Leon abriu a porta do quarto lentamente e não escondeu a expressão de afeição em seu rosto quando as encontrou. Permaneceu algum tempo de pé, sorrindo enquanto observava as duas deitadas no leito.
Ada soltou um sorriso cansado enquanto tinha a pequena Jo dormindo em seus braços. Depois de engessada e com a tala de tecido rosa devidamente posicionada, a menina simplesmente grudou na mãe, e não soltou mais.
" – Você demorou." – Esperou que com essas palavras ele entendesse tudo o que ela realmente quis dizer. "Era você quem deveria estar aqui." " E se Jo preferisse você? E se ela não confiasse em mim?" " E se eu não fosse boa o suficiente pra isso?"
Ele apenas suspirou, sem parar de sorrir ou fita-la com todo o carinho. " – Eu sei... Mas sabia que ela estava bem olhada. Você foi ótima... Como sempre."
Quando Ada fez menção de levantar da cama, Jo, ainda sob efeito de fortes analgésicos, resmungou qualquer coisa sem sentido abraçando-a ainda mais forte. Leon se aproximou, acariciando os cabelos castanho-claros da menina. " – Acorda docinho, hora de ir pra casa..." .
A menina abriu os olhos esverdeados, que pesados por causa do sono, pareciam ainda menores. Sem resmungar ou resistir, deixou que Leon a tomasse nos braços.
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Soprava o liquido fumegante dentro de sua caneca enquanto observava a infinidade de caixas de remédio à sua frente, para Ada essas eram sempre as piores horas do dia, quando se lembrava de sua saúde ainda debilitada. Não podia dizer que estava infeliz, pelo contrário... tinha certeza que nunca esteve tão feliz quanto agora. Mas a maldita dor de cabeça que só aumentava, somado ao fato de até hoje nunca ter recuperado a memória só a deixavam ainda mais angustiada. Respeitou a dosagem de seus remédios anti-convulsivos, mas tomou uma dose dobrada de analgésicos.
Apagou as luzes, certificou-se que todas as portas e janelas estavam devidamente fechadas e então subiu as escadas cautelosamente sem fazer barulho. Jo e Scott dormiam sossegadamente. Sentiu um aperto estranho no peito por deixar Joan dormir sozinha essa noite. "Será isso que chamam de instinto materno?" Mesmo Leon com todo o seu típico instinto protetor, insistiu que a menina estaria bem em seu próprio quarto, e no entanto... Ada ainda estava insegura. " Quem diria, não?".
Escutou um chorinho baixo vindo do quartinho de Philip, abriu a porta com cuidado e viu que ele ainda dormia, estava apenas gemendo baixinho enquanto fazia biquinho para chorar. "Seria um sonho ruim?", Ada não fazia a menor ideia se bebês sonhavam ou não, acreditava que talvez sim. Puxou a manta felpuda de lã azul e o cobriu devagar, o aquecedor funcionava e as janelas estavam bem fechadas, contudo, talvez fosse melhor aquecê-lo bem.
Deixou-se mover pelo desejo súbito que lhe consumia enquanto velava o sono agora tranquilo da criança, levando os dedos delicadamente até o pequeno rostinho redondo, com bochechas cheias e rosadas, o narizinho pequeno e um pouco largo... Philip dormindo parecia ainda mais chinês, seus olhinhos fechados ficavam ainda mais puxados. Finalmente acariciou o tufo de cabelo preto e arrepiado que ele tinha no topo da cabeça. Esse era o seu bebê e Leon era o pai. Se amaram como marido e mulher e fizeram mais um bebê juntos, ela o carregou dentro de si por nove meses sentindo-o crescer e se mexer, o botou no mundo, alimentou-o com seu leite... e agora estava ali de pé admirando esse filho, como ele era um menino bonito e saudável, o mais parecido com ela, e ela mesma não se lembrava de nada disso.
