Capítulo Nove: Colheita Distrito Nove
Harvie Plow (12 Anos):
Definitivamente, não há dia mais assustador do que a Colheita. Claro que até ano passado não precisava me preocupar com ela, apenas via os azarados de meu Distrito indo para a morte. Mas este ano é diferente: eu posso ser um tributo.
Não é a toa que o 9 só tem um vencedor. A maioria das crianças aqui passa a infância aprendendo diferentes tipos de grãos, coisa que é bem rara de ser encontrada na Arena. E armas? No máximo uma foice e só para os melhores, o que não é o meu caso.
Espero que se eu for escolhido – espero que não – possa ter a mesma sorte do Vitorioso daqui do 9. Seu nome é Crowie Sow, e ele venceu na 68ª Edição, com 12 anos. Sua estratégia foi simples, mas arriscada: como o Distrito 9 nunca é percebido, ele teve a brilhante ideia de usar sua "invisibilidade" ao seu favor. Então ele treinava distante dos outros.
Ao receber uma nota 7 no Treinamento – algo bem incomum para um Distrito onde a média é d – foi quando ele começou a ser observado, só que os demais tributos não sabiam suas habilidades. Durante o Banho de Sangue na Cornucópia, ele preferiu pegar uma pequena bolsa e uma pequena faca e seguir seu caminho.
Como era bom em escalar árvores, ele facilmente se escondeu em um alto espécime no meio de uma floresta. Passado três dias, 18 tributos já estavam mortos, incluindo dois Carreiristas. Então Crowie abandonou sua anonimidade e passou a "caçar" tributos.
Com sorte, ele matou dois tributos com sua pequena faca, incluindo uma Carreirista do 2. A esta altura, sobravam, com Growie, quatro tributos: a garota do 12, o garoto d garota do 7, todos com notas 9, 11 e 10, respectivamente.
O Jogo já estava perdido. Mas ele não deixaria ser morto assim tão facilmente. Após ver os tributos do 1 e do 12 se massacrando, ele foi lentamente ao encontro da garota do 7, chamada Laya, com 18 anos.
As chances de vencer eram quase zero. Mas ele não desistiu. Ele armou uma emboscada para Laya, e quando ela se aproximou de Crowie, ele liberou um mecanismo mirabolante que desencadeou uma série de movimentos que resultou em uma enorme tora de madeira, que foi liberada com a faca do garoto em um ponto muito bem selecionado, que atingiu em cheio na cabeça de Laya.
Sei que posso estar vangloriando o único Vitorioso de meu Distrito, mas é que, se realmente eu for selecionado, minhas chances de vitória podem ser bem maiores do que seriam.
Eu vou com meus pais a Praça, com uma confiança que nunca sentira em toda a minha vida. "Fique tranquilo Harvie, nada de ruim vai te acontecer.", digo mentalmente a mim mesmo.
A acompanhante do Distrito, Harriet Wheat, disse com a mesma dramaticidade de todos os anos, que os Jogos Vorazes não são uma tortura, e sim um lembrete da Revolta criada por nós, e que é culpa nossa se estamos sujeitos a isso.
Após isso ela pegou o papel onde continha o nome da garota que seria uma das vinte e quatro crianças lançadas para a morte.
"Millet Barley".
Millet Barley (17 Anos):
É algo bem difícil saber que você vai ser um tributo, principalmente no seu penúltimo ano como candidata. Eu sei que é bem raro alguém aqui do 9 vencer, mas nada é impossível. Uma coisa é importante: não posso entrar em pânico. Eu vou lentamente para o palco, tentando erguer a cabeça o máximo que posso.
Não sei qual será a sensação de estar na Arena, tudo o que importa é como ficará Sickle Barley, meu irmão, meu único companheiro. Desde que meus pais fugiram de casa, quando ainda tinha 12 anos, e Sickle 7, nossa vida nunca tem sido a mesma.
