O Cavaleiro
"A directiva n°3 da décima quarta Ekklesia desenrolada em Setembro, relativa a situações diversas do Santuário de Atena, foi debatida a existência do intitulado ferreiro assim como dos acontecimentos que se desenrolaram na aldeia de Jamiel, Tibete. Foi aprovado por maioria absoluta que, o citado sujeito, recusando-se a revelar a sua verdadeira identidade e em consequência a actos indisciplinares relativos à Organização assinalados no passado, encontra-se em estado de redenção pelos seus actos contra o Santuário e a deusa.
Neste contexto, e sob ordem de sua Santidade Mestre Arles, deverá permanecer na sua localização actual e efectuar relatórios semestrais sobre a sua situação. Serão previstas inspecções periódicas ao lugar intitulado 'Torre de Jamiel', com frequência ainda por indicar.
Com base nestas medidas aprovadas e considerando a descrição do cavaleiro da elite dourada, Aldebaran de Touro, em como o sujeito apresenta poderes de relativa simplicidade; este deverá permanecer incógnito na sua localização actual, podendo empregar das suas faculdades para esse efeito. Toda a situação de óbito desnecessário deverá ser evitada."
Aldebaran olhou durante longos segundos a directiva nas suas mãos. Havia definitivamente algo que o incomodava naquela situação toda. Aparentemente, o tibetano não tinha sido considerado uma ameaça para o Santuário, ainda menos para a humanidade. Mas então, porque o exilavam daquela forma tão… educada… exigindo no entanto que as suas capacidades fossem usadas em prol da sua rendição?
"…em consequência a actos indisciplinares relativos à Organização assinalados no passado…" releu as palavras escritas à tinta preta que lhe poderiam servir de resposta. Aquelas palavras revelavam tanto, mas diziam-lhe tão pouco.
O tibetano era conhecido do Patriarca e a sua presença tinha sido registada no Santuário. Essa era a única certeza que tinha. O grande mestre parecia dedicado em mantê-lo no anonimato, por motivos que lhe eram desconhecidos.
Voltou a dobrar a folha pelos vincos, guardando-a no bolso interior do casaco. O clima parecia ter-se refrescado desde a última vez que saíra do pagode. A tarde adormecia cinzenta, embalada pela luminosidade metálica projectada pelas nuvens carregadas que deslizavam no céu.
Voltou a caminhar pela trilha em direcção à torre, as mãos enfiadas nos bolsos. Esperava uma resposta rápida do Santuário, mas quando naquela manhã Mu o tinha avisado da presença de alguém à entrada da ponte suspensa não pôde evitar alguma surpresa. Rapidamente foi transportado para perto do mensageiro, através da teleportação, mas para o caminho de volta estava na sua conta.
Aos poucos conhecia aquele carreiro e as suas armadilhas, não enfrentaria grandes dificuldades em alcançar o seu objectivo. Talvez por isso nasceu a intuição de que não seria a última vez que o ia percorrer.
- Sabe do que o acusam?
Os olhos verdes acabavam de explorar a folha de papel, um sorriso forçado de ironia nascendo-lhe nos lábios. Bastava captar-lhe a expressão para perceber que sabia exactamente do que se tratava, mas que nada revelaria. Aldebaran observava-o com atenção, esperando tirar algumas respostas.
- Julgo que esteja claro que não sou bem-vindo no Santuário – respondeu, estendendo a folha na direcção do brasileiro. Não parecia afectado pelo seu conteúdo, mas reagia sim de forma irónica.
- São mencionados actos indisciplinares da sua parte relativamente ao Santuário. O que aconteceu realmente?
O ferreiro voltou-lhe as costas, regressando à tarefa de limpeza de alguns instrumentos colocados sobre a mesa de forma minuciosa. As mãos claras estavam sujas de uma estranha pasta oleosa e preta, miscelânea que podia encontrar igualmente no canto da sua missiva.
- Se o Grande mestre não achou necessário coloca-lo ao corrente da minha situação, o que o leva a crer que eu o farei?
O tom de voz não deixava transparecer qualquer arrogância, apesar das palavras presunçosas. A pergunta suscitou um esgar de surpresa no cavaleiro, habituado a ser devidamente respeitado pela sua posição.
- Sabe Mu, você não é uma pessoa fácil de se lidar todos os dias… - respondeu com um longo suspiro, recostando-se à parede. Quando tinha chegado àquele lugar esperava encontrar muita coisa, mas nenhuma se assemelhava com a realidade.
