Acordou com o hálito quente de Leon sussurrando um "bom dia" contra sua orelha. O policial mantinha os braços em volta dela, abraçando-a firme por trás. Ada gostava disso, gostava de acordar de manhã aquecida por aquele corpo quente em todos esses dias de inverno, e depois da noite passada, acordar junto a Leon era melhor ainda...
Contudo, algo ainda não estava perfeito... Ada simplesmente não sonhava, desde que acordou no hospital, não tivera nenhum sonho sequer. Também sempre acordava com a sensação de nem tinha dormido. E após esses dias... parecia que finalmente seu corpo começou a reagir negativamente, estava cansada e com dor de cabeça.
Ada percebeu como o corpo desnudo de Leon reagia por estar ali, tão próximo e encaixado a ela. Os beijos, os lugares por onde as mãos dele percorreram e os sussurros que seguiram após, só confirmaram o que ele queria, e que "aquilo" não se tratava tão somente de uma ereção matutina. Mesmo assim, mesmo com todas as lembranças maravilhosas da noite anterior, tudo o que a ex-espiã conseguiu fazer, foi gemer algo de maneira sonolenta e murmurar algo como "mais tarde... agora não..."
Leon pareceu compreensivo, lhe roubou um beijo e levantou. Ada fechou os olhos mais uma vez, na esperança de que a dor passasse..
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O barulho fez com que Ada acordasse novamente. Pés nervosos arrastando pelo chão, uma bola quicando freneticamente, e o som da voz de Leon e Scott, exaltados. Tudo isso vindo do lado de fora, mas alto o suficiente para acorda-la.
Vestiu-se com roupas quentes no intuito de ir lá fora olhar "o barulho". Calçou as botas, foi até o banheiro escovar os dentes, se maquiar e pentear. Leon e Scott continuavam a farra durante todo o tempo, até enquanto ela tomava café.
Percorreu todo o caminho pela sala de estar, deu bom dia a Jo que assistia alguma programação infantil na TV, passou os olhos pelo bebê que dormia tranquilamente abraçado a um ursinho dentro do cercadinho acolchoado, completamente alheio a barulheira lá fora. Abriu a porta e escorou ali para ver o que pai e filho tanto gritavam.
Leon ergueu os braços de frente para Scott que quicava a bola de basquete contra o chão decidindo para onde correr.
" – Desiste, tampinha!"
" – Nunca." – Scott avançou, tentando passar a bola por entre as pernas de Leon, mas esse evitou o ataque, assumindo o controle da bola e fazendo uma cesta logo após.
Ada sorriu. Chamar o garoto de tampinha foi injusto. Scott era alto para a idade, quase do tamanho do pai, mas Leon era bem mais forte, o rapazinho parecia ter "espichado" rápido demais e o peso não acompanhou proporcionalmente, deixando-o franzino. Quando ambos perceberam que eram observados, interromperam o jogo.
" – Ora veja, se não é a Bela Adormecida." – Leon caminhou até ela, ele tinha um sorriso luminoso, Ada simplesmente não se lembrava de algum dia tê-lo visto tão feliz. Ela retribuiu o beijo não se importando dele estar até com os cabelos molhados de suor. " – Eu vou tomar um banho... quer vir?"
" – Pelo amor de Deus, encontrem um quarto!" – Disse Scott.
O rapaz exclamou com a voz ofegante enquanto recuperava o fôlego, vermelho como um pimentão maduro enquanto passava por eles sem jeito e entrava na casa. Ada lembrou sobre Leon ter dito algo sobre Scott tê-los flagrado na garagem quando viu a timidez do rapaz. E por mais estranho que fosse, isso deixava Ada feliz, afinal, sabia que tinha um casamento feliz e sexualmente ativo (bastante ao que parece) mesmo depois de quinze anos e três filhos.
Sim, Ada, três... que obviamente não foram feitos enquanto você e Leon rezavam ou liam o jornal... – Pensou.
O chorinho de Philip chamando por ela, tirou-a de seus devaneios. " – Fica pra próxima..." – Ela piscou de forma marota e entrou para atender ao bebê.
Definitivamente, lidar com bebês não era nada difícil para ela, ou então, Philip era uma criança muito boazinha. Pois, depois de Leon, o caçula era a pessoa mais fácil para ela lidar, o menino respondia positivamente a cada atitude sua, desde ir no colo, comer e até brincar com ela.
Quando Leon e Scott voltaram de seus respectivos banhos, disseram que iriam sair. Leon deixaria Scott na casa da namorada, e quando escutou o assunto, Philip prontamente se manifestou:
" – dipe!"
" – É filho? Quer andar de jipe?" – O menino saltou do colo de Ada para o do pai como se tivesse sido convidado para o lugar mais divertido do mundo. " – Quer ir com a gente, Jo?"
" – Estou terminando de assistir os meus desenhos, pai."
E assim, Ada acabou vendo seus "três meninos" saírem pela porta, deixando as "duas meninas da casa" para trás. Olhou mais uma vez para o relógio, sabia que tinha acordado tarde, decidiu ir a cozinha preparar o almoço.
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Sentiu o cheiro gostoso da cebola refogar junto ao alho quando despejou os cubinhos de frango por cima, quando estava tudo bem dourado, jogou um pouco de curry e shoyu, enquanto terminava de fritar voltou sua atenção aos vegetais que ainda precisavam terminar de serem cortados.
Cortava rapidamente tiras diagonais de cenoura e vagem quando um barulho alto de alguma coisa pesada caindo e um grito estridente de criança a fez parar. Largou a faca e correu para a sala confirmando o motivo do susto. Jo chorava a plenos pulmões em algum lugar debaixo da estante de madeira que estava caída ao chão.
