O Emissário
As chamas das luminárias delineavam sombras fantasmagóricas; projectando vultos gigantes e imponentes nas paredes rugosas do templo. As figuras cobertas de armaduras douradas e uma longa capa branca posicionavam-se em silêncio de frente ao respectivo lugar, evitando olhar uns para os outros. O homem de túnica escarlate sentou-se lentamente na poltrona, e encarou os seus seguidores.
- Aldebaran de Touro, seja bem-vindo de volta…
Na fila de cavaleiros uma figura fez uma breve reverência- Grande mestre - murmurou em sinal de respeito.
- Podem tomar os seus lugares.
As palavras do Grande Mestre tiveram efeito instantâneo, os sons metálicos encheram a sala à medida que os cavaleiros se sentavam. O homem percorreu a congregação com o olhar, o rosto tapado por uma fina máscara de porcelana.
- Senhores, estamos hoje aqui reunidos por consequência de acontecimentos recentes que merecem a nossa atenção durante alguns minutos – disse em tom formal – penso que todos estejam a par dos incidentes em Jamiel nos últimos tempos, o que levou o Santuário a investigar os eventos paranormais. Aldebaran de Touro foi o cavaleiro destacado para essa missão.
Seguiu-se um silêncio pesado entre os cavaleiros. O Patriarca estendeu a mão esquerda, fazendo sinal na direcção do brasileiro que permanecia sentado a poucos metros de distância. Todos os seus movimentos eram apropriadamente lentos, tão vagarosos que tornavam uma reunião informal num acontecimento solene.
- Conte-nos, Aldebaran, o que encontrou em Jamiel.
O brasileiro clareou a voz, e fitou os companheiros – O aprendiz de mestre Shion, assim como a armadura de ouro de Áries.
A sala rebentou num clamor de vozes após a revelação. Multiplicaram-se os semblantes intrigados e a irrequietação no grupo, olhares atentos, rostos em silêncio e agitações nas cadeiras.
- Como assim, o aprendiz de mestre Shion? – adiantou um dos companheiros sentado à sua esquerda – Essa criança roubou a armadura?
Aldebaran suspirou. Aquela situação não era das mais confortáveis, mas teria que relatar o que tinha assistido nos últimos dias. Tinha feito o voto de fidelidade ao Santuário e à causa, e era esse que tencionava cumprir.
- Sim, e não… - respondeu ponderadamente, recebendo alguns grunhidos ansiosos – passo a explicar: o aprendiz de mestre Shion está vivo, e encontra-se em Jamiel. Enquanto herdeiro da casa de Áries, quando o seu mestre morreu, saiu do Santuário por razões desconhecidas e levou a armadura consigo. Apenas sei que, hoje ela aceita-o incondicionalmente como seu protegido…
- Você lutou com esse homem, Aldebaran? – exclamou outro companheiro, com expressão intrigada.
- Calma… - pediu o brasileiro, erguendo a mão direita – Não lutei contra ele, apesar de ter chegado perto. Mas se tal tivesse acontecido, não estaria diante de vocês tão rápido, não acha?
- Sim, de facto…
- Então, o aprendiz de Áries, agora cavaleiro de ouro, reside numa torre, perto da aldeia de Jamiel. É chamado pelos Chineses de Tiejiang, ou mais precisamente, "o homem de ferro". Os habitantes locais chamam-no de Mu, que foi o nome que usei enquanto fiquei na torre.
- Mu… "o ser celeste"?
Os olhares encararam o novo interveniente, perplexos com a apreciação.
- Mais precisamente o deus celeste – respondeu o brasileiro, o olhar carregado de uma expressão inquisitiva – não conhecia os seus dotes de mandarim…
- Dotes é uma palavra muito forte… - recebeu de resposta - chamaria antes de curiosidade.
- Mas voltando ao foco da questão: se esse tal de… Mu… ou lá como se chama, é realmente um cavaleiro de ouro; o que faz ele isolado nos Himalaias? O que o fez desaparecer com a armadura sem autorização e, sobretudo, a quem oferece diligência?
Aldebaran sentiu os olhares retornarem na sua direcção, esperando ansiosos por respostas.
- O que o fez desaparecer com a armadura, não sei. Essa questão ficou por responder devido ao pouco tempo que tinha para regressar. Mu omitiu a sua verdadeira identidade até momentos antes da minha partida, e a revelou por ter sido obrigado a isso – fez uma pausa para estabelecer o fim de uma resposta – A quem oferece diligência, penso que essa questão está segura. Afinal, é o discípulo de mestre Shion, na segurança de lealdade à deusa.
O brasileiro conseguia decifrar alguns rostos não muito convencidos com a sua associação.
- Aioros tinha jurado fidelidade a Atena, não o impediu de tentar assassiná-la…
Um silêncio pesado abateu-se sobre a sala, apenas riscado pelo som metálico de uma figura irrequieta visivelmente incomodada. Os ombros descaíram e o torso encolheu; o olhar verde prendeu-se num ponto invisível no chão. Passado o embate inicial das palavras do companheiro de armas, algo dentro de si começou a mexer, as suas faces ruborizaram e o rosto ensombrou-se de ira mal contida à beira da erupção.
