Sui parecia distante.
Não que ele não conversasse com ela ou com os outros, mas ele parecia muito quieto e distraído, como se quisesse evitá-los.
-Há algo de errado? –Perguntou Helena enquanto eles comiam sozinhos, debaixo de uma árvore frondosa.
-Huh?
-Você parece pensativo.
-Hum... Não é nada, só estou pensando em algumas coisas. –Respondeu de forma vaga.
-...Você parece triste.
-Sério? –Ele piscou, olhando para o céu de forma pensativa antes de dirigir o olhar a ela. – Helena?
-Sim?
-Você tem algum compromisso de tarde?
-...Eu tenho algumas aulas de música e etiqueta.
-Que horas você sai?
-Er... Às 8:00 da noite.
-... Você acha que pode ir ao parque comigo? Ele ainda vai estar aberto a essa hora.
-Bem... Eu...
-Por favor? –Ele abriu um pequeno sorriso.
-C-Certo. –Concordou Helena, sem saber como dizer não ao delicado rapaz.
-Obrigado. –Sorriu Sui de forma misteriosa.
-00-
-Irmão. –Sui bate na porta. –Você está aí?
-...Sim.
-Posso entrar?
Kagaho abriu a porta, e estranhou quando viu Sui sem suas costumeiras muletas, usando um suporte metálico que ia dos pés até a metade da coxa.
-... Por que você está usando isso? Você raramente usa.
-É mais fácil andar com esses aparelhos, e são bem discretos quando estão debaixo da calça.
-... Você detestava usá-los.
-Eu não os detestava. –Sorriu Sui. –Você detestava. Sabia que eu fingia ser forte quando usava esses aparelhos.
-...
-Foi por isso que parei de usá-los.
-...
-Você não precisa se preocupar tanto. –Ele sorriu. – Nós não somos como antes, não há nada o que temer.
-Sui...
-HEY KAGAHO! – Chamou Sophie entrando sem cerimônias no quarto, acenando de forma displicente.
-Sophie. –Sui meneou a cabeça em forma de reconhecimento com um sorriso divertido nos lábios.
-Sui. –A garota devolveu o olhar rapidamente como cumprimento para depois puxar o mais velho, sentado na cama, para cima em um movimento brusco.
-Hum? Mas o q...
-Hora do seu treinamento de como ser um egoísta insensível.
-Muito bem, eu vou deixar os dois a sós. –Riu Sui. – Sophie, por favor, dê uma lição em meu irmão!
-Com certeza.
Kagaho arqueou a sobrancelha quando o mais novo se despediu e fez menção de segui-lo quando Sophie o interrompeu.
-Nada disso. –Disse a garota com um laptop na mão e dando um violento chute na porta para que esta se fechasse, trancando-a com um clique. –Hoje você não vai ficar feito um cão atrás do seu irmão.
-...
Essa seria uma longa tarde...
-00-
-Bian, qual é a previsão hoje? –Perguntou Sarah.
- Hoje vai ser um lindo dia ensolarado e perfeito para uma praia. –Respondeu Bian colocando um par de óculos escuros mesmo estando dentro da mansão. –Um dia em que ironicamente, não seria de interesse para o Isaac.
-Hmm... Entendi.
-Desapontada? – Bian perguntou com um sorriso sacana.
-Eu já me acostumei com essa rotina, mas não vejo problema algum de mudar um pouco. –Sarah deu de ombros.
-Uhum... Certo... –Bian murmurou. –Ele vai estar bem ocupado esta semana, o torneio de natação está bem próximo.
-Hum...
-Em minha opinião, aquela raia humana não precisa de tanto treino. – Bocejou Bian. –Ele já deixa todo mundo no chinelo e aposto que ele é tão bom quanto um nadador olímpico.
-Ser determinado e treinar todo dia apesar de ser bom não são qualidades ruins.
-Se você diz... –Ele deu de ombros antes de abrir um enorme sorriso. – Ainda bem que você pensa assim, o Isaac inventou uma nova estratégia para treinar.
-Hum?
-Sarah. –Chamou Isaac aparecendo com sua costumeira mochila e uma corda(?). –Você está disponível hoje?
-Sim?
- Eu pensei em uma nova forma de treinar considerando que esses dias serão ensolarados. –Disse de forma natural, como se pedir a presença dela quando treinasse já fosse algo normal. -...Você gostaria de vir?
-Hum, não vejo porque não. –Ela deu de ombros.
-Olha se eu fosse você eu ficava de olho hoje. –Comentou Bian assim que Isaac saiu.
