Acordou sentindo a respiração dele contra seu rosto, tinham as pernas entrelaçadas e ela estava aninhada a ele, que a abraçava, mantendo-a sempre perto. Leon a manteve aquecida durante toda a noite, com os dois coladinhos assim embaixo das cobertas, o aquecedor se fez desnecessário. Abriu os olhos finalmente e perdeu alguns segundos fitando aquele rosto tranquilo, com os cabelos loiros que caíam na testa... Flagrou-se pela primeira vez pensando se haveria nesse novo Leon, alguma coisa do amante que ela se lembrava... Era o mesmo rosto lindo, a mesma altura, os mesmos ombros largos, podia sentir as mesmas coxas grossas e firmes dele bem colocadas no meio das suas...

Ada ergueu uma mão, e suavemente tocou o peito dele por cima da camiseta, não era mais tão trabalhado, mas ainda assim era forte. Prendeu a respiração quando o tocou na barriga, e suspirou aliviada quando a encontrou em forma, não era um abdômen trabalhado – e para dizer a verdade, ela nem gostava de gominhos na barriga, sempre achou que deveria ser uma preferência mais de "homos" do que de "heteros", mas sabia do treinamento forçado de um agente, e que por algum tempo, até mesmo Leon os teve e graças a Deus os perdeu depois que completou os trinta anos. – O Leon ao seu lado era um perfeito exemplar do sexo masculino aos trinta e seis anos de idade, de carne dura e pele quente. Quando voltou a examinar o rosto, encontrou-o de olhos abertos, o quarto tinha pouca luz, mas ainda assim aqueles olhos chamavam a atenção... Fosse agora, fosse como um agente do governo... Leon perdeu a carinha de menino e se transformou em um homem, mas ainda assim mantinha aqueles mesmos olhos azuis sempre tão serenos.

" – Tentando se lembrar de alguma coisa?" – Ele perguntou baixinho, mas com a voz grave e sedutoramente rouca.

Ela sorriu apenas. " – Disso eu não me esqueci."

Essa foi à primeira vez em que eles trocaram um beijo desde que ela acordou naquele hospital, e isso desmontou completamente qualquer teoria que Ada tinha de que certos tipos de carícias com o passar do tempo se tornam monótonas para casais de longa data. Definitivamente, se aquilo era mesmo o beijo de um homem que dorme com ela todas as noites ha quinze anos, Ada nunca experimentou um beijo mais apaixonado na vida. E não seria um exagero se ela dissesse que nunca antes o beijo dele encaixou tão bem. Isso fazia jus à máxima de que a prática leva a perfeição.

E naquele momento todas as suas preocupações foram embora, tudo o que importava era estar ali naquela batalha de línguas e mordidas e por ela, nunca mais teria fim. Apenas o abraçou mais forte passando as unhas pelas costas largas. Leon, que previamente já tinha uma coxa por entre as suas, escorregou a mão direita de sua cintura, para o seu traseiro puxando mais o seu quadril de encontro ao dele, e apertando-o. Ada gemeu.

" – Acordado, hã?" – Provocou Ada ao sentir a rigidez de Leon pressionada contra si.

" – Está bem? Acha que pode continuar?"

Pouco importa se para ele só fazem três meses, ou que eles tem feito isso ha longos quinze anos. Para ela faz tempo, muito tempo, seis longos meses desde a última vez. Ada o empurrou de costas contra o colchão e montou-o sentando por cima dele. " – É necessário mais do que alguns coágulos no meu cérebro para me fazer parar, Bonitão."

Leon apertava os seios da esposa por cima da seda vermelha, esfregando os mamilos endurecidos com os polegares enquanto Ada rebolava devagar, provocando-o mais. Quando ela se abaixou para beija-lo, aproveitou para toca-la lá em baixo, por baixo da camisola... As coisas definitivamente ficaram molhadas entre eles... Quando levou as mãos até os próprios shorts para abaixa-lo de uma vez, seus ouvidos apurados escutaram a porta começar a ranger...

" Merda!"

Foi tudo o que Ada escutou dele antes de ser praticamente atirada para o lado. E se não ficou tonta, ou até mesmo morreu agora, provavelmente era porque não aconteceria mais. Leon puxou o edredom depressa e então ela entendeu... A porta do quarto terminou de abrir e Joan Lin entrou feitou um raio.

