Capítulo Oito: Colheita Distrito Oito

Vince Chenil (16 Anos):

Estou sentado embaixo da árvore onde um dia Victoria Bringle, minha namorada, minha amada, minha confidente, estava deitada em meu colo, enquanto eu acariciava seus longos cabelos tingidos de roxo. Mas tudo isso acabou, no dia em que seu nome foi chamado na Colheita.

Realmente, nunca me senti mais devastado em minha vida. A ideia de voluntariar-me passou em minha mente, não podia perdê-la. Mas era tarde demais, quando pensei em mover-me, o tributo masculino já estava posicionado ao seu lado. Minha única esperança era que ela ganhasse, algo um tanto difícil em aqui no 8.

Mas não podia perder as esperanças. Ela milagrosamente conseguiu uma nota 10 no treinamento, mas precisava mostrar que do que era capaz na Arena. Ela não venceu, mas chegou muito perto. Foi morta por uma Carreirista do 2, que foi a Vitoriosa. Ficou em segundo lugar, em minha opinião, a pior colocação.

Eu passo mais alguns segundos lembrando-me do rosto de Victoria, e então me levanto e sigo rumo a Praça, onde será a Colheita. Vejo algumas amigas de Victoria com camisas estilizadas com seu rosto. Elas me convidaram a aderir à homenagem; eu recusei, não queria me lembrar dela de uma forma frágil e destruída, queria lembrar-me de Victoria que eu conheci, uma menina otimista, feliz, caridosa, divertida.

Tento inutilmente me desviar desses pensamentos e lembrar que em poucos momentos descobrirei as próximas vítimas dos Carreiristas. A acompanhante do Distrito, Cher Des, já está preparada no palco em frente do Edifício da Justiça.

"Bom dia a todos!", ela diz com sua estridente voz "Bom Jogos Vorazes, e...", ela aponta o dedo para a multidão.

Nós relutamos um pouco mas por fim dizemos em um coro fúnebre: "Que a sorte esteja sempre a seu favor."

"Ótimo, bom, antes de começarmos, veremos um vídeo especial da Capital!"

O vídeo é sempre o mesmo: uma dramática história dos Dias Escuros. Após a monótona "mensagem", chega a hora. Cher se aproxima da esfera de vidro onde está o nome da garota que representará meu Distrito. É nesse momento que percebo o quanto odeio a Capital, por sua futilidade, e sua esnobação.

Ela finalmente pega um pedaço de papel branco, e lê seu nome lentamente:

"Polly Esther Jersey".

Polly Esther Jersey (17 Anos):

Então, eu sou um tributo. Não sei se isso é motivo para ficar completamente deprimida e desesperada. Posso ser de um Distrito urbano, mas como fui criada no campo, aprendi algumas técnicas de sobrevivência. Eu posso garantir que não serei uma presa fácil. Minha mãe ensinou-me desde pequena a manejar um arco e flecha.

Eu me aproximo do palco e vejo o corpo de Cher, pedindo gentilmente para me apressar. Ao chegar, tenho tempo de dar uma olhada na multidão. O que será que estão sentindo? Pena, inveja, felicidade? Quem sabe... Sempre fui uma pessoa despercebida, devido às minhas origens. Tento pensar nisso para me acalmar.

"Mas que menina mais linda para representar o Distrito 8.", diz Cher, com seu sotaque da Capital. Não posso dizer que ela está mentindo, se há uma coisa de que posso me gabar é de que herdei a beleza de minha mãe, que já foi cogitada na empresa onde trabalha, como "Beleza Anual". Deixo-me perder em um sorriso orgulhoso enquanto espero para ver qual será um dos meus vinte e três adversários na Arena.

Seria muito bom se fosse um garoto fraco, ou amedrontado, que morresse logo. Sou alguém muito patriota, não gostaria de ser responsável por um companheiro de meu Distrito.

