Ele pensava que com um pouco de força de vontade ele conseguiria superar o trauma, no entanto, parecia que não era o suficiente se levasse em consideração o tempo que não passava junto a sua amiga.
Sorento respirou fundo, se dirigindo a última porta do corredor do segundo andar, onde o dono da casa deveria estar.
...Talvez o problema fosse resolvido mais cedo se tivesse conversado com o estranho rapaz antes, mas como ele sempre viajava e parecia muito ocupado, o poeta raramente tentava incomodá-lo.
-TOC TOC-
-Entre. –Respondeu a voz vinda do quarto.
O rapaz de cabelos lilases entrou, observando como o lugar era bem simples, com um retrato na escrivaninha e um estranho baú no canto.
-Algum problema Sorento?
-...Está tão óbvio assim?
-Eu conheço você. –Disse com um sorriso de quem sabia das coisas. –Você, o Sui e o Kagaho só me procuram quando não sabem o que fazer.
-...É sobre meu "trauma".
-Bom, ele é um problema. –Concordou. –No entanto, creio que não seja exatamente isso que você quer me perguntar não é?
-...Eu sempre tentei esquecer o que aconteceu, mas não dá mais para fingir.
-Hum... E isso por que...?
-Há uma garota que me tornei amigo. –Explicou o poeta.
-Entendo... –Respondeu o mais novo de forma pensativa. –Poderia me dizer o nome dela?
-Milenka.
-Milenka?
-...O senhor a conhece?
-Talvez sim, e talvez não pessoalmente. –Respondeu dando de ombros. –Mas se for à pessoa quem eu penso que é...
Sorento esperou em silêncio, enquanto esperava uma resposta do outro, que parecia estar murmurando alguma coisa.
-Sorento.
-Sim?
-Se eu estiver correto ela deve morar em uma das barracas por aqui. –Falou o rapaz com um estranho sorriso. – Por que você não a convida para morar aqui?
-Morar...?Creio que ela não vá aceitar.
-Por que motivo?
-Ela é muito tímida, foi um custo até para conversarmos no começo.
-Esse longo período em que você ficou longe... Fale que você quer que ela more aqui como um jeito de se desculpar por ter ficado ausente por tanto tempo.
-Mas...
-E diga que você se sente culpado por ter descoberto que ela morava em uma das tendas e não tinha feito o pedido antes.
-Er...
-Eu não esqueci do seu problema. –Replicou o mais novo com olhos sérios. –Apesar de ajudar esta garota estar no meu interesse eu acredito que será uma boa oportunidade para você também.
-...
-Para superar o seu trauma... Eu tenho certeza que o melhor remédio seja ajudar essa menina. -... Ela deve lembrá-lo "daquela pessoa" não é?
"Não se preocupe, dessa vez você não vai falhar".
-00-
-Nossa!Enfim eu vejo a mal falada casa! –Disse Sarah assoviando impressionada.
-...Você nunca tentou entrar na floresta antes? –Perguntou Isaac.
-Tentar eu tentei, mas por causa de temporais e um louco eu tive que desistir. –Disse a garota dando de ombros, não percebendo que o seu acompanhante congelou por alguns segundos quando ouviu a parte do "louco".
-Hum... Onde estão todos?
-Em seus quartos, provavelmente.
-Hum... Eu posso conhecer o dono da mansão?
-Não sei.
-Como assim "Não sabe"?
-Ele deixou claro que nós podemos convidar quem nós queremos. –Explicou o rapaz de cicatriz. –Mas disse que não apareceria para elas se não julgasse necessário.
-Hum... Quanto mistério... Você pode ao menos me contar como ele é?
-Não sei. –Respondeu Isaac. –Ele tem um jeito tão estranho de encarar as coisas que não sei bem explicar como ele é.
-Ah... Quanto mais você fala, mais curiosa eu fico! –Respondeu a garota fazendo beicinho. –Eu não posso mesmo tentar?
-Não.
-Nah, eu vou tentar do mesmo jeito. –Respondeu a garota mostrando a língua para ele de maneira brincalhona e disparando pelo segundo corredor, tentando olhar pelo buraco da fechadura de cada porta.
"A senhorita é bem curiosa não?" –Uma voz ecoou pelo corredor com uma leve risada.
-Hum?Quem é?
"O dono da mansão."
-Mas como você...
