Capítulo Sete: Colheita Distrito Sete

Jack Load (16 Anos):

Muitos podem pensar que a Colheita é o momento menos esperado do ano, mas discordo. Sempre gostei da adrenalina de saber quem será os representantes de meu Distrito – e se um destes seria eu. O Distrito 7 sempre teve tributos fortes, a maioria deles é muito forte, já que aqui desde pequenos aprendemos a utilizar machados, facas e outras armas.

Sei que poderei render algo se for escolhido para os Jogos, e não irei perder muita coisa aqui: vivo apenas com meu pai. Desde a morte de meu irmão Joe durante os Jogos que era um ano mais velho do que eu, ele nunca fora o mesmo. Ele passa o dia trabalhando e bebendo e sempre que chega em casa, dá uma facada em seu travesseiro enquanto grita "Maldita Capital!", pela morte de Joe. Geralmente vou à Colheita sozinho, e vejo os "sortudos" irem confrontar seus destinos na Arena.

Este ano, porém, sinto que a Colheita será "bem" mais interessante. Após a morte da acompanhante do Distrito, Maii Suki, a expectativa de quem a substituirá cresceu muito aqui no 7. Mas o que uma mera jovem da Capital importa, quando dois dos nossos serão levados a um massacre? Tento em vão encontrar uma resposta decente para essa pergunta.

Ao ver que chegara a hora de ir, termino de colocar minha camiseta polo lilás e sigo em direção à Praça. No caminho, avisto uma garota estirada em um beco. Resolvo me aproximar dela, ao ver um corte profundo em seu braço esquerdo, feito provavelmente com uma faca. Ela está gemendo e parece estar lá há pouco tempo.

"V-você está bem?", sei que a pergunta é ridícula, mas não posso deixar de fazê-la. "O que aconteceu? Quem fez isso com você?"

Ela se levanta lentamente e fica ajoelhada de cara para mim. Sua voz soa doce e assustada, e seus olhos pretos contrastam com seu cabelo loiro platinado.

"Eu não sabia quem ele era, mas estava bêbado, e parecia irritado com algo, pois quando veio em atacar ele gritou 'Maldita Capital!'"

Eu fiquei instantaneamente atônito. Eu sabia que meu pai não prestava, ma nunca pensei que chegaria a este ponto. Eu fico alguns segundos refletindo, faço um curativo na garota, que disse se chamar Carter Furn, e ambos seguimos para a Praça, onde a Colheita logo começará.

Ao chegarmos, nos deparamos com uma grande multidão, escrupulosa para ver a nova acompanhante, uma alta e magra mulher, com cabelos e lábios vermelho-sangue e um escuro vestido roxo, chamada Limber Pen. Ela tem um olhar displicente e tenta não olhar para os habitantes do 7.

Após todos estarmos reunidos, ela começa o discurso com uma séria voz, diferente da de Maii. Após isso assistimos a um vídeo da Capital, que conta a história dos Jogos Vorazes.

Ela, que continua com a mesma expressão displicente, após o término do vídeo, se aproxima de uma grande esfera de vidro para pegar uma folha de papel em que está escrito o nome da garota que representará o Distrito 7 nestes Jogos.

"Carter Furn."

É ela. A pobre garota abatida é agora um tributo abatido. Não posso acreditar.

Carter Furn (13 Anos):

É realmente impressionante como coisas ruins podem acontecer rápido. Ontem eu perco minha tia Emma em um acidente; hoje, a caminho da Colheita, levo uma facada de um bêbado no braço; e agora eu sou um tributo. Minha situação não poderia ser pior.

Eu vou lentamente com a cabeça erguida, porém, com uma expressão aflita no rosto. Eu aperto o curativo que aquele garoto, Jack, fez em mim. Serei muito grata a ele, se não fosse por ele, eu poderia estar morta a uma hora dessas. Apesar de que em alguns dias eu realmente possa estar.

Não quero pensar nisso agora. Sempre acreditei que a morte deve ser encarada na hora, e não esperada. Então tentarei me focar em sobreviver, e se a morte vier, estarei pronta para ela. Limber me encara por alguns segundos, e depois retorna seus olhos para a outra esfera de vidro.