" – Mamãe! Ajuda!"
Era uma estante grande e pesada, Ada não sabia o que iria encontrar quando levantasse o móvel, mas sabia que precisava faze-lo. Com um pouco de esforço e ignorando a dor de cabeça que voltara subitamente, colocou o móvel novamente de pé deixando uma infinidade de livros e DVD's jogados no chão. Então viu uma menininha assustada, mas aparentemente inteira chorando alto. Pôde perceber que havia algo além do susto e do medo, não era "manha", Jo estava com dor!
" – Joan, você machucou? Consegue se mexer?"
" – Doi o braço mãe... tá doendo!"
Ada já vira muitos mortos e feridos antes, já teve que socorrer alguns inclusive, tudo havia sido parte de seu treinamento. Examinou o corpinho da menina para ter certeza que o único problema era mesmo o braço, e a ajudou a sentar no sofá.
" – Querida, mostra o bracinho."
" – Não, vai doer..." – Ela chorava menos, mas as lagrimas ainda rolavam soltas pela face ruborizada.
" – Eu não vou te machucar, Jô, eu só quero ver onde dói, ok?" – Mantinha a voz tão calma e suave, que até mesmo a criança pareceu convencida de que nada poderia dar errado. Examinou o membro com cuidado, mantendo sempre a expressão tranquila. Viu que estava quebrado, provavelmente uma fratura em galho verde de antebraço, mas preferiu não dizer. " – Prontinho viu? Não é nada grave, a mamãe vai desligar o fogo e a gente vai no médico."
" – Médico?" – Jo que parecia estar se acalmando, agora entrou em pânico novamente. " – Por quê? Eu vou tomar injeção? Eles vão me cortar?"
Ada ficou sem resposta por alguns segundos. "Por que alguém ter que reduzir a sua fratura." Ou " Por que alguém tem realinhar seus ossos." Não pareceram a melhor coisa para dizer a uma menininha nesse momento. " – Por que ele vai fazer um curativo para não doer mais." – Disse por fim.
Foi até a cozinha, desligou o fogo. Sabia que precisaria de documentos e numero do seguro quando chegasse no hospital, porém não sabia onde se encontrava nada disso. Forçou a Memória mais um pouco e lembrou de uma pasta que Leon deixou separada com Mia para o caso dela desmaiar ao ter uma convulsão na noite em que ele estaria fora, correu até o local e encontrou a tal pasta, com tudo o que precisava lá dentro. Apanhou o celular que até então sempre estivera "carregando" no canto da sala sem ela nunca usar, e agradeceu por ter uma agenda tão completa. Primeiro ligou para um taxi, depois para Leon.
"-Oi amor..."
" – Leon, eu estou indo para o hospital com a Jo. Ela quebrou o braço, encontra a gente lá."
"- Certo, eu estou a caminho."
A buzina do taxi chamou lá fora. Ada pegou a menina com cuidado e saiu com ela.
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Quando Jo voltou da sala de raio-x, já não chorava mais, apenas tinha os olhos assustados que encaravam Ada de forma suplicante.
" – Eu só queria guardar o DVD... mas era alto... aí eu subi... Desculpa."
" – Tudo bem querida, não foi sua culpa. Acontece."
" – Mãe..." – chamou o pediatra em uma voz baixa, acompanhado de um ortopedista. " – É uma fratura em galho verde, muito comum em crianças, ela ficará bem. Contudo será necessário um procedimento um pouco... desconfortável, se você preferir esperar lá fora."
Ada não gostou disso. Não gostou de ser tratada como uma mãe assustada que não aguenta o tranco, ou que não era esperta o suficiente para que ele explicassem exatamente o que iriam fazer com a sua filha. " – Eu estou bem aqui, obrigada. O que vocês precisam fazer?"
" – Bom, Senhora Kennedy, nós precisamos completar a fratura, para só depois reposicionar."
Ai!
Instintivamente olhou para a menina que nem desconfiava do que estava por vir. Questionou-se se talvez não fosse o caso de uma anestesia geral, mas sabia que a conduta deveria ser apenas a critério do médico.
" – Princesa." – Começou um dos médicos enquanto se preparavam para o procedimento e um anestesista chegava no quarto. " – é um seguinte, você quebrou o bracinho, e o tio vai ter que por no lugar, ok? Mas para você não sentir nada, o outro tio vai te aplicar uma anestesia no seu braço, esta bem?"
" – Eu vou tomar injeção?" – Jo então voltou a chorar. " – Mamãe, me leva embora..."
Ada se aproximou da maca e secou as lagrimas da menina com as mãos. " – Filha, é o seguinte. Os doutores vão colocar o seu bracinho no lugar, pra ele continuar funcionando bem, como sempre funcionou. Você não quer uma bracinho estragado, quer?"
" – Não..."
" – Então é hora de ser corajosa, está bem? É só não olhar."
O pediatra ameaçou chegar perto para segurá-la, mas Jo gritou.
" – Não! Eu quero a minha mãe!" E então devolveu a Ada aquele olhar, com os olhinhos suplicantes. " – Me segura mãe..."
Ada apenas obedeceu, seguindo as orientações do médico sobre como segurar a menina o mais firme possível, Jo escondeu o rosto contra seu peito, segurando o choro mas ainda assim molhando sua blusa com lágrimas enquanto o anestesista fazia um bloqueio anestésico de todo o seu pequeno braço. Então, a própria Ada, aquela que já fez e viu coisas horríveis, que sobreviveu ao pesadelo de Raccoon City, a mulher que nada no mundo era capaz de assustar, fechou os olhos quando o ortopedista pegou aquele bracinho e o "torceu" a primeira vez, fazendo a menina soltar o primeiro grito.
Continua...