Aquela confissão saiu tão simplesmente, sem qualquer maldade, mas pareceu surtir alguma reacção da parte do companheiro.
Ainda de costas, o ferreiro parou a tarefa com a qual estava absorto, deixando escapar um longo suspiro cansado. Estava consciente que cedo ou tarde o Santuário descobriria onde ele estava, mas agora que tinha sido encontrado, nenhuma das hipóteses que tinha imaginado parecia se encaixar. Ou o grande mestre tinha enviado Aldebaran despropositadamente, sendo um golpe de sorte a sua escolha; ou sabia exactamente quem ia encontrar e enviara-o com conhecimento de causa. Aldebaran era um cavaleiro íntegro e honrado, dos poucos que não parecia distorcer o juramento que fizeram, além de um homem compassivo e generoso. O seu único defeito residia na sua actual fidelidade ao falso Patriarca, o que no final acabava por não ser inteiramente da sua culpa.
- Desculpe-me – ouviu a voz grossa do brasileiro – não era minha intenção causar-lhe desconforto. Talvez não escolhi as melhores palavras para exprimir…
- Não, tem toda a razão – respondeu virando-se finalmente na sua direcção – não sou uma pessoa sociável e isso já me evitou muitos problemas. Mas acabei por perder a capacidade de lidar com pessoas. – fez uma pausa, enquanto limpava as mãos a um pano de linho branco – mas isso não vai fazer muita diferença, já que a sua missão aqui chegou ao fim…
Aldebaran suspirou e resignou-se a terminar a conversa. Era verdade que tinha recebido ordens para regressar o mais rapidamente possível ao Santuário, não havia um minuto a perder.
- Quem sabe, não aparecerei de novo aqui mais cedo do que pensa… - comentou com um sorriso no rosto – mas por enquanto, a armadura de Touro. Prepara-se uma tempestade, e é mais sensato regressar à aldeia e descer o máximo que conseguir antes que isso aconteça.
O ferreiro assentiu com um gesto mecânico da cabeça, indicando uma sala no último piso do pagode. Quando se afastou, ouviu o som metálico do martelo e do cinzel a trabalharem. O tibetano tinha voltado a trabalhar.
Avançou pelas escadas de madeira, cada lance tornando-se mais estreito à medida que se aproximava do topo.
A torre dormia a meia-luz. Um quadro de sombras e de silêncios ao qual Aldebaran nunca se tinha habituado durante o tempo passado ali. Ele, que sempre tinha vivido num Santuário cheio de gente; que vivia com muitas outras pessoas na casa de Touro. Sentia falta do movimento, da confusão que aquele lugar podia ser às vezes, da convivência.
Enquanto cobria os últimos degraus que o levariam à última sala do pagode, deu por si a pensar no ferreiro, e no que o poderia ter levado a escolher uma vida de isolamento como aquela. Se bem tinha entendido parte da sua história tinha passado pelo Santuário… talvez ainda jovem, talvez com o mestre que não revelava a identidade.
Entrando na sala, deu de cara com as pesadas asnas de madeira escura que suportavam o telhado, percebendo que estas se encontravam à altura dos seus olhos. Por segundos amaldiçoou a genética que lhe tinha conferido uma altura bem acima da média dos homens, sobretudo naquela zona do mundo.
Seguiu com os joelhos flexionados, com cuidado para não bater com a cabeça na estrutura baixa, e olhou à sua volta para a sala de pequenas dimensões, apenas iluminada por uma janela não muito grande. Se não fosse pelos tectos e as paredes pintadas por uma mistura harmoniosa de dourados e vermelhos, podia jurar que estava num sótão comum, no qual estavam acumulados estranhos objectos que não sabia de onde vinham.
- Humm… - murmurou erguendo o sobrolho pensativo - … não me parece que venha aqui gente com frequência…
Procurou com o olhar se encontrava algo, mas à primeira vista apenas percebeu alguns vultos cobertos com panos brancos ou peças de materiais que se pareciam com armaduras, montados aleatoriamente.
Foi à sua esquerda que descobriu o que procurava. Sorriu ao descobrir a caixa de pandora dourada, a efigie de um touro em baixo relevo encarando-o de face. Arrastou-a com cuidado pela alça, descobrindo uma fina camada de pó que começava a manchar a sua caixa preciosa.
Mas onde o ferreiro tinha desencantado a ideia de deixar uma preciosidade como uma armadura de ouro num lugar daqueles? Logo ele que conseguiria entender o real valor daquela armadura?
