Capítulo Treze: A Viagem de Trem

Marc Gem – Distrito 1 (15 Anos):

Desde que entramos no trem para irmos à Capital, confesso que nunca me senti tão apreensivo. Manter-se no mesmo cômodo que Jewel tem sido um completo desafio, devo dizer, sabendo que logo ela se tornará um obstáculo a mais para minha sobrevivência.

Encontrar-nos com nossa mentora, Fluxie, definitivamente não tem me ajudado. Seus contínuos discursos de que mesmo nos conhecendo, não devemos ter piedade um do outro, só têm me deixado mais paranoico sobre o que fazer na Arena.

Quando estávamos chegando à "grande" Capital, eu e Jewel nos encontramos no armário de vassouras. Ficar em um compartimento apertado com ela apenas aflorou um sentimento que achei estar adormecido: minha enlouquecedora paixão por ela.

Ela quer ser breve, mas confesso que gostaria de ficar com ela naquele pequeno local para sempre. Ela começa a falar, e sinto um tom de urgência em sua voz:

"Olhe, eu sei que não podemos parecer melhores amigos, e essas coisas. Mas você não precisa ficar me evitando."

Eu tento me concentrar no que ela diz, mas sua doce voz me distrai, então respondo apenas:

"Sim."

Ela me encara, indignada, antes de pegar em meu pescoço, quando finalmente desperto:

"Escuta aqui, você pode estar achando que isso é brincadeira, mas isso aqui é sério. É vida ou morte. Agora preste atenção, nós não vamos entrar numa aliança. Se convidarem ambos de nós para os Carreiristas, um de nós vai ter de recusar. Nós não podemos ficar juntos na Arena."

Ela para de falar, me beija na bochecha dizendo "Boa noite.", e se retira do compartimento, levando consigo todas as minhas esperanças de ficarmos juntos no armário de vassouras. Uma dolorosa sensação de perda toma conta de mim. Como assim, não podemos ficar juntos na Arena? Não, agora eu sei o que sinto, já sei qual é essa sensação, a sensação de que não posso ficar sem Jewel por nenhum minuto. Já sei o nome para essa sensação: amor, um sentimento que, achei eu, nunca sentiria.

Eu saio do armário e volto para meu compartimento, desatando em lágrimas, pois sei que, não importa o que eu sinta, nunca terei Jewel para mim.

Darla Tech – Distrito 3 (14 Anos):

Sinceramente, achei que a viagem seria pior do que está sendo. Claro que Edna, nossa acompanhante, e Nigel, nosso mentor, um solteirão de meia idade – muito atraente devo dizer –, não param de discutir como temos de ser treinados, mas tirando isso, a viagem está indo bem. Eu e Eugene, aparentemente, estamos mais unidos do que nunca. Nós vamos a todos os lugares juntos e sempre conversamos sobre nossas estratégias.

Mas há algo sobre o que nós não falamos: nós nos aliaremos ou não? Essa pergunta toma conta de mim, e durante o jantar, enquanto Edna e Nigel estão discutindo, eu o chamo baixinho e pergunto:

"Eugene, estou confusa, estamos decidindo nossas estratégias, mas há algo que me intriga...", eu paro quando vejo Edna quase acerta uma faca no braço de Nigel, que revida o golpe. "Enfim, eu gostaria de saber se estamos em uma aliança."

Ele me analisa por alguns momentos, e por fim responde:

"Ué, achei que a resposta fosse óbvia."

"Quer dizer, que estamos em uma aliança?", eu olho esperançosa para seus olhos intelectuais.

"Claro que sim. Não deixarei que nada te aconteça.", ele dá um brilhante sorriso para mim e volta a se concentrar em seu prato de comida.

Eu fico mais confortável, mas de repente outro pensamento me acomete: e quando chegar a hora de nos enfrentarmos? Eu fico atormentada por esse pensamento, mas prefiro não interromper a repentina harmonia e felicidade que tomou conta do lugar. Apenas olho pela janela, esperando para o momento em que chegaremos à Capital.

Courtney Geo – Distrito 5 (12 Anos):

A viagem de trem até agora tem se desenrolado muito bem. Nosso mentor Jay, que deve ter uns vinte anos e um olhar doce e gentil, rapidamente se aproximou de mim, pelo fato de Eddy estar abatido. Nós dois passamos muito tempo juntos, discutindo sobre estratégias de sobrevivência, enquanto Eddy está se "recuperando".

