Cap VII

Quando Afrodite acordou, eram cinco horas da tarde. Abriu devagar os olhos inchados, reconhecendo aos poucos o quarto onde estava – e sonolentamente se situando no tempo, relembrando do dia de ontem como se uma enxurrada de imagens rolasse pelo cérebro. Mas relaxou o corpo com a sensação de estar seguro (e sabia que estaria por enquanto).

Assim que saiu do quarto, encontrou Shura encostado à janela, tragando um cigarro como de costume, e Mask, esparramado no sofá de bruços, com metade do corpo caindo pelo carpete.

- Kanon deixou umas coisas aí. – Murmurou Shura, sem desviar os olhos do lado de fora. Afrodite o fitou. – Lá, na cozinha.

Sobre o balcão estavam deixados um bule de café morno, um saco de pães franceses frescos e manteiga. O sueco apanhou uma das xícaras sobre a pia e despejou uma pequena quantia de café. Segurando a xícara pela asa, foi até a sala, estacionando ao lado de Shura, que lhe ofereceu um cigarro.

- Obrigado. – Respondeu Afrodite, prendendo o cigarro entre os dentes. Não era seu costume, mas às vezes gostava de tragar um cigarrinho. O espanhol estendeu a caixa de fósforos.

- Ontem foi por pouco. Muito pouco. – Shura cruzou os braços, saltando os músculos do peito, e apoiou o ombro na janela, enquanto Afrodite apoiava o antebraço sobre a mesma.

- É... A gente se descuidou. – Soprou a fumaça, olhando a rua. – Da próxima vez, espero estar usando calças.

Shura ergueu o canto da boca, num mínimo sorriso. Mas logo reassumiu a expressão séria de sempre.

- Eu falo sério... Estão nos seguindo. Devem saber que estamos aqui. Só estão dando um tempo. – E estreitou os olhos, como se tentasse ver atrás das paredes das outras casas.

- E eu também! – Afrodite arqueou as sobrancelhas, segurando o cigarro com dois dedos. – Vamos esperar a Bela Adormecida acordar, aí a gente conversa melhor.

- Bela Adormecida é o teu rabo – Ouvia-se a voz de Mask, que se sentara no sofá. Apertava os olhos por causa do sono.

- Bom dia, dorminhoca! – Riu Afrodite, em seguida se protegendo da almofada lançada pelo italiano. – Sofázinho gostoso, né, não?! E nem é "bom dia", já são o quê?, umas cinco?

- Por aí – Resmungou Shura, empunhando o relógio.

- Minhas costas foram pro saco, já. – E ignorou uma tossida forçada de Afrodite, algo que soou parecido com "fresco". – Espero que não ter que dormir nessa merda nunca mais.
- E não vai precisar!

Kanon acabara de chegar, sorrindo para os companheiros. Veio ao meio da sala assim que trancou a porta.

- Já arrumei tudo pra vocês. Mas claro que vai demorar um pouco... Vocês precisam sumir da vista da polícia uns dias. Uma semana, exatamente.

Shura e Afrodite jogaram os cigarros queimados fora e voltaram-se para ele. Mask limitou-se a erguer a cara irritadiça para o grego.

- Que que é?


Embarcados num táxi – e vestidos com óculos, bonés, chapéus e tudo o que serve de disfarce – os três, acompanhados de Kanon, seguiam em direção à estrada.

- Deixa eu ver se entendi. – Mask olhava fixamente o retrovisor, de onde podia ver Kanon ao lado do motorista. – Você vai mandar a gente lá pra casa do cacete...

- Finlândia.

- Isso aí. E pra quê?

- Tenho uns contatos lá. Vão ficar bem, é só ir para o local que anotei e deixei com o Afrodite, e não fazer absolutamente nada até receberem meu aval e puderem voltar.

- E por que deixar com a loira?

- Porque lá eles falam sueco – Respondeu Afrodite, ignorando a cutucada. – E, por um acaso, eu sou sueco.

Mask revirou os olhos. Shura ficava quieto, olhando para o vidro, mas prestando atenção.

- Você vai gostar das finlandesas. – Sorriu Kanon.

- Agora falou a minha língua. Quando vamos mesmo?

- Daqui a pouco chegamos num "aeroporto particular" da família. Conseguimos uma brecha para as oito. Vão ficar umas oito horas no jato, sem fazer nenhuma parada.

- Vou fazer o que em oito horas? – Mask bufou.

- Vamos ficar bêbados e dormir. Em avião costuma ter essas coisas, né? – Sugeriu Afrodite.

