CAP V
- Tudo certo.
Afrodite passara a manhã e a madrugada inteiras em frente ao computador. Apresentava umas leves olheiras, resultantes de seu trabalho fatigante.
Mask parou atrás dele, olhando da tela para o loiro, e de Afrodite para o dispositivo encostado sobre a escrivaninha, conectado ao gabinete por um cabo USB – nomes que o italiano não fazia a menor questão de saber. Bocejou ao ver o que lhe pareciam hieróglifos no monitor do computador.
- O que é que você tava fazendo, por mal que lhe pergunte? – Mask encostou-se no batente da porta, e serviu-se de um gole da cerveja em lata que trazia na mão.
Afrodite largou-se na poltrona e passou a mão pelo rosto exausto.
- Eu... consegui acessar um satélite local através de um programa, e por meio do IP. do computador dele, rastreei e consegui...
- Seja direto, faça o favor. – Mask o olhava como quem escutava chinês tradicional.
- Peguei o mapa do cassino que a gente vai invadir semana que vem. Sem ninguém me barrar. Sou um gênio, pode falar. – Afrodite riu, enquanto inclinava-se sobre o encosto da poltrona e espreguiçava-se como um gato.
- Você é um idiota. - Respondeu o outro, arrancando risos de ambos.
Nesse instante, aparecia Shura, com umas sacolinhas plásticas em mãos, onde carregava as compras da semana.
- Perdi a piada?
- Perdeu, meu velho. – Mask espiou por cima do ombro, dando mais uma risada. Shura deu-lhes as costas e foi até a cozinha. Pôs as sacolas sobre a mesa e sacou o celular, retirando-se para a sacada para fazer uma ligação.
- Então. – Afrodite se ajeitou na poltrona, passando a mão no couro cabeludo. - Já armamos o plano, o Shura tá a par das coisas... Falta o quê?
- Os disfarces. – Mask terminou a cerveja.
- Oh, shit. – Afrodite se inclinou até tocar o teclado com a testa. – Eu não queria fazer isso, eu realmente não queria...
- Pára de reclamar e vai fazer as unhas, madame. – Mask saiu rindo do amigo. Afrodite não se moveu, revirou os olhos ali como estava mesmo. Suspirou pesadamente quando desconectou o cabo do gabinete. Apanhou seu iPad e fuçou por uns instantes, testando o software que acabara de criar e transferir. É, estava tudo certinho.
Uma semana, era o que faltava. Mask e Shura já rodearam o lugar, tiraram umas informações, calcularam horários, e Afrodite já havia invadido o sistema de câmeras do local. Era só esperar o dia e a hora. Os preparativos estavam praticamente concluídos.
Coisa simples.
Uma limusine preta deslizou fazendo a curva pela esquina, em meio a muitos outros carros de mesmo nível. A rua estava infestada de veículos caros, pessoas bem vestidas em smokings impecáveis e vestidos brilhantes, e lampejos do neon do prédio reluziam nas centenas peças de jóias que adornavam pescoços, orelhas e pulsos.
O cassino mais famoso da cidade realizava um evento comemorando seus 15 anos de existência. Pessoas influentes e ricas acomodavam-se aos formigueiros nos salões de jogos. Os cavalheiros, mesmo os mais distintos, se arriscavam nos jogos de azar, apostando nos dados seus carros, apartamentos, e até mesmo suas vidas. As moças cochichavam entre si sobre os solteiros desejáveis dali; até mesmo as casadas esticavam os olhos para os moços mais novos que seus cônjuges sessentões. Garçons e outros tipos de funcionários desdenhavam as leis da física, conseguindo passar por lugares tão apertados e ainda sustentando bandejas enormes e pesadas com drinks e aperitivos sem derrubar um tantinho que fosse. Maiores que as máquinas de caça-níqueis, seguranças armários postavam-se nos cantos, olhando por baixo das lentes de seus óculos rayban escuros e vigiando quaisquer movimentos estranhos.