O brasileiro passou a mão calejada sobre as faces da caixa, limpando-a minimamente antes de voltar a coloca-la às costas. Tinha passado alguns dias ali fechado, acabando por demorar a habituar-se novamente às tiras de couro nos ombros.
Mas quando se preparava para voltar a descer, identificou algo no lado oposto à sala que captou a sua atenção. Era sim mais um objecto coberto por um pano branco, mas os seus contornos pareciam-lhe familiares. O tecido que o cobria estava encardido pela humidade e possivelmente pelos anos, mas se os seus olhos não o enganavam, aquilo era uma caixa de pandora, de dimensões semelhantes à sua.
Aldebaran respirou fundo, ponderando a hipótese de ceder à sua curiosidade: quais seriam os cenários prováveis que o levariam a encontrar ali, naquele lugar onde pareciam ser atirados objectos já sem interesse, uma caixa de armadura semelhante à sua? Se a forja do ferreiro era na cave…
E aquele vulto parecia estar ali à alguns anos, intocado… talvez o ferreiro se tivesse esquecido da sua existência.
O brasileiro estudou a imagem por alguns segundos mais. Depois voltou a pousar a armadura no chão perto da escada, e levantou-se decidido a revelar aquele pequeno mistério antes de regressar.
Aproximou-se do vulto enegrecido e passou-lhe a mão por cima, sentindo-se instantaneamente desconfortável pela acumulação de pó. Para evitar um surto de tosse, optou por uma abordagem mais delicada, em vez de levantar de uma vez o lençol.
Mas ao levantar o pano e espreitar o que ele escondia, o seu coração parou, não acreditando no que os seus olhos revelavam. As palavras escritas na carta do Santuário começaram a fazer sentido.
As chamas amarelas e vermelhas cintilavam na lareira, espessas e bamboleantes.
No centro da sala, a atenção do ferreiro tinha-se concentrado numa nova armadura, incompleta, que jazia no centro da sala. Os olhos verdes atentos tinham descoberto os pontos críticos que necessitavam de atenção urgente; a mão direita segurando o martelo em ouro pronto a ser usado. Aquela armadura estava lastimável…
Respirou fundo. Sentia sempre um aperto na alma a cada uma que lhe chegava naquela condição. Era de esperar que os cavaleiros não dessem o devido valor à armadura que, muitas vezes, lhes salvava a vida. Sabia de muitos deles que subestimavam os próprios poderes e revestiam-nas como adornos para mostrar a sua posição.
Respirou fundo, uma, duas, três vezes, dando por terminados os primeiros preparativos. Estava na hora de começar.
A energia ténue que emanava criava um véu em volta do seu corpo, incitando a armadura a uma qualquer reacção. Bateu levemente com o martelo, produzindo um som metálico, mas nada ajudou. A armadura estava abandonada à demasiado tempo, necessitava de mais sangue.
Não iria pedir a Aldebaran pela sua ajuda naquele dilema, pois ele estava de partida e necessitava de uma boa condição física para descer a montanha.
Tinha esperado poder evitar àquele ponto, mas não havia muito por onde escapar: teria de ser ele a fornecer o sangue, e isso ia reduzir a sua produtividade drasticamente.
Ouviu os passos pesados do brasileiro voltarem a descer as escadas, mas fez pouco caso. Quando estivesse pronto, seria fácil e sem grande esforço usar os seus poderes telecinéticos para o transportar além da ponte suspensa.
Pousou então o martelo, e abriu a mão, fazendo aparecer uma adaga dourada, ornamentada de forma semelhante aos restantes utensílios que usava para trabalhar.
Retirou a ligadura que usava em volta do braço e preparava-se para retalhar a pele clara, quando sentiu o seu pulso ser agarrado com força, impedindo-o.
Adivinhou a presença robusta do brasileiro nas suas costas, mas não se mexeu. Havia alguma coisa estranha naquele acto assaltante, e esperava vir a ter algum contexto para ele.
O que não demorou.
Com um baque seco, viu algo de pesado cair no chão ao seu lado direito, levantando algum pó. Virou o rosto de forma a perceber do que se tratava, quando os seus olhos definiram uma caixa, igual às caixas de pandora usadas para o transporte das armaduras.
Mas à diferença do que esperava ver, aquela não cintilava nem parecia reflectir a luz como a que guardava a armadura de Touro. O ouro baço de contornos e recantos enegrecidos pelo tempo e falta de manutenção; as alças de couro forte que permitiam o seu transporte pareciam ter perdido as suas capacidades, gastas, podiam-se rasgar com o mínimo puxão mais forte.