" – Eu consegui!" – Ela gritou com um violino em mãos. " – Escutem."

Leon e Ada, tentando disfarçar o susto, e falta de fôlego e dando graças a Deus pela menina não entender o rubor de suas faces, permaneceram ali atônitos e perplexos, sentados na cama enquanto assistiam a menina tocar "Jingle Bell" no violino até o fim, devagar e errando algumas notas.

" – E então, o que acharam?"

O policial abriu e fechou a boca algumas vezes sem dizer uma única palavra.

"– Isso foi lindo." – Ada interrompeu, afinal, manter a frieza e escapulir de situações complicadas eram a sua especialidade – " – Escuta, por quê não pratica um pouco mais lá na sala enquanto eu e o papai fazemos o café? Então assistimos você tocar tocos juntos. Que tal?"

" – Hn. Tá falando igual a mamãe... quase me enganou." – Ela respondeu recolhendo o violino – " – Espero vocês lá em baixo. Tô com fome!"

Quando Jo foi embora, Leon finalmente respirou. " – Oh meu Deus... essa foi por pouco." – Ele estava começando um pedido de desculpas, ou algo sobre ter se esquecido de trancar a porta quando a gargalhada de Ada o interrompeu. " – O que foi?"

Ada continuava a rir, aqueles enormes olhos azuis, completamente arregalados eram simplesmente hilários. " – Kennedy... eu não me lembro de alguma vez na vida ter te visto em pânico.. realmente em pânico. Essa foi à primeira vez!"

" – Então é por que você não se lembra de quando Scott nos flagrou..." – Disse Leon tentando se acalmar.

" – O que?"

" – Ano passado... na garagem... Eu não sei a cara que eu fiz, só sei que a sua gargalhada foi igual."

" – Ops!" – Ela ainda tentava conter o riso.

" – Eu preciso de um banho... frio." – Disse Leon beijando-a mais uma vez – " – Você se importaria de dar uma olhada no Philip enquanto isso? Quaser dúvida é só acordar o Scott, eu não demoro."

" – Ah, tenha santa paciência. O que pode haver de tão complicado?"

Ele fez menção em responder, mas mudou de ideia. " – Certo, amor. Eu não demoro."


O bebê estava de pé no berço, segurando as grades de madeira como se aquilo fosse uma cela penitenciaria. Philip mostrava os dois únicos dentinhos que tinha enquanto balbuciava palavras sem sentido. Até que disse uma que chamou a atenção da espiã.

" – mamãe!"

Ada apenas cruzou os braços em sua característica posição quando estava pensativa, observando o menino de cima a baixo, enquanto ele lhe estendia os bracinhos pedindo colo.

" Vamos lá Ada, já que está aqui, faça alguma coisa."

Encaixou as mãos embaixo das axilas da criança e a ergueu até o alto, quando um odor desagradável lhe invadiu as narinas.

" – Popô" – Disse Philip.

Ela fez uma careta. – " – Eu sei moleque, eu percebi." – Olhou em volta e viu a mobília do quarto, havia um lugar especifico para tal atividade, com vários produtos específicos para tal organizados bem ao lado. Carregou o bebê até lá o deitando numa superfície acolchoada. "Eu sou perita em armas, artes marciais, genética, medicina biomolecular, informática, espionagem, sou poliglota e piloto qualquer tipo de helicóptero ou avião... se eu não for capaz de trocar uma fralda estúpida, que alguém faça o favor de me matar. Acusação: incompetência."

Tirou a roupinha de Philip com cuidado. "Até aqui, fácil." Desprendeu as fitas adesivas da fralda descartável, retirando-a juntamente com seu conteúdo mal cheiroso. Usou um punhado de lenços umedecidos para limpar o bumbum rechonchudo, o pequeno pipizinho e o que havia escorrido entre as dobrinhas das coxas. " Bem, o pior já passou." Observou uma infinidade de produtos dispostos ali... pomada para assaduras, talco, óleo hidratante... Optou por passar um pouco de pomada e jogar um punhado de talco por cima.

Philip ria, mostrava os dentinhos e levava os pezinhos até a boca, mordendo os próprios dedos. Enquanto isso Ada lia as instruções no pacote de fraldas. " – Hn, vê pirralho? Ridículo de fácil!". Quando disse isso e colocava uma nova fralda limpa embaixo do bumbum rechonchudo, daquele pipizinho minúsculo começou a esguichar mijo para todos os lados, entre eles, Ada e sua roupa.