-Hum?
-O que ele planeja fazer é bem perigoso. –Falou o rapaz de cabelo cobre rosado. –Não que nadar em mares bravios não seja, mas~
-Do que você está falando?
-Eh, você vai ver. –Respondeu o outro. –Tentei avisá-lo, mas ele está tão obcecado para ganhar esse campeonato que não vai me ouvir.
-...
-Vê se dá um jeito. –Bian meneou a cabeça. –Quero dizer "eu te disse" depois ok?
-00-
SCREECH
-Oh, ainda não está bom... –Murmurou Milenka ajustando as cordas do violino.
Ela olhava com total determinação para o elegante pedaço de papel à sua frente, quem a visse se surpreenderia, pois sua postura firme era totalmente diferente da garota tímida que geralmente era.
-Esse poema é difícil. –A garota pausou para ler mais uma vez. –Mas... É muito bonito, me pergunto qual foi a inspiração dele para fazer algo tão fantástico.
Thudum~
-...? –Milenka pressionou o peito do lado onde ficava o coração, sentindo uma estranha dor.
"Não estou doente, tenho certeza disso" –Ela pensou enquanto continuava a apertar com força.
Ela sentiu algo quente rolar de seus olhos.
Lágrimas? Por que ela estava chorando?
-Ah! Porque eu estou fazendo isso? –Ela questionou a si mesma enquanto enxugava o rosto. –Eu...
Ela precisava se recompor, tinha a importante tarefa de criar uma melodia adequada ao poema, e ela não podia...
...
-E-Eh?! –Ela deu um gritinho abafado quando percebeu que o delicado papel estava manchado e molhado, algumas partes da caligrafia borrada.
Como ela podia arrumar isso?!
-B-Bom, eu sei o poema de cor já que li várias vezes, mas... – Ela começou a entrar em pânico pegando um pedaço de papel e lápis, tentando fazer o melhor para copiar a refinada caligrafia.
-00-
-Ela está melhorando. –Sorento murmurou se lembrando da melodia que ouviu vinda do quarto de Milenka. –Está muito parecida com a sua obra.
Ele pegou a bela caixa esculpida, seus dedos deslizando pela madeira com hesitação até para no fecho da longa caixa.
Ele hesitou.
-Hum, não consigo abri-la. –Ele sorriu de forma triste enquanto seus dedos saiam do fecho e se colavam ao seu corpo, seu punho se fechando com força enquanto mordia os lábios a ponto de sair sangue.
-Ah... Isso é frustrante.
Ele retirou um pedaço de papel cuidadosamente preservado em uma pasta, junto com milhares de partituras com seu traço.
Ele começou a ler o poema escrito, o primeiro que tinha composto desde...
...
Não, não era exatamente um poema, mas sim letras de uma música composta para a melodia que "ela" criou.
-00-
-Isaac.
-Sim?
-Que tipo de treinamento você vai fazer? –Perguntou a aspirante à cineasta enquanto caminhavam calmamente pela floresta.
-... Você vai ver. –Ele respondeu olhando em frente. – Chegamos à clareira.
Sarah piscou.
Era impressão sua ou ela estava ouvindo o barulho de água correndo?
-Esse rio tem uma correnteza forte. –Explicou Isaac assim que avistaram o rio largo. –Eu vou nadar contra a correnteza.
-Heim?! –Os olhos de Sarah se alargaram quando ela viu que o rio desembocava em uma cachoeira. – Você é louco?! Esse rio desemboca em uma cachoeira de 30 metros!
-... É para isso que serve a corda. –Ele explicou demonstrando a corda de aço. –Vou amarrá-la a uma das árvores e a mim mesmo por precaução.
-Mas...
-Vai ficar tudo bem. –Ele meneou a cabeça.
Sarah ficou em silêncio, sabia que nada o que dissesse iria mudar a opinião do rapaz, então apenas dirigiu um olhar aflito enquanto ele amarrava a corda em uma árvore próxima.
... Ela estava com um mau pressentimento.
-00-
-Primeira lição: Pare de arranjar desculpa para sair daqui! – Sophie encarou o rapaz que estava se aproximando lentamente da janela. –E não ouse pular!
-... Eu jamais faria algo estúpido assim. –Respondeu o outro, que apesar da expressão séria as mãos estavam tremendo.
- Ugh! Eu poderia estar no meu canto hoje escrevendo histórias de terror ou procurando sobre mitos na internet.
-... Você está fazendo isso. –Apontou Kagaho, arqueando a sobrancelha enquanto encarava o laptop no colo de Sophie.
