O Ferreiro
O processo de reconhecimento tornava-se mais complicado do que tonha previsto numa fase inicial da sua missão. Trocara poucas palavras com o homem que habitava naquele pagode, mas começava a duvidar da sua real ameaça ao Santuário.
Do que tinha percebido nos dois dias que tinha passado naquelas montanhas, Mu, como lhe tinha passado a chamar, pois este se recusava a revelar o seu nome, era apenas um ferreiro que vivia isolado naquela torre. Só ainda não tinha descoberto o "como" nem o "porquê" de ter tantos conhecimentos sobre o Santuário, nem da extensão dos seus verdadeiros poderes. Apesar da sua aparência particular, não era a divindade que a população de Jamiel pensava ser.
O brasileiro acabou de baixar os degraus e parou, olhando em volta.
Tudo lhe parecia incrivelmente vazio. Apenas se escutava o farfalhar variável da enorme lareira que aquecia a sala e, de tempos a outros, indícios do vento que soprava no exterior.
Tirando isso, não havia nada…
- Mas onde raio de escondeu ele? – perguntou-se em voz alta.
"Está à minha procura?"
Aldebaran sobressaltou, ainda não habituado àquelas assombrações que se tornavam frequentes. Respirou fundo, e caminhou para uma ponta, sentando-se numa cadeira do escasso mobiliário da sala.
- Estou à espera… - disse alto, cruzando os braços – mas não se apresse…
"Ah… está à minha espera…"
Aldebaran lutou contra o desconforto de falar para o vazio. Não sabia bem como lidar nem com a situação em si, nem com a personagem. Tinha ido preparado para lutar contra um ser do outro mundo que não aceitasse a rendição. Estava disposto a aprisionar o que quer que estivesse a dizimar as tropas chinesas.
Mas o desenrolar dos acontecimentos não correspondia a nenhuma dessas opções. O mais sensato era observar, relatar e esperar que o Santuário lhe desse ordens.
- Estou aqui enquanto simples observador. Não é minha intensão interferir com a sua rotina.
Ouviu um suspiro profundo ecoar pela sala, antes de sentir uma cosmo-energia emergir do nada. Um vulto começou a desenhar-se no centro do comodo, os contornos de uma figura que reconheceu ser o ferreiro. Trazia algo pendurado pela mão, que inicialmente não conseguiu definir o que era. Uma forma continua e fina que começava na mão do tibetano e terminava no chão, como um amontoado disforme. Foi apenas quando o vulto se tornou mais nítido que assimilou o que os seus olhos viam.
Um braço.
O ferreiro tinha trazido um cadáver em estado de putrefacção avançada para dentro do pagode, hipoteticamente escolhido do monte de corpos que jaziam no penhasco de Jamiel.
- Mas o que… - começou a dizer, levantando-se da cadeira bruscamente.
A mão do ferreiro abriu-se, deitando ao chão o cadáver em suspensão com um baque forte - Um morto – respondeu, como se fosse uma das coisas mais naturais do mundo - …estou convencido que, enquanto cavaleiro de Atena, já viu outros durante as suas expedições, e em bem pior estado.
Aldebaran manteve-se de pé, os olhos arregalados pelo espanto, perturbado com a simplicidade com que o ferreiro lidava com aquilo. Era claro que já tinha visto pessoas mortas, matado pessoas e muitos deles acabaram em pior estado que o cadáver nas suas mãos… mas não deixava de haver algo de tremendamente errado naquela cena.
- Você… colecciona mortos aqui dentro?
- … - o ferreiro paralisou, e levantou o rosto na sua direcção lentamente. Soergueu o olhar, parecendo genuinamente surpreendido com aquela presunção - …isso seria terrivelmente perturbador… não acha? – acabou por perguntar ao fim de uns segundos de silêncio pesado.
Aldebaran deixou os ombros descaírem, num sinal de relaxe - Ficaria surpreendido com as pessoas com quem lido no dia-a-dia… - contrapôs, percebendo um meio sorriso aflorar nos lábios do seu interlocutor.
- Olhe com mais atenção para ele, e vai reconhecer algo… este demorou algum tempo a encontrar no meio do amontoado.
O brasileiro observou o morto a contragosto: o rosto contorcido pelo terror de quem percebe a chegada da sua morte, os braços e pernas dilacerados, o torso aberto e o sangue ressequido em todo o conjunto.
