Capítulo IV

Flashback

Jogou o carro para fora da estrada, e tudo o que seus faróis mostravam era mato. Shura pisou fundo no acelerador e o velocímetro acusou cento e oitenta quilômetros por hora. A brisa alfinetava sua pele ao passar pela janela; eram o rugido do vento e o chiado irritante do walkie-talkie no fundo do banco traseiro.

- Shura! Responde, seu idiota!

E desligou. Shura podia ouvir os carros se aproximando no mesmo instante em que invadiu um campo aberto. Pequenas elevações faziam os três carros voarem e pousarem com estrondo. O carro preto estava a uns cinquenta metros de vantagem.

Com um barulho horrível, o veículo rodopiou num perfeito ângulo de trezentos e sessenta graus e disparou contra os carros perseguidores. Shura esgueirou-se para fora da janela puxando consigo uma submetralhadora. A primeira rajada barulhenta de balas arrancou tufos da grama e atingiu finalmente a placa do carro perseguidor, o farol e o capô; rasgou o metal fervente e explodiu o motor. Uma falha no terreno fez o carro em chamas girar no ar e cair de encontro à lataria do outro veículo. No mesmo instante, Shura jogou o volante para a esquerda, escapando por pouco da grande massa de metal incandescente. Parou o carro a tempo de ver uma segunda explosão iluminar a noite com um clarão alaranjado. O carro preto finalmente partiu, não demorando a alcançar a estrada.

Fim do Flashback

No final da estrada, um comboio de carros os aguardava; devia ser uns dois ou três veículos no total. Como se nascesse da escuridão, uma sombra negra do que fora o carro usado por Shura deslizou por trás da luz forte do farol. O retrovisor dianteiro direito estava pendurado por um resto de dobradiça de cobre exposta e chamuscada; o vidro do lado esquerdo do passageiro estava espatifado, assim como havia na janela do fundo um buraco largo de onde saíam rachadura ao longo do vidro. Cacos caíam sobre o colo de Afrodite, que estava largado no banco traseiro enquanto pressionava o ferimento do braço com a mão.

No banco da carona, Mask não parava de passar a mão na própria testa, como se tivesse prazer em ver seu sangue brilhar em seus dedos. O único que saíra ileso fora Shura, que reduzia neste momento a velocidade do veículo.

O carro preto parou próximo aos demais. Mais armas foram erguidas para eles, porém um aceno do líder os fez recuar. Shura e Mask saíram do carro.

Não se surpreenderam ao ver que Kanon novamente os recebia.

- Muito bom. Bom trabalho – parou em frente aos rapazes. Virou o rosto para Mask. - Pelo menos voltou quase inteiro – e riu, olhando para o fundo corte em sua testa.

- Cadê a grana? – O italiano falou sem rodeios. O sorriso de Kanon murchou aos poucos.

- Entendi. A entrega?

Mask apertou os olhos e arqueou as sobrancelhas. Depois de ser perseguido por um bando de carniceiros armados e de destruir o carro de aluguel, esquecera-se completamente da entrega.

- Deve estar no carro – respondeu. Se desse sorte...

- Eu torceria para que a entrega não esteja no outro carro se eu fosse você.

Mask estreitou os olhos e estralou os dedos, desejando ter uma arma em mãos. Kanon prosseguiu:

-... Exatamente porque era o seu pagamento no porta-malas. – E sorriu.

- Filho de uma... – E o italiano se afastou a passos largos em direção ao carro preto. Kanon estendeu a mão para Shura – que apertou forte – e elogiou-os pelo trabalho.

Ao passar pelo carro, Mask viu Afrodite sentado no banco com os pés apoiados no asfalto. Parecia mais pálido que de costume, mas não lhe deu muita atenção. O italiano dirigiu-se para o porta-malas que já estava destrancado devido aos tiros na traseira. Bastou um puxão para erguer a porta.

Mask suspirou e se inclinou para pegar uma maleta prateada que estava jogada ali. Abriu as travas só para conferir os milhares de dólares.

- É só o começo. – Disse Kanon, repentinamente surgindo atrás dele. – Só sugiro que não destrua outro carro na próxima vez.