- Tem. Esse nosso avião tem os melhores vinhos gregos, vão gostar.

O italiano esfregou as mãos, entusiasmado!


- Não precisam se preocupar com nada. – Disse Kanon, dando um tapa amistoso no ombro de Mask. Estavam reunidos num pequeno hangar particular, e apenas aguardavam o piloto conseguir autorização de voo. – Claro, não vão se meter com a polícia de lá. E, para qualquer necessidade, usem esses nomes. – E entregou para cada um uma identidade falsa.

- Perfeito. – O italiano deu uma espiada no documento e sorriu para Kanon. Estendeu-lhe a mão.

- Quando chegarem lá, um de meus homens vai estar lá para levá-los ao hotel onde vocês vão ficar. - Respondeu com um aperto.

- Certo. – Afrodite deu um aceno de cabeça, calçando as mãos nos bolsos da calça jeans.

- Acho que é só – Kanon deu de ombros. Olhou para o avião, onde percebeu o piloto acenando para que embarcassem. – Vão logo. Ainda tenho o que fazer hoje à noite. – E deu um sorriso sugestivo.

Mask foi o último a acenar assim que os três embarcaram no avião.


- Juro que não queria ter visto aquilo. – Shura estava recostado no banco de trás do táxi, apertando os olhos com os dedos.

- Pena que não tinha paraquedas lá. Eu pulava. – Afrodite observava a paisagem de fora, saudando silenciosamente a neve que caía como em sua terra natal.

- Eu não tinha o que fazer! – Mask dava de ombros e gesticulava com as mãos, do banco da frente do táxi.

- Andar pelado não era uma opção. – Afrodite arqueou as sobrancelhas, rindo baixinho. Em seguida, indicou ao motorista em sueco o local onde estariam hospedados. Uma cortesia de Kanon.

- Sejam sinceros, eu sou bonito. – O italiano ria, apoiando o braço na porta do carro.


- Vi anländer. – O taxista estacionou ao lado de uma calçada parcialmente coberta de neve.

- Chegamos – Traduziu Afrodite, cutucando um Shura adormecido. Mask olhava pela janela, procurando dali o topo daquele hotel enorme. Foi o primeiro a sair do carro, fitando a fachada do prédio.

O hotel tinha seis andares e ocupava boa parte de seu quarteirão, em conjunto com as alas espaçosas em suas laterais, própria para circulação das pessoas. Era sóbrio, com acabamento marrom escuro e preto, suas colunas e vigas visivelmente bem marcadas; e o nome do local sustentado em seu topo, parcialmente deslocado para a esquerda. O sueco virou-se a tempo de ver Mask abrindo o porta-malas do táxi e Shura pagando o motorista em dólares.

O serviço do hotel veio logo atendê-los, e Afrodite tratou daquilo. Pediu ao mensageiro que levasse as três malas para dentro, pois começava a nevar novamente.

O interior era completamente diferente da fachada. Suas cores claras combinadas com revestimentos de madeira tornavam o ambiente quente e convidativo, ao contrário da impessoalidade do lado de fora. Poltronas macias estavam elegantemente posicionadas em torno de mesas baixas de centro, ora junto a lareiras decoradas em cantaria ora junto às janelas em fitas. Um belo e antigo lustre de cobre pendia do teto em frente um bar com cinco ou seis funcionários bem ocupados. Era bastante frequentado, e seus hóspedes estavam espalhados pelas poltronas.

Mask assoviou quando entrou, mas Afrodite estava perfeitamente à vontade. Já Shura, como sempre, espiava desconfiado para os lados, com seus olhinhos apertados. Em direção a eles veio um homem com mais ou menos cinqüenta anos, cujos cabelos ralos e castanhos eram penteados para trás e usava óculos pesados que davam impressão de que seu supercílio avantajado fosse ainda maior. Apresentou-se como gerente, segundo a tradução de Afrodite, e ele estava avisado da vinda deles. A suíte principal estava reservada em seus nomes, disse ele, e se encontrava na cobertura. Com um gesto contido e cavalheiresco, o gerente indicou o caminho para o elevador.

Ao chegarem ao sexto andar, o corredor era mais curto que os de demais andares, justamente por ser a cobertura. Usando a chave que receberam do gerente, Mask foi quem abriu a porta e junto um sorriso de satisfação.

O italiano estava pouco se lixando para o imenso ambiente, que era dividido em quatro quartos, uma sala de estar acoplada a uma cozinha americana com vista para a rua enevoada; caiu de braços no presente generoso que só podia ter sido de Kanon: três lindas moças – prostitutas de luxo, é claro, incluindo duas gêmeas tão louras que seus cabelos pareciam platinados – seminuas, acompanhadas de bebidas à vontade e espalhadas languidamente pelos sofás da sala.

