A Dominação de Lâminas


Os olhos verdes se abriram lentamente, não havia luz do sol, e sim uma lâmpada. Sua cabeça girava, enxergava duas vezes o mesmo objeto. Talon não teria coragem de drogá-la, teria? Ele havia sido revistado por inteiro quando chegara, tanto que estava quase nu quando ela entrou no quarto. Katarina o procurou, olhava de um lado para o outro, e sua cabeça ainda pesava. O encontrou sentado do outro lado da cama, dormindo encostado no travesseiro. Levantou, andou até ele, e o observava tentando encontrar algo suspeito vindo dele. Quando ia o acordar, as pupilas castanhas abrem para a surpresa dela.

– Por quanto tempo eu dormi? – Ela falou desviando o olhar dele.

– Acho que por uma hora... – Ele bocejou e levantou os braços, despreguiçando. – Não quis te acordar.

– Pois deveria, cão. Seu domador o aguarda.

– Não fui eu quem dormiu em serviço. – Ao dizer isso, levantou-se e foi em direção à porta, abriu-a e ficou esperando a ruiva que arrumava a bainha da espada no cinto. Ele a viu passar com um ar superior, mas mesmo assim vermelha. A seguiu até que parassem em frente de uma porta de madeira, ela a abriu e o deixou entrar primeiro. Ao entrar viu o rosto impassível de seu pai, os olhos não tinham mais nenhum brilho, pareciam um lago congelado.

– Quero que nos deixe a sós. – Ouviu a voz grossa falando consigo, abriu a boca em forma de protesto, mas seu pai lhe lançara um olhar reprovador, saiu pela porta bufando, e a fechando com força.

– Sinto muito pela demora, Du Couteau. – Talon disse sentando-se em uma poltrona preta. O local era decorado com algumas espadas, inclusiva aquela banhada a ouro.

– Olhei vocês dois descansando. –O general se levantou, e ficou de costas pra Talon, observando os livros em uma prateleira atrás de si. – Servirá Noxus. Indiretamente, mas servirá, Talon.

– Estou disposto a pagar com o preço de minha derrota, Du Couteau.

– Me chame de Marcus. Não quero uma relação de subornador e subornado. Não te salvei para isso.

– Por que poupou minha vida?

– Há tempos tenho observado seu potencial, pode parecer confuso e meio doentio, mas estava aguardando sua ascensão. – O general falou enquanto virava e observava o rapaz.

– Ela que vai ser a minha escolta? – Talon apontou para a porta, e depois buscou os olhos do general.

– Pelo o que pude perceber, não mantive as informações sobre você em sigilo absoluto. Katarina te descobriu, e por mais que ela não tenha habilidades para tal ato, ela irá ver com os próprios olhos o potencial que você tem a oferecer. – O rapaz bufou e desviou o olhar. Era submisso, e tinha uma garota daquela de escolta. – Peço que tenha paciência com as atitudes vindas dela. Estamos em um conflito interno.

– Tentarei, ela tem um gênio difícil.

– Os homens que você matou... Tem o direito de ficar com aquilo que conquistou. O dinheiro, as armas, as bebidas, tudo. Quando voltarmos estará em seu quarto.

– A onde vamos? – Viu Marcus andando até a porta, se levantou e colocou o capuz roxo.

– A sede do Alto Comando, ver um velho amigo. – Dito isso, saiu pela porta, e Talon o seguiu. Deixando uma Katarina furiosa para trás.

Não trocaram nenhuma palavra durante o percurso. Seria a primeira vez que o assassino entraria dentro do Alto Comando Noxiano. Ficava em uma montanha de forma peculiar: uma caveira. Havia um palácio em seu topo, e era para lá que se dirigiam. Não era muito longe da mansão, apesar de ainda ficar no subterrâneo, a casa Du Couteau ficava em um patamar elevado da massa popular de Noxus. Enquanto passavam, o rapaz observava as ruas escuras. Nunca mais poderia matar por vontade própria, ou poderia? Sentia-se castrado. Um pássaro em uma gaiola. Em um mundo onde não lhe pertencia. Marcus Du Couteau era um homem rico, tinha tudo o que queria, quando queria. Inclusive ele, aquela habilidade de planejamento que um irresponsável como Talon jamais teria. Ele queria gritar, queria sugar o sangue de alguém, queria seu cigarro, seu álcool, sua casa e o conforto da única coisa da qual podia confiar: sua lâmina. Sua esperteza havia o traído no momento em que debruçara sobre o homem para quebrar-lhe o pescoço. Havia feito tantas idiotices nos últimos anos, quase havia sido morto diversas vezes, fugira da prisão inúmeras vezes. E agora tinha uma coleira ao redor de sua garganta, o guiando para onde ir. Guiando para um futuro glorioso para Noxus.

– Talvez amanhã você possa vir aqui para ver alguns terrenos próximos. – O general falou, tirando um Talon perdido em pensamentos.

– Como sabe disso?

– Já lhe falei. Eu sei tudo, até mesmo sobre Gauthier, e a filha.

– Foi você que o virou contra mim?

