Capítulo Três: Colheita Distrito Três
Eugene Tech (16 Anos):
"Vamos Darla, precisamos ir à Praça para a Colheita!", eu grito, como sempre faço para ter uma conversa com minha irmã. Não é que não a ame, mas é que ela simplesmente me tira dos nervos por diversos motivos: sua histeria repentina, sua paranoia diante das situações, seu medo de perder-se em qualquer lugar. Mas o que mais me irrita nela é como ela sente prazer em aparecer em casa com aquele garoto fútil, Ace Snodgrass, que diz ser seu namorado, e a pior parte é que ele tem minha idade.
Ela se demora mais um pouco em seu quarto, provavelmente se embelezando, coisa que praticamente garota nenhuma aqui no 3 faz, pois geralmente estão trancadas em laboratórios fabricando brinquedos e utensílios de alta tecnologia. Após cinco longos minutos, ela sai, usando uma trança em seus longos cachos castanhos. Ela está usando um vestido prateado, que só usa em ocasiões especiais, e seus olhos cor de violeta, estavam com pequenas pedras brilhantes em volta.
"Darla, não posso deixar de admitir que você esteja completamente deslumbrante, mas é apenas a Colheita!"
"E daí? Se esse ano eu for escolhida como tributo, não posso deixar o pessoal da Capital nem dos outros Distritos pensar que sou uma nerd que fica trancada em um laboratório ridículo."
Eu fico a encarando por alguns segundos com um olhar desdenhoso antes de sairmos em direção a Praça, onde todos olham em nossa direção, chocados, devido ao chamativo visual de Darla. Após estarmos todos "aconchegados", a acompanhante de nosso Distrito, Edna Eisenhower, começa seu tão conhecido discurso sobre os Dias Escuros e os Jogos. Após isso ela diz com sua doce e meiga voz que iremos começar o sorteio, e que "como sempre, primeiro as damas".
"Certo, agora vamos ver.", diz ela enquanto abre o pedaço de papel onde está escrito o nome do tributo feminino. "Darla Tech"
Não posso deixar de sentir um acesso de dor e perda.
Darla Tech (14 Anos):
Que perfeito! Eu bem tive a sensação de que esse ano algo de ruim iria me acontecer, mas não achei que seria algo deste nível. Aqui no 3, diferente do 1 e do 2, nós não valorizamos tantos os tributos de nosso Distrito, pois raramente um deles volta. Eu não posso tirar o glamour ao qual me submeti hoje, fiz isso apenas para me distrair um pouco, para não pensar tanto na Colheita. Mas agora que sou um tributo, e estou com este visual, não posso fazer os outros pensarem que sou fraca. Por isso subo com um olhar intimidador em meu rosto.
Eu olho de relance aos habitantes de meu distrito. A grande maioria me conhecia, mas tirando meus familiares e meu namorado, nenhum deles realmente gostava de mim, provavelmente por meu jeito mesquinho e fútil de agir. Minha tese é provada quando todos fazem um estardalhaço de palmas e urros de alegria, sem ao menos Edna pedir. Sei que não sou a pessoa mais carismática, nem a mais agradável, mas será que isso é motivo para me odiarem tanto, a ponto de desejar minha morte?
Tento me livrar deste pensamento, olhando para meu Ace, desejando que ele possa ficar bem, e que meus pais continuem dando suporte financeiro a ele, já que ele vive sozinho, desde o desaparecimento de seus pais. Após alguns segundos de minha chegada, Edna faz um comentário que me deixa tão orgulhosa quanto magoada:
"Que garota mais estilosa e linda! Deve ser um orgulho para seu Distrito.", balanço negativamente a cabeça mantendo um falso sorriso em meu rosto. "Claro que é, não ouviu a festa que todos fizeram por você?", pobre Edna, não sabe diferir as palmas da Capital das dos Distritos. "Bom, não temos muito tempo, então prossigamos. Agora, o garoto.", ela pega o papel e o abre lentamente. Eu já não estou preocupada com quem vai ser meu oponente, o que importa é qual será minha estratégia, mas nem por isso, deixarei de ouvir quem será meu oponente. Edna diz seu nome tão lentamente quanto quando abriu o papel. "Eugene Tech".
Não! Não pode ser! Eu não me importo de morrer naqueles Jogos, quase ninguém sentiria minha falta, mas meu irmão não, todos amam ele. De todos neste Distrito, ele é o único que não merece ir a esses Jogos. Diferente de mim, ele sempre tentou ajudar os outros, sempre correu riscos por uma causa. Eu, sempre fui uma Do-Contra, me fingindo ser uma das modelos da Capital. Ele não pode ir para a Arena, ele é a pessoa que eu mais preso neste mundo. Ele sempre me ajudou, em tudo. E eu nunca ao menos mexi um dedo por ele.
