Disclaimer: Saint Seiya pertence a Masami Kurumada e Toei, todos os direitos reservados. Fic sem fins lucrativos.

O sobrenome "Dmitris" para os gêmeos foi dado pela Maia Sorovar, créditos a ela.

Nunca vi ninguém usar o sobrenome "Palaiopoulos" para Aioros e Aiolia. Foi opção minha, mesmo.

Sinopse: Universo Alternativo. Toda família tem um segredo escondido dentro do armário, sob o porão ou em uma propriedade afastada, não? Mas em algum momento o sangue haveria de transbordar... (fic em resposta ao Desafio Halloween do grupo "Saint Seiya Ficwriters" - Facebook).

AVISO: Esta fic contém violência (um tanto gráfica) e assassinato.


KATARAMÉNOS

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CAPÍTULO 3 - MEU

Diante de si, erguia-se um trono imponente, em que seu pai se encontrava sentado. Este sorria para Saga, estendendo-lhe a mão.

- Venha, filho… senti tanto a sua falta… venha logo!

Saga sorriu de volta e se pôs a avançar em direção a ele. Seus passos, porém, eram trôpegos, estavam sendo atrapalhados por um piso bastante irregular. Baixou o olhar para o chão.

O chão todo estava apinhado de bebês mortos.

Ofegou ante a visão tétrica. Aquelas crianças estavam cobertas de sangue, jogadas como objetos descartados, e traziam em suas testas a marca de um "M" - marca parecendo ter sido traçada a faca na pele frágil.

Estivera pisoteando aqueles pequenos cadáveres para alcançar seu pai.

- Pai… essas crianças…

Mas seu pai não parecia se importar.

- Saga, você é o meu filho. Meu único filho. Tudo o mais não vale nada… são dejetos amaldiçoados querendo arruinar nossa família…

Exasperado, olhou ao redor. Corpos e mais corpos de crianças. E, mais adiante, acorrentado a uma parede de pedra e com uma máscara ao estilo de uma focinheira cobrindo parte de seu rosto, podia ver Kanon - os olhos vítreos voltados para ele, o corpo nu coberto de vergões e sangue, e a mesmíssima marca em sua testa.

A marca dos Malditos.

- Os deuses escolheram você, Saga - A voz de Aspros Dmitris era suave - Eu escolhi você. Somos os sobreviventes, os Primeiros! Venha para o seu lugar de direito…

Minha culpa…

Havia outro corpo acorrentado à parede, à esquerda de seu pai. Era idêntico a ele. Seu tio Defteros.

Para que um vivesse, o outro deveria morrer…

- Eu escolhi você, Saga!

Seu pai o havia escolhido, e isso provocou a morte de seu irmão…

- Kanon…

- Shhh… aqui, Saga…

Saga abriu os olhos, deparando-se com o rosto igual ao seu. Tudo havia sido apenas um pesadelo, afinal.

Ou não?

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Ainda desnorteado, fitava seu irmão, que permanecia deitado a seu lado.

- Sonho ruim? - Indagou o outro, sorrindo tranquilo. Parecia bastante ciente do tema de seu pesadelo.

- Eu…

Saga não sabia como se expressar. Havia um sentimento amargo dentro de si, uma espécie de culpa pelo simples fato de estar vivo. E não se sentia à vontade em dizê-lo justamente a Kanon, que afinal de contas era a maior vítima naquela história toda.

- Não precisa falar... percebi que você gosta de guardar as coisas pra você, e o que descobriu ontem não é fácil de se digerir - Kanon se levantou, alongando as costas - Nossa, nunca dormi em um colchão tão mole. Nisso acho que prefiro a minha cela…

- Pois vá se acostumando, Kanon. Já disse, você não vai mais dormir naquele buraco!

- Você manda… - Kanon deu um sorriso ladino - Uau, banho quente. Com isso eu posso me acostumar… - Rumando para o banheiro.

