Piscou os olhos, olhando para o teto de plástico.
Lucy levantou-se sobressaltada, estava em sua barraca, o que estranhou, pois podia jurar que no dia anterior tinha ido para a mansão na floresta.
-Talvez fosse só um sonho? –Murmurou a si mesma tentando se levantar, quando um envelope amarelo caiu de seu colo.
Olhou curiosa para o envelope, checando para ver se tinha algo escrito, mas não encontrando nada decidiu por abri-lo e ler o conteúdo:
"Senhorita Lucy,
Creio que tenha acordado de manhã, então devo lhe dar um bom dia, por pura etiqueta.
A senhorita se lembra do garotinho que conheceu na sorveteria ontem de manhã?Ele vai falecer durante uma operação às 15:45.
Quem sabe... Talvez se ele não a tivesse encontrado estaria vivo?"
-00-
-Hey Fiodor! –Chamou Bian.
-O que?-Respondeu o outro com um grunhido.
-O dono da casa deixou uma carta para você.
Fiodor encarou Bian com uma sobrancelha arqueada, se perguntando o que poderia ser, abrindo o envelope, começou a ler o conteúdo, franzindo o cenho e mantendo os lábios em linha reta.
"Fiodor,
Sei que está preocupado com a integridade de todos na casa e que fora eu que pedira para que monitorasse o conteúdo na internet, no entanto creio que o senhor se excedeu.
Peço para que se desculpe com a senhorita Evangeline e a ajude."
Grunhiu novamente, não gostava da mexeriqueira e agora tinha que se desculpar?
No entanto, se o dono da casa disse que tinha que fazê-lo, então era porque tinha que fazê-lo.
-Merda...
-00-
Honestamente, não sabia o que estava fazendo naquele lugar, já que tinha jurado a si mesma que não queria mais nada haver com o Scylla... Ou melhor dizendo, Io.
-Bom, não foi aquele babaca que me convidou, e sim o dono da mansão... E tenho a impressão que se eu não der uma checada esse esquisito não vai me deixar em paz. –Resmungou Alexis a si mesma.
Estava em frente da mansão, provavelmente perderia aula hoje, mas isso não era importante, respirou fundo, tremendo de raiva quando se lembrou do momento em que se encontraram cara a cara e conversaram.
#Flashback#
-Bom dia.
Alexis tinha aberto os olhos, levando um susto quando viu alguém sentado na beirada da cama, recuando ligeiramente, antes de perceber de quem se tratava.
-Scylla?
-Sim.
Ficaram uns bons momentos em silêncio, um pesado clima pairando entre os dois, fazia muito tempo que não se viam era verdade, mas tinha alguma coisa... Que parecia deixá-los mais desconfortáveis.
-Faz um longo tempo que não nos vemos... Creio que a última vez que a vi foi quando você foi internada. –Disse Io iniciando o assunto.
-...É verdade. –Respondeu Alexis mecanicamente.
-...
-...
-O que está fazendo aqui nessa floresta? –Perguntou, levantando a mão de forma hesitante. –Você... É mesmo real ou uma alucinação?
-Eu sou real, sempre fui. –Disse Io enquanto encostava a palma de sua mão na dela. –Você consegue sentir o calor da minha mão?
Ela encarou a mão encostada na sua, sentindo um incômodo no estômago quando processava a implicação de tudo.
Ele era real.
-Aquele dia... Na excursão, quando estavam maltratando o gato... Você não fez nada.
-Eu...
-E não somente daquela vez, sempre sofri bullying daqueles garotos, mas toda vez que eu precisava da sua ajuda você... –Murmurou ela rangendo os dentes enquanto fechava os punhos.
-...Quando vi o estado do gato eu pensei que seria melhor socorrê-lo, já que a vida dele estava por um fio. –Explicou Io. - ...Não achei que você seria mandada para um hospício.
-QUE DROGA SCYLLA!VOCÊ É UM MALDITO MENTIROSO!
-...Peço desculpas por mentir para você.
-E VOCÊ ACHA QUE SÓ "Desculpas" RESOLVE TUDO?!-Continuou ela frustrada, enquanto derramava lágrimas de raiva. –Durante todos esses anos eu confiei em você e... Urgh!
-...
-Quer saber de uma coisa? –Disse Alexis se levantando e enxugando as lágrimas com força. –Dane-se, eu não quero nem vê-lo pintado, continue a agir como se você não existisse!
#Fim do Flashback#
Já estava começando a se arrepender de ter entrado na mansão, o assunto deveria ter se encerrado naquele dia.