Não conseguia distinguir nada naquele homem devido ao seu estado de decomposição… mas havia algo que, os seus olhos pareciam ver e a sua mente não queria assimilar. Algo que estava habituado a lidar no seu dia-a-dia, mas que não fazia sentido no quadro dos Himalais…
– AH! – exclamou arregalando os olhos, quando decifrou o enigma – isso é… uma armadura de bronze!
Mu permaneceu calado, mas anuiu em resposta. Observava o corpo, ouvindo os ossos estalarem à medida que contorcia o braço do defunto, como se ponderasse o melhor ângulo para lidar com ele.
Murmurou finalmente algo que o brasileiro não conseguiu perceber e fechou os olhos, elevando gradualmente o cosmo de forma a envolver a armadura.
Com um barulho seco e tilintante, as peças erguera-se do corpo disforme e encaixaram-se uma a uma, retomando a sua forma de descanso alguns passos atrás.
Aldebaran aproximou-se sorrateiramente, movido pela calma das acções dispensadas pelo companheiro. Encostou o joelho direito ao chão e deixou-se ficar, observando a armadura com atenção. Parecia baça… sem vida. Nunca teria a vitalidade e fulgor de uma armadura de ouro, ou o cintilo de uma armadura de prata, mas aquela encontrava-se especialmente extinta e oxidada.
Quando voltou a olhar para o lado, percebeu que o corpo tinha-se evaporado com a mesma naturalidade como tinha aparecido.
Aquilo tudo era obra dos poderes daquele homem... percebeu que o que lhe interessava não era o cadáver em si, mas o que o revestia. Nesse momento, uma serie de hipóteses passaram-lhe pela cabeça, cada uma mais estranha que a outra.
O ferreiro lavou as mãos numa tina de água, com cuidados que se assemelhavam a um médico em preparativos para uma cirurgia. Ergueu-as à altura dos ombros, deixando que algumas gotas escorressem pelos braços alvos, e aproximou-se da pira para as secar com o calor das chamas.
Quando achou que estava tudo nos conformes, considerou finalmente a armadura, obrigando o brasileiro a afastar-se.
Aldebaran observava tudo de longe. O ferreiro tocava a armadura ao de leve, com extremo cuidado, os olhos atentos e astutos em cada peça que definia. Parecia mergulhado num transe profundo.
- O que vai fazer com ela?
- Tudo depende do seu estado – o tibetano acabou por responder ao fim de um tempo de observação – sou ferreiro, não milagreiro… armaduras mortas são como pessoas: não ressuscitam.
Mu deixou os seus futuros actos em suspensão, fazendo uma pausa tão longa que Aldebaran se viu na obrigação de continuar o interrogatório - O que quer dizer com isso?
O tibetano levantou o rosto na direcção ao topo da lareira, à medida que respondia - Como deve saber, existem três tipos de armaduras diferentes: Bronze, Prata e Ouro – voltou a pausar e fez um gesto ligeiro com a mão, para um pequeno cofre aveludado - cada um desses tipos é possuidor de certas características, variando entre elas em qualidade e poder. Mas uma coisa todas elas têm em comum: vida. E como qualquer ser ou entidade viva, se mal estimada acaba por sucumbir ao desgaste.
Aldebaran tinha uma vaga noção da entidade das armaduras de Atena… mas nunca tinha parado para pensar no que lhes acontecia depois de uma batalha. Não apenas ele, mas acreditava que nenhum cavaleiro do Santuário parava para pensar muito no assunto.
- As armaduras podem…morrer?
- Se não forem devidamente tratadas.
O brasileiro ia continuar as perguntas quando pressentiu uma mudança estranha na sala que o fez calar. A armadura encontrava-se coberta de sangue, muito provavelmente do cavaleiro morto, e começava a emanar pulsações de energia. Aos poucos as poças rubras tornaram-se veios nítidos, como se se tivessem tornado numa circulação sanguínea. As pulsações de energia trémula eram muito semelhantes às de um cavaleiro ferido.
Os minutos que se seguiram pareciam ter passado em suspensão. O ferreiro debruçado sobre a armadura de bronze expeliu o ar dos pulmões com intensidade, deixando os seus olhos se fecharem languidamente. Aos poucos o seu espirito libertava-se, como se tudo nele tivesse começado a emergir em sintonia da massa física e energia exalada da armadura.