Saga suspirou, ouvindo seu irmão gêmeo se banhar no cômodo anexo. Havia percebido o receio do outro em simplesmente adentrar aquele quarto na noite anterior. Mesmo estando livre agora, parecia que suas amarras não haviam se rompido por completo. Mas Kanon parecia tão tranquilo com ele... como se não o visse como o motivo de ter passado tantos anos enclausurado naquela casa.

Fitou o espelho do quarto. Não havia registrado, no dia anterior, o quão estranha era a presença do objeto no quarto principal da casa, tendo em vista a notável aversão de seu pai a espelhos. Pôs-se a pensar, talvez, que aquele espelho, naquela casa em particular, tivesse uma função diferente. Talvez em Atenas o espelho fosse o lembrete amargo de seu irmão morto, mas em Cálcis esse lembrete tivesse um sabor um pouco diferente - ora, não era justamente para "rever" Defteros que Aspros vinha ao casarão? Talvez aquele reflexo, ainda que idêntico ao dos outros espelhos do mundo, tivesse um sabor mais palatável ali. Agridoce…

Kanon retornou pouco depois, os cabelos úmidos, a toalha enrolada na cintura.

- Sua vez… vai lá enquanto preparo algo pra gente comer.

Saga se pegou observando o tronco desnudo do irmão. Quantas cicatrizes! Talvez se tivesse recebido alguma ajuda os ferimentos não desenvolveriam marcas tão feias. Chegou a imaginar Kanon encolhido em sua cela após uma sessão de "castigos", sozinho com sua dor. Tudo por alguns minutos de diferença ao nascimento...

- … Saga?

- Hum?

- Elas não doem mais.

Era mentira. Claro que era mentira, ou Kanon ainda não se sentiria tão desconfortável em estar no quarto principal. Saga desviou ligeiramente o olhar, e somente o tom de voz do outro transmitia ao mais velho o sinal de um sorrisinho nos lábios de Kanon.

- Eu gosto delas, até. Eu me sinto mais homem. Não que eu o considere menos másculo por isso… - Kanon soltou uma risada breve, que se perdeu ao notar que o mais velho não havia achado a menor graça - De qualquer forma, não me importo com elas. Vá tomar seu banho, Saga, nos vemos na cozinha...

Ouviu a porta bater e se dirigiu ao banheiro. Por que seus passos estavam mais pesados, mais custosos? Por que olhar para Kanon às vezes lhe doía.

Outro espelho.

Aqueles espelhos estavam começando a oprimi-lo.

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Panquecas com mel, pão, queijo, iogurte. Saga se surpreendeu com a fartura daquela refeição.

- E eu perderia a oportunidade de comer como um Dmitris? - Gracejou Kanon - Esta comida estava reservada para nosso pai. Nunca tive acesso à despensa principal da casa até Yohma partir. Mas agora posso comer e poderemos fazer compras para repor o estoque depois!

Saga deu um ligeiro sorriso. Kanon parecia estar finalmente compreendendo sua nova situação de homem livre. Parecia até empolgado com a simples possibilidade de poder ir à cidade.

- Verdade, mais tarde precisaremos fazer algumas compras - Saga provou um pouco de seu iogurte - Comprar comida e algumas coisas pra você. Roupas novas, itens de higiene de qualidade melhor… dar um jeito nesse cabelo…

- Eu gosto dele assim! - Defendeu-se Kanon.

- Também gosto de conservá-los longos, mas eles também demandam cuidados - Saga sorriu - Pro inferno com a modéstia, somos homens bonitos e temos de mostrar isso!

Kanon gargalhou.

- E de qualquer forma… - Continuou o mais velho, distraído com um pedaço de pão caseiro - Amanhã quero que conheça minha noiva.

Houve um momento de silêncio. O rosto outrora sorridente de Kanon agora parecia, no mínimo, surpreso.

- Como?!

- Não havia dito? - Saga estranhou a reação do gêmeo - Saori virá para cá. Ela vai adorar conhecê-lo, com certeza! E você terá um lugar de honra em nosso casamento, claro!

- Hum… eu não sabia que ela vinha…

O tom de Kanon já não era leve, mas parecia ligeiramente esquivo.

