Disclaimer: Saint Seiya pertence a Masami Kurumada e Toei, todos os direitos reservados. Fic sem fins lucrativos.

O sobrenome "Dmitris" para os gêmeos foi dado pela Maia Sorovar, créditos a ela.

Sinopse: Universo Alternativo. Toda família tem um segredo escondido dentro do armário, sob o porão ou em uma propriedade afastada, não? Mas em algum momento o sangue haveria de transbordar... (fic em resposta ao Desafio Halloween do grupo "Saint Seiya Ficwriters" - Facebook).

AVISO: Esta fic contém violência (um tanto gráfica) e assassinato.


KATARAMÉNOS

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CAPÍTULO 2 - OS OUTROS

Estaria sonhando ainda?

Observou atentamente o outro homem que o fitava sentado na cama. Como poderia ser possível? Era idêntico a si! Mais idêntico até do que aqueles retratos - algo falseados, convenha-se - da juventude de seu pai.

A bem da verdade, havia algumas diferenças, de fato. Agora que o choque já havia passado, reparou em suas roupas mais simples, rasgadas aqui e ali; nas mãos mais calejadas, cujo toque já havia sentido; na pele aparentemente mais ressecada, nos cabelos malcuidados. A compleição física era a mesma - alto, ombros largos -, contudo parecia um pouco menos saudável.

Tudo bem, as poucas diferenças que existiam entre eles eram perceptivelmente frutos de condições distintas de vida. No entanto, descontando-se aquelas diferenças esculpidas pelos ambientes visivelmente opostos, era claro que a similaridade física era grande demais, extraordinária demais.

Não era possível que duas pessoas no mundo fossem tão parecidas!

A menos que fossem...

Passaram-se longos segundos de um silêncio pungente. Saga simplesmente não tivesse resposta para o que havia acabado de ouvir, nem para a informação bizarra que se desenhava em seu cérebro. O outro sorriu ligeiramente ante a mudez do visitante e resolveu retomar a palavra.

- Chocado, né? Eu também fiquei quando o vi pessoalmente, Saga. Conhecia sua existência, mas estar de frente com você é bem… estranho.

- Eu… eu não sei o que dizer… - Saga percebeu que sua voz, rouca de choque, estava até mais parecida com a do outro - Você… você sabe meu nome… - Murmurou tolamente em adendo.

- Como não saber? - O outro pareceu mais amargo - Você era o Primeiro, o filho escolhido, o herdeiro dos Dmitris…

Saga pigarreou para retomar o foco na conversa.

- O que quer dizer com isso de "primeiro" e "segundo"?

O outro suspirou ligeiramente enfadado.

- Imaginei mesmo que o velho não se atreveria a lhe contar tudo, mesmo em seu leito de morte. Orgulhoso e imbecil demais pra permitir que o Primeiro se desiludisse com o que ele fez. Bom, acho que eu mesmo terei de lhe dizer a verdade, Saga…

Levantou-se. Saga fez menção de acompanhá-lo, mas sentiu o mundo girar ao redor de sua cabeça ao se erguer rapidamente da cama, e acabou por se sentar novamente, tonto. Sua cabeça pesava. Suas mãos estavam geladas. O jejum prolongado finalmente cobrava seu preço.

Sentiu braços firmes o ajudarem a se levantar e se apoiou cegamente no outro. De alguma forma meio torta, confiava nele.

- Melhor conversarmos depois de comer alguma coisa. Venha, eu ajudo você a chegar à cozinha…

Saga ergueu o rosto para o outro, deparando-se com um sorriso tranquilo.

- Obrigado… er…

- Kanon - O sorriso do outro se alargou - Meu nome é Kanon.

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Saga não havia percebido que dormira por algumas horas. Já havia anoitecido e a cozinha estava às escuras. O vento soprava furiosamente do lado de fora, anunciando a tempestade que visualizara no horizonte mais cedo e fazendo o casarão ranger em resposta.