Mask virou-se para ele com um sorriso zombeteiro. Kanon estendeu-lhe a mão e o italiano a apertou após fechar a maleta.


- Cinco mil pra cada um. – Anunciou Mask enquanto contava o dinheiro sobre a mesa de estar.

- Só? – Disse Afrodite. O loiro estava estirado num dos sofás segurando uma bolsa de gelo contra a cabeça. Um de seus ombros estava enfaixado – dava para perceber por baixo da manga da camiseta. Mask olhou-o com uma leve censura.

- Por enquanto. E vê se não reclama, seu fresco, que as coisas são assim mesmo. – Respondeu. Ignorou o dedo médio que Afrodite lhe mostrara. Pela milésima vez passou a mão pela costura do corte em sua testa. Não foi lá tão fundo, mas sangrou que foi uma beleza. Junto com Afrodite, foi arrastado por Shura na noite anterior até a farmácia mais próxima sem dar quaisquer explicações ao pasmo atendente.

- Falando em fresco – interrompeu Shura. – O que não tem nada a ver, na verdade... alguém tem que levar as roupas pra lavanderia.

- Tenho compromisso – Mask levantou-se de repente, levando a maleta. – Vou depositar nas nossas contas.

Afrodite e Shura disseram um "não" em uníssono sem querer.

- Eu cuido disso. – O espanhol se propôs. – Até porque, sou o mais honesto desse lugar. – Sorriu ao ver a expressão irritadiça do italiano.

- Mas não vou pra lavanderia, cazzo. – Mask desconversou, jogando a maleta para Shura.

- Pode deixar que eu vou – Afrodite levantou a mão. – Já, já, eu vou.

- Então vai. – Mask ia saindo da sala, mas soltou a pérola: - é pra levar, não pra ficar cheirando cueca, não.

E se esquivou de uma almofada.


Afrodite ia bufando pela calçada, levando o saco de roupas sujas sobre o ombro bom. As pessoas que passavam por ele não deixavam da olhar o rapaz belo e furioso, cujas roupas elegantes contrastavam totalmente com o saco às costas.

A lavanderia estava a dois quarteirões da casa dos rapazes, e quase sempre era Afrodite o encarregado de levar a roupa suja. Todas as vezes que ia para lá encontrava uma funcionária trintona e simpática que lhe sorria – não deu outra, assim que Afrodite entrou.

- Bom dia! – Ela disse, inconscientemente empinando os seios.

- Bom dia – o rapaz sorriu a seu modo educado. – Eu trouxe as... – e colocou o grande saco sobre o balcão. A atendente cheia de sorrisinhos, disse-lhe que aguardasse um pouco.

"O.K., então", pensou Afrodite, virando-se para a direita. Cantarolava distraído até que uma moça, que vinha em direção ao balcão, o fez esquecer-se do verso seguinte.

Ela parecia familiar. Os cabelos ondulados que caíam até pouco abaixo dos ombros estreitos apresentavam um brilho esverdeado de tintura artificial sob a cor natural castanha. O pescoço bem desenhado tinha sobre a pele clara uma discreta tatuagem em desenhos de flores, cujo caule se alongava ao longo da nuca. Os olhos também castanhos eram emoldurados por longos cílios escuros e maquiagem sóbria. Um batom discreto enfeitava os lábios sérios. Os ombros eram estreitos e seu corpo era proporcional, de altura mediana, seios e quadris compatíveis. Algo nela prendeu os olhos azuis de Afrodite.

Ela parou a alguns palmos deles e tinha um papel amarelado em mãos. A atendente veio a ela.

- Srta. Natasha, bom dia!

- Bom dia – a voz dela era agradável como um sino. – Vim pegar as roupas.

- Sim, sim – respondeu a atendente, se retirando com o saco de roupas de Afrodite. Este olhava sorrateiramente para a moça, que mexia distraidamente no papel que trazia.

Um lapso fez Afrodite reconhecê-la; se tratava de uma das mocinhas com quem dançara naquela festa, há uns dias. Incrível como as pessoas são diferentes; no entanto um segundo olhar o fez pensar que a moça era realmente bonita, aos seus olhos.