Cada figura chamava mais atenção que a outra. A limusine preta, que há pouco estacionara em frente ao cassino, era bem mais discreta do que a moça que punha o primeiro pé na calçada cinzenta. Muito alta e loira, era de óbvia origem escandinava; o corpo era esguio e bem moldado no vestido de cetim azul escuro tomara-que-caia que se fechava numa gola elegante em formato de colar, deixando à mostra as costas. Os cabelos muito louros estavam presos num coque dificílimo, caindo em cachos volumosos e perfeitos sobre os ombros alvos e magros. A maquiagem realçava os olhos azuis muito claros, e coloria num rosa ingênuo os lábios cujo sorriso era quase lânguido.
FlashBack
- Cara, acho que eu nunca vou parar de rir. – Dizia Mask, enxugando as lágrimas que caíam do canto dos olhos enquanto dirigia.
- Quero ver você rindo quando eu arrancar os dentes da sua boca. – Afrodite não parecia muito feliz. A roupa apertava bastante, ainda mais com o enchimento que quase o esmagava. – Aposto como você ia ficar muito mais sensual nesse vestido.
- Nem pensa nisso. Aliás, se esses peitos fossem seus mesmo, e não tivesse a ferramenta aí, eu até considerava.
- Espero que você não esteja falando sério.
- Não mesmo. Olha, tamos chegando.
- Já vi; espera aí, vou calçar os sapatos. Salto é uma merd...
Fim do FlashBack
Um rapaz saía do compartimento ao lado da moça, depois de ordenar algo ao motorista. O acompanhante da loira – rapaz alto e forte, de cabelos e olhos muito escuros, com um cavanhaque vistoso – dava a ela o braço, não recusado. A moça era tão alta, e ainda sustentada por um salto de tamanho razoável, que fazia o pobre moço ao seu lado parecer pequeno. No entanto, isso era só detalhe; seu belíssimo rosto chamava tanta atenção quanto às curvas insinuadas no cetim apertado.
Assim que entraram, muitos pescoços entortaram. Afrodite sentia Mask rir discretamente ao seu lado, e lançava-lhe olhares de censura. Trabalho era trabalho, não era?
Ambos entraram em tensão ao ver um homem vindo na direção deles. Era de idade, e dono de uma barba branca e espessa e uma fisionomia corpulenta. Apresentou-se como Mitsumasa Kido, o dono do cassino, e dava boas vindas aos convidados desconhecidos.
- Giancarlo Cazzignaro, signore! – Mask deu a mão, e afetando os trejeitos italianos, sacudiu com vigor o punho do outro.
- Claro, claro. Mitsumasa Kido. – O dono do local forçou um sorriso cordial antes de esticar os olhos orientais para a moça à sua frente. – E essa bela jovem...?
- Linnea Cazzignaro, sou esposa do Giancarlo! – Afrodite ofereceu a mão e se apresentou com uma voz fina e meiga. Mask teve que virar o rosto para não rir na cara deles.
- Homem de sorte, Cazzignaro! Não é todo dia que encontra uma jóia rara dessas.
Afrodite deu uma risada muito alta e digna de uma madame espalhafatosa, com direito a trejeitos femininos e tudo. Mask quis acompanhá-lo,só para debochar, mas conteve-se. O velho Kido não percebeu – pois parecia não conseguir desviar os olhos da "bela" Linnea – e os convidou a juntarem-se aos indivíduos mais ilustres dali.
- Meus caros, viram a situação da bolsa de Londres? – Dizia um.
- Nem fale disso. Meu assistente está vigiando a de Tóquio enquanto estou aqui!
- Santo Dio! – Mask veio puxando conversa. – Acabamos de voltar de Nova Iorque. Consegui vender umas ótimas ações!
A conversa rendeu uns quarenta minutos de um assunto quase interminável, onde homens de negócio pareciam entreter-se. Mask teve de fazer o papel do "marido trouxa", porque os olhares que Mitsumasa lançava sobre Afrodite – Linnea, Linnea! – eram óbvios. O italiano esperava a continuidade do plano, começava a ficar ansioso.