- A iluminação elétrica não é lá essas coisas em dias de tempestade como este… - Kanon deu de ombros, acendendo algumas velas - Velas ajudam um pouco caso a luz comece a oscilar. Coma uma maçã enquanto preparo o jantar...

Saga aceitou a maçã sem muito pensar, mordiscando-a. Tinha os olhos fixos no tampo da mesa de madeira, razoavelmente grande mas jamais comparável à imponente sala de jantar que tinham na propriedade principal. Era um lugar obsoleto que nem de longe remetia à opulência de sua família. E Kanon teria crescido ali…? Ouvia-o cantarolar distraído enquanto mexia com panelas e, logo, um agradável cheiro de ensopado de carne preencheu o ar. Sentiu sua barriga roncar baixinho em resposta - a maçã lhe abrira o apetite.

Alguns minutos depois, um prato foi colocado em seu campo de visão.

- Você é sempre assim calado? - Kanon lhe sorriu, servindo-lhe uma generosa porção do ensopado e fazendo o mesmo para si - Coma, depois conversamos.

Saga não fez objeção. Parecia estar em modo automático, sua mão levando mecanicamente a colher à boca - uma e outra vez, e logo seu prato estava praticamente vazio. Aquele ensopado parecia reanimá-lo a cada colherada, aquecê-lo por dentro. Logo a apatia ia sendo suplantada por sua natural curiosidade.

- Não quer mais? - Inquiriu Kanon, divertido.

- Estava realmente bom. Talvez eu repita mais tarde, mas preciso de respostas agora.

- Como por exemplo...?

- A verdade.

Kanon não se importou com o tom sério do outro; na verdade, parecia extremamente bem-humorado, bem menos amargo do que no quarto. Soltou uma gargalhada que ecoou pelo recinto.

- Você é mesmo um estraga-prazeres, Saga! Espere pelo menos a sobremesa…verdades amargas não combinam com um jantar especial como este.

- E este é um jantar especial?

Kanon deu uma piscadela divertida.

- Claro! Não é todo dia que conhecemos pessoalmente nosso irmão gêmeo, não é mesmo?

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Oito da noite, anunciou o relógio-cuco na cozinha.

Saga piscou, desnorteado. Não era uma conclusão absurda. Na verdade, era o que a lógica gritava em sua cabeça. Entretanto, aquele fato verbalizado tão displicente pelo outro parecia ter lhe desferido um soco.

Kanon arqueou uma sobrancelha, ligeiramente descrente.

- Saga, não creio que isso seja tão surpreendente pra você. Quero dizer, olhe pra mim. Olhe pra nós! O que mais seríamos? Clones alienígenas?

Saga soltou um risinho exasperado, passando as mãos pelos longos cabelos.

- Claro, claro que era a resposta óbvia, mas eu… entenda, diferentemente de você, eu não…

- Você não sabia que eu existia - Kanon completou tranquilamente - Tudo bem, eu entendo.

- Hum… você cozinha muito melhor que eu - Tornou Saga em um tom de desculpas, fazendo o outro sorrir.

- Pois então fique à vontade para comer mais!

Saga se serviu novamente com um sorriso mais aberto.

- Não há empregados aqui? Pensei que houvesse ao menos um caseiro… até tinha falado ao telefone com ele avisando de minha chegada, mas não encontrei ninguém na estação…

A resposta de Kanon que se seguiu soou displicente, mas por algum motivo Saga sentiu que o outro escolhia cuidadosamente as palavras:

- Ah… bom, havia sim. O senhor Yohma… ele partiu hoje de manhã.

