores olharem fixamente para si.
O magrelo mal-encarado não ficou atrás. Jogou o corpo para trás, e com um sorriso de canto também igualou a aposta inicial. E Benicio Basili olhou para a agora moça com um sorriso de orelha a orelha.
- Mia bella está entrando no ritmo do jogo! - Ele riu. - Mesa.
- Bem... - O senhor calvo e magro remexeu-se na cadeira, mal conseguindo conter sua satisfação. - Hora de aumentar a emoção do jogo, não?
E empurrou um montinho de fichas no monte, que em dinheiro equivalia a uma pequena fortuna.
Kanon sentiu seus 'adentros' coçarem. Pelo que acompanhava do jogo, sabia que o calvo devia ter uma boa mão; mas tinha a tendência de ser extremamente otimista em suas avaliações. Já ele, nesse momento, segurava uma quadra; mão relativamente rara em um jogo em que não havia coringas.
O senhor calvo estava visivelmente agitado aos olhos treinados da agora moça.
- Espere, vou aumentar a minha aposta. - Kanon disse mais uma vez sem pensar enquanto empurrava mais fichinhas no pote, porque seu interior lhe gritava que aquele pote era dele.
Todos olharam para si, e ela mais uma vez deu um sorriso doce na mesa. Mas algo lhe falava (e devia ser sua consciência, de novo) que se ele seguisse jogando assim acabaria colocando a perder o disfarce que estava montando.
Mas, bem, não é como se ele fosse famoso por ouvir o que sua consciência tinha a dizer.
E, era verdade, seu raise tinha acabado de colocar muitos ali em uma situação delicada. Ou eles desistiam daquele jogo e minimizavam as perdas, ou pagavam para ver. E ninguém dava mostras de que recuaria.
- Então podemos mostrar as cartas, senhores? - A voz do crupiê chamou todos à realidade.
Todos baixaram os jogos na mesa; tendo até então o calvo o melhor jogo com um full-house, Basili uma trinca e o mal-encarado dois pares. E Kanon reprimiu com dificuldade o sorriso que teimava em brotar em seu rosto quando baixou sua quadra, a jogada que lhe daria o pote.
- Olha, Saga, eu ganhei! - Puxou as fichinhas coloridas para si, fingindo uma falsa surpresa por ter ganho o pote. Saga, porém, mal disfarçava a dureza em seus olhos, posto que já percebia que o irmão estava se empolgando no jogo.
O senhor calvo bufou sob o olhar do crupiê, já que para fazer aquela aposta ele acabara com suas fichas. Assim, precisava de algo que o avalizasse para continuar no jogo, ou teria que sair. Tirou do bolso uma chave e colocou no centro da mesa, sob o olhar arguto e divertido dos outros jogadores.
Saga engoliu em seco. O homem já tinha perdido dinheiro o suficiente para garantir uns bons dois anos de despreocupadas idas suas ao Harém, com direito a noitadas de rei; mas agora ele levava a coisa para outro nível.
Sentiu um buraco em seu estômago ao olhar a chave que ele colocava no centro da mesa, e a apreensão apenas cresceu geometricamente ao ver as pupilas dos olhos do seu irmão literalmente se dilatarem ao ver o objeto tilintando em direção ao centro do pote.
Uma chave de uma Ferrari. Uma Ferrari Testarossa legítima, dava para ver pelo formato da chave e do chaveiro de cavalinho.
Kanon passou discretamente a língua nos lábios; num cacoete que passara desapercebido por todos naquela mesa, mas a seu irmão gêmeo jamais passaria.
"Agora a p**** ficou séria..." - Pensou Saga enquanto soltava o suspiro mais apreensivo de sua nova vida até então.
E os olhos da agora moça permaneciam fixos na chave no pote.
OOO
Conseguirá Kanon resistir à tentação e não partir com tudo para cima do pote cujo prêmio é uma Ferrari Testarrossa legítima? Conseguirá Saga, além das suas responsabilidades na missão, também cumprir seu papel de bom irmão e proteger a agora moça das bobas mãos do criminoso Benicio Basili? Conseguirá Afrodite ter sucesso com a rica herdeira de pernas longilíneas, ou Máscara da Morte tem razão quando afirma que isso é uma cilada? E, por fim, reinará então a paz dentro da van que abriga nosso intrépido time de resgate?
Tudo isso e muito mais nos próximos capítulos!
Stay tuned...
Notas de rodapé e Google translator:
1 - 'A vingança é um prato que se come frio': um popular ditado italiano.
2 - Antes que me acusem de discriminação ao cabelo cacheado (hahahahaha), lhes informo que a pessoa que vos escreve tem cabelo BEM mais cacheado do que o do Milo! E NÃO faz escova progressiva! HÁ!
3 - Referência ao episódio G, onde Aiolia se diverte com uma caixa de tintura vermelha para cabelos e, na colorização, fica com os mesmos na cor... mogno, pra ser delicada. No popular: a-ca-ju, cor bastante utilizada por senhoras de idade para cobrir os brancos. E senhores também; e por onde são chamados, em algumas regiões deste meu Brasil Varonil, de 'cajuzinhos'. Especialmente os homens; e dentre estes, os com pouco cabelo na cabeça ou os já anteriormente grisalhos demais para que uma coloração passe desapercebida (o mais popular ainda 'engolir um urubu').
Olá todo mundo!
Pois bem, enquanto todos estão balançando o saco de confete e serpentina, metendo o dedo nas cordas do violão, caindo de língua no sorvete de limão e está todo mundo dando volta e meia no salão, eis que chega um capítulo fresquinho de Sui Generis pra vocês!
E está meio grande, não vou negar, mas espero que gostem!
A respeito das cenas de jogo de pôquer, espero realmente que tenha ficado realista, porque eu sou uma negação jogando cartas. Menos pontos pra mim! Mas espero, de coração, que tenha ficado convincente. A propósito, a jogada de Kanon é conhecida dentro do pôquer como check and raise, onde um dos jogadores que não o carteador aumenta a aposta original antes que as cartas sejam mostradas.
E o jogo ainda não acabou, hein! Calma que agora temos no pote uma Ferrari Testarossa vermelhinha, encerada e com cheirinho de nova!
E, como não podia deixar de ser, os agradecimentos mais do que especiais às fiéis reviewers que seguem essa coisa toda aqui: RavenclawWitch, Jules Heartilly, Becky Gemini, Ana, Isuzu-Behemot, Stella de Aquário e a boa filha que à casa torna Suellen-San! Beijos MIL pra essas lindas!
Agora respondendo as reviews de quem não tem conta no FFnet:
- Needy: Hehehe, mais uma vez felicíssima porque você gostou! E tenho que concordar contigo que a imagem mental de Máscara da Morte como Alcide de terno Hugo Boss mexe com meus ovários. A propósito, CURTI DEMAIS tuas reviews em Skandalón e tua review LINDA no capítulo de Sideways. Sério, me agradou muito lê-la... Beijos!
- Ana: E aí, tomara que você esteja melhor, sério! Fiquei preocupada de saber que você andou doente! E, qualquer coisa, é só entrar em contato comigo via facebook ou email. Beijos!
E, como de hábito...
...Stay tuned!