"Eu sinto muito menininho, você não imagina o quanto."
Ainda sentia o cheirinho de neném impregnado em suas próprias mãos quando entrou em seu quarto escutando o barulho de Leon no chuveiro. Deu graças a Deus pelos remédios estarem fazendo efeito melhorando sua dor, aumentando sua esperança de nessa noite ter um profundo sono, repleto de sonhos. Desamarrou as fitas de seu roupão e o pendurou na cabeceira da cama. Deixou-se esparramar naquele colchão confortável onde cada travesseiro e cada parte do lençol, cheirava a Leon.
E o próprio, em pessoa, não demorou a chegar, como sempre serpenteando por baixo das cobertas e a abraçando.
" – Eles dormiram?" – Perguntou Leon enquanto beijava Ada no pescoço, entrelaçando suas pernas as dela e enfiando a mão sorrateiramente por baixo de sua camisola para acariciar-lhe a barriga e a cintura.
"-Sim." – Respondeu, e sorriu, quando a resposta dele foi subir com a mão direita de sua barriga, para o seu seio, apertando-o forte. Imediatamente virou-se para beija-lo.
Beijavam-se intensamente enquanto suas mãos buscavam explorar o corpo um do outro por baixo de suas roupas, que já eram poucas, quando Ada interrompeu o beijo bruscamente arrancando um protesto de Leon.
" – E se eu nunca me lembrar?" – Ela perguntou.
O policial pensou por algum momento, parecia querer dar a resposta certa mesmo quando visivelmente tudo o que ele queria era apenas continuar o que estavam fazendo. " – Você não devia pensar nisso, semana que vem nós vamos ao médico e perguntamos se existe essa possibilidade."
" – E se eu nunca me lembrar?" – Perguntou novamente.
Ele a beijou outra vez e por fim respondeu: " – Eu sei que pra você isso não será nada fácil, caso aconteça. Mas quanto a mim, isso não muda nada. O importante é que você ainda está aqui e que mesmo desmemoriada, você ainda me ama." – Atacou-a com um beijo mais uma vez, finalmente virando o corpo por cima dela. Ada o ajudou a tirar a camiseta surrada que parecia fazer parte do guarda roupa do policial durante todos esses quinze anos, revelando os ombros largos, fortes e salpicado de sardas que ela tanto amava.
" – O que eu te contei sobre mim?" – Ela perguntou, quando ele já havia lhe despido completamente e colocava o preservativo com cuidado. Teria ela contado tudo ao marido? Infância, adolescência... como e porquê se tornou uma mercenária, todas as pessoas que enganou, traiu, roubou, matou, todos os homens que seduziu e até mesmo quantos amantes teve? Com essa pergunta, arrancou pela primeira vez na vida, uma resposta que a envergonhou. Leon a encarou com seus olhos azuis, carregados e desejo e amor, mas com a severidade que denunciava exatamente a verdade por trás da resposta que viria seguir.
" – Tudo." – Ada soube que era verdade e inexplicavelmente sentiu alivio por isso, por ter certeza que ele a amava e a aceitava do jeito que ela era, conhecendo cada uma das suas fraquezas. – " – E você devia saber... que tudo, só faz com que eu te ame ainda mais." Disse por fim, antes de penetra-la a primeira vez...
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Deixaram-se cair, exaustos, um para cada lado da cama enquanto tentavam recuperar o fôlego. Ambos viraram o rosto para o lado e riram de ver o estado do outro.
" – Não minta pra mim, Kennedy. Com que frequência fizemos sexo nesses quinze anos."
" – Hmm, é mais fácil responder com que frequência não fizemos."
" – Você sabe que cedo ou tarde vou descobrir se está mentindo, certo?"