– Não virei ninguém contra você. Foi ele mesmo que decidiu isso, quando começou a dever dinheiro ao Alto Comando. – Ao dizer isso, chegaram ao portão de entrada. O general se apresentou, abriram os portões, e eles puderam prosseguir. Havia um declínio grande até a parte do palácio, mas não dava pra perceber. A paisagem que estava ao redor deles não deixava, era sem duvida, deslumbrante. Dava pra ver uma Noxus inteira dali. Entravam pela porta, e o general foi guiando-o para uma sala enorme. Havia tropas em todos os lugares, não entrava quase nenhuma luz. A escuridão predominava aquele cômodo.

– Tão confortante. – Talon soltou as palavras no ar e logo após ouviu passos mancos em direção aos dois.

– Se você se abrir para Noxus, ela lhe confortará em resposta. – O rapaz avistou um homem mancando de estatura baixa, se apoiando em um pedaço de pau.

– Jericho Swain! – O general pôs se a falar, se aproximou do homem e trocaram um abraço. – Quero que conheça Talon.

– Esse é o rapaz do qual falava, Marcus? – Swain fez um sinal para que eles o seguissem pelo corredor.

– Sim. Talon, esse é Swain, o mestre da estratégia. Pelo o que pode ver, é um velho manco. – Marcus falou enquanto ria, e o homem riu junto. Talon estava perdido em pensamentos, admirando o local. Entraram no que parecia ser um cômodo afastado. Um escritório bem confortável, revestido de prateleiras com livros. Havia dois sofás pretos no qual se dirigiam. Talon e Marcus sentaram em um, e Swain em outro. O rapaz observava a janela quando um corvo entrou por ela, via seu próprio reflexo nos olhos vermelhos do corvo, a cor sangue.

– Beatrice! – Swain estendeu o braço esquerdo e o corvo pousou em sua mão. – Aceita, Talon? – Ele colocou whisky em um copo e ofereceu ao assassino. Ele pegou e tomou em um só gole. Talon ouviu som de lâminas e viu uma adaga indo ao encontro das costas do general, rapidamente se moveu até ali, pegando-a com a mão.

– E Swain tenta me matar novamente. – Foi a vez de Marcus virar a bebida.

– Boa pegada, garoto. Mas aqui nessa sala, pode abaixar sua guarda. – O mestre sorriu, seus olhos eram iguais aos olhos do corvo, Talon olhou para adaga e suas mãos sangravam. Estava afiada.

– Escolhi bem, não escolhi, Swain?

– É, passou no teste.

Swain e Marcus continuaram conversando, cada movimento de Talo. Era captado por Beatrice, e ele bebia o que lhe davam. Via um pouco turvo, mas conseguia raciocinar. O general havia se despedido, e o rapaz fez o mesmo. Andaram até a mansão e ao contrário da ida, na volta eles conversavam sobre as armas mais fáceis de combate corpo-a-corpo. Ao chegarem, o general disse que tomaria um banho e desceria para o jantar. Talon ia para seu quarto quando Katarina bloqueou sua passagem.

– Voltaram. – A ruiva afirmou enquanto dava voltas em torno de um Talon parado. – O que Swain lhe disse?

– Por que tem tanto interesse em mim, garota? – Ele fechou os olhos e passou a mão por eles. Via duas Katarinas, ela o puxou pela camisa, e ele quase foi de encontro ao chão. Percebeu que o ambiente havia escurecido e luzes foram acesas. Estava em seu quarto, viu duas mochilas em cima da cama e depois elas se tornaram uma. Havia bebido demais. – O corvo irá me observar.

– Ele lhe disse isso? – Ela o soltou antes de falar, se virou e olhava o próprio reflexo no espelho e viu as costas nuas de Talon. – Por que está tirando a blusa, idiota?

– Fiquei com calor. – O assassino a olhou, e jogou a blusa em um sofá bege que havia perto da porta.

– Só por isso começa a arrancar a roupa?

– Deve ser. – Ele abriu a mochila e começou a revirá-la, estava cheia de moedas. – Esse vermelho na sua face combina com você.

– Bastardo! Ele lhe disse isso?

– Não tem graça chamar de bastardo alguém que não tem pais. – Talon revirou a mochila novamente e encontrou uma garrafa de rum. Estava quente, mas queria beber mais. Pegou uma navalha no cinto de Katarina, abriu a garrafa e ofereceu à ruiva. – Insinuei por contra própria. O corvo me observará.

Ela ignorou a bebida, quente deveria ser horrível. Ele a virou garganta abaixo, via-se as gotas escorrendo pelo papo dele. Talon nunca teria sua liberdade, seria melhor a morte do que aquela prisão. Enquanto Marcus e Swain se falavam, Talon planejava sua morte. Ele segurou a navalha firme e cercou Katarina na parede, encostou a lâmina na garganta branca e observava aquela imensidão verde. Sua pele nua a tocava, sentia a respiração calma vinho dela. Os cabelos cor de sangue estavam um pouco bagunçados. Não conseguiria matá-la, não conseguia desviar as pupilas castanhas das verdes. Havia algum tipo de mágica que o enfeitiçava. A face branca sem nenhum arranhão, os lábios carnudos entre-abertos mostrando um pouco dos dentes brancos. Talon realmente não conseguia. O olhar dela não era superior, não era fingimento, era apenas um olhar que refletia solidão. E assim sentiu uma descarga elétrica por seu corpo, a visão ficou escura e desmaiou na cama.


Segundo cap do presentinho de hoje *u* Decido esse capítulo a minha lindja/lerda amiga Gabriela, por ter me ajudado! 33

Obrigada

Hiviann