-Humph, pelo menos ele não insistiu em conversar comigo ou se aproximar. –Murmurou enquanto se decidia se abria a porta do seu quarto ou não.
"Ele não parecia feliz."
-ARGH!É melhor eu ir logo com isso, senão vou me sentir atormentada para sempre.
Abriu a porta, não encontrando nada estranho, apenas um envelope em cima da cama.
"Senhorita Alexis,
Sei que deve estar se sentindo confusa por eu tê-la chamado, já que nós não nos conhecemos pessoalmente.
Io me contou sobre você, e pelo que eu sei não acho que deveria estar brava.
Eu me achei no direito de intervir porque conheço o meu amigo, ele estava se sentindo culpado, e isso fez com que inconscientemente ele falasse somente o que a fizesse se ressentir com ele, mesmo quando não há necessidade.
Por isso peço que reconsidere e dê outra chance a ele."
-Dar outra chance a ele?Depois de tudo o que ele fez?-Resmungou enquanto passava para a próxima página.
"...Você já perdeu muito tempo internada, se você continuar com rancor vai perder mais coisas, não sei o que a magoou, mas não acho que valha a pena.
As pessoas não podem evitar fazer escolhas estúpidas, se há uma chance de resolver isso vá atrás dessa chance, do contrário só restarão arrependimentos."
-00-
"Não existe."
-O-OK, vamos checar o meu e-mail. –Murmurou Evangeline tremendo.
Tinha se levantado para checar o seu youtube, mas quando tentou abrir a página recebeu a mensagem que a conta não existia mais.
...E não era só isso, seu tumblr, facebook e até posts de fóruns tinham se deletado, todas as contas que possuía... Não existia mais.
-...Meus e-mails...Eles não existem também?! – Disse Evangeline começando a entrar em pânico.
Começou a respirar com dificuldades, suava e seu corpo tremia, tinha que fazer tudo desde o começo, ninguém mais sabia sobre ela, tentou até usar o Google para encontrar rastros, qualquer conta que tivesse, mas não encontrou nada.
Nada.
-...É como se eu não existisse. –Murmurou Evangeline.
Olhou para os lados, notando como era a primeira vez que não conhecia ninguém, não tinha o costume de conversar "ao vivo e em cores" com as pessoas, costumava a conversar com elas pela internet.
...Ela nem se lembrava de seus nomes.
-Ai cara... Eu nem acredito!Depois de tanto trabalho para juntar tantas pessoas...
-...Posso me sentar nessa mesa?
Levantou os olhos para ver quem tinha perguntado, se deparando com um rapaz de feições sérias, olhos azul gelo e cabelos negros.
-Hum?Ah, ok, pode...
-Obrigado. –Agradeceu polidamente. –As outras mesas estão lotadas e muito barulhentas para o meu gosto.
"Obrigada por me lembrar que não tenho mais popularidade" –Pensou Evangeline com sarcasmo.
-...Você não tem nenhum grupinho de amigos que queira ficar?
-O campus da faculdade está lotado, por isso vim até aqui, então não conheço ninguém pessoalmente, nem sou muito chegado em ter amigos. –Respondeu com calma.
-Você não parece mesmo do tipo sociável.
-Não sou.
"E esquisito, que espécie de pessoa afirma isso com uma poker face?"
-A senhorita também não é muito popular... –Comentou o rapaz. –Pelo menos, fora da internet.
-Você me conhece? –Falou Evangeline esbugalhando os olhos de forma surpresa.
-Evangeline não é?Eu vi alguns de seus vídeos por um acaso.
-Vamos ser amigos! –Disse a garota abraçando o rapaz que parecia confuso e incomodado com a inesperada reação da garota. –Ah!A propósito, qual é o seu nome?
-Hector.
-Puxa Hector, eu pensei que ninguém mais me conhecesse desde que todas as minhas contas foram deletadas!
-...Você não tem amigos?
-...Ah, bem... Eu não me lembro do nome deles ou qualquer detalhe já que estava tudo ali no tumblr e no facebook sabe? –Admitiu um pouco embaraçada.
-...Você tem sérios problemas. –Afirmou Hector arqueando a sobrancelha enquanto tentava se desvencilhar do abraço e terminar o seu lanche.
-Ah... Você tem alguma conta de e-mail ou face?Vai dar muito trabalho refazer tudo mas pelo menos eu vou ter alguém!
-...Não, eu não tenho. –Negou Hector. –Como você disse, eu não sou sociável.
-Oh...Ok.
