Ada lutava para manter sua consciência enquanto ainda afundava na mais profunda escuridão. Tentava mover qualquer parte de seu corpo, sem sucesso., nem as pernas, nem os braços a obedeciam. Ela ainda tinha algum controle... ela ainda conseguia sentir o frio... sentir que o corpo estava imóvel sem responder aos seus comandos... os sons estavam desaparecendo, o ruido da carne sendo cortada... os gemidos do agente sessaram...

Não...

" - N..." - Fez força para falar, mas não conseguiu. Não... volte... não morra... aguenta firme, só mais um pouco... Queria gritar. " - LEON!"

" - Oi!" - O Homem que antes cochilava, deu um salto do sofá para acompanhantes e correu até o leito. A mulher tinha os olhos abertos, finalmente, e gritava o seu nome enquanto lagrimas brotavam timidamente de seus olhos verdes. " - Eu estou aqui. Eu estou aqui, meu bem." - Ele respondeu sem saber se continuava tentando acalmá-la ou se chamava uma enfermeira, enquanto acariciava os cabelos negros que nunca estiveram tão longos, molhados de suor.

" - É você..." - Disse com a voz fraca, porém tão carregada de emoção que ela mesma estranhou. Ada reconheceu que estava em um quarto de hospital, consciente outra vez, com um pouco de dor de cabeça, mas inteira. E Leon também estava bem, vivo e inteiro num só pedaço, aparentemente bem melhor do que ela. " - Nós conseguimos escapar, então... Foi você?"

Ela segurou firme em seu braço com as mãos pequenas e delicadas, tomando a sua mão maior entre as dela. " - Eu o quê, meu amor?"

Ada deixou escapar um risinho irônico... "Meu bem..." … "Meu amor..." Leon e ela nunca se trataram dessa maneira abertamente, salvo em raríssimas ocasiões. Ela concluiu que, dessa vez, se ela quase não morreu de um jeito bem trágico, é porquê ainda corria serio risco de morte. " - Que nos tirou do laboratório."

Leon que tinha o interruptor em mãos para chamar a enfermeira o largou imediatamente. Ada percebeu o quanto ele ficou tenso, bem dizer, apavorado, olhando para todos os lados como se verificasse se estava mesmo sozinho com ela. Ele chegou bem perto, e cochichou.

" - Ada, do que você está falando?"

Ela buscou forças para se sentar e então percebeu o quanto o seu corpo estava dolorido e fraco. " - Há quanto tempo eu estou aqui?"

" - Três meses." - Talvez tenha sido uma confusão mental depois de voltar do coma, graças a Deus estamos sozinhos, ela já já volta ao normal...

" - Nossa. Isso explica muita coisa, porquê você está ótimo, a ultima vez que te ví, você estava sendo estripado feito um porco..."

" - Eu?"

" - Sim. No laboratório."

Merda. " - Ada, olhe para mim." - Tomou o rosto dela entre as mãos forçando-a a encará-lo. - " - Esquece o laboratório, ok? Foi há muito tempo, muito, muito tempo. Você está aqui por que sofreu um acidente de carro... bem... nós sofremos, mas... você se machucou."

" - Como?"

" - Querida, escuta... Isso é muito importante. O laboratório, foi há quinze anos em Raccoon, nós fugimos. Agora, ou melhor há três meses, nós sofremos um acidente, eu dirigia e você bateu a cabeça. Por favor pare de falar em laboratório... é segredo, é muito importante que você não fale."

Ok. Mais dados a ser processados. Raccoon... confere. Acidente de carro... Eu não lembro disso... " - Eu não falo de Raccon. Simmons. Eu estou falando de Simmons, no Grand Canyon. De que acidente de carro você está falando Leon?"

" - Pssssiu!" - Leon agora estava pálido. " - Não diga esse nome em voz alta! Nós concordamos em deixar o passado para trás e fazer de conta que nunca soubemos dessas pessoas!"

" - Bonitão... está tudo muito confuso aqui. Você pode por favor me contar tudo desde o inicio? "

Ele se afastou e trancou a porta, fechou as janelas e desconfiou de cada canto do quarto. " - Ok. Eu e você fugimos de Raccoon, nos casamos. Concordamos em nunca mais tocar nesse assunto outra vez, você se lembra disso? "

" - Você está brincando comigo?" - O tom de voz dela era sério. Que tipo de piada era aquela? " - Eu não tenho tempo para piada, Leon. Eu estou enjoada, quero ir ao banheiro."

" - Meu anjo, você esteve em coma por três meses, eu não sei se ficar de pé é uma..."

" - Cala a boca! Que saco. Que estória é essa de Meu anjo, Querida, Meu bem, Meu amor, dizer que a gente casou... você quer parar de palhaçada e me levar até o banheiro?" - Ficou de pé e só não caiu porquê Leon a segurou firme, suas pernas estavam completamente desgovernadas. Definitivamente, ela esteve só deitava por três meses. Leon a arrastou até o banheiro e de frente para a pia a sustentou para que ela vomitasse.

" - Querida, você não está nada bem. Talvez fosse melhor voltar a dormir."

" - Se você me chamar de Querida mais uma vez eu vou ser obrigada a te matar.." - Ela não vomitou, talvez tudo o que precisasse era ficar um pouco de pé, então percebeu os trajes em que estava, a minúscula camisola de hospital, totalmente aberta na frente deixando o seu corpo nú completamente exposto, enquanto Leon a tinha nos braços e ela se apoiava sem seu pescoço.