- Ela está preocupada comigo… é compreensível que ela não queira me deixar sozinho em um momento desses…

- Mas você não está sozinho! - Kanon alteou a voz repentinamente - Você tem a mim!

Saga esticou sua mão para segurar a do outro, intentando acalmá-lo.

- Eu sei, Kanon, eu sei… mas ela não sabe que não estou mais sozinho… - Sorriu tranquilizador - Você vai adorar conhecê-la, ela é um doce de pessoa. E ela vai ficar mais tranquila ao saber que tenho você ao meu lado, agora.

Sentiu a mão sob a sua relaxar e suspirou ligeiramente aliviado.

- Pois bem, entendi - Kanon respirou fundo - Mas Saga, não quero que ela saiba nada de mim ainda. Não quero conhecer ninguém por enquanto…

- Mas Kanon, você precisa se socializar! - Pontuou o herdeiro - Você está livre agora, não é mais alguém a ser escondido do mundo. Não precisa ter medo das pessoas. Você mesmo parecia tão animado em sair, ver pessoas…

- … Tem razão. Mas sério, Saga, não diga nada a ela, pelo menos por enquanto.

- Como quiser… - Anuiu o mais velho - Não direi nada a ela por telefone, mas amanhã ela fatalmente irá vê-lo. Não tema…

- Tudo bem. Agora coma seu pão que temos muito a fazer hoje! - O retorno súbito de Kanon ao bom humor inicial chegou a sobressaltar Saga ligeiramente. Acabou por sorrir de volta.

- Com certeza. Nosso primeiro programa em família... juntos.

Kanon sorriu abertamente.

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Por melhor que Saga se sentisse ao lado de seu novo irmão, por mais prazer que suas reações de "descoberta do mundo" lhe trouxessem… havia algo, uma pequena sombra, que o impedia de estar totalmente à vontade.

Kanon sabia da existência de sua noiva; aliás, sabia de muitas coisas de sua vida. Até falava com surpreendente naturalidade sobre ela. Por que havia reagido daquela forma ao saber que Saori estava a caminho?

Saga supôs que fosse uma espécie de carência ou ciúme. Talvez Kanon pretendesse passar alguns dias a sós consigo e se sentisse roubado naquele processo. Por mais forte que ele buscasse parecer ser, ainda agia como uma criança com medo de tornar a ficar sozinha.

Roupas, perfume, comida. Saga havia dado um verdadeiro banho de loja no irmão, cuja semelhança com o gêmeo havia ficado ainda mais visível. Ambos notavam com certo divertimento os olhares cobiçosos que despertavam pelo centro da cidade. Deuses gregos, diria seu pai.

Mesmo carregados de sacolas, optaram por um agradável jantar em um restaurante à beira-mar. Kanon tinha algumas noções de etiqueta - o que era curioso para Saga, uma vez que isolado daquela forma ele jamais necessitaria daquilo - e degustava com calma as iguarias que lhe eram servidas.

Naquele momento, seus olhos azuis estavam perdidos no ir e vir das ondas visível do terraço do restaurante.

- Está feliz, Kanon?

Kanon se virou e sorriu.

- Eu não me importo com essas frescuras todas. Mas, se quer saber, eu me sinto feliz. Estar livre, estar com você… posso me acostumar perfeitamente. É legal ter um irmão.

- Também acho. É diferente de ter um "amigo-irmão", na verdade. E fizemos algum sucesso juntos! Será que logo terei uma cunhada também?

Mas o semblante de Kanon pareceu não acompanhar o ligeiro gracejo.

- O que é um "amigo-irmão"?

- Hum? - Saga deu um gole em seu vinho - Ora… é aquele amigo próximo, que está sempre com você, como se fosse da família. Como um irmão. Quero dizer…

- Então você já tinha um irmão antes de mim?

Kanon às vezes fazia algumas perguntas tão estranhas que beiravam até o infantil.

- Mais ou menos… - Respondeu o mais velho, confuso - Eu tenho grandes amigos. Talvez Aioros seja praticamente um irmão pra mim. Estudamos juntos desde a infância, cursamos a mesma faculdade… sempre estivemos juntos. O irmão mais novo dele até ciumava um pouco às vezes… - Saga se permitiu dar uma risadinha, que não foi compartilhada pelo irmão.