-...Além do mais, se quiser mesmo fazer amigos pelo menos tenha a dignidade de lembrar do nome deles. –Respondeu ele franzindo o cenho e se retirando dali.
-00-
-Você de novo. –Observou Isaac.
-Ahh hehe Olá, que coincidência! –Cumprimentou Sarah.
-O que você está fazendo aqui?Já não matou a curiosidade de saber quem era o "Kraken"
-Er...
Honestamente ela não sabia, nesses últimos tempos estava com tanta vontade de encontrar o cara que a salvou que esqueceu de pensar no motivo, e agora que podia estabelecer uma conversa se sentia atrapalhada.
-...Você não sabe o motivo de querer me ver? –Perguntou ele arqueando a sua sobrancelha.
-Gostaria de tirar algumas dúvidas. –Respondeu Sarah após dar uma leve tossida.
-Pergunte.
-Como é que toda vez que você vai a praia há uma tempestade?
-Eu treino em águas violentas para aumentar o meu desempenho e meu amigo consegue prever o tempo com precisão.
-Oh, certo... Er... Como você consegue nadar nessas águas violentas?Eu quase me afoguei naquele dia já que elas eram muito fortes!
-...O ácido lácteo é responsável pela fadiga muscular e como meu corpo não o produz eu tenho maior resistência, além de conseguir nadar com toda a minha capacidade.
-Oh...-Murmurou em um muxoxo.
-...Você é mais uma daquelas pessoas que acreditam nas lendas?-Perguntou ele arqueando a sobrancelha novamente.
-...Eu não acredito nessas coisas, sempre achei que tudo tem uma explicação lógica.
-...Você parece desapontada. –Observou Isaac.
-Claro que estou!Eu não acredito nessas coisas, mas toda essa bizarrice da floresta quase me fez acreditar!Aí vem você, eu pergunto e você me explica tudo na lata!Sei lá, é como se tivesse quebrado o encanto do mistério!
Ela tinha que admitir, apesar de ser bem cética, o charme de ter algo sobrenatural era muito intrigante e bem atraente.
-Você é bem estranha, e isso é dizer algo, já que eu moro junto com pessoas bem esquisitas. –Comentou Isaac, rolando os olhos, apesar de ter achado a garota um tanto... Estranha e interessante.
-Elas também tem explicação?
-Sim.
Ficou pensativa, não esperava uma coisa dessas, agora que tinha finalmente encontrado o tal do "Kraken" e tinha tirado as suas dúvidas sentia que não havia mais nenhum motivo para que eles conversassem.
...Honestamente, por alguma razão ilógica ela ainda queria manter contato com o rapaz, mesmo que não houvesse nada mais interessante a se falar.
Talvez o próprio Isaac tivesse percebido isso, porque o que falou a seguir chamou a sua atenção:
-...Exceto o dono da casa, ele não tem explicação.
-Hum?
-Eu não vou falar nada quanto aos outros integrantes da casa, já que não gosto de fofocar sobre a vida alheia, mas se quiser perguntar para eles e eles estiverem dispostos a responder então vá em frente.
-...Você está me convidando para ir até a sua casa?
-Não é minha casa, mas o dono do lugar me deu o direito de deixar quem eu escolher ficar por lá.
-E você está me dando permissão?
-Sim, algum motivo que não compreendo.
-00-
Sophie estava sentada na varanda da casa, do lado de Kagaho, enquanto olhava para a sua amiga, que parecia olhar para nada específico enquanto era encharcada pela chuva.
Pediu explicações, e as teve.
Ele tinha lhe contado que a encontrara quase morta de hipotemia em um rio, e que a tinha resgatado, um amigo ajudou a pagar o hospital quando ela estava em coma, e quando acordou, ela tinha perdido a memória.
Foi algo muito bizarro, e até um pouco dolorido, já que ela não pareceu reconhecê-la.
-Humph... Eu não acredito que ela confia mais em você do que eu, que era a melhor amiga dela. –Resmungou Sophie inconformada.
-Não é de se estranhar, afinal, eu e o dono da casa ajudamos ela, confia em nós por ser a única âncora segura em que pode se apoiar. –Respondeu Kagaho. –E sua atitude também não ajuda.
-Humph, nem vem com sermão para cima de mim.
-Não gosto de dar lição de moral, isso não é o meu trabalho. –Respondeu Kagaho. – Não faço a menor ideia de como vocês eram quando amigas, mas no momento ela esta desmemoriada, e o fato de você ser tão rígida e passar a impressão de não se alterar não ajuda a ela acreditar que vocês se conhecem.
-...
