Por volta das oito horas da manhã, Ada recebeu alta hospitalar. A parte mais difícil para o casal Kennedy foi encontrar as palavras certas para explicar aos médicos o que houve com a memória de Ada. Independente da versão que ela tinha dos fatos, ambos concordavam que não deveriam falar toda a verdade. Omitiram tudo no quesito "Raccoon City, espionagem e laboratórios", e apenas contaram que a paciente em questão, acordou sem se lembrar de ter se casado com o namorado, de ter tido filhos, e em suas lembranças, viveu outra vida completamente oposta nos últimos quinze anos. A verdade era que se Ada não se sentisse tão fraca, frequentemente tonta, emagrecida e tão obviamente debilitada, teria saído correndo dali imediatamente, daquela realidade tão absurda e buscaria por respostas sozinhas. A tontura veio outra vez, escorou no balcão da recepção por alguns segundos... aceitou que não podia simplesmente correr.

As palavras do médico neurologista foram bem claras. Um sonho de um minuto pode parecer ter durado um dia inteiro para quem o sonha. Pacientes em coma frequentemente perdem a memoria, e em raros casos, acordam com lembranças distorcidas. Um filme, um livro que foi lido... todas essas informações se misturam no cérebro do paciente, construindo memórias falsas. Além do mais, Ada era obrigada a admitir... estava mesmo confusa, tinha uma memoria nítida, porém muito confusa, picotada em várias partes... muita coisa parecia ter acontecido há cinquenta anos e não há quinze... vagamente ela começava a aceitar que sentia suas lembranças como se não fossem suas, mas de um outro alguém.

O médico mostrou o resultado mais recente de sua tomografia de crânio, os coágulos por causa da batida ainda não foram completamente reabsorvidos. Foram vários hematomas, e segundo ele, um verdadeiro milagre ela não ficar com nenhuma sequela física, fosse motora, na fala, visão, audição ou aprendizagem. Ada sentiu um arrepio na espinha... definitivamente, a ultima coisa que lhe faltava era acontecer algo assim. Contudo, enquanto os coágulos não fossem totalmente reabsorvidos, era natural que sua recuperação ainda não fosse completa. Receitou analgésicos, anticonvulsivos e mais outros tantos que ela nem se lembrava mais, deveria voltar para acompanhamento uma vez a cada quinze dias. E o mais importante, quase uma hora de conversa a sós com Leon... Ela não era idiota, já sabia até sobre o que era o assunto, provavelmente sobre como se comportar com ela, como dar a noticia aos filhos, como deveria ser a rotina da casa "até a mamãe ficar boa".

Ada sentiu mais uma súbita e incontrolável vontade de sair correndo dali. Não importa como ou para onde, queria apenas desaparecer.

" - Malditos desmaios e malditos coágulos na cabeça!" - Seria ridículo, trágico se não fosse cômico. Ela fugiria e desmaiaria, ou cairia no chão tendo um ataque epilético... quando chamariam o seu tão bondoso e solicito marido para resgatá-la, então ela tentaria fugir novamente, gritando que seu lugar não era alí, que ela era uma espiã... Não sabia dizer com certeza se iria parar num manicômio ou se seus antigos empregadores a encontrariam primeiro e... " - Definitivamente, é melhor não fugir. Bem, não agora..."

Leon surgiu novamente na recepção do hospital, pegando suas malas que estavam no chão com uma mão e lhe oferecendo o outro para que ela se apoiasse. Depois de dois dias acordada, Ada já caminhava com mais facilidade, apenas evitando olhar para o chão pois isso a deixava tonta. Seguram até calçada onde uma mini-van Volvo os aguardava. Leon a ajudou a sentar-se no banco do carona e depois foi colocar as malas no bagageiro.

" Oh claro... mini-van... Volvo... porquê não?"

Quando ela voltou, sentou-se no banco do motorista, ambos afivelaram o cinto de segurança.

" - Então querido, esse é o nosso carro?" - Ela fez questão de frisar bem o querido de uma maneira bem irônica, talvez para esconder seu verdadeiro sentimento: desespero!

" - Para falar a verdade, é o seu carro. Ele fica com você, eu uso o jipe para ir trabalhar."

"Oh claro, a mamãe tem que ficar com a mini-van. Para carregar os pirralhos..."

Um verdadeiro filme de horror passava pela mente da mulher, ela com sono e amarrotada dentro daquele carro, com profundas olheiras pois o bebê não a deixou dormir, mal vestida e sem maquiagem, com um adolescente chato e uma menina insuportável discutindo sem parar no banco de trás... e o bebê chorando, cagando e vomitando... durante todo o caminho que ela teria que fazer para deixá-los na escola. Nem se importou com o fato dele estar dirigindo, se eles sofressem um outro acidente e ela batesse a cabeça de novo, talvez tudo voltasse ao normal...

" - Eu trabalho?" - Ela perguntou.

" - Sim. É uma pequena empresária muito bem sucedida por sinal."