- Entendo…

Por um momento Saga pôde vislumbrar uma expressão amarga, quase sombria, no belo rosto de seu gêmeo.

- Ei… - Saga lhe buscou a mão novamente como fizera pela manhã, querendo se mostrar presente - Aioros vai adorar você, tenho certeza. Ele é extremamente gregário, divertido, vai acolhê-lo como a um irmão. Quando você o conhecer…

- Ah, sim… - Kanon tornou a sorrir, parecendo mais tranquilo - Sim, talvez eu possa conhecê-lo. Mas já sabe, Saga…

- Não se preocupe, não falarei de você a ninguém até se sentir à vontade pra isso.

- Obrigado. Hum, o que vai pedir de sobremesa? Quero dizer, podemos comer sobremesa, certo?

- Claro, claro…

Saga sorriu ao ver a expressão contente de seu irmão mais novo. Nenhuma sombra.

Devia ter sido apenas uma impressão.

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Dormira novamente com o irmão. Desta vez, sem pesadelos.

O clima estava mais leve, embora Kanon estivesse ligeiramente mais calado. Talvez fosse a apreensão da chegada iminente da cunhada. Por mais que tentasse agir com naturalidade, Kanon parecia olhar a todo momento para o relógio.

Eram cerca de quatro da tarde quando o celular tocou. Saga lançou um olhar significativo a Kanon antes de atender à ligação, colocando-a no viva-voz.

- Saori?

- Estou aqui no portão. Espero que não se importe, mas trouxe visitas…

Kanon empalideceu. Saga correu até uma janela que lhe permitisse ver o portão de ferro e pôde distinguir três pessoas fora do carro acenando - dois homens e uma moça, esta ainda falando ao celular.

- Aioros! Aiolia! São eles aí?

- Sim, amor. Eles também estavam preocupados com você e pensamos em lhe fazer uma pequena surpresa. Não se preocupe, estaremos em um hotel aqui perto se desejar…

- Já vou abrir!

Ao desligar, Saga sorriu radiante para Kanon.

- Eles estão aqui! Oh, vamos, você precisa conhecê-los!

Mas o semblante de Kanon era reticente.

- Preciso de um tempo antes disso. Desculpe…

- Kanon…

Mas o gêmeo saiu apressadamente da cozinha.

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Na sala de estar, os três visitantes fitavam Saga com preocupação e carinho.

- Desculpe-me por não avisar sobre a vinda dos rapazes, Saga, mas achei que trazê-los seria a coisa mais acertada a se fazer - A japonesa entoou gentilmente, em um tom de desculpas - Eles estavam muito ansiosos em Atenas.

- Tem certeza de que está tudo bem ficar sozinho nesta casa, Saga? - A voz grave de Aioros Palaiopoulos soou pelo recinto - Sabe, a Saori tem razão. Não faz bem passar por um momento desses isolado. Você mal teve tempo pra digerir a perda, não parava de trabalhar…

- Só queremos que saiba que seus amigos também estão aqui, é isso - Interrompeu o mais novo dos Palaiopoulos, Aiolia. Era extremamente parecido com o primogênito, mas sua pouca paciência acabava por diferenciá-lo bastante do irmão.

Saga não resistiu a abrir um belo sorriso. Era realmente afortunado por ter uma noiva e amigos tão prestativos em um momento tão crítico de sua vida. E também tinha…

- Eu… - Abriu a boca, mas sentiu a nuca formigar incomodamente, como se estivesse sendo observado.

- Saga?

- Eu vou buscar mais um pouco de suco na cozinha - Saga se levantou apressadamente - Não se incomodem, fiquem aqui por favor - Acrescentou ao perceber Saori fazer menção de se levantar - Não demoro…

Fechou a porta da sala de estar atrás de si, saindo para o corredor escuro.

- Você ia contar.

Saga suspirou, virando-se para o breu à sua frente. Podia ver um vulto indistinto ali.

