-Onde estou?
Sarah piscou várias vezes, tentando se levantar e se sentando vagarosamente, sentindo-se moída.
Olhou ao redor, para as paredes brancas, uma escrivaninha com remédios, e uma janela do lado que dava a vista para o mar.
O mar.
Ela se lembrava vagamente do que acontecera ontem, começou uma tempestade, ela caíra do barco e ficou nadando por um bom tempo, para depois desmaiar de cansaço.
-Oh!Você acordou!- Disse uma mulher que, pela sua jaqueta branca, deveria ser uma médica. –Levei um susto quando voltei e vi você desmaiada bem na porta do posto médico.
Do posto médico?Alguém havia trazido ela até ali?
-...Quem me trouxe aqui?-Perguntou Sarah.
-Eu não sei, como eu disse, quando voltei você estava ali, no chão. –Falou a médica meneando a cabeça. –Ainda bem que você se afogou perto da praia, do contrário, as ondas teriam levado você longe.
-...Eu não me afoguei perto da praia.
E era verdade, se lembrava bem, estava perto das cavernas marítimas próximas aos altos rochedos.
E bem longe da praia.
-Hum?Não se afogou... Ah!Não me diga! –Disse a médica com um estalo.
-O que?
-Você deve ter sido salva por "ele"!
-Ele quem?
-O "Kraken".
-00-
Respirou fundo.
Alexis estava andando de um lado para o outro de forma apreensiva, não tinha dormido direito, pois se lembrara do gato que vira no dia anterior.
-T-Talvez seja só coincidência, afinal, há vários gatos parecidos com ele.
"Mas não com tantas cicatrizes, e no mesmo lugar onde espancaram o pobre."
E o gato parecia olhá-la fixamente, como se tivesse a reconhecido.
-Não pode ser... Não tem como o gato ter sobrevivido... E se tivesse mesmo sobrevivido o que estaria fazendo ali?-Começou a murmurar.
-Flashback-
Era bem pequena quando isso aconteceu...
Foi em um dia de excursão, e como sempre, ela ficava afastada dos demais, em seu canto, em seu mundo.
Nessa excursão ela viu uma caixa onde tinha uma gata com vários filhotes, um deles se separou e foi até ela, olhando-a com curiosidade, seus olhos verdes fixos em si.
Hesitante, ela colocou a mão no pequeno gato e começou a fazer carinho no mesmo, esboçando um pequeno sorriso quando ouviu um pequeno miado de satisfação.
Ela se despediu do gatinho, não percebendo que ele tinha seguido-a.
-O gato está seguindo você. –Disse uma voz.
-Ei Scylla, onde você estava? –Questionou Alexis olhando para o garoto ao seu lado.
-Duh, na sua mente, até ficarmos sozinhos, afinal, é um saco quando os garotos acham que você está louca não é?-Replicou.
Ela sempre fora uma criança calada e muito tímida, por isso tinha dificuldades em se relacionar com outras pessoas, sendo que o mais próximo de um relacionamento "real" era com Scylla.
Scylla era o seu amigo imaginário, ela tinha dado esse nome a ele quando olhou para um livro e viu o nome, achou bonito, então colocou-o (apesar de soar feminino para um amigo imaginário).
-Xiii~ Os panacas estão vindo. –Murmurou Scylla.
Alexis piscou os olhos olhando para longe, vendo os seus colegas de classe chegarem, com sorrisos cínicos e cruéis no rosto.
-E aí garota estranha, sozinha de novo?
-Vai ficar sem dizer nada de novo sua surda?
-HAHAH, ela deve ser retardada, só retardados ficam falando sozinhos não é? –Comentou um dos garotos com uma gargalhada estrondosa.
-...
Alexis começou a correr para fugir dos moleques, que começaram uma perseguição, se escondendo entre uma fina fresta entre um pedaço de pau e uma parede de uma casa velha que tinha por perto.
Ela lembrava-se que ficava paralisada, respirando em respingos, com medo que a descobrissem ali.
-Veja só, a garota estranha tem um gato!
-Deve ser um gato de bruxa, que nem nos contos!
-Eu li em um livro que os gatos eram queimados na fogueira junto com as bruxas!
Ela gelou, estava com muito medo de olhar para fora e pensar que poderia ser uma armadilha, mas estava também, com muito medo ao pensar no inocente animal.
-MINHÉUU!
-O gato está escapando!Atire a pedra!
-Droga, eu errei!
-Atire uma menor idiota, essa é muito pesada!
-AH!Acertei!
-...Você não vai fazer nada? –Perguntou uma voz conhecida.
-Scylla?Ah, eu não posso fazer nada, eles são muitos...
-Você vai deixar o pobre gato morrer?
-E-Eu não quero, mas...!
-Meow...!
-Temos que ir agora!Devem estar arrancando o couro do pobre animal!
Ela hesitou mais um pouco, mas ao ouvir outro miado de dor ela tomou um pouco de coragem, e saiu de seu esconderijo, avistando uma pedra ela mirou em um dos garotos que segurava o filhote pela orelha não machucada.
-PAM!-
-Ai... Quem foi que...Ah!A garota estranha! –Disse um dos garotos. –AHHH!Estou sangrando!
E estava mesmo, mas não de forma exagerada como dramatizava, afinal, ela não tinha força o suficiente para causar tanto estrago.
-Sua...!
-O que está acontecendo aqui?-Disse um dos professores ao ver a comoção. –Céus!Quem fez uma coisa tão abominável ao pobre animal?
-Foi ela!A garota esquisita! –Disseram todos apontando em sua direção.