"Claro, com certeza se compara aos milhões por cada missão que eu ganhava quando era espiã..."

Ele continuou. " - Você começou dando aulas de Ioga e Tai chi Chuan, com o passar do tempo, reuniu tantos alunos e montou sua própria academia. Mas a maior procura é pelo seu curso de Kung Fú e defesa pessoal para mulheres. Outros mestres já te ofereceram sociedade, e inclusive muitos de seus alunos homens já tentaram te convencer a dar aula para homens também, mas você insiste em ensinar só mulheres a lutar. Nós inclusive já passamos por muito aperto com isso, seu curso faz tanto sucesso, que por umas quatro ou cinco vezes você já foi procurada por equipes de televisão e jornais... mas concordamos que você aparecer na T.V. Não seria uma boa ideia..."

Obviamente que não... nem nessa vida... e nem na outra, aquela de suas lembranças. " - Nossa, se tantas mulheres procuram se defender, é porque não tem feito o seu trabalho direito, certo, policial?"

Leon sorriu de lado, mesmo desmemoriada, Ada ainda era Ada... " - O que dizer? Isso é Nova Iorque, baby."

O caminho do hospital até em casa não foi tão longo, era um domingo próximo ao Natal, e o próprio frio e neve espantava as pessoas da rua naquela hora. A mulher observou a simpática casa branca de dois andares, a garagem de tijolinhos vermelhos, uma pequena quadra na lateral com uma cesta de basquete, uma arvore coberta de neve e sem nenhuma folha mas com um balanço de pneu pendurada em seu tronco. Ao longe, Ada viu um garoto de botas, casaco de neve e gorro usando uma pá e sal para limpar a neve da quadra. Ela percebeu que Leon a flagrou observando o menino.

" - Esse é o Scott. Ele tem quatorze."

" - Nós fomos rápidos heim..."

Leon abriu um largo sorriso. " - Se fomos... Ele fez quatorze em junho..." - disse olhando para Ada de uma maneira exageradamente maliciosa.

Foi então que ela entendeu... " - Oh." - Era tudo o que conseguia falar agora, o garoto nasceu em junho de 1999, exatamente nove meses após os incidentes em Raccoon.

" - Antes de entrarmos, vou dizer algumas coisas sobre os resto da turma. Joan Lin, ela tem seis anos, mas nos a chamamos só de Jo e por ultimo, Philip, ele tem um ano e três meses."

Parou por alguns instantes como quem contasse de um até três. " - Scott, Jo e Philip. Ok, foi fácil." - Tentou fazer aquilo parecer simples, mas a verdade é que estava pensando a respeito desses nomes, se ela mesma os escolheria. " - E quem está tomando conta deles?"

" - Scott, claro. Durante a semana Mia tem me ajudado com Philip, porque Scott tem escola, ele tem levado e buscado Jo na escola também. Mia deixa o jantar pronto e fica com Philip ate eu ou Scott chegarmos."

Ada ficou ligeiramente surpreendida, um garoto de quatorze anos que assume responsabilidades como levar a buscar a irma na escola, ficar cuidando de uma menininha e um bebê sozinho em casa e ajudar o pai que está ha três meses sozinho, não era exatamente a figura que ela tinha de um adolescente nos dias de hoje.

" - Eu..." - Leon recomeçou, agora parecia nervoso - " - Eu conversei com eles... sobre a sua situação, não precisa se forçar a nada nem se preocupar em assustá-los, tome o seu tempo e apenas descanse, okay?"

" - Certo." - Ada respondeu, sem confessar que não tinha nem lhe passado pela cabeça sobre como deveria ou não se comportar ao entrar naquela casa.


Estava sentada no sofá com as três figuras paradas a sua frente. Scott, um garoto ligeiramente alto para a idade com mais de 1,60cm carregando Philip no colo, e ao lado dele, Joan Lin, sem os dois dentes da frente, e que apesar de ser a única com o cabelo claro era a que tinha os olhos mais escuros, um castanho esverdeado muito mais puxado para a cor de mel.

" - Você não se lembra de nada? Nadinha mesmo?" - Perguntou Scott

" - Não."

" - Irado!"

Irado! Ok Ada, você vai ter que conviver com isso por algum tempo. - Pensou enquanto assistia a menina se aproximar e então pegar seu rosto entre as mãos. Jo apertava-lhe as bochechas, o nariz, encarava-a bem no fundo dos olhos, mexia em seu cabelo... tudo com uma expressão muito séria. E por fim disse:

" - Essa não é a mamãe."

" - Como assim docinho, é claro que é a mamãe." - Disse Leon

A menina virou o rosto da mãe para a esquerda e para a direita mais uma vez, observando-a devagar. " - Não. Ela tá no corpo da mamãe... mas não é ela."

" - Nossa... foi uma puta porrada na cabeça!" - Scott riu alto

" - Pooh-aaah-da! - Gritou Philip pulando e sacudindo os bracinhos no colo do irmão.