O celular tocou, e Mask – ou Giancarlo – atendeu-o e afastou-se do grupo em alguns passos. Parecia exaltado, e meio preocupado. Voltou até o círculo onde se encontrava e anunciou ter que se ausentar por umas horas.
- O signore pode cuidar da minha pequena, de minha Linnea, signore Kido? – Disse Mask, usando a melhor cara de pau que tinha.
- Ah, mas é mesmo uma pena. – Disse Kido, apertando a mão que Mask oferecia e dando uns tapas cordiais no ombro do mesmo.
Afrodite, percebendo o sinal do companheiro, pôs dramaticamente a mão enluvada sobre o seio artificial enquanto seus lábios formavam um perfeito "O". Despediram-se rápido, Afrodite espanou o smoking de Mask imitando o carinho de esposa e logo o plano estava em ação.
Enquanto o loiro estava lá dentro "fazendo a social", Mask disparou para fora do cassino, apanhou a limusine e deu umas voltas no bairro. Acabou por estacionar a um quarteirão dali, e, tirando os disfarces, penetrou num terreno baldio nos fundos do cassino e bateu com insistência numa porta de acesso somente dos empregados. Um moreno alto, vestindo roupas de garçom, atendeu-o.
- Tudo certo? – Perguntou o italiano.
- É só esperar pelo Afrodite. – Confirmou Shura, desfazendo a gravata borboleta. – Estamos sozinhos. Ali naquela caixa tem os equipamentos – apontou uma caixa média encostada no canto – e entraremos por ali.
Mask olhou para onde Shura lhe apontava. Invadir pela tubulação de ar, não é? Muito original.
- É o que temos.
- Ah, o trabalho do meu marido é assim mesmo! – Afrodite estava aos risinhos com os outros. Em seguida, fingia uma careta de desapontamento. – Pensei que íamos nos divertir hoje, mas...
- Não se preocupe, minha querida! – Mitsumasa sorriu-lhe, e pôs a mão nas costas da "moça", perto da altura do cóccix. Afrodite teve que conter uma pontadinha de irritação.
- Ah, eu... Eu... – mordeu os lábios, meio nervoso. – Eu... preciso... preciso ir... ao toalete... Desculpa! Coisa de mulher! – Deu mais uma risadinha e se afastou dando um tchauzinho. Longe o suficiente, revirou os olhos e sussurrou com sua voz grave e normal – Velho filho de uma put...!
Dentro do banheiro, verificou se não havia ninguém lá dentro. Perfeito. Afrodite tirou da bolsinha o iPad que trabalhara na outra semana; cutucou a tela sensível e acessou alguns arquivos essenciais. Apanhou o celular, que vibrava ao receber uma ligação.
Ao atender, ouviu uma risadinha.
- Um pio sobre o meu disfarce e eu...!
- Calma, impiastro. Atrapalhei alguma coisa entre você e o velho safado? – Mask começou a rir em voz baixa.
- Ele tá quase passando a mão na minha bunda! Não quero nem lembrar disso. – Afrodite pressionou a ponte do nariz. Assim que alguns arquivos piscaram na tela do dispositivo, o moço suspirou e apoiou o celular no ombro. – Acabei de te mandar, é um mapa. Conseguiu receber?
- Arrã. – A voz de Mask estava mais baixa.
- Marquei em vermelho o trecho que vocês têm que seguir a partir da despensa.
- Tamos aqui.
- Perfeito. Agora andem logo, que eu tenho pouco tempo aqui.
Assim que Mask ia responder, Afrodite soltou uma exclamação aguda e começou a dizer coisas desconexas sobre vestidos e jóias. Dois minutos depois o loiro explicou-lhe que uma mulher acabara de entrar no banheiro. O italiano teve ímpetos de rir, mas Shura o cutucou no tornozelo para que voltasse a se arrastar pela tubulação.
Afrodite trancou-se numa das cabines, bufando, para evitar ser visto de novo. O velho que o esperasse; era hora de trabalho.