Cher continua me elogiando e por fim, lembra-se do real motivo de estarmos perdendo tempo aqui. Ela pega rapidamente um papel e lê o nome com um tom misterioso na voz:

"Vince Chenil"

Eu já ouvi falar nesse garoto. É o que perdeu a namorada no ano passado, aquela que morreu nos Jogos. Devo admitir que ela foi uma forte competidora. Alguém do 8 chegar ao segundo lugar. Pretendo ser tão bem, ou melhor, do que ela. Ela parecia ter com uma faca a mesma habilidade que tenho com o arco.

Deve ter sido uma grande perda para ele, ela era realmente bonita. Mas, pensando que ele é meu adversário, essa perda pode ser a maneira perfeita de enfraquecê-lo. Eu posso fazê-lo sentir remorso pela garota e assim ele vai ficar tão preocupado com ela, que será um alvo fácil para os outros.

Ele sobe lentamente para o palco. Parece cabisbaixo e deprimido. Perfeito. Estado perfeito para um tributo-morto. Após sua aparição no palco, somos arrastados para o interior do Edifício da Justiça, para a sessão de visitas.

Vince Chenil (16 Anos):

Eu estou desesperado. Não posso acreditar. Sou um tributo. Já não bastava ter perdido Victoria, agora tenho a chance de ser morto. Minhas chances de vencer são quase mínimas. Mas não posso desistir. Preciso ganhar. Por Victoria.

Meus pais são os primeiros a visitar-me. Ambos estão debulhando-se em lágrimas. Esforço-me o máximo para não parecer desesperado diante da situação, mas sou futilmente falho. Eu abraço ambos e partilho de suas lágrimas.

Os outros que me visitam são meus amigos e as amigas de Victoria, todos com palavras de encorajamento. Uma das amigas de minha amada, Nyla, me disse algo que realmente mudou meu humor.

"Olha Vince, antes de a Vic ir embora, ela pediu para contar-lhe algo, mas só quando fosse a última vez que nos víssemos.", sinto um tom de urgência em sua voz. "Ela disse que sabia que iria sobreviver por um bom tempo nos Jogos, mas no fim, iria permitir que a matassem, pois não gostaria de voltar e descobrir que você viu seu lado maléfico e sanguinário."

Eu fico instantaneamente embasbacado. Quando penso em dizer algo, Magda é levada pelos Pacificadores, e eu fico na solidão. Ela se sacrificou. Sacrificou-se por mim. Agora me vejo em um dilema: ou eu venço os Jogos por Victoria e vingo sua morte, ou permito que me matem e me junto a ela.

Após o horário de visitas, eu e Polly somos levados à estação para embarcarmos.

Polly Esther Jersey (17 Anos):

Foi algo bem deprimente estar naquela sala confinada somente comigo mesma. Mas minha mãe apareceu. Ao invés de estar chorando, como imaginei, ela está com um olhar sério e vago. Ela disse com muita rapidez, que por pouco não a compreendo:

"Polly escute. Você pode vencer. Você sabe disso e eu sei disso. Não te ensinei a manejar o arco à toa. Sempre pensei na possibilidade de você ser sorteada. Procure água e suprimentos suficientes para sobreviver."

Eu a abraço calorosamente e ambas começamos a chorar. Após isso, ela é levada embora, mas antes diz a mim:

"Eu te amo, e sei que é capaz de vencer. Boa sorte."

Ao chegar a estação, o trem já está nos esperando, mas temos que esperar Cher chegar. Ambos ficamos em frente à sua grande porta metálica. Eu pensei muito, e decidi que tornar Vince Chenil um alvo é o plano brilhante para poder vencer. Assim não serei o foco.

"Então", eu digo, com um sorriso maléfico no rosto. "Você perdeu a namorada? Realmente triste. Mas pense no lado bom: em breve você se juntará dela na Terra dos Mortos."

Ele me encara, seu rosto com uma mistura de indignação e raiva, mas antes que possa dizer qualquer coisa, Cher chega e nos guia para dentro do trem, onde encontraremos nossos futuros.