Desta vez quem assoviou foi Afrodite, quando uma das gêmeas se aproximou dele, e ele a enlaçou pela cintura.

- Se fosse assim queria eu ser exilado o resto da vida. – E riu enquanto o amigo italiano afundava o rosto nos peitos da morena. Olhou para Shura, que puxava a aba do casaco como se procurasse algo. – Não vai aproveitar as boas-vindas?

- Eu to bem. – Desvencilhou-se, indo até a cozinha. O sueco deu de ombros e foi de braços abertos em direção às gêmeas louras, e as levou para um dos quartos. Mask nem se deu o trabalho de ir para o quarto e já começou a arrancar as poucas roupas da morena ali mesmo.

Shura tirou o celular do bolso do casaco quando se fechou num dos banheiros, e quando o ligou tinham três chamadas perdidas. Sabia bem quem era.

- Alô?

- Sou eu. Cheguei agora no hotel.

- Hotel?

- Mudança de planos. Tivemos que fugir...

- Estou sabendo.

O espanhol soltou um rosnado baixo.

- Escuta, eu não tive nada a ver com aquilo.

- E como vou acreditar nisso!?

- Tsc. Confia em mim. Sabe que eu não iria prejudicar você. Achei que soubesse disso. Além disso, sabe que só teria a perder se vocês fossem presos!

-... Eu sei.

-... Tudo bem. Ligue-me sempre que puder... Me preocupo muito com você. – Vozes ao fundo. – Preciso desligar.

- Até.

E desligou, fitando o visor do celular por um instante. Voltou-se para a pia e molhou o rosto, desfazendo-se da fúria repentina que o tomara. O espanhol olhou para o espelho e soltou o ar dos pulmões com força. As coisas tinham que funcionar, pensou. Se não, estamos fodidos.


Quando os três acordaram, o sol pálido já estava bem alto no céu e as prostitutas já estavam bem longe. Mask tinha dormido no sofá, com metade do corpo esticado pelo tapete, e acordou com uma ressaca daquelas. A primeira coisa que viu a própria cueca a um palmo de seu nariz.

- God dag, bom dia – Afrodite saiu do quarto, e olhou para a janela. – Ou melhor, boa tarde, eu acho. – E deu risada, antes de se virar a tempo de ver Mask vestindo a cueca. – Gosta mesmo de um sofá.

- Cala a boca.

Shura saía também do próprio quarto, com os cabelos molhados indicando que saíra de um banho e de uma ressaca também.

- Pedi um café da manhã. Vou sair – O espanhol agarrou o casaco que deixara na cabideira próxima à porta. – Comprar cigarro. Mask?

- Compra pra mim. – O italiano apertou os olhos com as mãos. – Cazzo. Merda de ressaca. Vou parar de beber. – E recebeu uma vaia e uma almofada jogada por Afrodite.

O café da manhã foi trazido pouco depois por uma camareira sardenta, que saiu mais vermelha que os cabelos com a cantada que recebeu de Mask. Shura chegou a tempo de aproveitar as últimas torradas.

À noite, Afrodite convenceu os amigos a dar uma volta, conhecer alguns bares e boates da região. Kanon os abastecera bem de coroas suecas para passar aqueles dias. Ao passar as horas, a temperatura caiu bastante, mas como não estava nevando, bons casacos de pele dariam conta do recado. Afrodite contava que, como as cidades do norte na época do verão, na Helsínquia os dias eram longos – e estava certo, pois o céu apenas aparentava estar nublado por volta das dez horas da noite. O bairro por onde passavam estava cheio de jovens turistas ou bêbados ou tirando fotos dos prédios importantes. Os bares eram bem freqüentados por lindas mulheres, mas Afrodite já alertou que moças finlandesas costumavam ter gênio forte (o que não impediu Mask de dar em cima de uma garçonete curiosa).

Após uma boa quantia de drinks e beldades, Afrodite, Mask e Shura andavam apoiados uns nos outros pelas ruas, enquanto o italiano cantarolava alguma música de sua terra. Pararam num bulevar, e todos os três se sentaram num banco de madeira sob uma nogueira frondosa. Sentado entre os amigos, Mask estendeu as pernas longas para frente e os braços sobre os ombros dos outros.

- Vocês são umas bichas. Mas eu amo vocês. – Completamente bêbado.

