Capítulo VI


FlashBack

Shura e Afrodite – que praguejava o vestido que nem tivera tempo de tirar – saltaram da janela para a escadaria externa ao edifício. Assim que alcançaram a calçada, depararam-se com um único vigia; mas Shura foi mais rápido e sentou-lhe uma coronhada no cocuruto com o tambor de seu revólver. Deixando o policial desmaiado escondido num latão de entulho, Shura e Afrodite seguiram a passos ágeis na direção oposta ao caminho que Mask tomara.

Apanharam um ônibus qualquer, e ao afastarem-se sem perseguição, respiraram com certo alívio.

- Será que ele vai ficar bem? – Comentou Afrodite, depois de cinco minutos de silêncio.

- Ele sempre fica. – Shura fechou momentaneamente os olhos e encostou a têmpora no vidro do ônibus.

- Acha mesmo? – Afrodite escorou a nuca na cabeceira do assento.

- Certeza.

De repente, Shura abriu os olhos e tirou o celular do bolso. Estreitou um pouco os olhos e abriu um meio sorriso. "Não falei", disse ele, mostrando as letras de Mask. Indicavam um endereço.

- Bom, vamos lá, né.


O endereço enviado por Mask os levou a um bairro de classe média; lugar tranqüilo, cheio de apartamentos e sobrados pequenos. Shura e Afrodite encontraram Mask num barzinho maltrapilho, sentado junto ao balcão. Os recém-chegados sentaram-se um em cada lado do italiano.

- Escapamos de novo. – Afrodite apoiou o cotovelo no balcão, e pediu uma dose pequena de aguardente.

- Como sempre... Afrodite. – Mask olhava-o. O loiro virava a bebida num gole só.

- Oi?

- Por que ainda tá de vestido? – O italiano ria maldosamente.

- Não sei, talvez porque a gente mal tinha chegado em casa e de repente invadiram a nossa casa. Não faço idéia, mesmo. – Revirou os olhos.

- Como eles conseguiram pegar a gente? – Falou Shura, pela primeira vez em dez minutos.

- Será que seguiram a gente desde o ...? – Afrodite tentou um palpite.

- Não, já estavam de tocaia desde a manhã, já falei isso. – Shura pareceu impaciente.

- Quer saber? Pelo menos a gente tá vivo, e melhor, não fomos presos. – Mask parecia satisfeito com o desfecho da fuga. – Mesmo que a gente tenha perdido a casa, as armas e a vã...

- Bem observado, gênio – ironizou Afrodite, erguendo uma sobrancelha. – Agora, o que a gente faz?

- Calma lá que já dei um jeito. – Respondeu o italiano, fazendo um gesto de conciliação com as mãos. Afrodite soltou um silvo de descrença.

- Mask com seus "jeitos".

- Em caso de emergência...


Já estava amanhecendo quando bateram à porta de um apartamento do prédio mais bem situado do bairro simples. As leves pancadas mal fizeram eco pelo corredor pelo corredor curtinho, e a porta castanho claro se abriu para eles. O rosto de Kanon à fresta da porta pareceu surpreso.

- Polícia? – Perguntou ele, logo após fazê-los entrar e sentarem-se no sofá.

- Estavam cercando a gente desde cedo. – Mask amparou os cotovelos nos próprios joelhos enquanto falava.

- Viram vocês vindo para cá? – Kanon estava sentado no braço do sofá, olhando os três de forma preocupada.

- Não. – A resposta foi em uníssono. O mais velho soltou um suspiro de alívio.

- Menos mal. E esse braço, Mask? – Kanon indicou o tecido ensangüentado na manga do italiano.

- Não vai cair não, pode ficar sossegado.

- Vou trazer umas coisas aqui; podem usar meu chuveiro, empresto umas roupas, também.

Kanon afastou-se para algum dos cômodos. Mask desconfiou; aquela postura paternalista era estranha vinda quando vinda de Kanon. Deve ter ficado desse jeito depois que o Sr. Cipriano, antigo líder da máfia grega, morreu e deixara Milo nas mãos dele, pensou o italiano enquanto franzia o cenho.

- Espero que não se importem, mas preciso de um banho, e quero tirar logo isso. – Afrodite sacudiu com impaciência os tornozelos, fazendo ondular a barra do vestido. Até Shura riu.

Kanon chegou à sala em seguida com uns esparadrapos e umas mudas de roupa. Jogou cada uma no colo de cada um. Afrodite disparou para o banheiro assim que Kanon lhe indicou o caminho.

- Por hoje vocês ficam aqui; mas vamos falar de coisa séria. – Kanon sentou-se onde estava Afrodite. – Kido?

- Já vai tarde. – Respondeu Mask com um sorrisinho, e escorava a nuca no respaldo do sofá.

- E o dinheiro?

- O Afrodite fez uns esquemas, lá. – O italiano gesticulou de forma desajeitada. – Zeramos o cofre.

- Ótimo. – O grego sorriu, satisfeito. – Um ponto pra vocês.

- Beleza. E a parte interessante? – Mask atritou a ponta dos dedos, num gesto conhecido.