Apesar de estar certa em tudo sobre meu irmão, isso não o impede de subir ao palco para encarar toda a população do 3.
Eugene Tech (16 Anos):
Eu alcanço o palco em frente ao Edifício da Justiça, onde todos me encaram com um olhar de pesar. Exceto por Edna. Ela está totalmente animada. Eu olho para minha irmã, aquela com quem discuti todos os dias, aquela a quem ajudei, mesmo me contradizendo. E agora estamos aqui: no palco em frente ao Edifício da Justiça, aguardando o que nosso futuro na arena nos reserva, pois agora somos tributos na 72ª Edição dos Jogos Vorazes.
"Eu tenho certeza que vocês dois são irmãos", diz Edna descontraidamente para nós.
Eu estava prestes a dizer que não, pois não queria que a Capital nem os outros tributos pensassem que seríamos alvos fáceis, mas Darla, estragou todo o plano e disse:
"Sim, nós somos."
"Ótimo, que felicidade para o Distrito 3. Bom, agora vocês podem apertar as mãos.", Edna prossegue com seu tom de voz meigo.
Nós apertamos nossas mãos, e é estranho eu sentir uma coisa dessas, já que Darla é agora minha oponente, mas não quero ser o responsável por sua morte. Nós somos guiados ao interior do Edifício da Justiça, um local fresco e aconchegante. Depois somos colocados em salas separadas, para recebermos nossas visitas. Eu sou visitado por nossos pais; meus amigos; professores; alguns funcionários da PC-Capital, fabricante de computadores do Distrito 3; alguns comerciantes; e por fim, alguém que eu pensei que nunca iria me visitar se fosse escolhido como tributo, Ace. Ele está com um olhar assustado e ao que parece estava chorando.
"Olhe aqui, quero deixar algo bem claro: você vai proteger Darla e não vai permitir que ninguém a mate. Se for necessário, você se sacrificará por ela, mas ela tem que voltar."
Eu o analiso de cima a baixo. O garoto que me batia na escola desde pequeno está aqui, me pedindo misericórdia pela vida de minha irmã, para que eu a proteja. Tudo que penso em responder é simplesmente:
"Não se preocupe. Eu a protegerei."
"Obrigado. Sabe, eu realmente a amo, mesmo sendo mais nova. Ela me faz me sentir completo. Não quero perdê-la.", ambos ficamos em silêncio por alguns segundos quando ele diz: "Bom, boa sorte, Eugene."
"Obrigado", é tudo o que digo. Quando ele sai, percebo na enrascada em que me meti. Agora devo proteger minha irmã. Agora ela deve voltar, pois se eu voltar em seu lugar, sei que serei eu que serei morto. Apesar de que minha vitória seria mais bem vista pelo 3 do que a de minha irmã.
Darla Tech(14 Anos):
Minhas visitas foram bem rápidas: somente meus pais apareceram, para me desejar boa sorte. Minha mãe ficou chorando enquanto meu pai tentava dar algum incentivo, coisa que ele não consegue fazer muito bem. Eu me lembrei de avisa-los para manterem o suporte financeiro de Ace, minha outra única visita, que me abraçou durante todo o tempo, e por fim, disse apenas:
"Você vai vencer, eu sei disso."
Após as visitas, eu e meu irmão somos guiados a estação para embarcarmos. O trem ainda não está lá, e meu irmão resolve ter uma conversa. Ele disse calmamente, uma coisa rara entre nós dois.
"Por que você disse que éramos irmãos?"
"Eu não sei, apenas, disse.", era verdade. Estava tão aflita no momento, que apenas disse por dizer.
"Você sabe que agora estamos em uma aliança instantaneamente. Ace me fez prometer que faria você voltar.", ele está sério como nunca esteve.
"Você não precisava ter feito isso por mim. Eu não mereço vencer, e sim você."
"Tudo bem. Bom, agora que todos sabem nosso parentesco, vamos fazer o seguinte: nós ficaremos em uma aliança, mas, se ficarmos entre os seis tributos finais, nós nos separaremos, para não termos de matar um ao outro. Certo?"
"Certo.", após a conversa, Eugene fez algo que achei que nunca o veria fazer com tanta sinceridade: ele me abraçou. Mas não foi um abraço comum. Foi um abraço caloroso, recheado de amor. Após o abraço, ele diz uma frase que fica presa em meus pensamentos: "Você sabe que eu te amo, não é?"
"Sim. Só que nunca dissemos isso um ao outro."
"Então este é um ótimo momento para fazer isso enquanto temos tempo.", ele me encarou com seus olhos negros como o ébano e disse: "Eu te amo!"
Uma lágrima começa a cair de meu olho direito, quando respondo emocionada:
"Eu também te amo!"