- Quem é a bicha aqui? – Afrodite inclinou o corpo para o lado, apoiando-se com o cotovelo na coxa quando quase deslizou pra fora do banco. Também bêbado.

- Vão começar os dois – Shura apertou a ponte do nariz.

- Não, é sério. – Mask descansou a nuca no respaldo do banco, dando uma gargalhada. – Não podia ter uns comparsas melhores. Vocês são foda.

- Claro que não. Mas você continua sendo uma bicha. – Afrodite riu.

- Sua mãe não acha.

E riram de novo, trocando aperto de mãos. Shura acendeu um cigarro e Mask roubou outro de seu maço.

- A gente devia fazer um brinde ao nosso sucesso! – O italiano se levantou, falando alto e arrastado. Tirou de dentro do casaco uma garrafa metálica e a ergueu. Deu um grito de euforia que foi acompanhado por Afrodite, que se juntou a ele com o braço erguido. Shura limitou-se a soprar a fumaça do cigarro na direção deles. Só podiam ser aqueles dois.

- Vamos ganhar muito dinheiro. – Mask apoiou-se nos ombros de Afrodite, quase derrubando os dois. – Vamos ter muitos carros... Mulheres... Vinho... Mulheres...

- Vamos ser importantes. – Afrodite jogou o italiano no banco, arrumando as próprias costas. – Seremos magnatas... Ou presidiários famosos.

Até Shura riu, antes de ficar muito sério.

- Você ta estranho... Shura.

- Eu sou estranho, Mask. Você sempre me disse isso.

- É verdade. – E Mask começou a rir de novo. – Mas você tá... Mais estranho. Que o normal. Nem quis apertar as menininhas na cobertura. – Franziu a testa.

- Shura tem uma namorada, eu vi. – Afrodite sentou na grama, à frente deles, rodeando os joelhos esparsos com os cotovelos. Mask fez um ruído de deboche e apertou o amigo pelos ombros.

- Vai casar, é? Tá ficando bicha e estranho mesmo. Mas tá certo. O bom é arrumarmos a grana... Aí você fica numa boa. Vai se ajuntar e colocar uns cinco pivetes no mundo.

O espanhol afastou-se do abraço do amigo. Mas não desmentiu. Mask nem percebeu o desconforto de Shura e continuou falando sozinho.

- Sabe um lugar bonito de morar? O sul da Sicília. Perto das vinícolas. Cara, que lugar legal. Todas aquelas uvas... As italianas também, que são uma delícia...

- Calor demais – Afrodite entrou no embalo. – A Suécia é ótima, tem um bom serviço público...

Aquela ia ser uma longa noite, pensou Shura, enfiando os dedos no meio dos cabelos.

Continua.


N/A: Acho que não tenho nem o que falar. Dois anos inteiros sem escrever ou publicar absolutamente nada... Só tenho desculpas a pedir. São aquelas velhas histórias de quem começa a crescer e fazer faculdade, e a não ter tempo ou cabeça pra voltar aos antigos compromissos. Tentei fazer um capítulo razoável devido à minha falta... Acreditem em mim! Essa história já teve várias e várias versões na minha cabeça durante esse tempo, finais, continuações e sidestories, mas, caras, eu me desviei. Desculpem-me por isso. Espero que agrade, e espero não demorar dois anos pra publicar o próximo capítulo, que pretendo que seja o último.

Sou mesmo uma idiota. Perdoem-me.

PS: Quem começar a ler agora, vai perceber que mudei um pouco meu estilo. Ou talvez não.

À Black Scorpio no Nyx:

Desculpaaaaaaaaaaaaaaa pela hibernação de dois anos... Nem sei se lembra desta fanfic. Espero que tenha gostado. Shura anda meio misteriosinho, não é? Vai saber o que ele anda fazendo... Essas ligações misteriosas... Obrigada por ler!

Ao Kaito Hatake Uchiha:

Obrigada pelo elogio e desculpe pela ausência! Pra comer eu sugiro uma omelete de miojo que é uma delícia. É bem fácil de fazer. Obrigada por ler!

A Kirkwall:

Bom, não demorei 300 anos, mas foi quase isso... Tenho até vergonha de aparecer com um capitulozinho xoxo desses º_º, mas segundo meus planos, o próximo e último capítulo vai ser bem agitado (e espero que eu tome vergonha na cara de pelo menos terminar). Afrodite como hetero é muito divertido de trabalhar... Gosto de jogar com os personagens como se fossem pessoas reais, e não etéreas e cheias de floreios, por isso alguns diálogos se tornam quase piadas... Vai saber. Obrigada por ler!