- Certo, eu pensei em contar - Confessou o mais velho - Eles são as pessoas que mais amo, Kanon, elas merecem saber.

Silêncio.

- Você é meu irmão! - Saga se impacientou - Precisa sair das sombras, parar de se esconder como se ninguém quisesse olhar pra você! Eles me amam, permita que eles o amem também!

- … Também…?

- Sim, Kanon… - A expressão de Saga se suavizou - Não tema. Eu o amo, meu irmão.

Sobressaltou-se ao perceber a porta da sala de estar se abrir.

- Saga? - Indagou Aioros - Que faz parado aí? Estava falando com alguém?

Saga respirou fundo, enchendo-se de coragem.

- Sim, eu estava! Queria que soubessem… eu ia contar a vocês. Eu não estou sozinho nesta casa. É extraordinário, na verdade…

- É o caseiro? - Aiolia tentou enxergar algo no fim do corredor escuro.

- Não… vocês não vão acreditar! Eu tenho um irmão gêmeo!

Os três se entreolharam parecendo bastante surpresos.

- Saga… - O tom de Saori era cauteloso, como se o chamasse à razão - Isso… isso não é possível, você sabe… sei que você se sente sozinho agora que não tem mais familiares vivos, mas…

- Eu também não acreditava, Saori, mas é verdade! - O tom de Saga beirava a euforia - Ele era mantido preso aqui… a história é terrível, mas agora acabou tudo… vocês vão gostar dele! Kanon! Venha cá, quero que conheça minha noiva e meus amigos!

Acendeu a luz, iluminando o corredor escuro.

- Ali está ele!

- Saga…

- O quê?

A voz de Saori, naquele momento, estava decididamente preocupada.

- Aquilo é… o seu reflexo.

Saga se voltou para o fim do corredor, deparando-se com o vulto a quem estivera falando momentos antes… e que apresentava a mesmíssima expressão surpresa que ele.

- Aquilo é… só um espelho.

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O jantar foi silencioso.

Por mais que Aioros tivesse tentado desanuviar a tensão propagandeando seu talento em fazer uma pizza caseira, estava claro que o clima pesava naquela cozinha.

Saga imaginava que seus amigos e sua noiva estavam começando a se preocupar com sua sanidade mental. Era visível pelos olhares que volta e meia eram dirigidos a ele. Mas que droga! Por que Kanon havia se esgueirado pra fora daquele corredor bem na hora?

Será que Kanon estava mesmo naquele corredor? Mas Saga pôde ouvi-lo perfeitamente…

(Por sinal, quantos espelhos naquela casa! Considerando que seu pai os detestava…)

Não, não estava ficando louco. Kanon existia, não existia?

Poderia levá-los até o pequeno cemitério maldito dos Dmitris na propriedade. Talvez aquilo pudesse convencê-los. No entanto… aquele evento lhe mostrou que precisaria da aprovação de Kanon. Somente a aparição total do gêmeo poderia de fato mostrar a eles que não havia enlouquecido.

Por que foge, Kanon? Por que esse receio todo?

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- Você me traiu.

A voz de Kanon transparecia mágoa.

Saga se sentou na cama, suspirando.

- Desculpe. Mas Kanon… ainda não entendo o seu medo! Você parecia tão bem ontem na cidade… interagiu com o garçom, com os vendedores…

- … É diferente.

- Sim, é diferente. Saori, Aioros e Aiolia são muito mais confiáveis do que meros estranhos.

- Eles vão mesmo dormir aqui? Na nossa casa?

Saga arqueou uma sobrancelha.

- Bom, eles realmente ficaram preocupados… sabe, agora eles pensam que enlouqueci e ando falando com meu reflexo no espelho, imagine você…

O tom ligeiramente irônico fez o mais novo encolher os ombros, acusando o golpe velado.

- Certo, certo, minha culpa. Mas você vai dormir comigo, não vai?

- E não estou aqui? - Saga sorriu de leve. Era impressão dele ou Kanon estava agindo quase como uma criança birrenta - É esse o problema?