Foi surpreendido pelos olhos castanhos que pousaram em si, e Afrodite esquecera-se de sentir vergonha. A tal Natasha olhou-o de longe, desviou o rosto e voltou a encará-lo, estreitando os olhos, pensando, talvez, que o reconhecia.

Afrodite tomou a iniciativa da conversa, e a moça o recebeu até de um modo afetivo, como se o conhecesse havia tempos.

- Bom saber que mora aqui por perto – disse ele.

- Faz dois meses que me mudei. Você também mora por aqui?

Ele fez que sim, alegou que morava "por aqueles lados". Cautela era lei em seu mundo, desde sempre.

Porém, esse senso se perdeu muito fácil; Natasha era uma moça agradável e simpática, parecia ser segura de si e tinha um quê de adolescência recém-perdida. Não devia ter mais que 25 anos. Imediatamente uma sensação de formigamento no corpo, que crescia pelo quadril e ramificava em forma de calor até – todas – as extremidades de seu corpo, arrebatou Afrodite e cresceu dentro dele.

Conversaram por um tempinho, até que a funcionária da lavanderia apareceu com duas trouxas imensas, entupidas de roupa limpa. Natasha tentou apanhá-las, mas elas excediam o limite de seus braços, e fraquejou.

- Roupa do mês inteiro... – ela riu, parecendo sem graça enquanto abraçava uma das trouxas sob a axila.

- Quer ajuda? – Afrodite abriu o melhor sorriso que tinha; algo nele o fez mover-se para ajudá-la. Educadamente, a moça recusou.

- Insisto. – Ele disse. – Não vai me atrapalhar, eu prometo.

Afrodite tomou uma das trouxas e pendurou-a sobre o ombro.

Não estava tão pesado, mas não custava fazer um agrado a uma moça como Natasha. A mocinha pagou à lavandeira que, antes de deixá-los ir, empurrou para Afrodite um boleto para lembrar-lhe de recolher seus pertences na semana seguinte. O loiro jogou o papel dobrado no bolso da calça e retirou-se acompanhado por Natasha.

Foram conversando animadamente pelo caminho – que não era longo, apenas a alguma esquinas dali, umas ruas a serem transpostas. Afrodite gostou do bom-humor dela, do riso espontâneo, assim como gostara da involuntária dança de seu quadril feminino.

Chegaram ao local onde ela morava; era um prédio cinzento e meio desgastado, com as janelas de alumínio voltadas para a rua barulhenta. Como previsto, não havia elevador, e foram três longos lances de escada em largos caracóis para alcançar o apartamento. Afrodite segurou sem esforço as duas trouxas enquanto Natasha trabalhava com o molho de chaves diante da fechadura.

O local era pequeno, porém, confortável. Dispunha de três pequenos cômodos – sala, cozinho e quarto, com uma suíte simples. Natasha, com educação, pediu ao loiro para entrar e deixar as roupas na cozinha.

- Como posso agradecer? – Ela sorriu; era possível perceber o leve rubor em suas bochechas causado pelo esforço de subir as escadas e, acima de tudo, ser ajudada por um rapaz tão cavalheiro.

- Não precisa, sério. – Afrodite retribuiu o sorriso, permitindo-se apoiar no batente da porta divisória dos cômodos. – Mas eu aceito beber alguma coisa.

A moça riu e estapeou a própria cabeça. Pediu um minuto para ir até a geladeira. De lá tirou uma garrafa meio cheia de vinho e a pôs sobre a pia, junto de dois copos. Encheu um deles enquanto comentava:

- Ganhei esse vinho no meu aniversário, fim do mês retrasado. Sorte que ainda tem! – E entregou o copo ao convidado; em seguida, servia-se de um gole em seu próprio copo.

- Pena não ter te conhecido antes, poderia ter vindo na festa. – Afrodite fez uma careta triste, projetando o lábio inferior manchado de vinho.

- Mas pensa pelo lado bom – disse ela. – Estamos aqui, não estamos?

