Disclaimer: Saint Seiya pertence a Masami Kurumada e Toei, todos os direitos reservados. Fic sem fins lucrativos.

O sobrenome "Dmitris" para os gêmeos foi dado pela Maia Sorovar, créditos a ela.

Sinopse: Universo Alternativo. Toda família tem um segredo escondido dentro do armário, sob o porão ou em uma propriedade afastada, não? Mas em algum momento o sangue haveria de transbordar... (fic em resposta ao Desafio Halloween do grupo "Saint Seiya Ficwriters" - Facebook).

AVISO: Esta fic contém violência (um tanto gráfica) e assassinato.


KATARAMÉNOS

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CAPÍTULO 1 - ESPELHO

O primeiro pensamento de Saga Dmitris ao atravessar os grandes portões de ferro do antigo e algo decadente casarão nos arredores de Cálcis foi que não imaginava como aquela construção ainda se mantinha em pé. Havia uma aura quase mórbida naquela casa de madeira escura e úmida, talvez - não duvidava - já bastante carcomida pela maresia que a afligia no alto daquele penhasco.

Não conhecia a existência daquela propriedade. A bem da verdade, já estivera em Cálcis uma vez a negócios e, se soubesse, não se daria ao trabalho de procurar por um hotel do outro lado da cidade. Hotel, aliás, que havia sido indicado por seu próprio pai.

Aliás, não era como se seu pai não se lembrasse daquela casa. Soubera que havia estado por lá uma última vez, na semana anterior à sua morte.

Tudo bem. Aquele hotel sem dúvida era muito mais agradável do que aquele lugar.

Olhou ao redor. A grama malcuidada, seca, já bastante alta, denunciando o descaso de seu caseiro, algumas árvores esparsas; uma morta, outra em vias de seguir o mesmo caminho. Pôde ver, preso a um galho do tronco que definhava, o que parecia ser uma corda já um tanto antiga. Perguntou-se se alguma criança, algum dia, havia se divertido em um balanço ali. Talvez o filho do caseiro...?

Caseiro, por sinal, que sequer se dera ao trabalho de buscá-lo na estação, mesmo tendo avisado que não iria de carro. Sequer havia sido avisado que não seria recebido, o que o obrigara a tomar um táxi. Afinal, onde estaria o senhor... qual era o nome dele, mesmo?

O inverno naquela região era bastante ameno, mas também trazia a umidade de que os famosos verões gregos costumavam carecer. Ao longe, via chegando do mar uma provável tempestade, cujos ventos já se faziam sentir. Saga suspirou, percorrendo a trilha de pedra que subia até o agorento casarão que agora era dele. Felizmente haviam lhe dado uma cópia da chave, pois parecia que ninguém viria recebê-lo.

Por dentro, a casa era muito mais escura do que o exterior já prenunciava. Móveis muito antigos, o piso rangendo sob seus pés. Diferentemente das outras propriedades de seu pai, aquela não possuía quadros da dinastia Dmitris. Talvez se estivesse em uma terra mais úmida já teria sido totalmente dominada pelo mofo, mas aqui e ali a umidade dos ventos marítimos haviam feito seu trabalho.

Ao parar de andar, o piso silenciou. O mundo inteiro parecia ter silenciado.

Que lugar angustiante! Como seu pai ainda havia se animado a ir até aquele lugar antes de morrer? Certamente aquilo pioraria seu quadro respiratório. A casa estava relativamente limpa, mas parecia abandonada desde que seu pai se fora.

Sentiu seu celular vibrar antes mesmo de começar a tocar. Atendeu rapidamente.

- Saga! – A voz preocupada de sua noiva, Saori Kido, soou através do aparelho – Já chegou? Está tudo bem?

- Sim, querida... acabei de chegar. Não se preocupe...

Saori. A jovem herdeira de um magnata japonês, que havia conhecido durante a faculdade nos Estados Unidos. A globalização tem dessas coisas...

- Você sabe que não adianta me pedir isso... você acabou de perder o seu pai. Já resolvi o que tinha de resolver na Fundação aqui em Tóquio, posso estar aí com você depois de amanhã.

- Não se incomode, Sa. Sério, eu estou bem. A casa precisa de muitos reparos, é antiga e malcuidada. Melhor esperar um pouco, sim?

- Saga...

- Agradeço sua preocupação, amor.

- Ficarei em um hotel, então. Só sei que deixá-lo sozinho numa hora dessas é tudo o que eu não posso fazer.

Saga se permitiu sorrir. Não conseguiria demovê-la, por certo.

- Como quiser, então... – Pôde praticamente visualizar o sorriso da japonesa do outro lado da linha.