- Partiu…? Foi-se embora? Poderia ao menos ter me avisado…

- Ele não perderia a oportunidade de enganar um Dmitris nem que fosse pela última vez - Kanon deu de ombros, parecendo um pouco mais à vontade - Enfim, este é um assunto indigesto que entra pra parte de "verdade" que você logo conhecerá. Por enquanto, esqueçamos o senhor Yohma. Agora me conte tudo de você: seus estudos, seus amigos, sua noiva…

Saga o fitou um tanto surpreso. "Saber da existência" dele era o mínimo; Kanon parecia ciente de um pouco de tudo em sua vida. A expressão de Kanon, mais do que curiosidade, transparecia uma avidez quase assustadora. Parecia beber cada palavra de suas respostas.

O jantar transcorreu assim, com Saga contando sobre si e Kanon apenas o ouvindo. Lá pela sobremesa - maçãs caramelizadas - foi que Saga se permitiu externar aquela cisma que vinha crescendo a cada relato.

- Você sabe muito de mim, mas não sei mais nada de você. É um tanto injusto, não acha?

Kanon pareceu considerar a ideia por um momento.

- Sei que é óbvio, mas minha história, assim como a do senhor Yohma, também faz parte da verdade que você quer ouvir.

- Pois estou pronto para ouvi-la!

Kanon suspirou, levantando-se.

- Para isso, quero que me acompanhe a um lugar. Antes que chova, pelo menos.

- Que lugar?

- Não se preocupe, é aqui na propriedade mesmo. Preciso que acredite no que vai ouvir, apenas isso.

Saga hesitou por um momento. A expressão de Kanon parecia um tanto mais sombria. Temendo o que iria encontrar, acabou por segui-lo receoso.

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Ventava muito, o céu sem nenhuma estrela, mas ainda não chovia. Duas silhuetas idênticas estavam sentadas em um banco de balanço na varanda. Kanon balançava ligeiramente o banco, fazendo-o emitir um rangido um pouco agourento, e tinha os olhos perdidos no negrume da noite silenciosa.

- Gosta de contos de fadas, Saga?

O irmão o fitou sem entender. Kanon prosseguiu, o olhar ainda distante.

- Era uma vez… há uns dois séculos, talvez, um Dmitris que, de passagem por um vilarejo, encantou-se por uma bela mulher e a desposou. Não me pergunte o nome dele, Yohma não me contava. Acho que Caim soa bem demais, não acha?

Saga não tinha o que responder.

- De qualquer forma… este nobre antepassado se casou com ela. Só que ele acabou por ter como amante a irmã gêmea dessa mulher. Imagine…

- Hum… - Saga não fazia ideia de onde a história iria dar, mas se mantinha atento.

- A irmã acabou descobrindo a traição do marido, mas foi obrigada a aceitar. Aparentemente ela tinha algum problema de saúde que a impedia de engravidar, e ela estava sendo obrigada a tolerar que a linhagem dos Dmitris fosse passada adiante através de sua própria irmã... de qualquer forma, a amante engravidou e a animosidade cresceu entre os três. Mas imagine, a nobre e traída Senhora Dmitris era descendente de ciganos. Dados a feitiçarias e tudo o mais.

- Isso é… novelesco, e um tanto preconceituoso - Observou Saga, arqueando uma sobrancelha. Kanon deu uma risadinha.

- Só conto o que me foi dito. Enfim, as duas eram descendentes de ciganos, e a irmã traída, que era a mais velha, enlouqueceu com aquela situação. Em praça pública, veja você, lançou uma maldição sobre eles... que a linhagem dos Dmitris seria composta por dois tipos de descendentes: os virtuosos como ela e os malditos como sua irmã. E que a linhagem definharia por conta disso. Sabe o que aconteceu, Saga?

Kanon finalmente voltou o olhar para o irmão, o semblante grave.

- A mulher, dada como desequilibrada e possuída, foi apedrejada até a morte pelos populares. Os filhos de Caim nasceram alguns meses depois. Gêmeos.

- Você está querendo dizer…?

- Você entende, não é? A princípio, nosso Caim não acreditava em maldição alguma. Contudo, percebia que as duas crianças cresciam com temperamentos opostos. O mais velho era inteligente, obediente, enquanto o mais novo era esquivo e destemperado. Conta-se que uma vez, ainda jovens, o gêmeo caçula tentou assassinar o primogênito com uma faca durante a noite.