Eu realmente não me importo muito com isso, ele mereceu o que fiz a ele. Pelo menos agora ele sabe que essa competição não vai ser brincadeira. Poucas vezes o vi desde que embarcamos. Geralmente ele está com Aqua, que vive provocando-o falando que deve cumprir seu cronograma.

Eu particularmente acho que ele está ganhando o que merece por ser ao arrogante e por se vangloriar. Eu mal posso esperar para ver o que acontecerá com ele na Arena. Eu sei que é muito improvável que eu sobreviva sem nenhuma morte. Mas sou pacifista, e não quero ter a sensação de sentir o sangue de alguém correndo em minhas mãos.

Bom, não posso me prender a esse pensamento. Daqui a alguns dias, estarei na Arena, e minha vida não será feita de estratégias previamente planejadas. Terei que resolver o que fazer na hora, e sofrer uma morte por antecipação não vai me ajudar a vencer.

Jay pede para encontrar-me com ele após o jantar em no fim do trem. Ao chegar lá, ele não está com seu costumeiro sorriso. Seu rosto foi convertido em uma dura e séria expressão.

"O que houve?", eu pergunto apreensiva.

"Bom, daqui a alguns dias não estaremos mais juntos. E eu percebo que, você e Eddy não se dão bem. Mas mesmo assim, você olha com algum tipo de pena dele. Por quê? Ele não é apenas mais um adversário?"

Eu penso um pouco antes de respondê-lo:

"Eu posso até não gostar dele, mas ele ainda é um ser humano como eu. E eu não me sinto no direito de tirar sua vida, assim como a de ninguém.", eu não percebo, mas meus olhos começam a lacrimejar.

"Entendo. Bom, quando era pequeno, costumava pensar como você. Mas os tempos mudarão. Querer matar ou não para você não é mais uma opção. Você tem que sobreviver, e se você quiser, terá que ver os outros vinte e três caídos."

Eu começo a chorar compulsivamente. Jay em abraça, tentando me consolar.

"Não se preocupe. Você não tem que ser a causa de suas mortes."

Eu me recupero, e me separo dele. Nós desejamos boa noite e vamos para nossos aposentos, eu com uma leve tristeza tomando conta de mim.

Jack Load – Distrito 7 (16 Anos):

Desde que embarcamos, eu e Carter não temos conversado muito. O cronograma que Limber fez não nos permite. Ficamos o dia inteiro ou com ela, ou com nossa mentora, Lydia, vencedora da última edição dos Jogos. Sua estadia nos Jogos foi bem interessante. Ela participou com 15 anos, mas demonstrava ter muitas habilidades. Ela também conseguiu quebrar o recorde de mais mortes causadas por um mesmo tributo, acabando com 11 dos 24 que estavam na Arena. É também a vitoriosa que conseguiu matar mais tributos em um combate: 6.

Até hoje estou impressionado com sua capacidade e frieza. Ela é uma mentora perfeita, e inclusive tem a minha idade. Isso me faz pensar sobre o que fazer caso vença os Jogos. Meu devaneio acaba quando Limber vem ao meu encontro para me contar algo.

"Pretendo ser rápida, então preste atenção.", ela diz, com seu tom displicente.

"Certo."

"Bom, foi nos informado que seu pai foi assassinado ontem à noite.", eu finjo-me de surpreso e chocado com a resposta, e permito que ela prossiga. "Foi realmente inesperado. Ele foi encontrado decapitado em sua sala, pendurado pelas mãos, e seu corpo estava completamente arrasado. Bom eu entendo que deve ser um choque para você, então permitirei a você um dia de folga."

Ela me dispensa, e eu vou para meu quarto. Não posso acreditar. Ele está morto. Eu sei que era isso que eu queria, mas não sei por que, estou me sentindo mal. Eu acabei de causar a morte de alguém. Fui eu quem pediu a Gold para matá-lo. Não posso deixar de sentir um leve remorso, mas ele mereceu pelo que fez à Carter.

Eu resolvo tirar um pequeno cochilo, mas acabei dormindo a noite inteira. Quando acordo, vejo o sol brilhando e o semblante dos prédios da Capital, a odiada cidade onde minha dura e sangrenta jornada começará.