Sobrevivendo é o status que nos define. Eu vou todo dia ao campo para procurar alguma doninha para podermos durar uma semana inteira. Ao chegar ao palco, Harriet olha tristonha para mim, enquanto encaro Sickle na plateia. Ele está bem magro, mas não posso dizer que esteja desnutrido. Tento conter as lágrimas. O que ele irá fazer sem mim? Então, de repente me deparo com eles. Aqueles dois desalmados estão ali, olhando para mim com os olhos marejados. Meus pais.
Eu não sei se o ódio ou o contentamento são os sentimentos que me acometem. Claro que eles dois abandonaram a mim e ao Sickle, mas eles voltaram. E agora podem cuidar do Sickle por mim. Posso até estar feliz em parte por sua volta, mas não deixo de encará-los severamente.
Fiquei tão concentrada em meus pais que por um triz não ouço Harriet dizer o nome de um de meus oponentes.
"Harvie Plow."
Eu o vejo vindo para o palco: olhos e cabelos pretos; uma pele parda; e está usando um macacão jeans. Na realidade, ele me lembra bastante Sickle, com a diferença de que este tem uma pele pálida.
Ao chegar, Harriet pede para rapidamente apertarmos as mãos. Não posso deixar de reparar um pouco de medo em seus jovens olhos. Após isso, somos guiados para o interior do Edifício da Justiça, para recebermos nossas visitas. Tenho certeza de que cedo ou tarde irei revê-los. Meus pais.
Harvie Plow (12 Anos):
Meus pais rapidamente aparecem ao pequeno compartimento onde fui trancado, totalmente coberto por panos brancos. Ambos estão desatando em lágrimas. Eu tento manter-me o mais calmo o possível. Tento lembrar-me de quem será meu mentor: provavelmente um dos melhores – e mais jovens – Vitoriosos da história dos Jogos.
"Não se preocupem. Farei o máximo para vencer.", eles deixam minhas palavras serem absorvidas pelo ar antes de deixá-los irem embora.
Será bem difícil pensar em viver sem eles. Não posso permitir que isso aconteça. Preciso vencer. É meu dever.
Millet Barley (17 Anos):
A sensação de ver eu, Sickle e meus pais na mesma sala realmente não é boa em nenhum sentido. Fico em completa dúvida entre expulsá-los ou abraçá-los. Por fim, resolvo escutar o que queriam dizer.
"Bom", minha mãe, a mais controlada dos dois, começou. "Nós gostaríamos de começar nos desculpando por tê-los abandonado. Nós realmente não queríamos, mas não podíamos pensar em perdê-los nestes Jogos malditos! Por isso voltamos. Para protegê-los. Só que, por pura ironia, você foi sorteada."
O silêncio perdura por alguns instantes. Eu por fim o quebro.
"Bom, eu aceito seu pedido. Não quer dizer que sinta a mesma coisa que já senti por vocês, nem que irei sentir. Mas eu quero que o protejam", meu dedo indicador aponta para Sickle, que está ao meu lado. "Eu farei o máximo para vencer, mas se eu não conseguir vocês não poderão abandoná-lo. Ele não tem ninguém mais além de nós."
Eles concordam vagamente e começam a chorar. Eu tento me conter, mas quando percebo, já estamos nós quatro nos abraçando e chorando. Ao fim da visita, eu digo com a voz barganhada aos três:
"Eu amo vocês."
Após isso eu e Harvie somos levados à estação de trem onde pegaremos nosso trem para irmos à Capital. Eu percebo que ele me encara furtivamente, como se quisesse me matar agora mesmo.
"Você está bem?", eu pergunto, preocupada.
"Eu estou bem. Só vou melhorar quando atingir em cheio seu coração e os dos outros 22 e vê-los caídos no chão."
Eu penso em responder, mas Harriet chega e sou obrigada a apenas fazer uma careta para ele.