O tibetano entreabriu os olhos agora baços, forçando-se a manter uma respiração lenta e funda… provavelmente numa tentativa de controlar os batimentos cardíacos, pensou.
Aldebaran deixou-se levar pela indolência da cena, sentindo como se o próprio corpo tivesse sido aspirado de qualquer vestígio de energia.
Mas todos os seus músculos se retesaram em sinal de alerta quando ouviu um grito estridente que quebrava o mutismo dos últimos segundos. Deu um salto na cadeira, o coração aos pulos, e esbugalhou os olhos tentando perceber o que era aquele som vindo das entranhas do Inferno.
Tapou os ouvidos com as mãos, numa tentativa de filtragem do som. Na cena que se desenrolava diante dos seus olhos, o tibetano não parecia incomodado com aquele uivo prolongado, muito pelo contrário, o pranto lúgubre parecia-lhe natural naquelas condições.
Finalmente a energia até então serena do ferreiro libertou-se, envolvendo a armadura de forma protectora. Elevando a mão direita, esfregou o polegar entre o indicador e médio, deixando cair aos poucos um pó reluzente que Aldebaran não conseguiu definir. Viu surpreso os lábios do tibetano moverem-se devagar, murmurando algo incompreensível, e com grande surpresa percebeu que o som agudo se atenuou gradualmente. O que agora não passavam de sussurros descontínuos pareciam-lhe bem mais suportáveis.
- O que foi isto? – perguntou em voz baixa, sentindo o corpo relaxar progressivamente.
O companheiro não respondeu. Os olhos baços encaravam a armadura, mergulhados num transe profundo e cadenciado, a mão esquerda constantemente em contacto com o metal frio enquanto a direita libertava o pó que aparecia como por magia. Tentou entender o que acontecia por si, puxando pela imaginação para encontrar as respostas mais espalhafatosas possíveis. Aquele homem parecia entender bastante sobre as armaduras sagradas e, segundo as suas palavras, estas possuíam vida e algum tipo de consciência. A simples imagem da sua armadura de ouro possuir inteligência própria era complicado de digerir… apesar dos conhecimentos do Santuário sobre elas, nada mencionava acerca dessa particularidade. Sempre pensara que elas tinham sim, alguma capacidade regenerativa, mas derivada do sangue e dos grandes poderes da Deusa que nelas tinha corrido.
Mas naquele momento, aquele homem debruçado sobre o monte metálico desmantelava a teoria à qual se tinha agarrado à anos, mostrando uma nova face de uma das armas mais poderosas do Santuário: as armaduras possuíam vida.
- Não pode ser… - murmurou quando, na sequência de raciocino, percebeu o que tinha desencadeado o barulho de momentos antes - … aquele grito era… a armadura?
- Sshhhhh…
Não espantado com aquele tipo de resposta, o brasileiro recostou-se na cadeira, demasiadamente interessado e curioso para retaliar. Ele precisava de respostas, mas naquele momento assistir à interacção do companheiro poderia se tornar mais esclarecedor do que qualquer pergunta.
O borbulhar ruidoso do seu estomago despertou Aldebaran do sono leve em que mergulhara durante alguns minutos. Abriu os olhos e viu que o tibetano de feições suaves continuava num restauro minucioso da armadura de bronze. Não sabia quanto tempo havia dormido, mas aquele martelar cadenciado que se prolongava à horas tinha sido o golpe de misericórdia para o fazer ceder ao cansaço.
Olhou para a armadura, ainda meio atordoado, e notou que esta parecia ter-se aquietado, emanando suaves ondas de energia serena. A sua conclusão estava próxima.
Endireitando-se na cadeira tentou controlar um bocejo sem grande sucesso. Prestou toda a atenção que conseguiu apos uma sesta aos últimos momentos daquele ritual, percebendo que o tibetano parecia tão fresco como no inicio da tarefa. O martelo e o lintel finalmente no chão, a armadura foi ainda alvo de três rajadas de energia quente, antes do seu restaurador se dar por satisfeito.
Estava visivelmente pronta.
- Finalmente… - suspirou, levantando-se da cadeira onde tinha passado as ultimas horas e aproximou-se do ferreiro. Sentia-se fascinado pelo resultado, a surpresa visível pela conclusão da reparação daquela preciosidade.