Eu tento me manter o mais tranquila o possível, e quando Limber coloca sua mão dentro do recipiente, o inesperado acontece: Jack Load, o garoto que me salvou, que doou seu tempo por mim, está gritando e correndo em direção ao palco.

"Eu me ofereço como tributo!", gritava ele, enquanto vinha em minha direção.

Todos, inclusive eu e Limber, ficamos boquiabertos mediante a situação. Claro que ele se ofereceu porque teve pena de mim e de meu braço ferido. Não sei se deve estar agradecida por sua compaixão, ou enfurecida por ele tornar tão claro aos outros que temos um vínculo, mesmo que seja mínimo.

"Certo.", diz Limber, "Diga-nos o seu nome. Rapidamente."

"Jack Load."

"Muito bem.", ela levanta nossas mãos. "Tenho o orgulho de apresentá-los os tributos do Distrito 7 para a 72ª Edição dos Jogos Vorazes."

Após a Colheita, nós somos levados ao interior do Edifício da Justiça, para a sessão de visitas.

Jack Load (16 Anos):

Não sei o que aconteceu comigo. Por que fiz isso? Voluntariar-me nunca esteve em meus planos. Mas eu não podia deixá-la ir. Ela está machucada. E por causa de meu pai. Não. Aquele monstro não é meu pai. Não tenho mais nenhum vínculo com ele. Ele é um homem morto. Ele a machucou, uma garota inocente. E agora estou atado a ela, e somos adversários. Teremos de nos matar. Não. Eu não irei matá-la. Outro terá de fazê-lo. Eu irei protegê-la, eu a devo isso, pois ele fez isso a Carter Furn.

Eu não pretendia ter visitas, mas meu colega Gold veio. Nós estudamos juntos desde o primário, ele sempre me ajudou com as tarefas.

"E aí. Como você está?", ele pergunta cordialmente, tentando não parecer abalado.

"Estou bem. Pelo menos, acho que estou."

"Hum... Então, por que você se voluntariou?"

Eu hesito um pouco, mas por fim conto-lhe o acontecido entre Carter e o homem que um dia fora meu pai, e como estou preso a ela. Gold ouve atentamente, e quando termino, peço-lhe um favor.

"Acabe com ele. Ele não merece viver. Ele causou dor a uma criança inocente e inofensiva. Prometa-me."

Ele me encara por alguns segundos, um pouco indignado, mas por fim cede.

Após sua saída, eu e Carter somos guiados a estação, para embarcarmos no trem que nos levará a Capital, a cidade tão odiada por mim, por Carter, para Gold, para todos os que não lá vivem.

Carter Furn (13 Anos):

Eu ainda não consigo compreender o motivo pelo qual Jack Load me salvou, nem mesmo com todo o tempo de visitas em que passei sozinha pensando. Ao ficarmos juntos esperando o trem, eu me acometo à pergunta.

"Jack. Por que você se voluntariou? Foi por mim?"

Sei que foi por mim, só que não tenho ideia do por que.

"Sim."

"Mas por quê? Eu te agradeço novamente pelo curativo, mas isso não é motivo de você se sacrificar por mim e..."

"Eu me voluntariei, porque o homem que te atacou é, ou pelo menos era, meu pai."

Eu fico calada por alguns segundos antes de dizer:

"Entendi. E você sente-se endividado comigo."

"Sim."

"Mas, por que você usou 'era' para referir-se a seu pai?"

Ele fala lentamente cada palavra.

"Pois meu amigo, meu único amigo, vai matá-lo."

Eu engulo em seco, embasbacada.

"Mas, não! Jack, eu sei que ele fez besteira, mas não é neces.."

"Sim! É necessário. Ele machucou você hoje. O que não garante que ele faça isso novamente. E além do mais, desde a morte de meu irmão em uma das edições, ele nunca fora o mesmo. Nunca mais fora meu pai."

Eu me calo por instantes e então faço o que mais queria desde o momento em que ele veio me ajudar. Eu o abraço calorosamente, e ele retribui, com o mesmo fervor. Após este momento, ele diz com uma voz mais cordial.

"Então, já que estamos juntos nessa, não vejo porque não formarmos uma aliança."

"Eu acho essa uma ideia perfeita."

Limber chega, e nos olha com espanto ao ver o sorriso de orelha à orelha em nossos rostos enquanto embarcamos.