"Tenho câmeras pela casa". –Explicou a voz com um tom de divertimento.
-Oh... Por um momento, eu pensei que você fosse onipresente. –Respondeu Sarah rolando os olhos com ironia.
"Acreditar nesse tipo de coisa não combina com o seu perfil".
-Hum?E como você pode saber?
"Eu sei". –Respondeu a voz. -"...Senhorita Sarah."
-Heim?Espera um segundo, como você sabe o meu nome?
"Eu estou disposto a conversar com a senhorita, no entanto peço um pouco de paciência" –Falou novamente a voz ignorando a pergunta. –"Eu tenho que esperar até que todos os convidados apareçam."
-Convidados? –Repetiu a garota confusa. – Isaac, você sabe quem são esses convidados?
-Não. –Negou o rapaz franzindo o cenho.
Era verdade que o dono da casa tinha um jeito bem excêntrico de pensar e agir, no entanto, ele tinha que admitir que ele estava agindo de uma forma mais imprevisível e estranha que o normal.
"Não sei quando os convidados vãos chegar" Disse a voz novamente. "Talvez leve alguns dias."
-Ugh... Eu não posso esperar por tanto tempo.
"Não adianta me procurar."
-Hum?
"Eu não estou aqui. Isto é uma gravação."
-00-
Amassou o papel em suas mãos com frustração.
Era praticamente a milésima vez que tentava escrever alguma história, mas toda vez que tentava escrever algo o personagem ou a situação lembrava vagamente o seu ex-amigo.
Respirou fundo, já tinha olhado vários livros e histórias similares, e não conseguia pensar em outra forma que pudesse justificar as ações do outro.
...Se ela tentava procurar um motivo para perdoa-lo?
Talvez.
Ela não era tonta, sabia muito bem o quanto era tímida no começo e não tinha nenhum amigo por conta da sua horrível habilidade de social, talvez o Io tivesse sido seu único e primeiro amigo em carne e osso.
"Mas ele mentiu."
Não dava para ignorar o tempo em que passaram juntos brincando, ele sempre fora um bom amigo para ela.
"Ele era de verdade e fingiu que não era".
Podia entender que ele tinha escolhido salvar o gato, afinal, ele estava quase morrendo.
"Mas isso não justificava às vezes em que tinha sofrido bullying dos outros colegas e ele não tinha a ajudado."
"...Você já perdeu muito tempo internada, se você continuar com rancor vai perder mais coisas, não sei o que a magoou, mas não acho que valha a pena."
"As pessoas não podem evitar fazer escolhas estúpidas, se há uma chance de resolver isso vá atrás dessa chance, do contrário só restarão arrependimentos."
"..."
Ele realmente parecia arrependido, tinha que admitir, e talvez o dono da carta tivesse razão, não é como se uma pessoa nunca errasse na vida, foi doloroso é verdade, mas estava na hora de seguir em frente e compensar o tempo perdido no hospício.
-...Alexis! –Chamou a sua madrinha. –Você tem visita!
Alexis franziu o cenho, não tinha nenhum amigo e seus pais não ligavam para ela (na verdade ninguém ligava, exceto a sua madrinha, a única pessoa que tinha afeto), então quem poderia ser?
...Quando desceu as escadas, de certa forma, não ficou surpresa.
-...Oi. –Cumprimentou Io.
-Olá. –Respondeu secamente.
-...
-...
-Bom, vou deixar os dois a sós, ou os muffins vão queimar. –Disse a senhora notando a tensão no ar.
Seguiu-se mais um longo silêncio, apesar de sentirem-se desconfortáveis os dois não paravam de encarar um ao outro diretamente nos olhos, tentando ver quem seria o primeiro a falar.
-...O que você está fazendo aqui? –Perguntou Alexis, de certa forma surpresa por não haver nenhuma acidez em sua voz.
Pelo visto Io também notou esse fato, relaxando um pouco o corpo, mas ainda muito tenso.
-Sei que você disse que não queria mais me ver. –Começou. –Mas... Creio que simplesmente ignorar não era a melhor maneira de me redimir...
-...Muito bem, e daí?
-... Se há alguma coisa que eu possa fazer, me diga que eu farei.
-...Que tal voltar no tempo e me tirar do hospício heim?Que tal voltar no tempo e ter me ajudado quando eu sofri bullying?