Afrodite sentiu as próprias retinas dilatarem-se quando Natasha virou-se de frente para ele, apoiada na pia e com as mãos postadas na borda de mármore. Num movimento casual, o loiro terminou de beber o vinho e adiantou-se para a pia, para frente de Natasha e depositou seu copo ao lado do dela. Assim, de tão perto, podia-se perceber deliciosamente a diferença de quase um palmo de altura entre eles. Mas Afrodite estava muito próximo, com as costas recurvadas e o rosto inclinado em direção ao dela, enquanto Natasha erguia o queixo para alcançar os lábios tintos de vinho.

De imediato a moça entreabriu a boca em busca de maior contato, e Afrodite não recusou; colou os lábios nos dela e penetrou com a língua sem dar chances. A princípio tímida, Natasha respondeu ao beijo de Afrodite com movimentos lentos; porém, o vinho deve ter aquecido seu sangue tanto quanto o inteiro contato do corpo rígido do loiro, e então a moça enlaçou o pescoço de Afrodite com os próprios braços e entrelaçando propositalmente os dedos nos longos cabelos dele.

As mãos de Afrodite deslizavam pela cintura moldada da moça, as omoplatas e as costas que eram pequenas em suas mãos. Sugava com avidez os lábios dela, e invadia-lhe a boca com vontade. Sem desfazer-se do beijo, desceu as mãos pelos quadris arredondados de Natasha, deixando as palmas pousarem sobre seu bumbum, e os longos dedos engancharem-se em suas coxas para erguê-la e sentá-la sobre a pia. Instintivamente, o rapaz postou-se entre as coxas macias.

A falta de ar se interpôs, e Afrodite desceu o rosto para mordiscar o pescoço da moça, beijar-lhe a tatuagem delicada. Natasha respirava muito rapidamente, seus seios subindo e descendo contra o tórax de Afrodite. Os lábios do loiro iam de encontro ao ombro da moça, e suas mãos buscavam tirar-lhe o casaco. O mesmo Natasha fazia; Afrodite desgrudou dela apenas para despir o blazer escuro. Com uma estranha impaciência, ele agarrava as bordas da blusa dela e a puxava para cima. Natasha o puxou pela gola da camisa e sussurrou a palavra "quarto" depois de um selinho.

Afrodite ergueu-a nos braços e tirou-a da cozinha. Não foi difícil encontrar o quarto, e sem demoras o loiro deitou a amante sobre a cama de solteiro. Pouco depois, as roupas, junto com os calçados, estavam largadas em quaisquer cantos do quarto. A boca de Afrodite percorria o corpo de Natasha, beijando toda sua pele, suas curvas e suas imperfeições – invisíveis aos olhos dele. O rapaz ardia em chamas, o membro ereto apertado sob o tecido da cueca; a boca de Natasha novamente procurou a sua, e permitiu que seu corpo fosse despido da lingerie discreta.

Uma fina camada de suor salgado cobria os corpos dos amantes. Natasha abandonou-se no colchão, e Afrodite impunha-se sobre ela no ápice da masculinidade. A moça teve de apertar os lençóis com as mãos e morder os próprios lábios quando sentiu a penetração. As mãos de Afrodite eram firmes em seus quadris, e este sussurrava com voz rouca:

- Olha para mim, linda.

Os ruídos dos gemidos e dos corpos debatendo-se aumentavam a aura erótica e a libido do ato. Espasmos corriam por seus membros quando atingiram o orgasmo – primeiro, Afrodite, seguido de Natasha. Ofegantes, espremeram-se na cama de solteiro. A moça deitou-se sobre o peito suado do amante. Pela primeira vez seus olhos perceberam o ombro de Afrodite enfaixado em gaze e esparadrapos.

- O que foi isso, gato...?

Ele não respondeu; estava exausto, tinha o péssimo de cair no sono após o sexo. A última coisa que viu, antes das pálpebras cerrarem, foi Natasha inclinar-se para ele e beijar-lhe carinhosa e demoradamente o ferimento.


- Faz quanto tempo que ele saiu?