-É, mas não estou conseguindo me concentrar! –Ela retrucou. –Escuta, eu odeio ter que cuidar do outros e detesto quando cuidam da minha vida, mas se há uma coisa que mais odeio é alguém que não tem nem cérebro para pensar por si mesmo!
-...
-OK. Agora pare de pensar em seu irmão e diga algo que você goste de fazer. –Ordenou a garota.
-...
-...
-...
-E então? –Ela arqueou a sobrancelha, sentindo uma veia saltar da testa enquanto Kagaho tinha uma expressão neutra.
-Não sei, nunca pensei em coisas assim. –Ele respondeu. – Eu estou satisfeito com o que eu tenho.
-Satisfeito?
-... Eu não podia pensar em coisas como "eu gosto" e "quero isso", só podia aceitar o que conseguia e conformar com o que eu não tinha.
-Você nunca sentiu frustração por não ter algo?
-...Como eu disse, não era uma opção. –Kagaho respondeu, se sentando no parapeito da janela e olhando para o nada, como se estivesse se recordando de algo.
-... E perder algo?
Os olhos dele se estreitaram, havia uma expressão de sofrimento refletido nos orbes escuros.
-...Kagaho?
-Para falar a verdade eu... –Ele hesitou.
-... O que foi?
-Ouça a minha história até o fim. –Ele respondeu com uma expressão séria que não deixava espaço para questionamento.
-... Muito bem, eu não vou contar.
- Quando eu e Sui éramos pequenos nós...
-00-
-Helena! –Acenou Sui de forma animada.
-Sui? –Helena piscou quando viu que ele estava sem as muletas. –Onde estão suas muletas?
-Hoje estou usando um aparelho especial. – Sorriu Sui levantando levemente a calça para mostrar o aparelho metálico. –É um suporte para que eu possa andar normalmente.
-Oh...
-Vendo assim até pareço normal não é? –Ele perguntou com um sorriso estranho e um tom de voz indecifrável.
-N-Não queria...!
-Não se preocupe, não estou te acusando de nada. –Ele deu uma risada.
-Haha... Certo. –Helena riu de forma embaraçada.
-Na verdade... Sou eu que estou me acusando.
-Hum?
- Eu usava este aparelho para que os outros pensassem que eu sou normal e para que meu irmão parasse de se preocupar, mas...
-Sui?
-... Vamos ao parque? – Ele sorriu, dissimulando a conversa.
-Hum...
-Eu quero ir à roda-gigante.
-Ah... –Helena hesitou, dando um passo para trás.
-...? O que foi?
-Eu... Tenho medo de altura... De lugares fechados em lugares altos. – Helena sussurrou, seu corpo tremendo enquanto ela se lembrava do traumático acidente de elevador que sofrera.
-Hum... Eu entendo... –Sui sorriu segurando as mãos da garota de forma confortante. – E também... Tinha medo de altura, mas consegui superar.
-Eu...
- Não vou forçá-la. –Ele continuou. – Mas se aceitar eu vou segurar sua mão e nunca soltar, eu não vou deixar que nada lhe aconteça.
-...Sui.
-...Pelo visto você passou por algo traumatizante hum? –Ele fez uma face compreensiva. –Então neste caso você poderia ir comigo até o terraço deste prédio?
-? Ok?
Helena se sentiu confusa, não sabia o motivo de o rapaz fazer esse pedido, mas não questionou já que parecia algo importante.
-Vamos subir de escadas. –Ele sorriu. –Já que você não gosta de lugares apertados e eu tenho um palpite que é melhor usarmos as escadas.
-Mas suas pernas...!
-Está tudo bem. –Ele piscou. –Como eu disse, esse aparelho me ajuda a andar normalmente.
Helena meneou a cabeça e seguiu Sui.
Como o prédio possuía muitos andares eles tiveram que fazer algumas pausas para descansar, e entre essas pausas Sui sempre repetia uma pergunta que a deixava confusa.
"Nós somos próximos o suficiente, por isso quero perguntar se você quer saber sobre meu lado sombrio."
"Se você não tiver coragem de prosseguir dê meia volta, nada vai mudar"
"... Se aceitar não haverá volta. Sua percepção e relação a mim mudará para sempre."
-Tudo bem, eu vou em frente. –Helena respondeu novamente.
Sui parecia agradecido cada vez que ela repetia essas palavras, mas continuava em silêncio e não se explicava.
-... A partir daqui não haverá mais volta. –Ele parou quando estavam em frente à porta que dava para fora. –Vou repetir mais uma vez: Está disposta a ouvir a minha história?