- Pensei que a sua noiva quisesse passar a noite com você… - Resmungou Kanon de má vontade.

- Não tem clima pra isso…

- Ah.

Saga se deitou e Kanon fez o mesmo.

- Kanon… você tem medo de que eu o deixe sozinho?

Silêncio.

- Eu nunca vou deixar você sozinho, meu irmão. Minha noiva e meus amigos nunca vão substituir você. Agora que eu o encontrei, não vou abandoná-lo mais…

- Eu sei.

- Pois não parece - Saga apagou o abajur de seu lado da cama, sendo imitado por Kanon - Já disse que a fiação elétrica desta casa me preocupa? Precisamos fazer uma bela reforma aqui.

- Disse, sim…

Saga sorriu, ainda que no escuro.

- Sempre estarei aqui por você. Boa noite, meu irmão…

- Boa noite, meu irmão…

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Saori estava preocupada e o banho não a havia ajudado a relaxar.

Aquele comportamento estranho de Saga… esperava encontrar o noivo abatido, de fato. Mas o que encontrara havia sido um homem até… eufórico. Como alguém que estivesse imerso em uma história paralela.

E aquela história de irmão gêmeo? Saga parecia acreditar piamente, estava até conversando sozinho no corredor! Não tinha conseguido entender a conversa em um tom baixo, mas se Saga estava chegando àquele ponto…

Revirou-se na cama, encolhendo-se no escuro. Queria fazer companhia a Saga, aninhá-lo. Obviamente não havia ambiente para sexo, mas queria transmitir segurança a ele. Saga, porém, quis dormir sozinho. Não achava que ele fosse ficar bem no quarto que outrora pertencera ao falecido pai, mas precisou acatar a decisão.

Havia conversado brevemente com Aioros e Aiolia antes de se recolher, quando Saga já havia se fechado em seus aposentos. Concordavam que precisavam observá-lo mais de perto e, na pior das hipóteses, convencê-lo a tirar algumas férias longe da Grécia. Dubai, quem sabe? Compras, praia, cultura e movimento para que ele não tivesse a oportunidade de olhar para dentro e externar o que não existia.

Não queriam tolher o direito de Saga ao luto pela perda de seu pai; mas não poderiam deixar que a dor tomasse dimensões fora de controle e lhe tirasse a sanidade. Saga tinha o péssimo hábito de sofrer em silêncio, e era difícil conhecer as reais dimensões do que se passava em sua cabeça e em sua alma.

Estava naquele limbo entre a vigília e o sono quando pensou ter ouvido a porta se abrir.

Saga…? É mesmo, ele tem a chave…

Sentiu uma mão deslizar por seus cabelos castanhos com calma. Suspirou. Seu noivo sempre fora bastante carinhoso em seus momentos de intimidade.

Virou-se na cama, sorrindo para ele na penumbra. Não podia ver o rosto de seu noivo, mas pôde imaginar o sorriso gentil que este sempre endereçava a ela quando estavam sós.

A mão máscula deslizou com calma pelo rosto delicado. Saori notou o toque ligeiramente áspero. Devia ter trabalhado um pouco na casa antes de sua chegada. Pobrezinho, não era muito afeito aos trabalhos braçais… devia estar bem cansado.

- Quer que eu cuide de você, hoje? - Indagou suave, alisando a mão em seu rosto - Não precisamos fazer, se não quiser. Só quero que você se sinta bem...

- Tão macia…

O sussurro a fez sorrir. As mãos dele deslizavam agora pelo pescoço, colo, ombros, como se estivesse reconhecendo o corpo delicado da japonesa. Saori não conseguiu conter um arrepio ante aquela exploração algo cuidadosa. Fechou os olhos, entregando-se sem reservas às ações do outro.

- Saga…

Sentiu-o se sobrepôr a ela na cama, postando-se entre suas pernas, e deslizou as mãos incontidamente pelas costas largas, adentrando a camisa do pijama aparentemente novo. Sua mente se nublava aos poucos com aquela atmosfera, com aquele perfume que tanto amava. Estava ficando excitada.

- Meu Saga...