Enquanto isso, Mask seguia à frente de Shura; ia andando arrastado pelo apertado cano, mas como era largo o suficiente para a passagem de um homem, pouca era a dificuldade dessa etapa. O italiano seguia o mapa traçado pelo amigo, com Shura, literalmente, em seu encalço. Seguiram uns bons minutos até encontrarem o estrado metálico por onde entrariam no aposento.
"Dá um segundo pra eu cortar as câmeras... isso. Podem ir." Sussurrou Afrodite.
Um golpe forte de cotovelo mandou o estrado para o piso onde Mask e Shura aterrissaram. De imediato, apontaram as armas, equipadas com silenciador e lanternas, para quaisquer cantos. Vazio. As câmeras pendiam moles junto ao teto.
Mask fez sinal para que Shura o acompanhasse. Não demoraram a encontrar a porta grande e pesadona do cofre.
"Andem, caras. Acharam o cofre?"
- Sim – Mask sussurrou em resposta. Baixou a arma enquanto Shura o cobria, dando-lhe as costas e mirando no corredor. – A senha, qual a senha?
- Que mané senha. – O loiro riu baixinho, meio nervoso, no outro lado da linha. – Faz assim: pega aquele cabo que te dei, pluga no seu aparelho e conecta no local onde passa o cartão.
- Tá certo.
- Só um minuto.
Assim que Mask fez o que lhe fora pedido, viu seu próprio iPad piscar várias vezes como se alguém estivesse usando. Era Afrodite, que conseguira raquear o dispositivo do companheiro e inserir um aplicativo que descobria qualquer tipo de senha em trinta segundos. Milhares de dígitos correram na tela digital do cofre em instantes. Mask suava frio; parecia demorar uma eternidade.
As travas do cofre deslizaram devagar assim que a senha foi encontrada. Mask puxou a pesada porta e espiou. O italiano soltou um longo assovio. O cofre, cujo tamanho era devido à grossura das paredes de chumbo revestido, abrigava em seu interior uma espécie de um aparelho eletrônico, retangular, preso ao fundo do cofre. Alguns plugs, em pinos fêmeas, estavam dispostos paralelamente, cada qual com sua função. Mask foi guiado por Afrodite para conectar um dos cabos na entrada USB. Era um dispositivo que acessava a fortuna de Mitsumasa Kido.
Enquanto isso, Shura dava as costas a Mask, carregando a pistola à altura do ombro, para conferir a segurança da sala. Mask observou novamente o trabalho de Afrodite, que fazia a transferência do dinheiro do cassino para uma conta fantasma. Assim que pensou em respirar de alívio quando o processo foi concluído, percebeu o movimento de Shura recuando.
- Tem gente vindo. – Disse ele, parando ao lado do comparsa.
Mask teve de ser ágil para fechar o cofre sem barulho; porém, o zíper da mala de dinheiro emperrou, e na ânsia de consertá-lo, o puxão foi ruidoso. Ao fundo, o ruído harmonioso de mocassins cautelosos se aproximava da sala do cofre; não havia nenhum lugar para fugir, ou se esconder. A adrenalina se espalhou por todo o corpo de Mask antes que tocasse o punho do revólver preso no cinto.
O ritmo dos passos cessou, e os bandidos respiraram tensão. Num décimo de segundo, um capanga muito alto saltou de trás da quina da parede, sacando uma arma. No entanto, o revólver de Shura foi mais rápido e acertou o segurança na mão, desarmando-o. No segundo seguinte, Mask tirou a arma do cinto e cravou duas balas no peito do segurança. O corpo caiu com estrondo.
- Rápido – rosnou Mask, correndo até o homem caído e arrastando-o pelo chão. – Me ajuda a colocar ele no cofre.
Afrodite ouviu o barulho, e desligou o telefone. Agora, mais que nunca, tinha que ir fazer o papel de isca! Explodiu pela cabine do banheiro, assustando outra moça, e saiu finalmente do banheiro. Mitsumasa olhou diretamente em sua direção, abrindo um sorrisinho nojento.
Foi até ele, tentando manter um sorriso de desculpas.
- Mil perdões pela minha demora...
