O vento gelado e os poucos flocos de neve que caiam do céu não eram o suficiente para que ela sentisse qualquer frio, estava completamente aquecida ali, nos braços dele. E embora ela tenha achado estranho no começo, ele não parecia se importar com o fato de terem plateia enquanto se beijavam longamente, Mia com o bebê nos braços e Jo ao seu lado, todos de pé na porta.
Assim como ele pediu, Ada foi leva-lo até a porta para se despedir, e ela não lembrava de algum dia ter se despedido tão demoradamente de alguém. Não sabia dizer ha quanto tempo estavam ali de pé no jardim, próximo ao jipe de Leon, só sabia que ele tinha lábios quentes, rosados e macios e finos, quase escondidos por trás da barba por fazer, que o hálito dele era inebriante, o cheiro dele também, que a língua dele a deixava louca. Gemeu dentro da boca dele quando ele desceu as mãos até a base das costas dela puxando-a mais para perto, e quase choramingou quando ele finalmente interrompeu o beijo.
" – Te vejo amanhã." – ele tinha o batom dela todo borrado em seus lábios.
" – Já estou com saudade." – Queria rir por ter dito isso, afinal, seriam apenas vinte e quatro horas. Mas queria rir principalmente por aquilo ser verdade. Afinal, Leon era sua única conexão com passado, a única pessoa que ela poderia dizer que conhecia ali, e não seria só pelo fato de ficar sozinha com os filhos e uma amiga, todos eles pessoas de quem nem se lembrava, mas sim... porque estava gostando tanto de estar sempre tão perto dele...
" – Amanhã é um dia especial, e eu já tenho alguma ideia do que vamos fazer quando eu voltar."
" – E o que é?"
Ele sorriu. " – Apenas esteja preparada, Ada Kennedy."
Escutar esse nome, dito assim, saindo da boca dele, fez um arrepio percorrer por sua espinha e um frio tomar conta de sua barriga. Deixou que ele a beijasse no rosto.
" – Tchau. Te amo."
" – Também te amo." – Respondeu enquanto sentia o resto do susto se esvair. Observou Jo dar tchau pela janela, e Leon gritar um "Tchau docinho!" antes de fechar a janela do jipe e partir. Olhou as próprias mãos e os dois anéis em seu dedo um junto ao outro. Um de ouro branco e um brilhante no topo e outro uma aliança dourada. Um de noivado e outro de casamento, pensou.
Ada pode imaginar, um recruta, um policial recém formado, casado às pressas com ela que provavelmente não tocou nunca mais em mais nenhum centavo do que tinha, deixar para trás o terror de Raccoon City, e simplesmente dar a ela uma vida nova, uma segunda chance, começando tudo absolutamente do zero ... eles eram tão jovens, se conheceram sob circunstâncias tão extremas, as chances disso tudo ter dado errado eram tão grandes... Foi uma loucura, principalmente por parte dela. Ela devia e sabia disso, e mesmo assim o fez. E tudo isso, misturado as lembranças confusas que tinha, de quase perde-lo varias vezes, de cada noite de saudade por meses a fio, do sofrimento de querer estar junto e não poder... ela só podia chegar a uma única conclusão, a que ela realmente o amava, muito mais do que algum dia pensou que amasse.
Sentiu o vento frio uma ultima vez. Não estava mais aquecida, decidiu entrar.
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Dormir naquela cama sozinha pareceu uma tarefa difícil, o cheiro de Leon era impregnado em cada parte dela e para completar, Ada olhava para todos os lados sabendo o quanto o lugar ainda lhe era estranho. Ficou de pé e resolveu vasculhar o local, aproveitando que estava sozinha.
Viu que ainda possuía o hábito de ter muitos livros em seu móvel de cabeceira, enquanto na de Leon tinha uma pequena coleção de revistas sobre armas e caça esportiva. Abriu a gaveta dele e constatou a caixa de camisinhas ainda fechada, que ele provavelmente comprou depois de ter certa dificuldade para encontrar uma perdida no banheiro e a encontrar dormindo quando voltou. Pôs-se de pé e foi até o armário, muito bem escondidas na parte superior encontrou uma pistola e uma espingarda, ambas descarregadas com a munição separada a parte, imaginou que ser um policial e ter crianças em casa era algo que exigia muitos cuidados quanto ao fato de estar quase sempre armado e guardar uma pequena parte de seu material de trabalho em casa.
Constatou que seu gosto quanto a roupas também não mudou muito, a única exceção é que não possuía mais nenhuma daquelas peças que normalmente custavam mais de quinhentos dólares, como quando era uma espiã... há quinze anos... e que parecia ter sido até bem pouco tempo atrás...