- Não lhe toque – ouviu a voz suave do companheiro antes que este se afastasse para um canto da sala – as energias do metal ainda estão demasiado instáveis, não deve aproximar-se sob pena de as descontrolar ainda mais.
Àquelas palavras, o brasileiro optou por preservar uma distância razoavelmente segura, mantendo-se no entanto perto de forma a apreciar o resultado do trabalho.
- Quanto tempo demora a armadura a estabilizar? – perguntou ao ouvir um som borbulhante.
- Depende da armadura – o tibetano esfregava as mãos dentro da tina de água, no mesmo ritual que tinha praticado no início da sessão – em média umas horas para uma armadura de bronze. Mas considerando a sua presença na sala e a absorção abundante da sua energia, direi um dia para que ela consiga conciliá-la com a minha.
Aldebaran arregalou os olhos surpreso, virando-se na direcção do seu interlocutor – a minha energia?
- Isso…- o ferreiro limpava agora as mãos finas num pano de linho – mas ainda acordou antes do final, fiquei surpreendido.
O moreno encolheu ligeiramente os ombros e baixou os olhos, por momentos envergonhado com aquele acto. Teria o ferreiro levado aquele seu momento de fraqueza como uma falta de interesse do seu restauro? – Peço desculpa, não sei exactamente o que aconteceu… - começou uma justificação, mas logo se reteve - … mas calma… você disse que a armadura anexou parte das minhas energias?
- Hum… uma grande quantidade dela, devo admitir…
- Mas…como?
As mãos devidamente limpas, Mu atravessou a sala fazendo-lhe sinal para que o seguisse, deixando a armadura mergulhada na escuridão do quarto metalúrgico – o ritual da reparação das armaduras exige três componentes indispensáveis: sangue portador de uma cosmo-energia; metais preciosos, como Gamânio e Oricalco; e finalmente, uma grande quantidade de energia. Normalmente sou eu quem dispensa essa energia… mas a sua presença demonstrou-se útil neste caso. Evitou o meu cansaço desnecessário.
Aldebaran permaneceu um instante paralisado; atordoado com a forma directa e inesperada com que o ferreiro admitia o ter usado. Reagiu apos uns segundos, porém mais austero que a sua real intenção.
- Você usou um cavaleiro da elite dourada? – começou, frisando as ultimas palavras – duvido que, com os seus conhecimentos sobre o Santuário, não domine as consequências a esse acto.
O interlocutor mostrou-se pensativo com a sua insinuação – hum… - murmurou esfregando as pontas dos dedos uns nos outros – considere isto um câmbio: eu deixei-o assistir ao restauro de uma armadura, e em troca forneceu a energia necessária para que isso ocorresse.
Chegados a uma pequena sala, o tibetano sentou-se de pernas cruzadas sobre as almofadas dispostas no chão. Massajou o pescoço com a mão, ouvindo-se o estalar dos ossos a cederem.
- Para mais, - continuou, encarando o moreno com um sorriso traiçoeiro quase imperceptível- encontra-se hospedado em minha casa sem qualquer contrapartida, e são algumas as armaduras perdidas na ravina que ainda precisam de reparação. Quanto menos energia minha for dispensada, mais rapidamente elas estarão disponíveis para os novos cavaleiros. No final a sua atitude apenas serviu para ajudar o Santuário ao qual prometeu diligencia.
Apesar de ter seguido o ferreiro até aquela sala, Aldebaran percebeu a grande dose de incerteza que ainda sentia a seu respeito. Havia algo naquela figura que não o deixava descansado… aquele homem desconhecido parecia-lhe de certa forma familiar. Aquela ideia não era tão descabida assim, considerando a sua grande afinidade com o Santuário.
- Mas vamos a outras necessidades mais presentes…
O tibetano encostou as mãos uma à outra, libertando uma pequena dose de energia que lhe permitiu fazer aparecer duas tijelas médias com um líquido fumegante. Aldebaran olhou o conteúdo, percebendo uma sopa de esparguete com carne e vegetais, de aspecto inesperadamente convidativo. Não era muita, sobretudo para a fome com que estava, mas não se ia fazer de rogado. Deixou-se aproximar das almofadas, sentando-se de frente para o companheiro, sentindo o cheiro delicioso a comida pairar no ar.
- Tkukpa – disse o tibetano levando a tijela aos lábios, soprando devagar.