Aquelas mãos envolvendo o seu pescoço a fizeram estremecer. Cravou os dedos delicados nas costas firmes, sentindo algumas marcas e cicatrizes sobressaindo. Não se lembrava delas.

- Machucou-se, amor…?

Sentiu o aperto em sua garganta e ofegou, surpresa. Não costumavam usar esse tipo de método na cama e, para ser franca, sentia-se desconfortável com aquilo. Tentou avisar ao noivo que estava passando dos limites, mas sua voz não saía. Estava forte demais…

- S-Sa… Sa…

Passou a tentar se debater, sem forças para vencer a resistência do corpo mais forte sobre si.

Por quê…?

Uma lágrima escorreu solitária pelo rosto de Saori Kido enquanto sentiu o outro aproximar a boca de sua orelha, o hálito quente em seu rosto.

- Meu Saga.

Escuridão.

CONTINUA...


Notas finais do capítulo:

Capítulo 3 postado! Nem dá pra pedir desculpas. Parece que ainda não aprendi que não posso prometer prazos que sempre dá caquinha… u.u'' E tive uma apresentação oral num congresso (fora a questão da viagem em si) e… nossa, tava bem atribulada.

Enfim, já que o prazo foi pro Beleléu, ao menos vou terminar a fic. Questão de honra x.x Até porque a história tá toda pronta e esquematizada, o foda é "botar no papel e encher a linguiça" pra dar liga…

Sobre este capítulo, acho que ficou meio meloso. Espero não ter exagerado no "amor fraternal", mas enfim… o Saga "bonzinho" me passa essa ideia bondosa, mas melancólica. Além disso, a parte da culpa (que o persegue a série inteira) pôde ser vagamente trabalhada aqui também, especialmente por meio do sonho.

Quanto ao Kanon… o que ele sente por Saga? Isso será trabalhado mais à frente, mas já dá pra perceber (espero) um sentimento de posse em relação ao irmão. Quase como se Kanon tivesse "direito" a ele depois de tanto sofrimento, de tanta solidão. Não deixa de ser (inconscientemente) uma forma de culpar Saga por sua situação, embora de uma forma bem diferente do que faz com Aspros e Yohma, até porque Kanon está ciente de que Saga não sabia de nada e não tem culpa naquela história.

De qualquer forma, Saga lhe foi "negado" por toda a vida como um modelo de quem merecia viver, como alguém melhor que ele; mas, por mais que o natural fosse odiá-lo, Saga foi o único em sua vida a não tratá-lo como indesejável, o que tem um impacto profundo na forma como Kanon vê o irmão. Gratidão, talvez? Mas de uma forma bem mais doentia, além do medo de perdê-lo. Existem outras nuances mais à frente que não posso falar no momento, mas serão determinantes pro desfecho da história.

(Sim, eu sou doida x.x)

Minha intenção inicial (confesso) era fazer algo beirando o twincest devido a essa obsessão que Kanon começa a demonstrar pelo irmão. Acho que não mencionei que fui muito ligeiramente inspirada (ok, a fic não tem muito a ver, mas veio de um pensamento) no conto "A queda da casa de Usher", do Edgar Allan Poe, e nossa, eu sempre vi um tom incestuoso ali XD Enfim, acabei abandonando a ideia de escrever twincest pra este evento because of reasons, mas não descarto a possibilidade de um dia escrever uma fic "alternativa" desta fic com tal viés, porque me deu vontade mesmo. Mas não, ESTA aqui não é twincest. Quero dizer, pelo menos oficialmente, já que… cada um vê o que quer, né? 9.9 [apanha]

E temos mais personagens na roda! E não, não pretendo fazer bashing à Saori aqui. Ela não é nenhuma megera interesseira, nenhuma menina mimada... XD Tentei pegar o viés mais "Atena" que ela amadurece ao longo da série, o tom mais gentil e compassivo. Claro, guardadas as devidas proporções em se tratando de um UA…

… Ih, será que a Saori morreu? Hum...

Quanto a Aioros e Aiolia, ainda terão uma participação importante logo mais à frente.