- Ah, sim, tá certo. Bom, já que perderam a casa e tudo lá dentro... – Kanon fitou o outro lado da sala, pensativo. – Eu ia propor arrumar um lugar decente pra vocês, porque não vão ficar aqui pra sempre. – Riu pelo nariz, depois reassumiu uma postura séria. – Claro, e um por cento para cada um do tanto que tiraram do Kido... ou que, segundo os meus cálculos, seriam uns U$5.000.000,00.

- Cada um? – Perguntou Shura, erguendo a sobrancelha.

O sorriso de Mask foi involuntário.

- Cada um. – Confirmou Kanon.

Afrodite apareceu na sala no um tempo depois, parecendo aliviado por usar calças. – as roupas de Kanon ficaram meio folgadas nele, mas não tinha importância.

- Então, está certo. – Kanon apoiou os cotovelos nos joelhos e cruzou os dedos.

- Agora eu é que vou dar um jeito na minha situação. – Mask segurou a muda de roupas e levantou-se, e dirigiu-se ao banheiro. Afrodite sentou-se em seu lugar vago.

- Valeu pelas roupas – disse o loiro, dobrando as mangas longas.

- Nem precisa dizer nada. – Kanon acenou com a cabeça e levantou-se. – Vou ver alguma coisa pra vocês comerem.

Assim que Kanon desapareceu do cômodo, Shura foi atrás dele. O espanhol apoiou-se de ombro na geladeira, mantendo os olhos em Kanon, que parecia nem tê-lo notado de tão entretido que estava em vasculhar as prateleiras da despensa. Mas não se sobressaltou ao ver Shura.

- Fala, meu amigo – disse o mais velho, enquanto abria a geladeira e a fechava com o joelho, uma vez que as mãos estavam ocupadas com congelados.

Shura não respondeu de imediato.

- Kanon – pronunciou o espanhol, arrumando a postura. – O que aconteceu no dia da morte do tal Sr. Cipriano? Foi testemunha?

O grego assentiu, encarando Shura com os olhos muito verdes. Pareciam assumir um brilho doloroso.

- Muito bem. Melhor eu contar a todos, de uma vez. – Foi só o que disse.


Quando os três estavam devidamente limpos, trocados e alimentados, Kanon pediu a eles que se reunissem na sala de estar. O relógio de pulso de Mask apontava sete horas da manhã, e estavam todos com olheiras de cansaço.

Kanon sentou-se numa poltrona em frente ao sofá onde se encontravam Mask, Shura e Afrodite, nesta ordem mesmo. O grego ainda sustentava uma expressão quase amarga, a mandíbula trincada e os olhos semicerrados.

- Bom, e aí? – Mask fez um gesto para que o outro começasse o relato.

- Como o nosso amigo Shura pediu, vou contar a vocês o que aconteceu naquela noite. Faz sete meses, mas eu me lembro perfeitamente:

"Naquele dia, tínhamos uma negociação com um grupo... não posso dizer quem são. Não vem ao caso. Era de negociadores do mercado negro, gente perigosa. O local da reunião era fora da cidade, e de madrugada a vigília era o mesmo que nada."

"No armazém abandonado onde estávamos, havia sete pessoas. Eu, o Sr. Cipriano e Milo, que insistiu para ver como era; os outros faziam parte do outro lado. Fizemos a nossa proposta, mas a reação foi negativa. A proposta deles também não era interessante para nós, e diante da resposta do Sr. Cipriano, o clima ficou tenso. Sabíamos que o local estava cheio de comparsas deles. Assim como dos nossos. No pior dos casos, morria todo mundo."

Kanon fez uma leve pausa.

"Deixamos a negociação em aberto, pedimos um tempo para pensar. Mas Milo, sentado ao meu lado, parecia agitado demais. Mask, você, principalmente, sabe com ele é impulsivo, mal pensa para agir. Na hora de ir embora, o representante do outro lado fez pouco caso com o Sr. Cipriano, e Milo reagiu mal. Tomou a frente. Quis 'peitar' o grandão de lá, e só vi uns três caras por a mão no cabo das armas. Puxei Milo pelo braço e o Sr. Cipriano pediu desculpas pelo filho; mas o estrago já estava feito, e eu sabia que tínhamos que sair dali, rápido."

Kanon respirou pesadamente. Umedeceu os lábios antes de prosseguir.

"Saímos do armazém e pude ver uma movimentação estranha. Mandei Milo embarcar no segundo carro, com os outros seguranças, em meu lugar."

"'Se eles tentarem qualquer coisa, vai ser fácil pegar vocês dois juntos. ', eu disse a eles. Milo hesitou por um instante, mas seu pai concordou comigo e mandou seguir meu conselho."

"Tudo parecia correr normalmente. Eu e o Sr. Cipriano entramos no primeiro carro e fomos embora. Discutíamos a transação quando o carro saiu da rota."

"'Ei, meu amigo, pra onde está indo? ', perguntei ao motorista."

"'É só um atalho, chefe', ele respondeu."

"Não houve tempo de dizer nada; em dois segundos, só vi o motorista sacar uma arma e em seguida meteu um tiro na cabeça do Sr. Cipriano!"