Aldebaran tomou a sua tijela entre as mãos, e comeu a sopa com gosto. A Tkukpa não pregava pela sua qualidade, mas a fome era mais que muita… algo lhe dizia que em parte devido à energia que lhe tinha sido roubada.
Em boa verdade, Aldebaran não era grande apreciador da gastronomia tibetana. Os poucos dias em missão tinham sido suficientes para compreender que os pratos locais, além de pouco variados, não caprichavam pelo requinte de sabores.
Nesse aspecto, a cozinha chinesa tinha sido a sua salvaguarda durante os últimos dias. Mas fechado naquela torre, estava destinado a contentar-se com aquelas refeições ligeiras.
- Você parece saber muito acerca do Santuário… – sentia a fome pouco saciada, mas não iria perder aquela oportunidade de convívio para tentar arrancar algumas informações sobre aquele homem misterioso - … e o Santuário parece saber muito pouco sobre você.
À sua frente, o tibetano comia de forma calma a sua porção de sopa, pouco apreensivo com a eventualidade de certas acusações.
- E o que o… Santuário… deseja saber?
- Pode começar por revelar o seu nome…
- Mu.
Insatisfeito com aquela resposta, o moreno suspirou pesadamente mostrando o seu descontentamento. Aquele homem não parecia muito voluntario a revelar determinado tipo de informações, e o seu verdadeiro nome era uma delas.
- Muito bem…Mu… você possui claramente alguns poderes telecinéticos e isso permite-lhe restaurar as armaduras sagradas. Parece muito bem informado do que se passa no Santuário e dos seus habitantes. Quando cheguei aqui disse que esperava um mensageiro do Santuário, mas que não pensava que me enviassem a mim. Qual o significado dessas palavras?
O tibetano acabava finalmente a sopa, e pousava a tijela no chão de madeira. Suspirou longamente, como se fosse obrigado a responder a uma pergunta desnecessária.
- O grande mestre sabe da minha existência – começou por responder – apenas não sabe do meu paradeiro. Afinal, as armaduras não aparecem no Santuário restauradas por milagre.
- Algum dia o Santuário teria que o procurar… - o brasileiro terminou o raciocínio – e com quem aprendeu a consertar as armaduras?
- Com o mestre.
Aldebaran levantou o sobrolho esquerdo – e esse mestre tem um nome?
- Sim: mestre.
O brasileiro fechou os olhos, massajou as têmperas suspirando – estou desgraçado… - murmurou para si, tentando manter a calma – ouça, o Santuário enviou-me com a missão de controlar os massacres de Jamiel. Acredite ou não, teve muita sorte em ter sido eu o destacado para vir até aqui, ou já estaria morto. Acho que não tem noção do real poder dos cavaleiros de ouro…
O ferreiro continuava impávido, encarando-o sem a menor preocupação. Por segundos Aldebaran duvidou que ele estaria realmente a entender as suas palavras, mas continuou.
- Espero receber novas ordens do Santuário em breve, em resposta ao último relatório que lhes enviei de Jamiel. Acredito que o grande mestre quererá a sua permanência no Santuário, devido aos seus poderes; afinal, não conheço muitas pessoas capazes de consertar as armaduras; e dessa forma ficará protegido de ataques exteriores.
O ferreiro encarou-o demoradamente, como se lhe estudasse as intenções, avaliando a melhor forma de abordar a questão.
- Pareço-lhe em dificuldades? – perguntou finalmente, da aparência mais natural e calma possível.
Mais uma vez, o brasileiro foi surpreendido pela pergunta. Estava complicado raciocinar e argumentar coerentemente com aquele homem. Teria de rever os seus conceitos de diplomacia.
- Não, mas… - começou a falar, antes de ouvir de novo a voz do tibetano.
- Sabe, esse é um dos grandes problemas do Santuário e do actual Patriarca: julgam-se detentores da verdade absoluta. Se alguém se opuser, é automaticamente taxado de herege, sem qualquer oportunidade de retaliação.
A afirmação deixou o brasileiro sem resposta. Aquele assunto não era da sua competência, apesar da sua opinião ser completamente contrária à do homem à sua frente. O desagrado do tibetano para com o Santuário era evidente, pelo que optou por um silêncio omissivo se queria manter alguma qualidade de convivência enquanto estivesse ali. A única alternativa era esperar pacientemente pela resposta do Santuário.