" – Não! Não! Não! Argh!" - Ada olhou incrédula para si mesma, toda molhada e para o bebê que ria divertidíssimo. – " – Mas que... argh!" – Agora era questão de honra. Repetiu todo o processo, limpeza, pomada, talco e foi bem rápida na parte da fralda. Colou as fitas adesivas e pronto! Missão cumprida!

Escolheu o macacãozinho mais fácil de vestir para o menino e o colocou de volta no berço. Cruzou os braços novamente e observou seu feito. " – Você bem que tentou, Bebê. Mas é preciso mais do que um punhado de mijo para me deter."

Nisso Leon apareceu na porta. " – Tudo em ordem aí?"

" – Como eu disse, nada de complicado. Agora eu vou tomar um banho também." – E correu de volta para a suíte, antes que ele visse que ela tinha a camisola molhada.


Depois do café e da apresentação de violino, Scott lavava as louças enquanto escutava seu iPod no ultimo volume, Leon estava trocando a água dos aquecedores da casa e Ada se viu sozinha com o bebê mijão e a menina do mal...

" – Então..." – Jo começou a conversa como quem tentasse parecer adulta. - " – Hoje de manha foi cronstangedor, certo?"

Ada aceitou o desafio mantendo o rosto impassível e ao mesmo tempo irônico. " – Você quis dizer constrangedor?"

" – Isso. Cons..."

" – ..trangedor..." – Ajudou Ada.

" – Isso."

" – E por que você acha isso?"

" – Eu... eu não sei. Eu só sei que o Scott ficou vermelho igual ao papai quando um dia a gente entrou no quarto dele e ele estava beijando uma garota. Ele ficou muito nervoso, muito mesmo. A gente saiu, você começou a rir e disse: Isso foi cons..."

" - ...trangedor"

" – Isso. Enfim... por isso que você é outra mulher no corpo da minha mãe. Minha mãe de verdade beija o meu pai todos os dias, varias vezes, na frente de todo mundo, e ninguém nunca ficou vermelho por isso."

Quando a menina saiu, Ada se viu aliviada por ela pensar que os dois estavam apenas se beijando. Pegou o bebê novamente no colo tirando-o da cadeirinha e o colocou no chão. Philip engatinhava por toda a casa e quando encontrava algum apoio, ficava de pé, mas ainda temeroso de tentar andar. Ela chegou à conclusão de que depois de Leon, a pessoa mais fácil para se lidar seria justamente com Philip, não fazia perguntas e qualquer brincadeira idiota para ele era mais do que o suficiente. Conforme o dia foi passando, ela percebeu o jeito que Leon a olhava, e essa sensação era muito boa... Sempre imaginou, mas nunca teve a oportunidade de estar tanto tempo perto dele, sempre ao alcance de seus olhos e principalmente de suas mãos.

Depois do almoço, quando Scott saiu com os amigos, Jo e Philip tiraram uma soneca, Leon a tomou pelas mãos e a arrastou até a dispensa, trancando a porta atrás de si.

" – Oh..." – Foi só o que teve tempo de dizer entes que sua boca fosse tomada pela dele, a mesma urgência daquela manhã voltou a invadir seus corpos, beijavam-se com voracidade e queriam mais do que tudo seguir a diante. " – O que foi isso? Nunca foi flagrado na dispensa?"

Leon rosnou um pouco antes de enfiar a mão por baixo de sua blusa tomando-lhe um seio. " – Eu tranquei a porta."

Por entre beijos Ada perguntou " – Por que não vamos para o quarto?"

Ele sorriu enquanto tentava cessar o fogo em si mesmo. " – Não... Faz três meses que eu estou sozinho naquele quarto, agora que eu te tenho de volta, não vou fazer nada correndo." – Ele a beijou de novo. " – Hoje à noite." – E de novo. – " – Se prepare..." – e mais uma vez. " – Só me deixa te namorar aqui um pouquinho, sem ninguém pra interromper...".