- Não tem problema, minha jovem. – O velho voltou-se para Afrodite, novamente apossando-se de sua cintura com a mão gorda.
O loiro precisou contar mentalmente até dez.
- Coisa de mulher.
- Entendo muito bem. – Disse Kido, trazendo em seguida Afrodite para o balcão do bar.
Afrodite teve de pensar rápido. Começou a tagarelar.
- Ah, coitado do meu marido, nem nos dias de folga tem descanso! E olha que ele tinha conversado com os fornecedores, disse que ia tirar hoje só para virmos aqui... Deve ter tido algum problema com a contabilidade, ah, aquela secretária incompetente! E...
Ia disparar uma infinidade de bobagens sem pensar, incorporando a mulher faladeira; mas Kido veio falar-lhe ao ouvido.
- Mal consigo te ouvir. Melhor irmos à minha sala, poderemos conversar.
Afrodite teve um mau pressentimento na boca do estômago, porém não deixou transparecer no sorriso falso. Concordou, e aceitou o braço que Kido oferecera. Alguns seguranças desobstruíram o formigueiro de convidados para que o velho encaminhasse a "sra. Cazzignaro" até seu elevador particular.
Afrodite precisou contar os nervos enquanto Kido tamborilava os dedos em sua cintura. O elevador parecia se deslizar para cima com a típica lerdeza de momentos incômodos. No entanto, foram apenas três andares.
Saindo do elevador, um curto corredor levava a uma porta de metal. O velho Kido separou-se "da moça" para depositar a mão gorda sobre um dispositivo de LCD, onde um forte feixe de laser óptico colheu-lhe as digitais, e então a porta destrancou-se. Afrodite assistiu a isso de longe, apertando as próprias mãos à frente do corpo.
Não que fosse covarde, mas estar ali sem uma arma dava a impressão de estar entregando a própria cabeça numa bandeja.
Porém, tinha de ser frio, e tinha de continuar. Era no que pensava enquanto Kido o guiava pela mão até a sala particular.
A parede escura e aveludada sustentava uns poucos candeeiros modernos que iluminavam suficientemente o aposento. Um sofá obviamente caro cor de creme estava disposto à frente da entrada e ao lado de uma porta em persiana que dava acesso à cozinha. Adiante, uma mesa de centro, de baixo porte, feita de madeira escura e superfície de vidro; o tapete aos pés da mesa era de pele verdadeira de algum urso albino – cuja cabeça dava de frente para a entrada da sala, esbanjando os dentes longos da boca escancarada.
Afrodite sentiu-se imediatamente incomodado. Olhou com discrição ao seu redor, fingindo examinar a decoração quando na verdade vasculhava a presença de pessoas ou câmeras. Nada.
- Agora podemos ficar à vontade – Kido estendeu a mão roliça em direção ao sofá. Afrodite sentou-se, disfarçando o incômodo do enchimento. Quando Kido retirou-se para a cozinha, o loiro bolinou os próprios seios falsos para ajeitá-los.
O velho voltou com uma garrafa de champanhe e duas taças. Afrodite tornou a armar-se com o melhor sorriso que tinha.
- Muita gentileza, Sr. Kido, não...
- Me chame de Mitsumasa, por favor.
- Err... Bom, não precisava. – Afrodite encolheu os ombros ao simular um gesto de timidez. Kido colocou as taças sobre a mesa de centro e encheu-as com o champanhe.
- Claro que precisa, precisamos comemorar. – O velho sentou-se.
- Ah, o cassino, não é? – Afrodite cruzou as pernas, acomodando a bolsinha sobre as coxas.
- Sim, claro. – Kido apanhou a própria taça e entregou a outra a Afrodite. – Mas também pela sua companhia, tão adorável.
Afrodite sorriu e passou uma mecha de cabelo para trás da orelha. "Ai, meu saco!", praguejou mentalmente, contendo a vontade de revirar os olhos. Brindou com Kido, que tomou um golinho e deixou a taça sobre a mesa para dar atenção a algo mais interessante.