Kanon sacudiu a própria cabeça antes de continuar.

"Minha reação foi de segurar o braço do filho da mãe antes de tentar me matar! Então o carro começou a balançar e a perder o controle, deu um tranco e eu senti um tiro na minha perna." Seu rosto contorceu-se ao lembrar-se da dor lancinante que os três ali já conheciam bem.

"Consegui tirar a arma do maldito, e dei dois tiros na cabeça dele, sem pensar. Só vi o carro ir pra um barranco e capotar. Quando dei por mim, só sentia a dor, e eu tava deitado no teto do carro. O cheiro de sangue era forte, e eu saí me arrastando pela janela quebrada. O Sr. Cipriano estava morto, e o outro lá ia morrer rapidinho. Mas eu apaguei."

O silêncio voltou à sala. Kanon estava com o corpo curvado e os cotovelos amparados pelas coxas, com a expressão mais trágica que nunca. Mask encarava-o, enquanto sustentava o queixo com uma das mãos.

- E quem achou vocês? – Perguntou Afrodite, que estava displicentemente abraçado a um dos joelhos.

Kanon umedeceu os lábios antes de erguer os olhos para Afrodite.

- Pouco atrás de nós estava o nosso segundo carro... Eles nos seguiram, viram que não fomos pelo caminho de sempre. Foi o que me disseram.

- E daí em diante o Milo foi colocado como chefão de tudo, é isso? – Interrompeu Mask, inclinando o tronco sobre o respaldo do sofá, apoiando os braços no mesmo.

- Sim, é isso.

"Isso não me cheira bem", pensou o italiano.

- Bom... – Disse Kanon, levantando-se e soltando um suspiro pesado. – Vocês precisam descansar. É claro que não vão ficar aqui para sempre, então vou dar um jeito nisso. Logo pela manhã vou dar um jeito e conseguir um novo "quartel-general" pra vocês.

Afrodite riu de leve ao ouvir o termo.

- Tenho um quarto de hóspedes e os sofás, vocês se viram aí. Só me deixem dormir, porque dor de cabeça vocês já me deram o bastante. – Mas o mais velho sorriu com um jeito paternal. Então deu as costas e voltou para o próprio quarto.

Os três restantes ali na sala ficaram silenciosos, pensativos e até cansados... até que alguém perguntou:

- Quem vai dormir no quarto?

Shura disse que não se importava, mas Mask e Afrodite disputaram no "par ou ímpar". Vitória do sueco, o que levou a uma discussão.

Enquanto isso, o espanhol se retirava para a cozinha, onde sacava do bolso o celular.

- Sou eu.

- O que aconteceu? Você demorou pra atender.

- Aconteceram alguns problemas, mas tudo resolvido.

- Sua voz parece estranha...

- Depois eu conto melhor, pessoalmente. Preciso ir dormir.

-... Você que sabe. Se cuida.

- Claro.

- Eu te amo.

Shura hesitou por um instante, espiando para a sala onde Afrodite e Mask ainda estavam entretidos na discussão. Voltou o rosto para o lado e sussurrou, antes de desligar.

- Também te amo.

Continua


N/A: E depois de trezentos milhões de anos, finalmente eu consegui publicar esse capítulo!

Já tive muitas versões diferentes, várias folhas perdidas... No final, hoje me acendeu uma luz divina (acho) que me ajudou e me empurrou pra caçar esse capítulo – que estava na metade – e terminá-lo. Mesmo que quase ninguém mais vá ler, já faz tanto tempo...

Desculpem pela pieguice do final, mas estou romântica ultimamente (L).

Reviews:

À SoShy:

Sobre a OC, é de uma amiga minha... Roubei só pra fazer par com o Afrodite... Sobre "ficar sem par", admito que fui um pouco prolixa e me enrolei. Eu quis dizer que nenhuma personagem do próprio anime/mangá, Saint Seiya, cairia bem com o Dite. Marin, Shina, Mino, June, Esmeralda, Saori, não sei mais... Nenhuma delas ficaria bem com o Afrodite kkk

Kido é mesmo um tarado – de que outra forma ele teria cem filhos? Ele deve ser patrocinador do Viagra do Japão... Com o perdão da piadinha. Obrigada por ler!

À Tenie F. Shiro:

Desculpa, desculpa, desculpaaaaaa pela demora, eu sei que enrolei taanto que perdemos totalmente o foco... Mas a continuação está aí, e já estou querendo trabalhar o fim dessa fanfic e o que é pior, comecei uma continuação para ela, já prevendo o final de Chuva de Fogo.

Ignore as "xoxas" kkk Obrigada por ler!

À(Ao) Alba de Peixes:

Uma leitora nova! *-* (olhinhos brilhando) Não quero menosprezar as outras leitoras, mas a sua review me ajudou... Obrigada (olhos brilhando mais)! Vou tentar continuar o mais rápido possível, mas não prometo nada... Agora que as férias estão no fim, talvez eu fique lenta (faculdade). E mais uma vez obrigada, obrigada por ler!