Ada não podia discordar, também sentia a falta dele... muito embora se dependesse dela, não ficariam só no amasso mas sim, iriam para as vias de fato, fosse no quarto, ali, ou onde quer que fosse. A ideia ainda assim não lhe era ruim... não se recordava mesmo de algum dia já dar um amasso com alguém dentro de uma dispensa...


Foi exatamente como havia calculado. Se qualquer dona de casa insossa consegue, por quê Ela não havia de conseguir? Até o fim do dia, já havia pego o jeito com bebês. Contudo preferia acreditar que Philip é que era uma criança fácil de lidar, e principalmente muito calma.

Durante muitas vezes se perguntou, como seria ter um filho com Leon, como ele seria, com quem se pareceria mais... e de todos, Philip era o mais parecido com ela fisicamente, não tinha como negar que ele era um autentico chinesinho, apesar dos olhos claros.

Olhou em volta, para aquela realidade tão absurda, onde tudo não era mais do que os seus sonhos mais profundos e secretos, sonhos que ela sabia que eram impossíveis. Um belo dia ela acordou e tudo estava ali.

Estava cansada, não podia imaginar que brincar com um bebê pequeno e vigia-lo enquanto ele engatinha cansasse tanto. Agradeceu aos céus quando Leon apareceu com uma mamadeira em mãos e o levou para dormir. Sozinha em seu quarto, ligou a TV e colocou os pés para o alto enquanto assistia o noticiário. As noticias eram sobre as ações da B.S.A.A. na Europa Oriental... Ada assistia a tudo com muita atenção. Ela estava refugiada... mas o mundo não mudou... será mesmo que ela e Leon faziam tão pouca diferença assim? Por um lado isso a incomodava, mas por outro, lhe provocava uma estranha satisfação, afinal, não era esse o seu sonho secreto? Poder simplesmente fugir e começar de novo?

Nisso Leon entrou esbaforido porta a dentro, trancando-a imediatamente, correndo até a TV e desligando-a.

" – Ei! Eu estava assistindo."

" – Philip dormiu!"

" – E daí?"

Ele simplesmente tirou a camisa e a encarou. " – Philip... dormiu!"

Então ela entendeu. Em segundos seu cansaço foi embora... pensamentos sobre B.O.W's espionagem e B.S.A.A também. Quando Leon deitou por cima dela, mais uma vez o mundo se resumia aos dois. Deixou que ele a despisse e tirou as roupas dele também, entrando embaixo das cobertas para se esconderem do inverno que estava lá fora.

Agora Ada podia ver perfeitamente o corpo dele diante de si... de todas as muitas cicatrizes que Leon tinha... apenas uma estava alí, o tiro que ele tomou da Anette Birkin. Ela sentiu uma pontada de dor... Leon era um homem mais feliz, menos maltratado e castigado, e tudo isso por causa de uma única decisão sua. Uma palavra sua, um momento de coragem para tentar o impossível, foram o suficiente para evitar que ele se machucasse tanto.

Ada lembrava de amar cada uma daquelas cicatrizes, mas agora amava muito mais a ideia de saber que Leon nunca mais se machucou. Tudo pôde foi evitado por uma única decisão dela... logo, era ela a responsável por tudo o que o policial passou de ruim em suas memórias anteriores. Essas memórias não eram mais verdade, mas ainda assim se sentia triste por elas.

" – Leon, por favor, diga que eu liguei as trompas depois do Philip." – interrompeu-o

" – Ah... não. Porquê?"

" – Camisinhas, Bonitão! Você não tem me visto tomar pílula, tem?"

" – Oh, desculpa! Merda, como eu não pensei nisso?!" – Resmungou enquanto corria até o banheiro.

Ela queria aquilo tanto quanto ele, mas encarar as responsabilidades de seus atos e suas consequências a deixou inesperadamente melancólica. Precisava daquela noite para refletir, ao que tudo indica... oportunidade para sexo era o que não ia lhes faltar.

Quando Leon voltou, a encontrou de olhos fechados. Ela pôde escuta-lo suspirar, decepcionado por achar que ela dormiu. Ele a beijou mesmo assim, lhe desejou boa noite e disse que a amava... mesmo assim. Deitou-se ao seu lado e a abraçou.

Quando as luzes apagaram, Ada pensou... em suas memórias, o quão longe foi incapaz de ir para fazer aquele homem feliz. E no agora, o que ela estaria disposta a fazer.

Continua...