- Então, em que trabalha o seu marido?
- No ramo de transportes, mas não é muito divulgado. – Afrodite inventou na hora.
- Entendi. Deve ser triste para a senhorita ter que passar o tempo sozinha.
E escorregou no estofado para perto de Afrodite. Este pensou que ia ter uma síncope; colocou disfarçadamente a bolsinha ao seu lado antes que Mitsumasa encostasse a perna na sua coxa.
- Minha família é grande, quase nunca fico sozinha – Afrodite deu um sorriso meio histérico. Mitsumasa coçou a espesse barba, mas não desistiu:
- Tem filhos?
- Err, não, ainda não. – Afrodite apertou os lábios e balançou um pouco corpo, forjando uma postura meiga.
- Não parece ter, mesmo.
E Kido mediu "a moça" de alto a baixo com olhos gulosamente indiscretos. Afrodite sentiu um tampão de nervoso bloquear-lhe a garganta e virou o rosto para olhar o ambiente. Desta vez contara até vinte.
Mitsumasa voltou para a frente o rosto barbudo e estapeou as próprias coxas.
- Deus, esqueci de oferecer; quer alguma coisa, minha querida?
- Ah, não, não seria educado eu aceitar... – Afrodite jogou a isca.
- Eu insisto, por favor. Espere-me aqui, não vou demorar.
Estava fisgado. Kido deixou a própria taça sobre a mesa de centro.
Era a única chance.
Com a agilidade de um espião, o loiro tirou da bolsa duas cápsulas e abriu-as sobre a taça de Kido, despejando o conteúdo em pó na bebida. O champanhe efervesceu e voltou ao normal. Afrodite jogou as metades da cápsula vazia no fundo da bolsa e socou-a no sofá, dois segundos antes de Kido aproximar-se com petiscos do mais fino chocolate.
- Por favor, pegue um.
Encarnando o papel, Afrodite estendeu a mão e apanhou um pedaço do doce. Kido fez o mesmo, antes de apanhar a própria taça.
- Gostou?
- Sim, muito bom! – Mal sentira o gosto do doce, diante à tensão.
Viu Kido tomar um gole. O velho fez uma careta, alegando que o doce deixara o champanhe mais azedo, e virou a taça toda noutro gole. Afrodite deixou escapar um sorrisinho que Mitsumasa interpretou de outra forma. Kido pousou a taça sobre a mesa de centro e a mão livre sobre o joelho de Afrodite. No instante seguinte, como reflexo, o loiro deu um tapa barulhento na mão de Mitsumasa.
- Sr. Kido, sou uma mulher casada! – Tento consertar, em seguida forçou um sorrisinho.
Mitsumasa riu da timidez "da moça", e coçou de leve a barba, apalpando o queixo. Afrodite fez charminho, ficando mais tenso diante dos segundos de espera.
- Não precisa ter vergonha, fica só entre nós. – Disse Kido, sorrindo; em seguida, pareceu desconfortável e tornou a segurar a mandíbula. – Minha boca é... Um túmulo.
- De fato.
Afrodite observou homem à sua frente apertar a mão contra o peito e retorcer se um pouco. Em seguida a pele de seu rosto transbordava suor; os olhos amendoados estavam injetados e pareciam banhados em sangue. Kido arfava e salivava como um louco; seu corpo escorregou pelo sofá e caiu de borco no tapete branco. O velho estremeceu, convulsionou; virou-se para cima, apertando o coração com a mão em garra e ficou imóvel.
A falsa Linnea ergueu-se assim que Kido teve a última convulsão. Cutucou-o com o bico do salto para verificar se estava vivo.
- Te vejo no inferno.
Recolheu a bolsa contra si, e se dirigiu para a cozinha. Abriu a torneira da pia e molhou os olhos e as maçãs do rosto. Desfez parte do coque que sustentava seu cabelo e forjou lágrimas.
Em alguns minutos, usando toda a coragem e cara-de-pau que dispunha, alcançou o grande salão dando grandes soluços histéricos. A maquiagem propositalmente borrada dava-lhe uma aparência penosa. Afrodite atirou-se ao primeiro segurança e forçou os soluços.