- Sei lá – Mask deu de ombros enquanto rodopiava o relógio de pulso com o dedo indicador. – Depois vê se dá um toque no celular dele, porque temos que sair mais tarde. Kanon me ligou.

- Hm – fez o espanhol. – Entendi.

O italiano reclinou-se no sofá, apoiando a nuca no encosto. Bocejou de puro tédio. Sentado próximo aos seus pés estava Shura, lustrando umas pistolas antigas. Doía só de ver o brilho do cano, do tambor metálico – é, o rapaz era meticuloso com seus pertences. Quando se tratava de suas armas, então...

Mask quase cochilava, a boca aberta e o pomo-de-adão sobressalente. Um sono desgraçado, pensou ele, antes de embarcar num sonho de meia hora. Nem acordou com o toque do celular de Shura antes que o espanhol saltasse de onde estava para atender na cozinha.

- Liguei numa hora errada? – Disse a voz feminina.

- Não. Eu já ia te ligar, desculpa. – Respondeu Shura. Ele inclinava-se para frente como quem não quisesse ser ouvido. – Como vão as coisas?


O ruidoso celular começou a esganiçar no meio do quartinho. Acordando assustado, Afrodite tateou as próprias calças que pendiam à esquerda da cama.

- Alô.

Enquanto sentava na beirada da cama, ouvia Mask resmungando no outro lado.

- Tá, entendi.

E desligou. Não se mexeu quando sentiu as mãos de Natasha em seu abdômen ao abraçá-lo; Afrodite jogou a cabeça para trás, encontrando o rosto da moça sobre seu ombro. Trocaram um selinho.

- Me liga depois? – Disse ela, baixando o queixo para depositar os lábios entreabertos no pescoço de Afrodite.

- Claro. – Ele deixou-se abandonar no colo de Natasha. Os dedos dela corriam por seus cabelos louros. Porém, a contragosto, Afrodite desfez do abraço dela para ir vestir-se. Viu Natasha fazer o mesmo, e tentou ignorar uma pontadinha de desejo ainda recente.

A moça o acompanhou até a porta, cujo batente sustentou as espáduas de Afrodite quando este se despedia de Natasha com um beijo. Com um meio sorriso, Afrodite afastou-se em direção à leva decrescente de degraus em caracol, evitando buscar o par de olhos castanhos brilhantes às suas costas.


- Cheguei.

- Mask já ia mandar o FBI atrás de você. – Zombou Shura, que entrou na sala no exato instante em que Afrodite chegou.

- Cazzo – O italiano ainda estava largado no sofá. – Te empresto o GPS na próxima vez que atravessar a rua, ok?

Afrodite despiu o blazer e pendurou-o atrás da porta.

- Recuso o GPS; preferia ter ficado por lá.

- Na lavanderia? – Mask deu um sorrisinho zombeteiro, percebendo a discreta marca sombreada no pescoço alvo do amigo. – Quero saber onde é, hein.

Afrodite riu com malícia.

- Pra que, pra cheirar cueca?

O riso congelou no rosto de Mask, e derreteu aos poucos enquanto o loiro saía para o banheiro. Shura mexia com insistência no celular.

Assim que Afrodite prendeu-se no banheiro para tomar um banho, Mask levantou-se e chutou a porta, sem abri-la.

- Não enrola! Às quatro vamos sair. Tá me ouvindo?

A voz abafada confirmou.


- Então, vamos finalmente saber quem é o tal chefe do negócio? – Afrodite estava sentado no banco traseiro da vã, com os pés escorados na janela aberta e mexendo com insistência na aba do boné que usava.

- Isso aí. – Mask tragou o cigarro por vários segundos e jorrou a fumaça pelas narinas.

- Não precisa ficar ansioso. – Shura cutucou Mask, que o ignorou.

- A próxima rua, à direita.

Shura deu meio volta no volante e entrou por uma rua movimentada. Assim que estacionou, um homem ofereceu-se para guardar o carro no grande edifício no qual o trio haveria de entrar. Mask o reconheceu, e induziu um desconfiado Shura a entregar-lhe as chaves.