Saga engoliu em seco.

- A tentativa acabou falhando e o mais novo, ainda garoto, foi assassinado pelo próprio pai. E foi assim, Saga, que a tradição teve início. Porque a cada geração que se sucedia, sempre nasciam gêmeos. E para evitar complicações, o último bebê a nascer era morto assim que deixasse o corpo da mãe…

Saga perdeu o fôlego por um momento.

- Mas que história absurda! E equivocada. Nossa linhagem sempre foi de filhos unigênitos! Isso até frustrava meu pai, ele sempre dizia que sonhava com um clã numeroso!

- Ah, aí é que se engana, Saga. Aqueles retratos que estampam as paredes da sua casa não são de Dmitris unigênitos. São de sobreviventes. Dos Primeiros. São dos Dmitris que tiveram a bênção de nascer sob a boa estrela. Todos eles, nosso pai e você foram os Primeiros. Os que mereciam viver.

- Mas você também sobreviveu...

- Bom, esta é a segunda parte da história.

Kanon suspirou, lançando um olhar ao teto da varanda.

- Sabe como esta casa é chamada, Saga? O Templo do Fracasso. Esta casa, construída por nosso bisavô, é um monumento à fraqueza dos Dmitris.

Tornou a fitar Saga.

- Nosso tataravô se chamava Abel, e isso você já sabe. O que não sabe é que ele não teve coragem de matar o próprio filho recém-nascido como faziam os que vieram antes dele. Para esconder sua fraqueza do pai, mandou o bebê para longe, mas ainda assim não teve coragem de lhe dar suporte. Construiu esta casa, que na verdade é uma prisão para os filhos malditos dos Dmitris.

"Sim, houve outros como eu. Irmãos de nosso trisavô, nosso bisavô, nosso avô e nosso pai. E agora… eu. Assim como nossos antepassados malditos, fui segregado da família e deixado aqui, condenado a passar o resto da minha vida tratado por um caseiro de extrema confiança como um pária, como um animal raivoso de quem ninguém pudesse se aproximar. A expectativa de vida nunca é grande… parece que esperam a gente enlouquecer e se matar, ou então definhar e morrer em depressão. De todos, sou o que viveu mais tempo".

Era uma história surreal, de fato. No entanto, o olhar de Kanon o tocava profundamente. Era perceptível que o outro havia sido, de fato, afastado da família. E tudo por conta de uma lenda estúpida? Teria seu sempre austero e cético pai acreditado naquela história de maldição?

- Às vezes, durante meus acessos de raiva na adolescência, era simplesmente acorrentado e aprisionado em uma caverna atrás deste penhasco com uma máscara horrenda para não gritar… - Kanon continuou seu relato - A maré subia e chegava a pensar que morreria ali. Se não me engano, foi lá que nosso bisavô morreu. Também apanhei muitas vezes de cinta, fui amarrado no porão e coisas do tipo. Apesar disso, Yohma sempre me educou. Através dos estudos com ele, pude conhecer um pouco do mundo.

Saga franziu a testa. Alguma coisa no tom que Kanon usava ao se referir ao ex-caseiro lhe causava estranheza. Tentou sondar um pouco mais a relação entre eles.

- Yohma foi como um pai pra você, então?

- Bah! Ele não dava ponto sem nó - Kanon franziu a testa de volta, em um gesto quase idêntico a Saga - Pelo menos não me manteve totalmente alienado.

- O que quer dizer com "não dava ponto sem nó"...?

Contudo, Kanon já havia se levantado. Pegou uma lanterna que trazia consigo e se virou para Saga.

- Logo irá começar a chover. Venha. Agora que já conhece a história, quero lhe mostrar uma coisa...