- O que foi, senhora? – Perguntou o atônito segurança.
- O Sr...o Sr. Kido... ele...! Ele teve um ataque!
O segurança fez um sinal para que outros cinco fossem para a sala particular de Kido; "Linnea" punha a mão no próprio peito, soluçando e arregalando os olhos de susto.
Alguns dos seguranças voltaram afobados.
- Alguém chame a ambulância!
Afrodite soltou um lamento escandaloso, escondendo o rosto com as mãos. Algumas pessoas circundaram o local, curiosas com relação ao choro descontrolado da "senhorita".
- A moça ficou assustada, melhor tirá-la daqui. – Sussurrou um segurança ao companheiro. – O velho já era!
- Melhor chamar o resgate. – Disse o outro, antes de tirar Afrodite do meio das atenções.
A ambulância não demorou a chegar. Mitsumasa Kido já estava morto, não havia nada a ser feito senão retirar seu corpo. Foi dado como diagnóstico um infarto fulminante, causado por ingestão de remédios estimulantes que aumentaram sua pressão. Era sabido que o dono do cassino era hipertenso; um descuido de remédios o levou à morte.
Em meio à confusão e aos curiosos, "Linnea" foi avisada de que seu marido viera buscá-la. Ardendo de alívio, Afrodite deu outro pequeno espetáculo de lamentos e histeria antes de enfiar-se na limusine alugada.
- O velho Kido aproveitou bem os últimos minutos? – Mask estava no banco à frente de Afrodite, no compartimento principal da limusine. Sustentava um sorriso torto e debochado.
- Só ele que aproveitou. – O loiro começava a se livrar do enchimento e dos saltos. – Pensei que vocês tinham sido pegos.
- Ah, a gente deu um jeito lá. – Mask fez um gesto de descaso com a mão. – Eles vão ter uma surpresa quando abrirem o cofre.
- Vamos logo pra casa, só quero a minha cama. – Afrodite abriu a pequena portinhola que mostrava o motorista. – Shura, falta muito?
- Não. – Respondeu o espanhol ao volante.
Meia hora depois, os três já estavam de volta ao esconderijo. Mask falava ao celular com Kanon; estava empolgado. Enquanto isso, Afrodite e Shura estavam na cozinha; o louro preparava-se para abrir uma garrafa de champanhe quando Shura segurou sua mão para impedi-lo.
- Olha para a janela.
Afrodite ergueu devagar os olhos e reparou, a uns vinte metros dali, encostado à sombra de uma árvore, um carro com dois passageiros. Na esquina seguinte, havia outro.
- Estão aí desde que saímos. – Sussurrou Shura.
- Polícia? – Perguntou Afrodite, recebendo um aceno do espanhol.
- Afrodite, lá para cima. – Disse um Mask que entrava de forma urgente na cozinha. Havia visto mais dois carros no quintal. – Já sabe o que fazer.
Como quem não houvesse percebido nada, o loiro afastou-se de forma natural da janela, para, em seguida, disparar escada acima. Alcançou o próprio quarto e tirou de baixo da cama um rifle de calibre 44 e colocou-se junto ao parapeito da janela, sem ser visto.
No andar de baixo, Mask arrumara-se com a submetralhadora reserva; Shura, ainda à espreita na janela, vasculhou com os olhos espertos a movimentação dos policiais. Apertou o punho do revólver quando viu um dos homens postar o tronco para fora do carro e sacar um mega-fone.
- Vocês estão cercados! Saiam da casa com as mãos na cabeça!
Com a arma numa das mãos e amparada na coxa, Mask silenciosamente destrancou a porta da casa sem abri-la, e colocou-se de ombro encostado na soleira da sala. Shura deu uns passos para trás a fim de dar a entender que se renderiam, e desembainhou a própria arma. Mask sussurrou-lhe para que subisse.
- Vocês têm dois minutos para sair do local. – Continuou o policial, no mega-fone. – Caso contrário, vamos invadir.
