Capítulo Doze: Colheita Distrito Doze

Blaster Merc (16 Anos):

Eu estou em meu quarto, aguardando a chegada de meu pai para me acompanhar à Colheita. Não sei o que penso sobre a Colheita: apesar de ser algo injusto e sanguinário, incentiva a sobrevivência e a coragem. Sei que para um garoto do 12, o Distrito mais pobre de Panem, deveria ter um ódio particular pelos Jogos Vorazes, mas, sinceramente, me sentiria indiferente se tivesse de ir.

Claro que não sou um Carreirista armado até os dentes do 2, mas também não sou um idiota completo. Desde pequeno assisto aos Jogos, e se há algo que aprendi, é que você não pode – nem deve – se sentir o campeão. Poucas vezes essa atitude rendeu em sobrevivência. Claro que geralmente são os Carreiristas que ganham, mas o que reparei é que na maioria das vezes são os que desfazem as alianças e sempre ficam em surdina.

Essa estratégia com certeza seria a minha. Mas só porque serei evasivo, não quer dizer que não tenha força para matar alguém. Na verdade, desde pequeno que "treino" para os Jogos, com uma espada de madeira feita por meu pai. Tá legal, eu sei que não é "o" treinamento, mas é melhor do que ir sem nenhum conhecimento, como acontece com os retardados deste Distrito, o que aumenta ainda mais o ódio que sinto pelo 12.

Fico tão absorto em meus pensamentos que nem reparo a chegada de meu pai. Ele está completamente imundo, da cabeça aos pés, após ter trabalhado nas Minas. Ele me diz que vai tomar um banho antes de irmos, e eu fico esperando.

Quando ele finalmente fica pronto, está irreconhecível: seus cabelos castanhos luminosos estão formando uma franja em sua grande testa, e seu macacão de trabalho é substituído por um agasalho, feito por minha mãe, antes de ser brutalmente assassinada em um conflito com os Pacificadores.

Quando chegamos à Praça, vou colocar meu nome na enorme lista de candidatos aos Jogos. Quando fico em minha posição na fila, a acompanhante do Distrito, Sury Ior, está à espera da chegada dos demais. Quando todos chegam, ela começa seu habitual discurso sobre a história dos Jogos Vorazes.

Após isso, ela se aproxima da esfera de vidro onde está gravado em uma pequena folha de papel prateada, o nome do tributo feminino que representará o Distrito 12 na 72ª Edição dos Jogos Vorazes. Ela permite que o tenso silêncio permaneça enquanto diz sonhadora:

"Metalla Gist"

Metalla Gist (13 Anos):

Será que é verdade? Eu realmente ouvi meu nome ser chamado? Bom, desde o que aconteceu hoje de manha, não me admira que odeie tanto minha vida. Apesar de viver no 12, sempre morei no Comércio, área menos pobre do Distrito, mas isso nunca impediu de me tratarem mal na escola. Sempre fui caçoada por meu pai ter vencido os Jogos na época em que nasci, e depois ter se submetido à loucura.

Sempre haviam me tratado mal. Mas este ano foi pior. Hoje de manhã, enquanto vinha para a Colheita, um homem, que praticava feitiçaria, parou em minha frente e começou a gritar dizendo que eu seria a escolhida para ser um tributo, e seria o sacrifício do Distrito 12, e que não passaria do primeiro dia.

Obviamente, foi o suficiente para me deixar em choque. Eu comecei a chorar compulsivamente, não sabia o que pensar. E agora que descobri que a "profecia" está correta, estou tão confusa quanto antes. Eu já estou no palco, mas como Sury está falando sobre a beleza da Capital antes de dar procedimento à Colheita, resolvo pensar sobre minhas chances de vencer.

Eu nunca tive treinamento. Se ao menos tivesse um pai para me ajudar. Minha mãe nunca poderia, já que trabalha o dia inteiro em sua lavanderia. Então, no quesito armas, com certeza sou nota zero, a não ser que aprenda a manejar alguma. Tudo bem, sem pânico. Posso não ser uma "assassina", mas não sou inútil. Desde pequena, minha mãe me ensinou como conseguir água facilmente e também a reconhecer diferentes tipos de plantas.

Certo, então minha única preocupação momentânea é aprender a lutar. Isso eu verei depois. Agora quero saber quem será um de meus oponentes. Sury não tem pressa em dizer o seu nome visto que o analisa bastante antes de dizê-lo:

"Blaster Merc."

Eu o vejo subindo ao palco, um alto garoto com pele escura e olhos esverdeados como esmeraldas. Não posso deixar de reparar em sua desenvoltura muscular. Ele com certeza será um difícil oponente. Ou talvez, seja um bom aliado. Não sei, isso terei de resolver depois.

O importante é que agora é hora da sessão de visitas. Quer dizer que verei minha mãe, talvez pela última vez.

Blaster Merc (16 Anos):

A sessão de visitas passa bem rápido para mim, visto que somente meu pai foi visitar-me. Eu achei que ele iria me ensinar táticas de como vencer os Jogos, e que eu não poderia morrer, mas tudo o que ele diz é:

"Bom, eu sei que você tem capacidade para vencer. Não vou pedir para não me desapontar, pois obstáculos podem acontecer, e você como qualquer outro pode morrer. Só vou pedir-te que se esforce ao máximo para voltar para casa."

Depois disso ele se retira, deixando-me sozinho refletindo.

Ele quer que eu vença. Ele nunca demonstrou um pingo de carinho ou importância por mim. Apesar de ser meu pai, só estava presente durante as refeições. Fora isso, ficava fora o dia inteiro. Ele demonstrar algum interesse por mim, mesmo que esteja indo para a Arena, muda completamente o que sinto por ele.

Após isso eu e Metalla somos levados à estação de trem para pegarmos o trem para a Capital.

Metalla Gist (13 Anos):

A sessão de visitas não foi nada ruim. Minha mãe ficou boa parte do tempo chorando e tentando me aconselhar o que fazer, e que deveria sobreviver. Mas o que realmente me emociona, é a presença dele, que nunca esteve presente em momento algum de minha vida: meu pai.

Eu não pude conter as lagrimas e fui abraçá-lo. Por estar traumatizado, ele não rejeitou o abraço, e aceitou-o como se conhecêssemos há anos. Mas depois, ele começou a aconselhar-me sobre diversas coisas sobre os Jogos, sobre as quais nem imaginava. Deu as dicas que provavelmente vão manter-me viva por algum tempo.

Mesmo assim, não posso deixar de considerar o pedido de aliança com Blaster. Ele pode garantir que eu viva mais.

Eu resolvo perguntar a ele, enquanto esperamos o trem, mas com muita cautela: ele me assusta um pouco.

"É, Blaster.", ele se vira e me encara com seus olhos predatórios, o que me deixa com calafrios. "Você gostaria de formar uma aliança comigo?"

Minhas palavras são absorvidas pelo silencio que se segue enquanto ele encara o vento para pensar. Quando fala, vejo como sua doce voz não se encaixa com sua aparência:

"Bom, tudo bem. Mas só ate certo ponto da competição."

"Certo.", eu digo.

É nesse momento que o trem chega e Sury Ior insiste que entremos para não atrasarmos o cronograma.