- Estarei aí depois de amanhã. Cuide-se bem, amor...

- Você também. Te amo...

Desligou o aparelho com uma sensação estranha. Não era como se não desejasse a companhia de sua noiva, ainda mais em uma situação tão difícil quanto aquela. Entretanto, algo em seu peito o oprimia. Era como se realmente precisasse de um tempo sozinho ali.

Por mais que a casa lhe transmitisse uma desagradável sensação de abandono, o quarto principal parecia em boas condições; Saga se instalou até confortavelmente para o que esperava até ali. A janela vibrava com o vento cada vez mais forte do lado de fora, trazendo-lhe um ruído de fundo que amenizasse aquela solidão.

Não que seu pai tivesse sido próximo ou extremamente carinhoso. O todo-poderoso patriarca da família - ou dos resquícios dela, uma vez que Saga não possuía avós, tios nem primos até onde sabia - sempre fora um homem sério, totalmente voltado à gerência dos bens do clã Dmitris. Contudo, o inatingível Aspros Dmitris sempre demonstrava, ainda que não de forma explícita, que se importava muito com o único filho.

Nunca mais receberia outro telefonema dele.

Não era um homem exageradamente emotivo - talvez isso se devesse à sua criação sóbria - mas sentiu os olhos arderem ante aquele pensamento. Sabia que seu pai já não apresentava boa saúde, mas tudo lhe parecia tão repentino! O teimoso Aspros sempre lhe omitia detalhes de suas condições, de forma que ao retornar à Grécia, um mês antes, surpreendera-se ao encontrar seu pai acamado, tossindo muito e já visivelmente combalido. Bem que havia desconfiado de algo errado, uma vez que seu pai não costumava chamá-lo de volta à casa com tamanha urgência. Talvez apenas quisesse se despedir de seu filho antes de partir…

Três semanas haviam se passado desde a morte de seu pai e Saga, embora extremamente profissional, sentia que ainda não conseguira superar completamente a fase de luto. E estar sozinho ali naquela propriedade quase mórbida parecia intensificar aquela dor.

Pois que doesse! Que a expurgasse! Era pra isso, de certa forma, que tinha tentado evitar a vinda de Saori e que havia dispensado a companhia do serviçal de confiança da família, que permaneceu em Atenas. Precisava resolver aquela dor sozinho, lidar consigo mesmo. A solidão ajudava a trazer o sofrimento à tona, e assim, a encarar o problema de frente. Naquela casa, permitia-se despir da aparência forte e madura que externava desde aquela maldita manhã de novembro em que Gigars, o devotado serviçal que dedicara sua vida inteira à família, entrara em seu quarto desesperado anunciando o falecimento de seu patrão. O empresário bem-sucedido havia ficado em Atenas; em Cálcis, apenas a carcaça deprimida de um filho único e profundo admirador de seu pai, e que se sentia sozinho no mundo.

Carcaça?

Talvez o empresário sim fosse sua carcaça, e ali diante do espelho estivesse de fato seu verdadeiro eu: um garoto assustado com a perda de seu único familiar e seu porto seguro.

Tomou um longo e reflexivo banho, imaginando se seu pai havia também se utilizado daquela banheira antiga uma semana antes de seu falecimento. Não viu o tempo passar, saindo dali apenas quando a água já havia esfriado.

Encarou o espelho do quarto. O corpo alto e forte nu, os longos e úmidos cabelos loiros caindo por suas costas. Havia se saído demasiado a Aspros fisicamente. Os olhos azuis sempre tão perspicazes e atentos pareciam carecer de algum brilho. Até mesmo sua imagem refletida lhe parecia melancólica demais.

Não havia comido nada desde Atenas. Talvez devesse pedir comida por telefone, mas não tinha fome naquele momento. Na verdade, tudo o que sentia era uma vontade de permanecer inerte por horas e horas, até aquela sensação opressiva passar, até tudo ao seu redor se normalizar.

Não teve forças sequer para trocar a roupa de cama. Deixou-se cair sobre o colchão macio e adormeceu, buscando em vão por algum resquício do cheiro de seu pai entre os travesseiros.

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Sonhou com seu pai.

Seu pai estava diferente de como se lembrava: não o velho algo ranzinza e orgulhoso que se fazia de durão, nem o resto que definhava na cama da última vez que o vira vivo. Estava jovem como nos retratos que permeavam a casa, exibindo o pleno vigor estético que a linhagem masculina dos Dmitris parecia preservar intacta geração a geração.

Os deuses gregos da alta sociedade ateniense, como seu pai gostava de se gabar. Buscava um resto de orgulho em seu sangue, já que os Dmitris não eram muito generosos quanto à geração de descendentes.