Ficou em silêncio, o que era difícil acontecer, mas tinha que admitir, com certa relutância, que ele tinha um ponto válido.
-...Por que ela anda na chuva com a mesma roupa do dia em que se afogou?
-Porque ela tenta se esforçar para se lembrar, mesmo que seja um evento traumático, ela quer superá-lo. –Explicou.
Ficou olhando por mais algum tempo, vendo como a sua amiga estava de olhos fechados, tentando se concentrar, geralmente não era do tipo paciente e sociável, mas faria o possível para ajudá-la, já que nunca deixava pessoas próximas na mão e porque ela estava se esforçando.
-Genevive. –Chamou Sophie.
-...Sim?
-Os seus pais pensaram que estava morta depois de tantos anos, não seria melhor voltar para casa?
A garota hesitou, primeiro olhando para Kagaho e depois para o andar de cima.
-Não.
-Hum?
-Eu não quero sair daqui, não agora. –Respondeu Genevive após muita hesitação.
-Mas os seus pais estão preocupados.
-...Então poderia dizer a eles que estou bem? –Pediu de forma suplicante.
-Por que você quer tanto ficar aqui?
-Eu sinto que... Tem alguma coisa aqui que vai me ajudar a recobrar a memória, eu não posso sair daqui... Não agora.
-00-
O dia fora muito esquisito e cheio para Lucy, que tinha saído de sua barraca para passear e se distrair um pouco, já que não conseguia se livrar da sensação estranha.
"Calma Lucy, você está sugestionada, é um cara que se acha o máximo e que está tirando uma com a sua cara..." –Murmurou ela a si mesma.
Olhou o relógio no parque, eram 17:00, lembrou-se do bilhete, mas meneou a cabeça negativamente, dizendo que era tolice da sua parte, retornando para sua casa/barraca.
...Quando chegou lá, o mau estar aumentou, ainda mais quando viu um novo envelope no chão, de cor negra.
"Senhorita Lucy,
O velório do garoto será hoje, às 17h, aqui está o endereço do lugar se quiser comparecer."
Engoliu em seco, e decidiu sacar o seu celular e ligar para o seu melhor amigo, ele sabia como se divertir e provavelmente tiraria aquelas baboseiras de sua cabeça.
-Alô?
-Olá Rafael, você tem algo para fazer hoje à noite?
-Ah... Vou ficar devendo essa Lucy, o irmão mais novo da minha namorada faleceu, eu tenho que ir ao velório com ela para dar suporte.
-...
Besteira, era apenas coincidência não era?
-Lucy?
-Ah...Ok, eu me lembrei que tenho um lugar para ir também.
-00-
-Hum?Lucy?O que está fazendo aqui no velório? –Perguntou Rafael estranhando a presença de sua amiga, já que ele não se lembrava de ter dado o endereço para ela.
-Eu... Recebi o endereço e vim dar uma olhada. –Respondeu, ficando cada vez mais pálida, enquanto amassava o envelope negro nas mãos.
Ela se aproximou do pequeno caixão, reconhecendo facilmente o garoto daquele dia, parecia triste.
...Ele não sabia se o mal estar que sentia agora era por ver o cadáver ou pela estranha sensação de ser observada desde que chegou.
-000-
É, o Scylla põe ele mesmo em risco mesmo que não haja necessidade, quando o Shun imobilizou ele para destruir o Pillar sem matá-lo o idiota tinha que se atirar na frente e morrer a toa.
...
DROGA SCYLLA EU QUERIA QUE VOCÊ VIVESSE SEU FDP!
Ahem... Enfim, esse capítulo foi mais tenso que o normal, e estou louca de vontade para a Lucy e o dono da casa se encontrarem, mas tudo ao seu tempo né? XD
OK, vamos para as reviews:
Jules Heartilly: AHSHHASHAS, o azar da Evangeline é que a única pessoa que parece lembrar que ela existe é um completo estranho com a sociabilidade de uma pedra XD.
Bom, em contrapartida, o par dela também é bom em desestabilizar as pessoas, a Milenka é uma graça, adoro personagens tímidos, dá vontade de morder *-*
Linanime: Sim~ Todo mundo é azarado, e o Hector até que está popular, pensei que ninguém ia ir muito com a cara do ranzinza ASHHASHASH, pois é, com tantas personalidades anti-sociais a Lucy tinha que pegar antipatia do nosso querido "?" XD
Mahorin: É normal eu ser troll, pode perguntar para todos, a minha fic ainda vai trollar muito com a suas expectativas XD, afinal, essa fic não se chama "Um Jogo de Verdades" à toa né? :P