As roupas de Leon também eram boas, tocou suavemente uma camisa azul sabendo instintivamente que ela o realçava os olhos também azuis. Nas gavetas inferiores foi onde tudo começou a ficar ainda mais interessante, sabia que nas primeiras estavam suas roupas íntimas, mas a última que até então nunca tinha aberto antes, encontrou quase uma infinidade de essências, óleos de massagem, géis... dos que aquecem... dos que resfriam... para o corpo... para os lábios... para outras partes também... numa variação enorme de aromas e sabores...
Sentiu, talvez pela primeira vez na vida o rosto arder, sabia que tinha corado. Não se lembrava de alguma vez na vida ter tido ao menos tempo para experimentar esse tipo de coisa, flagrou-se lembrando do Leon tão "a vontade" com ela naquele armário, os dois juntos todos os dias e com todo o tempo do mundo para vasculharem e realizarem cada desejo e segredo de seus corpos, cada fantasia e depois de feito, simplesmente poder criar e experimentar uma nova... como num reflexo, seu olhar fugiu para a cama logo a diante, olhou para a gaveta mais um vez e sentiu um arrepio na espinha outra vez quando encontrou dois pares de algemas com o selo da policia de Nova Iorque gravado no aço.
Sorriu olhando para a cama outra vez, em sua mente criaram incontáveis possibilidades sobre o que aquele colchão aguentou e o que aquelas paredes em volta dele testemunharam.
De repente, tudo o que Ada queria... era que o marido voltasse para casa.
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Se antes não tinha sono, depois de xeretar suas gavetas é que Ada chegou a conclusão de que o perdeu, com quase nenhuma chance de recupera-lo tão cedo. Decidiu descer as escadas, talvez ir até a cozinha e assaltar a geladeira – provavelmente onde tem sido seus únicos atos "criminosos" nos últimos quinze anos. No caminho espiou o porta de Scott aberta e que ele não dormia mas sim, jogava no computador, Jo e Phillip estavam silenciosos com certeza dormindo profundamente naquele horário.
Quando passou pela sala, encontrou Mia sentada no sofá assistindo algo na televisão. Ada conversou pouco com ela durante a janta, mas pode perceber que ela parecia ser um pouco tímida. Era mais jovem, devia ter pouco mais de vinte ou vinte e cinco anos além de ser bastante bonita. Esse ultimo pensamento incomodou um pouco, afinal, apesar de tímida ela conseguia conversar normalmente com Leon e "segundo fontes" ela ficou sozinha com seu marido e filhos naquela casa por três meses...
"Acho bom ser minha amiga mesmo..." – Pensou Ada.
" – Ada, não deveria estar descansando?"
" – Perdi o sono."
" - Senta aqui..." – Mia ofereceu o espaço vazio no sofá – " – The Walking Dead!" – Ela apontou para a programação que passava na televisão.
Parece que nem a geladeira eu posso assaltar mais! – Pensou sentando-se ao lado dela.
Durante o intervalo veio a pergunta. " – Você não se lembra de nada mesmo né?"
" – Exatamente." – Ada respondeu sentindo que algo em Mia se entristeceu.
" – Eu vou continuar rezando por você... é o que as amigas fazem."
Uma amiga religiosa? Talvez seja uma boa ideia investigar o que mais ela é...
" – Há quanto tempo nos conhecemos?"
" – Muito... eu tinha dezoito anos..."
" – E como foi?"
O olhar de Mia se desviou – " – foi uma maneira muito confusa, talvez... quando Leon chegar nós possamos relembrar isso juntos." – Respondeu com um sorriso sem graça.
O sexto sentido de Ada apitou imediatamente. Era uma pergunta simples, mas para responder ela precisava de ajuda? Ajuda de Leon? Eles eram tão próximos assim?
" – Esperar ele chegar? Ele sabe tanto assim?"
" – Ah sabe, sabe até demais e quando a gente não conta, ele descobre." – Dessa vez o riso de Mia foi espontâneo.
" – Nós... somos muito unidos então, fazemos muita coisas juntos? Desculpe estar perguntando muito... mas vida de desmemoriada não é facil"'
" – Claro, pergunte Ada. Tudo o que eu puder fazer para ajudar. Bem, nós... Leon e eu já tivemos nossos maus momentos... por um momento fiquei até com medo de ter perdido a amiga... mas hoje tá tudo certo."
The Walking Dead começou de novo e Mia prestava atenção na TV novamente.
" – Maus momentos... o que houve?"
Mia de repente ficou sem resposta, numa reação típica de quem percebe que falou demais. Tudo o que fez foi olhar bem no fundo dos olhos de Ada, ela não era mentirosa e não inventaria qualquer coisa. " – Você vai saber... quando Leon chegar. Eu prefiro que ele te conte."
Sem saber o que fazer com tal resposta, Ada fitou a televisão assistindo ao ataque de uma horda de zumbis.
Continua...