-É, ela atirou uma pedra em mim!Olha só como estou sangrando!
-Alexis, venha comigo. –Disse o professor com uma expressão dura.
Ela ouviu algumas risadas baixas e os olhares triunfantes de seus maldosos colegas, abaixou a cabeça resignada, era sempre assim, por ser muito quieta era considerada estranha e sempre acabava levando a culpa por tudo.
-Demônio!
-Bruxa!Bruxa!
-Louca!
Mordeu os lábios com força, se segurando para não fazer nenhuma besteira, deu uma rápida olhada na direção onde estava o pequeno filhote de gato, e teve que se conter para não soltar uma exclamação de horror.
A orelha do gato estava rasgada e ele tinha vários cortes pequenos, uma parte de seu pelo jazia ao seu redor, misturando com um pouco de sangue.
O gato não se movia.
-Fim do Flashback-
-Au!
Alexis saiu de seu transe quando ouviu o seu cão, Ílios, um labrador chocolate que ganhara de sua madrinha, o seu companheiro inseparável.
-Venha cá Ílios. –Disse ela acariciando o seu cão.
-Meow.
Alexis gelou, ela se virou na direção do miado e viu o gato, encarando-a intensamente, pulando do muro para o chão, balançando o rabo de um lado para o outro por uns segundos, antes de se decidir por começar a correr.
-AUAU!
-Ei, espera Ílios! –Disse Alexis correndo para alcançar o seu labrador que começou a seguir o gato.
-00-
-Caraca, um dia e já tenho 100 likes?E nossa, já tenho 70 comentários?!Uau! –Exclamou Evangeline de boca aberta.
Sim, ela esperava que seu vídeo conseguisse mais "curti" e comentários que o costume porque a lenda sobre os moradores da floresta era um assunto muito infame e popular, mas com certeza não esperava tanto!
-Bom, deixa eu ver os comentários...~
"Você vai morrer."
-O..k, isso é algo muito bizarro.
"Os espíritos que moram na mansão odeiam intrusos, quando há visitas indesejadas eles prendem você em um loop eterno, você vai sempre voltar para o meio da floresta se você dormir uma vez sequer."
"Eles adoram fazer com que as pessoas fiquem insanas."
"Dá para ouvir o grito de um deles, os animais morrem de medo."
"Há fantasmas naquele lugar, eu vi um gato deformado que sempre ronda a floresta e uma garota de olhar vago."
"Um deles não tem presença, eles podem aparecer atrás de você sem você perceber."
"Dizem que um dos moradores já viu a morte face a face, e sobreviveu ao encontro!"
"O pior deles é o líder, dizem que ele só traz desgraças... Que nasceu no dia do azar e da morte."
-...Isso já está começando a ficar um pouco assustador... –Murmurou Evangeline começando a empalidecer cada vez mais, à medida que lia mais comentários, sendo que muito deles repetiam "Você vai morrer" várias vezes.
-00-
-Nossa, se era para fazer uma lenda urbana, bem que podiam ter caprichado melhor, isso não mete medo em ninguém. –Disse Sophie checando o youtube e lendo os comentários do vídeo da garota do dia anterior.
Bom, talvez fosse uma babaquice sem tamanho e coisa de gente desocupada, mas de uma coisa era certa: Todos os moradores do lugar acreditavam nesses mitos, sem exceção.
Talvez fosse outra desocupada, pois tinha vontade de chegar no tal lugar e mostrar para todo mundo que não tinha nada de anormal com aquele lugar.
-Pfff... É melhor eu fazer isso por conta própria, porque pelo visto essa garota vai demorar até conseguir os 1000 "curti" dela... Isso é, se ela tiver coragem, já que ela parecia do tipo "frouxo".
...A garota poderia ser cética, mas mal sabia ela que, assim que entrasse na floresta, se depararia com algo que abalaria as suas estruturas.
-00-
-Isso não faz sentindo!Nenhuma das explicações!-Exclamou Sarah andando de um lado para o outro.
"O Kraken tem a forma de um rapaz com uma cicatriz, toda vez que ele aparece na praia uma tempestade chega, algumas vezes eu o vejo nadando nas violentas ondas da minha casa, é impressionante!"
De duas, umas, ou a pessoa/coisa que a salvou era um ser sobrenatural que trazia tempestades e a tinha salvado sabe-se lá porque, ou ele era uma pessoa comum, que coincidentemente sempre aparecia quando tinha tempestades (embora a previsão do tempo dissera que faria um bom tempo) e que conseguia nadar sem problemas no meio das ondas enormes e violentas.
-Deve ter uma explicação lógica para isso, tem que ter! –Falou ela a si mesma.
Não poderia dizer que era falso, porque ela se lembra de alguém tê-la pego quando estava se afogando, mas não poderia dizer que acreditava nessas histórias para boi dormir, vai ver que ele era uma experiência genética ou coisa do gênero!(Um absurdo é verdade, mas pelo menos fazia mais sentido do que as explicações anteriores)
-Ack...!Só há um meio de tirar essa história a limpo. –Falou ela após respirar longamente.
Entrar na floresta e encontrar o lugar onde ele mora.
-000-
HAHAHAH, isso mesmo gente boa, dois capítulos em um dia!
Deu pra ver um pouco sobre as histórias bizarras não é?Ah... HAHAHAHA, bom, pelo visto, das quatro apresentadas, apenas a "Sophie" que continua cética (a Evangeline não precisa nem ver algo para se asssutar HAHAHA XD).
...E lógico que vou mudar isso, quem sabe, no próximo capítulo...Talvez... É, talvez, não sei O_o*apanha*