Mas a imagem que ofereceu uma resposta ao ferreiro não se resumia à caixa de pandora em visível estado de degradação, mas ao baixo-relevo que nela estava desenhado.
A figura de um carneiro.
Com movimentos calmos, o tibetano levantou-se e confrontou o seu interlocutor. No meio do abrupto mutismo geral, apenas o crepitar das chamas permaneceu imperturbável, reverberando no silêncio pesado que se tinha instalado na sala. Durante longos segundos os olhos verdes decididos confrontaram o olhar de censura do enviado do Santuário. Foi a voz autoritária do brasileiro que irrompeu primeiro, impulsionada pela torrente de dúvidas que o absorviam.
- Pode-me explicar o que faz uma armadura de ouro nesta torre?
O tibetano fez desaparecer a adaga da mão, evitando qualquer postura agressiva, e respirou fundo antes de responder – Não creio ter-lhe dado autorização para remexer nas minhas coisas enquanto estivesse aqui hospedado.
- A minha missão, apesar de pacífica, é antes de tudo de reconhecimento. Tenho o dever se averiguar circunstâncias suspeitas durante a minha estadia, de forma a contar com o maior rigor quando voltar. E esta – apontou com o dedo em direcção da caixa dourada – parece-me uma situação bem duvidosa.
- Não vejo grande margem para dúvida… parece-me tudo muito claro.
Aldebaran semi-cerrou os olhos, em estado de intimação. A armadura de Áries tinha sido considerada desaparecida após a subida de Arles ao Patriarcado. Corriam histórias sobre o assalto e durante anos tinham sido feitas expedições numa tentativa de a reencontrar. Quem a tinha roubado tinha-se aproveitado da confusão gerada pela morte do antigo Patriarca para se infiltrar no Santuário e levar algo de precioso.
O cavaleiro observou o anfitrião agora sob um novo ângulo. Os seus poderes de telecinese encaixavam-se perfeitamente na história: devido à força cósmica que emanava das doze casas, nunca lhe seria possível ultrapassar o primeiro templo.
Sim… agora tudo fazia sentido.
Talvez o Patriarca tivesse dúvidas a respeito do ferreiro, mas não tinha provas do seu assalto. Mas agora, com a descoberta que tinha feito, aquele homem devia ser levado a julgamento! E que descoberta! Pelo estado da caixa de pandora, ela não era polida, limpa ou tratada à uns largos anos… a ironia da situação não deixou de ser flagrante. Já dizia o ditado, "em casa de ferreiro"…
- A directiva é muito clara quanto o que deve ser feito com você, o que o salva de um aprisionamento imediato – começou o discurso, frisando as últimas palavras – À luz da armadura roubada do Santuário, Mestre Arles definirá a sua pena. Aconselho-o a não sair de Jamiel até à decisão do alto comando.
Visivelmente perplexo, o tibetano levou um longo instante a despertar do torpor da surpresa – …roubada?
- Mas por ora, a armadura de Áries regressa comigo para o Santuário.
As últimas palavras tiveram um efeito catalisador. O ferreiro pareceu despertar da letargia na qual tinha mergulhado, os olhos verdes acesos por uma súbita descarga de adrenalina - a armadura de Áries não vai a lado nenhum! – deu um passo em frente - Ela pertence-me!
- Ela pertence ao Santuário! – o brasileiro rugiu entre dentes – E não tenha a triste ideia de me impedir de a levar, pois tenho permissão para usar a força se necessário! E acredite em mim: não vai querer combater contra um cavaleiro de ouro…
- Você não entendeu…
Mas sem dar oportunidade de resposta, o brasileiro intransigente elevou o cosmo hostil o bastante para fazer estremecer as paredes. A armadura de touro, que tinha permanecido dentro da caixa de pandora, ganhou vida e prendeu-se disciplinarmente em torno do seu corpo.
Visivelmente não interessado em desculpas, Aldebaran optou por uma pequena demonstração do seu real poder, na esperança de evitar o confronto directo.
Mas ao contrário das suas expectativas, o que sucedeu paralisou-o com o impacto e estupefacção. Os olhos abertos e o sexto sentido aguçado não queriam acreditar na cena que se desenrolava à sua frente.
Da mesma forma como a sua energia expandia além dos limites da torre, outra, de intensidade igual, confrontava-a directamente, impedindo-a de crescer mais.