-S-Sim.
-Muito bem. –Ele pareceu sério ao pronunciar essas palavras. -... Eu também não vou mais me intrometer em sua vida, a partir de agora eu retiro as minhas proteções, pode ser que seus guardas ou até mesmo seus pais a proíbam de me visitar.
-...Ok.
-... Você está sendo sincera em sua decisão?
-S-Sim.
-Certo... Então não preciso me preocupar.
Ele abriu a trava com um estalo e ambos se viram banhados pela luz da lua, o céu incrivelmente limpo e coberto de estrelas.
-...São muito bonitas. –Sui comentou olhando para cima.
-Huh?
-As estrelas. –Ele sorriu de forma pensativa. – Não tinha o costume de olhar para cima, sempre andava de cabeça baixa.
-...
-Sabe, tanto eu como Kagaho somos órfãos. –Ele respondeu, caminhando até a beirada do prédio e olhando para baixo. –Vivíamos nas ruas e todo dia era uma luta para sobreviver.
-A-Ah! –Helena deu um passo à frente. –C-Cuidado! Você está muito perto da borda!
-Está tudo bem. –Ele deu um sorriso estranho. –Não vou me jogar daqui... Pelo menos, não dessa vez.
"...Dessa vez?"
-Sabe... Eu era muito fraco e o pouco de comida que meu o irmão arranjava ele dava para mim. - Ele continuou sua voz pesada enquanto ele se sentava na beirada. – Eu sempre odiei ser fraco, e sempre senti que era um estorvo, que atrapalhava meu irmão.
-...
-Eu olhava para baixo, incapaz de olhar para cima pois me sentia como um inútil, que minha existência não significava nada e que era melhor eu não causar problemas aos outros.
-Sui...
-Então... –Ele pausou. –Eu tentei me matar.
Ele se virou, sua mirada triste encontrando com a expressão chocada de Helena.
-Eu me atirei de uma construção assim como essa, uma igreja para adicionar a ironia. –Ele abaixou o olhar, encostando a mão levemente na perna. –Eu sobrevivi graças ao Leon. Ele estava no lá no momento em que pulei e chamou a ambulância e me levou as pressas ao hospital, fiquei com seqüela, mas ao menos estou vivo.
-...É por isso que você não consegue andar direito?
-Sim. –Confirmou. –Causei dor ao meu irmão e jurei a mim mesmo que nunca mais faria algo assim. Também fingi que estava tudo bem e deixei que ele cuidasse de mim para sempre.
-...
-Mas isso não está certo. – Ele sussurrou com a voz embargada. –Eu ainda não estou bem. E essa dependência que temos um do outro vai acabar por nos destruir. Meu irmão vai continuar eternamente sem pensar em sua própria felicidade e eu vou fingir que estou bem.
-Sui... –Chamou Helena. –Por que está me contando isso?
-Porque eu gosto de você. –Foi à resposta. – Não que eu não seja goste do Isaac, Bian e Io, mas além do meu irmão eu me sinto muito mais próximo de você e do Leon.
-...Então por que você não pediu ajuda ao Leon? Você parece confiar muito nele.
- O Leon tem seus próprios problemas e dores. – Sui disse com um tom de preocupação. – O problema dele é similar ao meu, mas muito mais grave.
-Mais grave?
-Sim, por isso não posso contar com a ajuda dele para isso.
-Oh...
-... É muita informação para você não é? Pense um pouco e me responda quando for possível, está bem?
-00000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000-
Surpresa, surpresa, eu finalmente revelei qual é o problema dos dois irmãos. A partir de agora a relação deles com seus pares vai mudar drasticamente.
Sorento ainda continua no mistério~ O segredo dele ainda vai demorar um pouco até ser revelado, mas a Milenka, lol, a mais quietinha, está na frente de todo mundo! Ela vai perceber seus sentimentos logo logo lol XD
...
Agora vamos para as reviews!
– AHHH! Peço mil perdões! Eu não desisti das fanfics! Estava sem idéias, estressada por causa da facul e sem tempo e energia para escrever! HAHAHA peço desculpas por ter sido curto, precisava pegar o jeito para conseguir escrever novamente~ Hhehe, para compensar escrevi o dobro nesse capítulo! Io e Alexis são um dos casais mais profundos e desenvolvidos junto com Milenka e Sorento, Eva e Fiodor estão livres de todo o drama mexicano dos outros integrantes da casa e são um casal muito de boa, lol XD~