Um segundo funcionário, uniformizado, adiantou-se para abrir as portas de vidro do hall de entrada. Local bem iluminado, piso de mármore claro intercalado por uma longa faixa escura de um brilhoso conjunto de ladrilhos de cobalto azulado que despontava do portão de vidro até uma escadaria curta, subindo pelos poucos degraus e terminava aos pés de um elevador. À esquerda, próximo a um jardim de inverno cerceado por degraus lapidados, encontrava-se uma bancada de madeira lustrosa abrigando uma recepcionista ruiva e sardenta. À direita, pouco viram, pois um terceiro homem, de camisa azul engomada e calças sociais claras, cujo cabelo castanho quase louro pendia ao longo das espáduas largas preso por um rabo de cavalo frouxo.

- Olha só quem veio buscar a gente! – Mask gesticulou abertamente com a mão em direção ao homem que se postara diante do trio.

- Sou pago pra isso. – Kanon brincou ao estender a mão para cumprimentar um por um. – Vamos lá, para a cobertura.

Logo estavam os quatro homens subindo pelo elevador, rodeados por uma atmosfera de silêncio e tensão. Mask e Shura pareciam feitos de pedra; Afrodite observava o cubículo espelhado onde se encontravam; Kanon simplesmente acompanhava, com o queixo erguido, os números digitais que simbolizavam os andares.

Com uma campainha antiquada, o elevador se abriu após parar no vigésimo sétimo andar. Um largo corredor se estendia por uns oito metros; o piso simples cor de creme em grandes ladrilhos se encerrava à beira de uma única porta, feita de carvalho, tinta de um brilho avermelhado pelo verniz caro; a maçaneta redonda e escura à esquerda, e a baixo dela uma fechadura banhada em ouro.

Kanon tomou a dianteira, fazendo um movimento para tirar as chaves do bolso da calça. A fechadura estalou assim que o homem meteu-lhe a chave e girou o pulso. A porta, que parecia mais leve do que era, deslizou com lentidão ao longo do seu ângulo de abertura. Kanon entrou e pediu que os rapazes o seguissem.

Era espantosa a dimensão da sala de estar. O teto era sustentado por grossas colunas de mármore Greco-romanas postadas nos quatro cantos do enorme aposento, e um pilar se erguia do centro do piso de mármore italiano. Entre duas das colunas, uma estante gigantesca ocupava toda a parede, e suas prateleiras escuras abrigavam todo o tipo de coisa: inúmeros retratos de família, velhas medalhas e troféus encardidos, centenas de CDs enfileirados, um potente aparelho de som que, somado às suas caixas, ocupava um bom trecho da estante; uns poucos livros estavam empilhados sobre um velho tabuleiro de xadrez de madeira bem talhada e conservada. Sobre as extremidades da estante pendiam longas samambaias, cujas folhas e cipós enroscavam-se nas largas colunas de mármores dando-lhes um ar quase clássico. Sobre o móvel, contrastando com tudo, estava, arrumada sobre um encalço de cobre luzente, uma espingarda de cano longo e fino, banhada em ouro branco, cujo tambor refletia a forte luz das lâmpadas econômicas.

Do outro lado, um sofá escuro de couro em "L" escorava-se numa das colunas; acima dele, pendurado na parede branca, havia um quadro hercúleo, de prováveis três metros de comprimento e molduras de bronze enegrecido. A imagem em questão se tratava de uma paisagem mediterrânea. A perspectiva dava a impressão de um campo de dimensão infinita, serpenteando sobre morros e vales verdes, e por eles corriam fileiras de parreiras muito bem detalhadas, cujos caules e folhas retorcidos, e frutos vermelhos muito vivos estendiam-se ao longo da paisagem até tornarem-se finas linhas cor de vinho e sumirem no horizonte. O céu era azul opaco, e as nuvens abstratas não possuíam formas.

É melhor deixar por aqui a descrição, antes que o leitor durma. Afrodite olhou a tudo com a boca entreaberta, e até tirou o boné que trazia no cocuruto, como uma forma de respeito. Shura e Mask não deram atenção ao ambiente. Detrás do pilar central surgiu um segurança de feições quadradas, sustentando nos braços fortes uma submetralhadora soviética.