Arregalou os olhos amendoados ao perceber que, aquele cosmo semelhante ao seu, emanava do corpo esguio do ferreiro. Os olhos verdes do tibetano, tomados de uma determinação potente, encaravam-no com intensidade.
Finalmente, sem que percebesse como nem porquê, viu o corpo à sua frente ser coberto por uma conhecida luz dourada, exactamente como o que tinha acontecido momentos antes. Semicerrou os olhos encandeados, e esperou que o primeiro impacto passasse antes de os voltar a abrir.
A imagem que viu ia além de todas as suas suspeitas: o ferreiro, que até ali mantivera os seus poderes em segredo, encontrava-se coberto pela armadura dourada de Aries. Ao contrário da sua caixa protectora, a armadura mantinha o brilho e vigor inerentes à sua condição de armadura dourada.
- Como...? – murmurou, tentando ligar os últimos acontecimentos.
O ferreiro não se mexeu, permitiu-lhe alguns segundo para se recompor, antes de falar – A menos que esteja interessado numa luta de mil dias, recomendo-lhe que controle a sua cosmo-energia. As paredes são sólidas, mas não aguentarão muito mais tempo o impulso que estamos exercendo nelas.
Ainda estonteado, Aldebaran seguiu o conselho do tibetano, e acalmou a energia que emanava do seu corpo aos poucos. Percebeu que, acompanhando-a, o cosmo do tibetano parecia perder intensidade de igual forma, até se tornar um ténue véu que lhe cobria a figura.
- A armadura de Áries… - murmurou finalmente, após o choque inicial – ela aceitou-o enquanto seu mestre…
O ferreiro assentiu, a voz de novo suave e pausada. Uma vez fora de perigo, tinha-se esforçado por controlar emoções fortes que acompanhavam as memórias adormecidas durante os últimos anos – a armadura de Áries nunca foi roubada do Santuário. Ela foi trazida por mim no dia em que parti.
O brasileiro franziu o cenho e entreabriu os lábios, num misto de espanto e choque – Você esteve no Santuário…
- …durante boa parte da minha infância.
Aldebaran cerrou os olhos e tentou descortinar o significado das últimas palavras. Levou um momento a reflectir, tentando levantar o véu daquela impressão de reconhecimento que sentia a cada vez que olhava para aquele homem.
Durante alguns anos o ferreiro tinha vivido no Santuário com ele, e as suas feições exóticas não o deixariam passar despercebido com toda a certeza.
O brasileiro revisitou as memórias adormecidas em busca de algo que o ajudasse a reconhecê-lo. Foi quando, em pleno frenesim de recordações, que o seu rosto finalmente se iluminou e voltou a abrir os olhos efusivos.
- Espere… você era a criança prodígio que treinava com o próprio Patriarca, mestre Shion?
O tibetano ergueu o sobrolho, visivelmente surpreendido - Criança prodígio? – perguntou num tom irónico.
Aldebaran suspirou demoradamente, pensando na melhor forma de abordar a questão. Aquelas memórias do Santuário e da sua infância já não estavam assim tão claras quanto isso, e não se lembrava bem de onde tinha surgido aquela alcunha para a criança estranha.
- Não eram propriamente todos os aprendizes que tinham a oportunidade de treinar com o grande mestre… - acabou por revelar, sem grandes certezas.
- Mestre Shion era meu predecessor enquanto cavaleiro de ouro de Áries. Nada de mais natural que treinar com ele…
- Entendo… - respondeu fechando os olhos e afastando a armadura de ouro de volta para a sua caixa de pandora - ninguém do alto comando da época fez qualquer declaração sobre o seu desaparecimento…
- Essa é uma longa história… - o tibetano murmurou, espelhando a acção de Aldebaran – terá de esperar por uma outra altura. Tem ordens para regressar ao Santuário o mais rapidamente possível e o seu tempo está escasso. Precisa de sair daqui antes que a tempestade chegue.
Aldebaran voltou a cabeça para a janela e observou o Sol prestes a esconder-se por trás das nuvens carregadas, que se aproximavam no horizonte. A curiosidade sobre a história daquele homem era muita, mas tinha de alcançar a cidade mais próxima o mais rapidamente possível. A escalada era a parte mais dificil da viagem, e uma vez no vale, teria o restante caminho facilitado.
- Uma última questão… - disse enquanto colocava a caixa de Pandora às costas – nunca chegou a dizer-me o seu nome…
O tibetano cruzou os braços sobre o peito, fitou calmamente o seu interlocutor e sorriu de forma estranha, como se estivesse perante a confirmação de algo que suspeitava havia muito.