Deuses gregos em extinção.

Seu pai o fitava, os cabelos esvoaçando ao vento. Estavam em uma praia deserta, algo pedregosa, talvez parecida com a que costeava a propriedade de Cálcis. Foi até ele.

Eram praticamente iguais!

Levou uma mão ao rosto rejuvenescido de seu pai, vendo-o sorrir e retribuir o gesto. Os dedos algo calejados - que não correspondiam à realidade, mas Saga poderia perdoar aquela pequena inexatidão onírica - deslizavam por sua face como se estudassem cada traço, como se reconhecessem a textura de sua pele.

Sentiu-o colar a testa à dele e fechou os olhos, apreciando aquele contato que sempre havia sido raro em sua vida.

Ele cheirava a maresia…

- Somos iguais… - A voz do outro soou rouca aos ouvidos de Saga.

Abriu os olhos devagar.

Olhos azuis.

O choque foi tão grande que seu grito ficou preso na garganta. Aquele homem sobre si… idêntico ao homem do sonho que pensara ser seu pai… não, idêntico a Saga… havia enlouquecido de vez? Seria um outro sonho?

Sentou-se na cama deslocando o outro, a musculatura tensa. Lutar ou fugir, dizia cada molécula de adrenalina em seu sangue naquele momento.

- Q-quem… quem…?

O outro homem suspirou. Seu olhar fixo em si lhe causava estranheza - mais selvagem, arredio, mas ainda assim trazendo um traço de melancolia.

O outro abriu a boca e a resposta, em um tom enrouquecido e perceptivelmente amargo, tinha um timbre muito parecido.

- Eu…? Eu sou o Segundo

CONTINUA...


Notas finais do capítulo:

Capítulo 1 postado, galera!

Não sei dizer se o Saga ficou muito OOC ou algo assim (o Aspros eu acho que ficou, mas convenhamos, o papel é meio icônico XD). Ele me passa uma melancolia na série por tudo o que fez e vivenciou (estou falando, obviamente, do Saga sem o uso de "dorgas" XD). Aqui, quis mostrar uma certa fragilidade da parte dele - que busca transparecer segurança diante de outras pessoas (como a noiva e os outros que o cercavam ante a morte do pai), mas sofre em silêncio. Confesso que até imaginei uma situação ao Saga espectro que liderava os cavaleiros renegados mas que, no íntimo (e Mu pôde ter apenas um lampejo), chorava lágrimas de sangue junto a seus companheiros.

Eu não costumo escrever fics excessivamente descritivas, então espero que o tom tenha sido bacaninha. E claro, o capítulo ficou viajado como tudo o que me meto a escrever -qqq

De resto, não tenho muitos comentários a fazer (que eu me lembre -q), pelo menos por enquanto. Só espero conseguir terminar a fic amanhã x.x'' Ah, é: como já perceberam pelo Saga loiro, estou usando a aparência do mangá, ok?

Respondendo aos comentários que já chegaram:

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Darkest Ikarus - Ikarus-sama! Ah, nem sei dizer como minha cabeça funciona com títulos, sai cada coisa… é uma das partes mais difíceis (o resumo também costuma ser um parto) pra mim, exceto quando tenho a sorte de um insight x.x Mas minha Musa é por definição taurina como eu, digo, preguiçosa [apanha].

Sério que ficou intrigante? Que bom, huahuahua XD Quem será esse ser terrível? Bão, veremos… confesso (acho até que comentei com você) que inicialmente o prólogo ia ser só a carta, mas hoje quando fui postar me veio essa vontade de… mostrar um pouquinho de algo que descobriremos mais à frente.

Quanto ao fato de a fic ser previsível, talvez o prólogo nem fosse tanto, mas a partir deste capítulo as coisas ficam meio assim. Ou então sou eu que adoro ficar criando teorias da conspiração nas fics dos outros, catando detalhes aqui e ali e acho que todo o mundo fica cismando também XD [apanha] Este capítulo foi bem mais tranquilo (pelo menos ninguém perdeu o "amiguinho" desta vez), espero que curta a continuação x.x Kissus!

Aredhel - Credo, comassim, eu sou uma pessoa tão de boa… foi só uma ceninha à-toa… 9.9 [apanha] Bom, o que se passa na cabeça do psicopata certamente será abordado mais pra frente. Espero não me embananar, já que quando tento explorar os pensamentos dos personagens acabo viajando demais x.x Espero que curta a continuação, kissus!

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Bom, é isso, galera! Amanhã tem mais! (Espero x.x)

Kissus e até o próximo capítulo!

Lune Kuruta (30/10/2013)