-...
Não queria reiterar o que não havia jeito, mas estava tirando um sadismo enorme em vê-lo realmente arrependido.
...Talvez fosse errado, mas ela precisava vê-lo realmente arrependido antes de poder perdoa-lo.
-... Não há nada o que você possa fazer. –Disse Alexis cruzando os braços. – Você veio aqui à toa.
O rapaz pareceu hesitar quando ouviu a resposta, mas não parecia de forma alguma disposto a sair da casa, parecendo pensativo.
-... Para ser sincero... Não gostaria que tudo terminasse assim. –Falou ele enquanto massageava as têmporas. –Eu não me esqueci de nenhum momento, eu realmente me importo com você.
A postura dele mudou, e ele olhava para ela de forma séria, Alexis bem que queria ter devolvido um comentário sarcástico, mas em seu íntimo também sentia que deveriam tentar se aproximar novamente.
...Afinal, ela sentia que o assunto não estava resolvido.
-00-
-Hum?Onde está a Genevive? –Perguntou Sophie procurando pela amiga.
-... O dono da casa pediu para ela fazer algo. –Esclareceu Kagaho parado em frente à porta do quarto.
- Você sabe para onde ela foi?
-Não.
-Ugh... Vou procurá-la então.
-...Eu vou com você.
-Eu não preciso de escolta. –Respondeu Sophie com um grunhido.
-... A sua amiga ainda não se sente confortável na sua presença.
-...
Sophie xingou um pouco, mas virou-se de costas e saiu da mansão enquanto Kagaho andava silenciosamente atrás dela.
Geralmente, se alguém estivesse a incomodando ela mandava catar coquinho e deixá-la em paz, mas como o silencioso rapaz ou o estranho dono da casa(que ela ainda não chegou a conhecer), eram os únicos que podiam falar com sua amiga, ela não teve escolha senão aceitar a presença dele.
...Não que Kagaho tivesse feito qualquer coisa para irritá-la(o que é difícil, já que ela tem um temperamento forte), honestamente, ele não interagia nada com ela a não ser que ela começasse a conversa, o que era estranho, já que ela acabava sendo a "sociável" entre os dois.
...Talvez fosse melhor se ela falasse alguma coisa, pois as pessoas ao redor começavam a lançar olhares curiosos para o rapaz, talvez pensando até se não fosse um assaltante.
-...Ei Kagaho.
-Sim.
-Por que esse tal dono da casa não aparece?Ele realmente existe?
-Sim.
-Eu lembro de você ter comentado que não é só você que mora lá, mas outros caras também. –Continuou ela. -...Por que?
-Nós nos sentimos agradecidos por ele.
-Agradecidos?Mas por que?
-...Não sei quanto aos outros, mas graças a ele que meu irmão está vivo.
Sophie ficou novamente em silêncio pensando no que o outro falara, lembrando-se sobre como eles encontraram a sua amiga... Ela tinha quase certeza que o "amigo" que ele mencionara deveria ser esse tal dono da mansão.
...Supunha que ao menos deveria ser cordial com essas pessoas, afinal, pagar por sabe se lá quanto tempo de hospital para a sua amiga deveria custar uma nota, sem falar que nem eles sabiam quem era.
-...Obrigado.
-Pelo que? –Perguntou Kagaho.
-Por estar ajudando a minha amiga. –Falou Sophie franzindo levemente o cenho. -...Pelo menos você está conseguindo ajudá-la em algo.
-...Você não é inútil.
-Hum?
-A situação em que "ele" salvou meu irmão... Eu também não pude fazer nada. –Clarificou. – Talvez eu não tenha conseguido aquela vez, mas agora eu consigo.
-Geez, não precisa me consolar, eu não estou me sentindo deprimida. –Retrucou Sophie dando uma gargalhada.
-Mas está irritada consigo mesma.
-...Talvez um pouco. –Concordou.
Ok, por que ela estava rindo sendo que a situação não tinha graça?
Nada fazia sentido e ela não decidiu sem importar, afinal, estaa de bom humor.
-00-
-Milenka?
A garota se surpreendeu com a visita inesperada, se enrubescendo feito um tomate de vergonha de seu amigo ver que ela morava em uma barraca.
-Ah...O-Olá Sorento er... –Começou ela gaguejando.
-...Então você realmente mora em uma barraca...