Em seguida, um estrondo violento de uma explosão estremeceu as paredes da casa. Shura correu para o segundo andar, e Mask segurou a maçaneta da porta com ansiedade. Mais duas explosões.
No andar de cima, Shura encontrou Afrodite recuando da janela onde estava, com seu rifle no ombro. De relance, era possível ver as massas em chamas no quintal, que um dia foram os camburões policiais. Shura encostou-se no parapeito a ponto de ver Mask dar uma carreira pelo quintal, ora apontando o cano de sua metralhadora para os policiais que restavam, ora escondendo-se atrás de destroços. Era a isca.
O espanhol deu as costas em direção ao corredor, disparou para a janela de saída de incêndio e levantou-a.
- Afrodite! Anda te!
Afrodite também olhava a fuga de Mask. Os outros policiais saíram de seus postos para encobrir os feridos; estavam livres as outras saídas. Quando o loiro percebeu um dos carros restantes dar a partida para perseguir o foragido, posicionou-se novamente e disparou uma bala certeira na calota do camburão. O pneu explodiu; o veículo rodopiou duas vezes, rasgando o asfalto, e bateu com tudo no poste de luz mais próximo, trazendo-o ao chão. A calçada foi coberta por fios eletrizados e nacos de concreto. Mask já estava a uns vinte metros de distância quando Afrodite largou seu rifle na cama e seguiu para onde Shura lhe gritava.
Mask corria e arfava, espiando ora por cima dum ombro, ora doutro. Alguns policiais corriam atrás dele, disparando sem sucesso. Mask livrou-se da arma quando entrou num beco e precisou escalar uma parede em grades. Virou cada esquina possível para esquivar-se dos tiros e perder-se dos policiais.
Numa dessas quebradas, Mask saiu numa avenida aberta; teve que passar correndo entre os carros, que ao chocarem-se, bloquearam por uns segundos o caminho dos policiais. O vento varria os cabelos do rosto do fugitivo, que não sentia mais as próprias pernas. Correu por uma praça em direção à escadaria de uma estação de metrô. Mask ia escorar-se na murada para saltar e aterrissar no meio das escadas, mas um tiro impossível raspou seu ombro e o fez rolar pelos degraus.
Os seguranças atônitos olharam o homem ferido disparar entre eles, mas antes que pensassem em segui-lo, Mask saltara sobre as catracas e disparara escada abaixo até o metrô. Os policiais, que mal se agüentavam nas pernas, acionaram os rádios pedindo reforços, porém Mask já estava metido no metrô que partia da estação.
Ignorando os curiosos que olhavam em sua direção, Mask sacou o celular do bolso e teclou uma mensagem de texto para Shura. Queria saber se estavam vivos.
Continua.
N/A: Cara, dessa vez eu me empolguei de verdade!
Desculpem pela demora, e como sempre, vou demorar a postar de novo. Tô tão cansada e ocupada que sinto os neurônios escorrerem pelos ouvidos...
Espero que tenham gostado!
Black Scorpio no Nyx:
Espero que tenha gostado do Afrodite como hetero... afinal de contas, é sempre bom variar! Além do mais, foi bom, pra mostrar ao pessoal que deixa de ler achando que é yaoi. Shura sempre meticuloso, até demais... E sobre o Milo... hehe! Quis fazer uma apresentação especial pra esse escorpiãozinho sexy que eu adoro. Obrigada por ler, espero que continue acompanhando! Um beijo!
SoShy:
Bom saber que está gostando da personalidade deles! Afinal, ninguém melhor que eles pra encarnar um trio de bad-boys. Sobre o hentai, eu digo o seguinte: não garanto que o Afrodite seja assim transformado depois de uma tarde de sexo. Desculpe por parecer machista, mas ele ainda é homem, e "tem suas necessidades"; e se eu o colocasse junto com outras personagens da saga, como a Saori, Pandora, Marin, Shina e etc., ia ficar completamente sem par. Por isso, a O.C. . Obrigada por ter lido, um beijo, espero que continue!
Até a próxima!