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A grama alta farfalhava enquanto avançavam, a frágil luz da lanterna iluminando parcamente a vegetação ressecada. Não conversavam. Saga hesitava um pouco em seus passos, receoso em não enxergar alguma pedra ou cobra oculta no mato malcuidado; Kanon, porém, ia confiante à frente Estavam se afastando da trilha de pedras da entrada, indo em direção aos fundos da propriedade.

Foi quando Kanon estacou em um ponto no meio do gramado alto.

- Ei-los…

O coração de Saga falhou uma batida. O facho difuso iluminava placas de pedra um pouco espaçadas entre si. Placas que lembravam muito…

- Túmulos - Murmurou Kanon com certa amargura - Ainda se preocupam em dar túmulos aos amaldiçoados, quem diria? Bem poderiam amontoar os cadáveres e deixar a natureza se incumbir do resto, seria muito mais coerente com a postura deles… aquele espaço ali - indicou uma área de grama mais rala - está reservado para mim.

- Não… não diga tolices…! - A voz de Saga saiu atordoada.

- Mas não é este o nosso destino, cedo ou tarde? Somos os Segundos, e a cada instante que passamos vivos reiteramos a fraqueza e a covardia dos Dmitris…

- Covardia?! - Saga se indignou - Maior covardia do que matar crianças inocentes?!

- Quanta inocência, Saga… não imagina o quão misericordioso isso teria sido.

Saga estremeceu com o tom de voz do irmão. Kanon prontamente se refez, indicando um túmulo em particular.

- Queria saber o porquê de nosso querido pai ter vindo a este lugar? Pois aqui o tem…

Um dos túmulos, de fato, parecia melhor cuidado que os outros. Era relativamente o mais recente, e sobre ele havia um ramalhete ressecado de flores - talvez tivessem sido frescos crisântemos um mês antes. Diferentemente dos outros túmulos, havia algo gravado na pedra. Um nome.

Defteros Dmitris.

- Defteros…?

- Nosso pai… - Murmurou Kanon fitando a lápide - Sempre vinha visitar este túmulo. O túmulo do irmão dele, nosso tio. Nessas ocasiões Yohma sempre me trancafiava naquela maldita caverna, sem comida nem nada. Nosso pai não queria me ver, não queria se lembrar de sua fraqueza. Só queria ver o irmão…

Fitou Saga.

- Nosso pai chegou a conhecer o irmão ainda vivo. Descobriu a existência desta casa por acaso, ainda adolescente, e aproveitou um "acampamento de verão" para enganar nosso avô e vir para cá. Foi assim que conheceu o irmão e a história da nossa família.

"É estranho dizer isso daquele homem, mas nosso pai realmente parecia amar nosso irmão, mesmo tendo acabado de conhecê-lo. Naquele verão em que passou escondido nesta casa, fez planos para libertar Defteros. Queria que caíssem juntos no mundo, vivessem livres. Retornou a Atenas para pegar todo o dinheiro que tinha, prometendo voltar. E quando retornou… Defteros estava morto".

- O quê?!

- Havia se matado e deixou uma carta dizendo que não queria ser um "peso" para o irmão - Kanon deu uma risadinha seca - Você acha? Que ele se matou mesmo? Tenho certeza de que não.

- E o que teria ocorrido, então? Teriam descoberto os planos dos dois? Foi… foi nosso avô?

- Como você acha que eu teria conhecimento desta história, se não fosse pelo cretino Yohma? Ele sabia de tudo. Com certeza agiu para que os dois não estragassem os planos dele.

- Que seriam…?

- Isso não importa agora. Tudo o que importa é que isso provavelmente foi um grande baque para nosso pai. E justo ele, que havia prometido acabar com essa palhaçada, terminou por me segregar assim que nasci, da mesma forma como o pai dele havia feito com Defteros.

Saga levou a mão aos cabelos. Era informação demais, eram sentimentos demais.

- Meu pai…

- Provavelmente eu o lembrasse do irmão morto - Pontuou Kanon - Acho que ele se sentia culpado pela morte de nosso tio. Mas que se foda, não sinto pena nenhuma. Ele se agarrava pateticamente a um túmulo e trazia flores enquanto o filho definhava sem ele se importar.