Tinha uma outra coisa que eu queria comentar sobre uma possibilidade que surge neste capítulo, mas acho melhor deixar pra depois...

Respondendo aos comentários:

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Scorpio no Selene - Fiota! n.n Bom, sobre as identidades, a coisa ficou um pouco mais óbvia agora, né? x.x Quanto à casa, o intuito era conhecer a propriedade, mesmo… Saga acabou capotando de cansado, mesmo XD

Hum, sobre a Saori… bom, como eu disse, não é meu intuito deixá-la naquele papel habitual (nos UAs) de "noiva chata e mimada do protagonista, que só a tolera por pena". No caso, Saga preferia ficar sozinho apenas porque queria sofrer em silêncio, sem preocupar ninguém. As boas intenções da Saori são genuínas neste caso XD (Se bem que acho que isso só foi melhor esclarecido neste capítulo -q).

Não acho que o Saga tenha lidado com calma naquele momento… talvez eu é que não tenha transmitido a ideia direito, mas na minha visão ele estava em choque (sabe quando a pessoa está tão chocada que não consegue nem gritar?), mesmo x.x

Sobre o Kanon… bom, não se deve descartar que ele sofreu bastante a vida toda pra ser equilibrado como aparentou ser, mas posso adiantar (o que já ficou mais claro neste capítulo e com as notas finais) que ele não odeia o Saga. O que não quer dizer que não vá acontecer alguma coisa a ele, claro… =X Enfim, espero que curta a continuação n.n Kissus!

Darkest Ikarus - Ih, relaxa, Ikarus-sama… como atualizei em datas próximas acabou embolando, mesmo. Infelizmente creio que isso não vá se repetir, mas ok… x.x'' Sobre o Saga, é bem verdade, quem marcou mesmo foi o lado noiado XD O Saga "bom" até foi um tanto idealizado demais e acabei me focando nas nuances que ele mais deixava aflorar durante a série: melancolia, culpa e a tendência a sufocar o próprio sofrimento. Enfim, que bom que não o achou muito OOC XD

Sim, você captou… 9.9 Em parte, usei os gêmeos pra essa fic também pela possibilidade de usar os outros cavaleiros de Gêmeos na festa XD [apanha]

Quanto ao Kanon… bom, "bonzinho" ele não é, mesmo. Mas… sobre suas viagens na maionese, não digo mais nada. Apenas continue viajando… 9.9 Espero que curta a continuação, kissus!

Aredhel - Facada? Ih… será que o Saga deveria impedir o Kanon de passar tanto tempo na cozinha? 9.9 Bom, como já disse, Kanon não o odeia. Mas, por outro lado… digamos que o Saga não vá sair incólume desse encontro com o "gêmeo renegado". Espero que curta a continuação, kissus!

RavenclawWitch - Oiê! *-* Huahuahua, curtiu, né? Por que será? 9.9 [apanha] Ain, fico feliz que tenha gostado do Saga! Espero não ter desandado o tom neste cap x.x Quanto à maldição… pois é… é difícil fugir dessas coisas =X Espero que goste da continuação, kissus!

Krika Haruno - E eu dez dias depois do comentário, huahuahua XD [apanha] De boa, sei bem como é. Nem li as fics ainda… depois do rolo do congresso tô aproveitando a mínima "folga" e tentando terminar as fics que devo primeiro x.x'' Enfim, take your time n.n

Fico feliz que tenha gostado dos gêmeos! *-* E… infelizmente não posso garantir um final feliz =/ Mas, pensando por um lado… ok, melhor não comentar nada ainda =X Kissus, espero que continue curtindo n.n

Human Being - Olha a responsa em escrever com os gemos! Olha… espero não ter feito caquinha neste cap x.x Mas fico lisonjeada que tenha gostado (pelo menos do começo -q), claro! *-* E torço pra que continue gostando x.x Kissus!

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Bom, é isso, galera! Mil desculpas pela demora e espero voltar a atualizá-la amanhã. Realmente espero x.x

Kissus e até o próximo capítulo!

Lune Kuruta (15/11/2013)