Ele tentou disfarçar que devorava uma doente moribunda com os olhos. " - Você estava em coma até hoje de manha, quando você acordou te transferiram da UTI para o quarto, eu vim imediatamente, me disseram que se você quisesse ir ao banheiro para eu chamar a enfermeira. Eu trouxe as suas roupas também..."

" - Onde você conseguiu as minhas roupas?"

" - Ora, no nosso armário."

Ela já ia protestar mais uma vez contra essa maldita brincadeira, quando uma voz infantil veio da porta.

" - Papai, a mamãe já acordou? Abre a porta!"

E uma voz feminina veio logo após. " - Leon, está tudo bem?"

Ada ficou ligeiramente tonta, talvez não devesse mesmo ter levantado. Leon avistou uma cadeira de banho dentro do chuveiro e a sentou alí. " - Amor, você consegue se segurar por um minuto aí? Eu já volto."

" - S...sim..." - Mamãe... papai... definitivamente não era a melhor hora para alguém bater na porta errada, tomara que aquela mulher seja lá quem for, leve essa menina embora rápido, minha cabeça está explodindo.

" - Ei Docinho!" - Era a voz de Leon depois de abrir a porta.

" - Papai!"

" - Mia, você pode dar mais uma voltinha com ela? Acho que preciso de uns trinta minutos."

" - Cadê a mamãe?"

Toda aquela conversa do lado de fora já não fazia mais qualquer sentido na cabeça de Ada Wong. Quem era aquela criança ou quem era Mia. Mas foi outra coisa que fez seu sangue gelar. Sua barriga, lisa e intocada. A enorme cicatriz que vinha das costas até o umbigo quase, não estava mais lá. Mas que... Quando alisou o próprio abdome e olhou um pouco mais para baixo, viu algo aterrorizante, uma outra cicatriz, ligeiramente acima de sua região púbica, com aproximadamente 5cm... a cicatriz de uma cesariana.


Quando Leon voltou, já era tarde. Ada vomitou sozinha, estava tonta e em pânico. Ele já não podia mais esperar que ela entendesse o que estava acontecendo alí. Teve que chamar a enfermeira e rezar para que ela não falasse muito. Ele ajudou com o banho e a colocar roupas limpas. Ele tentou persuadir a equipe medica a sedá-la, porém não conseguiu. Disseram que apesar da confusão mental, ela estava calma e cooperativa, e após três meses em coma, o ideal seria deixa-la o mais lucida possível.

Agora lá estava ela, inacreditavelmente mais forte, com sua cama reclinada, olhando-o com uma expressão incrédula.

" - Leon... você sobreviveu a Raccoon, com Sherry e Claire. Eu fui abatida pelo Tyrant, você achou que eu estava morta e me deixou para trás, foi Wesker quem me salvou."

" - Eu não sei quem é Wesker... Eu sei que você foi nocauteada pelo Birkin, nos escondemos em um teleférico, e eu fiquei alí cuidando de você, quando você acordou..."

" - Eu te dei uma pista falsa mandando você sair dalí e então fugi."

" - Não!" Por um segundo, ele pareceu indignado. " - Você não se lembra? Eu estava baleado, e você tinha se machucado, mas... nós acabamos nos envolvendo tanto, e alí, era como se não existisse nada além de você e eu, foi a primeira vez que nós..." - soltou um longo suspiro. - " - Ada, você não lembra da primeira vez que nós fizemos amor?"

" - Claro que eu lembro. Mas não foi assim... nem nesse lugar, não que isso não tivesse me passado pela cabeça quando estávamos naquele bendito teleférico. "

" - Foi lá que você se declarou para mim, me contou quem você era e então decidimos fugir."

" - Você... deixou a Claire e a menina Birkin para trás?"

" - Claro que não. Sherry foi dada como morta, mas tem outro nome e está no Canadá com um tal de Barry Burton e a família. Claire se uniu ao irmão. Foi tudo o que eu soube, há muito tempo. Não mantemos qualquer contato por motivos de segurança."

" - E nós, fugimos como?"

" - Ada Wong está morta. E eu, nunca saí de Nova Iorque. Para todos os efeitos eu não me recuperei do porre que tomei na noite anterior e nunca cheguei ao meu primeiro dia de trabalho em Raccoon. Eu assumi meu antigo emprego no Departamento de Policia de Nova Iorque, e pouco tempo depois me casei com uma imigrante sino-britânica recém-chegada de Hong-Kong, Ada Norton."

" - Foi fácil assim?"

" - Não diria que foi fácil. Nós apenas seguimos os seu conselho de não confiar nas autoridades, muito menos no governo."

Longos minutos de silêncio se passaram, Ada não sabia o que fazer, o que pensar, nem o que dizer para aquele homem desesperado.

" - Por favor querida..." - Ele tirou a carteira do bolso e dela, algumas fotos. " - Você me reconhece, você se lembra de mim. Por favor, diga que se lembra deles."

Ela viu foto por foto. Um menino adolescente de cabelos profundamente negros e olhos verdes, uma menininha banguela de cabelos castanho claro, um bebezinho de um ano, quase careca com um único tufão de cabelo preto, que de tão liso era arrepiado, brotando no topo da cabeça. Todos eles, apesar dos olhos claros, tinham fortes traços orientais.

" - Eu não sou idiota. Já da pra deduzir quem são essas crianças..." - Ela juntou todas as fotos num punhado e as ofereceu de volta. Ela estava calma e sua voz mostrava uma racionalidade brutalmente fria. - " Mas eu sinto muito. Eu não me lembro delas. Pelo visto temos um problema aqui, porquê as minhas memórias são muito diferentes das suas, Leon."

Continua...