Saga se pôs a refletir sobre algumas atitudes de seu pai. O fato de exaltar a semelhança física entre eles, o fato curioso de não manter espelhos em seu quarto. Seria de fato o fantasma de seu irmão gêmeo que o perseguia sem que ele pudesse pedir ajuda? Afinal, revelar aquilo traria à tona a existência da casa de Cálcis… a existência de Kanon… e o fato de que o irmão corajoso que tentara romper a corrente maldita acabou fazendo a mesma coisa que todos os outros.

Talvez aquela fosse a verdadeira maldição dos Dmitris. O peso do silêncio ante o assassinato de inocentes, fosse de forma violenta, fosse de forma conivente.

Seu olhar se perdeu na lápide por um momento.

- Isto acaba aqui.

- Como disse?

- Acabou, Kanon - Saga se virou para o irmão mais novo - Você vem comigo. Chega dessa palhaçada, desse conto de terror! Você não precisa mais ficar acorrentado a este lugar!

O outro sorriu melancólico.

- Outro de nós também já ouviu isso antes… - Fitou o túmulo de Defteros.

- Eu não sou nenhum moleque precisando de permissão ou de fugir de casa - Saga pousou as mãos nos ombros largos do gêmeo - Eu vou cuidar de você agora. Confie em mim…

Olhos nos olhos. A expressão de Saga firme, a de Kanon reticente. O primogênito acabou por puxar o outro para um abraço forte, transmitindo-lhe segurança.

- Eu estou aqui agora. Não tem "primeiro" nem "segundo", isso acabou…

Kanon finalmente sorriu, afastando-se alguns centímetros apenas para poder olhar para o rosto de seu irmão.

- Vou confiar, então…

A chuva começou a cair e os dois irmãos retornaram à casa, abraçados. Saga não queria parar para pensar muito na história de seus antepassados; pretendia apenas recomeçar do zero com seu irmão, acabando de uma vez por todas com aquela maldição de sangue.

Perdera um pai e, depois daquela história, um herói. Contudo, ganhara um irmão. E cuidaria dele com toda a dedicação.

CONTINUA...


Notas finais do capítulo:

Capítulo 2 finalmente postado! x.x E não, infelizmente não vai rolar de terminar a fic hoje (ou ontem, já que passou da meia-noite e já é dia 1º). Minha vida anda MUITO enrolada e hoje (ou ontem) tudo saiu do planejado. Vou terminar a postagem da fic até no máximo (estourando) domingo; mas mais provavelmente sábado...

A história da maldição ficou muito viajada, né? x.x O importante mesmo são os desdobramentos dela -q Acabei pegando emprestados os nomes de outros cavaleiros de Gêmeos… além de Aspros (que já havia sido citado no capítulo passado), também tivemos as "aparições" de Defteros de Lost Canvas e Abel/Caim de Next Dimension - embora, além de separados, tenham papeis um tanto distintos n.n'' Sim, suas menções ficaram OOCs e não darei desculpas para tal, só catei os nomes (e no caso de Defteros, o laço com Aspros) merrrmo -q

Kanon… ele está OOC neste capítulo, também. Quero dizer, embora tenha tido alguns lampejos irônicos, faltou-lhe a segurança (e até certa arrogância, vá) que exibe na série. Acho compreensível tendo em vista as circunstâncias desta fic, então neste caso espero que consigam compreender a questão sem pedras n.n'' [apanha]

O final ficou meio meloso e fluffy, né? Bom… acho que dá pra imaginar que este clima não vai durar até o fim, mas não digo mais nada =X

Bom, é isso… espero que amanhã (hoje -q) o dia corra como o planejado e eu poste a continuação u.u''

Kissus e até o próximo capítulo!

Lune Kuruta (31/10… ops, madrugada de 01/11/2013)