" - Scott, olha o que você fez!" - Leon o repreendeu, afinal, ele acabou de ensinar o irmão mais novo a falar o primeiro palavrão.

" - Foi mal!"

" - Olha, que tal a gente deixa a mamãe descansar um pouquinho? Vamos subir dar um banho no Philip, enquanto isso a mamãe pode circular pela casa, ver se reconhece alguma coisa... depois a gente assiste um DVD e prepara um jantar bem gostoso de boas vindas pra ela, heim?"

Leon tinha razão, não havia nada que Ada quisesse mais do que alguns minutos sozinha naquela sala. Quando eles subiram, ela mesma se pôs de pé, com cuidado, e começou a vasculhar o que podia. Haviam porta-retratos, dela, de Leon, das crianças... Parou para olhar a foto dela no dia de seu casamento, um vestido liso de seda e cetim decotado nas costas, segurava uma única rosa vermelha nas mãos e Leon com o uniforme de gala da policia. Na foto seguinte estavam os noivos com um bebê de aproximadamente um ano e alguns meses, no colo, deduziu que fosse Scott.

" - Maldito Kennedy, pelo menos me poupou de ser uma noiva balão enorme de grávida."

Viu algumas medalhas e condecorações de Leon, depois de quinze anos, finalmente aquele recruta novato de Raccoon City, agora era Tenente Kennedy... Ada sentiu uma ponta de culpa por aquilo, afinal, com ela, ele era um simples Tenente... sem ela, era um Agente chefe que se reportava diretamente ao presidente dos Estados Unidos. Se flagrou mais uma vez tentando reavaliar suas memorias que a cada minuto se tornavam mais confusas, e avaliar as informações de sua "nova vida" da qual ela não se lembra nada. Chegou a conclusão de que deveria manter o foco primeiro em sua recuperação física... os benditos coágulos.


O jantar foi tranquilo, Ada pôde observar o quanto Leon e Scott eram unidos, quando conversavam, frequentemente um completava a frase que o outro começou, sem querer. Faziam também uma bela dupla na cozinha, ficaram lá preparando a janta e distraindo Philip na cadeirinha, enquanto ela assistia mais um filme com aquela menininha que, estava chegando a conclusão de que só poderia ser... do mal. Era como se de todos alí, Joan Lin fosse a única que realmente entendia o que estava acontecendo. Essa não era sua vida, não era sua casa... Ada Wong estava no corpo errado. Garota esperta!

Enquanto comiam, Ada observava em silêncio a família fazer planos para o Natal que aconteceria em uma semana, Leon ficaria em casa, mas daqui há três dias precisava trabalhar, só um dia... que seria exatamente no seu aniversário de casamento. Mesmo sabendo que ela nem se lembrava de tal coisa, ele pediu um milhão de desculpas e prometeu que fariam alguma coisa a noite.

O garoto Scott realmente parecia ser um adolescente agradável, enquanto todos comiam, ele quem dava a sopinha de macarrão e legumes à Philip, sempre com muita paciência. Quando terminaram, ele recolheu os pratos e os copos e foi lavar toda a louça.

" - Querida, você pode ir deitar se quiser. Eu vou botar o Philip no berço, se precisar de ajuda com qualquer coisa, é só me chamar." - Disse Leon antes de lhe dar um beijo no rosto e partir com o bebê.


Ada já se sentia mais forte, mesmo se sentindo uma estranha alí, e com todo o desconforto envolvendo isso, era melhor estar em uma casa que num hospital, sempre se recuperava mais rápido quando saía de um. Subiu as escadas e até conseguiu tomar um banho sem maiores intercorrências. Mais uma vez alisou sua barriga, sentindo falta de sua cicatriz que fôra sua maior companheira nesses últimos quinze anos, aquela quem escondia seus segredos mais íntimos.

Deitou-se na cama de casal e apagou as luzes, evitou olhar demais para aquele quarto. Não queria sua mente divagando naquele cômodo, sobre como teria sido sua vida alí... e automaticamente relembrando de tantas vezes em que tudo o que desejou foi justamente isso... - Sentiu o policial puxar as cobertas devagar e deitando ao seu lado, se esgueirando até abraçá-la por trás. - Fechou os olhos sentindo o calor e o cheiro dele.. sim, ela desejou muito isso, uma vida onde ele dormiria ao seu lado todas as noites, ao lado dele, para sempre. Um pensamento sombrio então lhe passou pela mente. Aquilo tudo, poderia ser apenas um sonho, um sonho louco, demorado e muito real. Ela poderia sim, estar em coma justamente agora, nas mãos do enlouquecido Desmond Simmons, e enquanto isso, sua mente lhe presenteava com estes sonhos, que nunca se tornaram realidade.

" - Boa noite, amor..." - Ele disse com a voz rouca e sonolenta antes de beijar a esposa ao pé da orelha - " - Obrigado por estar de volta."

Ela apenas aproveitou a sensação de estar alí aquecida, e o abraçou também encaixado-se melhor nele. " - Boa noite."

Continua...