" – Não fazemos quando trabalho a noite e o dia inteiro, não fazemos quando alguém esta doente... mas tem que ser doente mesmo, já cansamos de passar resfriado um pro outro quando transávamos doentes só porque "nem era tão doente assim"... As vezes não fazemos quando brigamos... Mas já transamos brigados também... e até já transamos brigando... Não fizemos quando você estava em coma, e tivemos.. práticas sexuais limitadas... durante os primeiros quatro meses de gravidez do Philip devido a uma ameaça de aborto. Acho que foi só... só isso tudo."
" – Práticas sexuais limitadas?"
Com um puxão Leon a trouxe para perto de si, e com um sorriso maroto percorreu sua coluna até a base com os dedos, depois insinuando-os por entre as suas nádegas. " – Digamos que quando o médico proibiu o tradicional tivemos que procurar vias alternativas..."
" – Ah... entendi." – Ela respondeu tirando a mão boba dali o mais rápido possível, antes que fosse tarde.
" – O que foi?" – Ele procurou não rir alto. " – Não foi só durante esses quatro meses... Para falar a verdade, eu devo confessar que algo assim me passou pela cabeça no dia em que eu te conheci, e eu não sosseguei até conseguir. Que homem que sã consciência ia ter um rabo desses em casa sem com..."
" -Tá!" – Ada o interrompeu empurrando-o para o lado outra vez. "Ok Kennedy, parece que além de amor você teve algo mais de mim que nenhum outro teve..." Pensou. " – Mas hoje não!"
Ele fez beicinho. " – Amanhã?"
Ada virou para o lado ignorando a pergunta e por fim, respondeu. " – Vou pensar no seu caso." Olhou para Leon uma ultima vez por cima do ombro e flagrou o sorriso quase diabólico que brotou dos lábios dele. Deixou que ele a abraçasse e se aninharam para dormir.
" – Amanhã temos que fazer compras de natal..." – Ele murmurou enquanto fechava os olhos cansados. " – O que você quer de presente?"
Ela sabia que ele já estava adormecendo, mesmo assim respondeu baixinho. " – Que esse sonho nunca acabe."
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Acordou. Mas não conseguiu abrir os olhos. Estava lúcida, mas cega. Queria gritar, mas a voz não saia. A dor era alucinante, como se a cada momento enfiassem e tirassem agulhas quentes de sua cabeça. Sentia as lágrimas escorrendo, mas mesmo assim seus olhos não abriam.
Conseguiu gritar, então abriu os olhos, não conseguia identificar o que via, eram luzes, eram sombras, eram pessoas caminhando. A dor alucinante atacou novamente, rezou para que sua cabeça explodisse e ela pudesse finalmente morrer em paz. Quando abriu os olhos outra vez, estava de volta ao seu quarto, com Leon dormindo ao seu lado.
" – Leon..." Ela chamou. Quando viu que ele não acordava, o sacudiu. " – Leon... acorda. Por Favor." O sacudiu com mais força, deu tapas neles. Quando viu que ele não acordava, começou a chorar. Então as agulhas a queimaram outra vez, como se entrassem e saíssem de seu cérebro, sem pena.
Sentiu o corpo cair contra o chão frio enquanto se debatia de dor e frio, por quanto tempo sofreu assim, não saberia dizer. Pensou que estivesse alucinando, talvez convulsionando... quem sabe entrando em coma outra vez. Quando a dor cessou, seu mundo era só escuridão e agonia. Sem entender o que estava acontecendo, e com muito esforço, conseguiu abrir novamente os olhos.
Ada fitou o chão frio e molhado feito de pedras, o próprio corpo nu e todo machucado. O lugar era escuro e a única luz vinha de um foco não tão distante e nem tão forte, mas qualquer luz parecia machuca-la. Tentou ficar de pé e então percebeu que não conseguia se mover. Só então enxergou os sapatos de um homem caminhando em sua direção e quando ele se abaixou para falar com ela.
" – Dormiu bem, Ada Wong?"
" – D... Desmond." – Ela finalmente conseguiu falar.
Continua...