-B-Bom... –Começou Milenka brincando com os dedos de forma nervosa. –A minha família não é rica então não pude encontrar lugar para morar por aqui...
-...Desculpe.
-Hu?! –Murmurou a garota de forma confusa.
-Por esses últimos dias. –Clarificou. –Por ter deixado você sozinha e também... Por não fazer nem ideia que você morava em uma barraca.
-A-Ah...Bem, eu nunca mencionei nada então não é de se espantar... –Garantiu ela, para depois ter um estalo ao perceber que o rapaz descobrira de alguma forma que ela morava em uma barraca. –Mas... Como você soube que eu moro em uma barraca?
-...O dono do lugar onde morou me contou. –Disse Sorento. – E... Ele também perguntou se a senhorita não está interessada em ir morar lá.
-Ah... Eu agradeço o convite mas eu não tenho dinheiro para me hospedar. –Admitiu ela com certa vergonha.
-Não vai ser necessário. –Respondeu Sorento. –O dono da casa dá a nós o direito de convidar qualquer pessoa para morar lá, sem custos.
-Hum?Mas por que?
-Ele é... Excêntrico. –Respondeu Sorento.
-E-Eu não sei...
-Eu gostaria muito se você fosse, eu não me sinto bem de tê-la deixado sozinha nesses dias e poder te ajudar... É o mínimo que posso oferecer.
Milenka ia replicar dizendo que não havia necessidade, mas quando viu a expressão de culpa do seu amigo decidiu aceitar a proposta, já que sentia que ele não iria se perdoar se não fizesse isso.
Mas por que será que ele se sentia tão culpado?E por que, em primeiro lugar, ele tinha a evitado?
-00-
Não era nenhum pouco fácil de abalá-la, mas aquele acontecimento com a carta, o velório... Era demais para ela.
Não acreditava nessas bobagens de prever o futuro, então tinha quase certeza que quem quer que fosse, a pessoa que enviara a carta deveria ter sabotado a operação.
...Isso significava que estava lidando com um possível psicopata.
-Ei... –Chamou uma voz feminina.
Lucy se virou, olhando para uma garota que segurava um envelope na mão.
"Calma Lucy, vai ver ela está procurando o correio, você está ficando muito paranoica..."
-Você é Lucy Richard Lewis não é? –Perguntou a garota.
-...Sim.
-"Ele" pediu para que eu entregasse a carta para você. –Disse a estranha garota.
-Obrigada... Er...
-Genevive.
-Genevive. –Repetiu Lucy. –Hum... De quem você está falando?
-É melhor você abrir a carta. –Respondeu. –Ele disse que você saberia quem era assim que lesse o conteúdo.
Lucy olhou desconfiada para a garota, mas abriu o envelope com cuidado, lendo a caprichosa letra que lhe deu pesadelos por várias noites.
"Senhorita Lucy,
Da última vez eu tinha rejeitado a sua estadia em minha casa, mas por causa de certas circunstâncias eu permitirei que more aqui.
Espero ansiosamente pela sua vinda."
-E ele acha que eu vou lá depois de tudo?!- Disse Lucy irritada com a prepotência do tal estranho.
-Ele pode ser incompreensível, mas é uma boa pessoa. –Falou Genevive após um tempo. –Pediu desculpas pelo que aconteceu.
-E por que ele não vem pedir desculpas pessoalmente se ele sente mesmo?! –Retrucou Lucy de forma sarcástica.
-...Ele disse que era para você vir pessoalmente, assim ele poderia esclarecer o motivo de ele ter feito isso.
-Ora... Manda ele...!
-E... Ele pediu para entregar isso.
Lucy pegou a fotografia nas mãos da garota, arregalando os olhos surpresa.
... A foto tinha sido tirada no dia do acidente, ela estava lá no fundo e a máquina que quase a atropelou...
Também estava lá.
-000-
Dammit!Porque vocês não entram logo de uma vez na bendita mansão assim eu posso apresentar oficialmente o dono da casa heim?!
Fica chato dizer "Dono da casa/mansão" o tempo todo sabia? :/*apanha*
Ahem, agora a review:
Makoh: HAHAHA não sabia que você acompanhava essa fic, que grande honra!:D
Olha, eu também gostaria de não perder, por que to tendo dificuldades de formular os capítulos XD
SEE YA!