Kanon ergueu as mãos assim que o cano da arma ameaçou levantar-se. O segurança o reconheceu, mas manteve os olhinhos desconfiados sobre os desconhecidos.

- Deixem as armas. – Ele sussurrou, empinando o queixo em direção a uma prateleira vazia da estante. Shura ergueu uma sobrancelha, sem reagir, e Mask bufou antes de tirar as duas pistolas do cinto. Afrodite suspirou e se desfez de seu simples 38. O espanhol foi o último. Colocou sua Magnum reluzente ao lado das demais com um gesto relutante, quase infantil.

- Sigam-me – disse Kanon, dando uns passos para frente.

O trio o acompanhou por um corredor curto e largo; a última das três portas à direita era o seu alvo, e, segundo Kanon, ali era o escritório do antigo líder da máfia, e também o local onde o atual chefe os aguardava.

O escritório era do tamanho de um quarto modesto de solteiro. Os móveis pareciam ser caros: a escrivaninha, a estante de livros, os grandes vasos de cerâmica e o divã sobre o qual um jovem descansava, com seu corpo arqueado e as longas pernas dobradas em folgados ângulos.

No mínimo, era uma figura peculiar. Os olhos azuis, que vislumbravam algum ponto invisível à sua frente, eram emoldurados por sobrancelhas louras, espessas e naturalmente bem desenhadas, posicionadas no baixo da testa mediana. Uma volumosa cascata dourada de cabelos ondulados caía sobre os ombros fortes. O nariz era proporcional, sem desfigurar seu rosto, tinha as abas estreitas e levemente arrebitadas. A boca, mesmo com os lábios um pouco rachados, completava o ar supostamente angelical do rosto jovem de vinte anos.

O rapaz levantou-se do divã, mas não se adiantou em direção aos recém-chegados. Olhava para Mask com um sorrisinho quase debochado. O italiano deu um passo à frente e apertou a mão que se estendera para ele.

- Continua com cara de moleque. – Mask estapeou o ombro do rapaz, amigavelmente.

- Há quanto tempo, "Mestre". – O rapaz fez uso dum tom muito sarcástico na última palavra.

Os homens trocaram tapas e risos. Mask voltou-se para os companheiros, meio perdidos, e apresentou-lhes o rapaz.

- Pode me chamar de Milo. Sou o chefe atual da família.

Após cumprimentá-los, sentou-se novamente no divã.

- Kanon?

O mais velho tomou a dianteira, postando-se entre Milo e os demais.

- Diga.

- Eles podem mesmo fazer o que eu quero que façam? – E lançou um olhar para Mask, sem rodeios.

- Não se esqueça de quem te ensinou a atirar, filhinho. – Brincou o italiano, fora de hora.

- É claro – Kanon interrompeu – que sim.

- Ótimo. – Milo cruzou os calcanhares sobre o divã. Tirou do criado-mudo ao seu lado um cigarro de marca cara e o acendeu. Sob o silêncio e a expectativa, tragou demoradamente o tabaco e jorrou-o numa forma quase vulgar. – Um... antigo colega do meu pai... – deu uma pausa. – Tá devendo uma grana boa. Mas o cara não quer pagar, agora que o velho morreu.

Outra pausa. Tragou novamente o cigarro e o colocou encaixado num belíssimo cinzeiro de vidro.

- Daqui a um mês ele vai fazer uma festa, no cassino dele. – Deu uma risadinha. – Kanon depois explica melhor. Eu quero que vocês peguem a minha grana de volta, com juros e correção monetária.

Rindo sozinho da própria zombaria, ergueu-se num impulso lento e quase lânguido, erguendo o corpo comprido. Umedeceu os lábios rachados antes de terminar.

- E dêem cabo no velho.

Continua.

N/A: Uou, finalmente acabou esse capítulo. Fui escrevendo, achando que tava curto, e escrevi, escrevi, escrevi... ops! 4.500 palavras! Acho que vou deixar de me importar com isso.

À D. Tenie F. Shirou:

Espero que tenha gostado, já que foi inédito pra você. #ironia. Agradeço a paciência, e o apoio!