Atento aos seus interlocutores, o brasileiro quebrou o silêncio, evitando o desfecho daquele acesso de raiva controlada – Quanto ao seu isolamento… bem, pelo que percebi, o Tibete é o seu lugar de origem, e é onde se dedica a… outros trabalhos...
- Outros trabalhos?
- O cavaleiro de Áries pertence a uma grande linhagem de lemurianos – a voz do Patriarca interrompeu finalmente o diálogo, fazendo os olhares virarem-se todos na sua direcção – ele é o único capaz de restaurar as armaduras sagradas.
Após a confidência, esperou alguns instantes, deixando as suas palavras assentar - O actual cavaleiro de Áries, enquanto lemuriano, é o único que possui o conhecimento da forja capaz de reviver as armaduras de ouro, prata e bronze. A sua ligação com o Santuário é assegurada pelo seu papel de ferreiro – fez uma pausa – mas pela sua recusa em regressar ao Santuário, é necessário outro tipo de abordagem.
- Se Maomé não vai a montanha…
O Patriarca assentiu.
- Apesar das novas descobertas, será seguida a última directiva estabelecida pela décima Ekklesia. Serão feitas inspecções periódicas a Jamiel, assim como será exigido ao cavaleiro de Áries que submeta relatórios periódicos ao Santuário.
O ambiente na sala de audiências tornara-se denso, como se um nevoeiro se tivesse apoderado do espaço. A recente descoberta de um cavaleiro que se julgava desaparecido há muito tempo tinha apanhado a todos de surpresa. A importância de uma relação directa entre os doze integrantes do cimo da hierarquia era primordial para a coesão da defesa do Santuário. O surgimento de alguém de fora tinha piorado a situação que, por si, já não era simples.
- Senhores, a hora da grande batalha aproxima-se – o Grande Mestre levantou-se lentamente, falando em tom formal – O surgimento do cavaleiro de ouro de Áries vem à nossa vantagem quando o tempo da batalha final chegar. Unidos, venceremos. Divididos, falharemos.
Todos concordaram com as palavras do mestre, alguns mais satisfeitos que outros.
- Grande mestre – a voz grave de Aldebaran ecoou após alguns segundos – venho propor-me enquanto emissário entre Jamiel e o Santuário.
- E porquê você?
O brasileiro encarou sereno o colega que o tinha interpelado – bem, por onde começar… o facto de já ter feito a viagem de ida e volta, de saber onde se encontra o esconderijo, de ser conhecido em Jamiel tanto pelos habitantes como pelas milícias chinesas; os meus conhecimentos em mandarim…além de que, o cavaleiro de Áries não é uma pessoa fácil… foi preciso algum tempo para que me aceitasse enquanto convidado.
- Vive isolado e ainda se dá ao luxo de ser escrupuloso com as visitas…
- Talvez por ser escrupuloso com as visitas é que vive isolado… já pensou?
Aldebaran fechou os olhos, acomodando o rosto na palma da mão. Como sempre acontecia naquelas reuniões, raros eram os momentos em que todos estavam de acordo. Respirou fundo, preparando-se mentalmente para algum tipo de surto de desagrado. Os grandes conflitos entre eles surgiam justamente quando confrontados a situações básicas como aquela.
- Senhores – uma voz inexpressiva tomou conta da situação, impedindo que o desentendimento prosseguisse – as suas alegações são coerentes, Aldebaran, e a meu ver, já que o cavaleiro de Áries pareceu aceitá-lo enquanto intermediário, não vejo razão em arranjar problemas onde eles não existem. Já que se candidata de livre vontade ao posto, não vejo porque não.
Apesar de alguns trejeitos de desagrado da parte de alguns companheiros, ninguém se opôs ao raciocínio coerente do cavaleiro. O voto quase unânime seguiu-se sem problemas, dando um fim ao assunto traçado para a reunião.
Mas quando todos se preparavam para regressar aos respectivos postos, a curiosidade falou mais alto num dos membros da assembleia, devolvendo todos à realidade.
- E essa pessoa que temos vindo a chamar de "Cavaleiro de Áries" e "ferreiro", por acaso tem um nome?
Apesar da simplicidade da questão, Aldebaran mostrou-se pouco confortável com ela. Tossiu de forma a clarear a voz – Nunca mencionou o seu nome enquanto estive na torre. Como os habitantes locais, acabei por chamá-lo de Mu.
- Hum… estou a ver… - respondeu o interlocutor pensativo, antes de virar o rosto na direcção de uma terceira pessoa – Não era você que tinha algum contacto com o aprendiz do Patriarca durante a nossa infância? Deve lembrar-se do nome dele…
O homem permaneceu quieto e silencioso, sob os olhares atentos do grupo. Era difícil perceber o que pensava ou mesmo se iria dizer alguma coisa, e quanto mais o tempo avançava, menores eram as probabilidades de resposta. Mas apesar das perspectivas, a sua voz fez-se ouvir após um longo silêncio – Mu parece-me uma escolha de nome acertada.
Aldebaran revirou os olhos, impaciente com o resultado daquela situação. O homem a quem tinha sido feita a pergunta estava longe de ser o mais loquaz, não sabia porque ainda esperava algo de esclarecedor da sua parte.
Subitamente, algo chamou a sua atenção naquele quadro formal. Apesar da máscara, conseguiu perceber que o Grande Mestre estudava cada um longamente, como se quisesse vasculhar no que se escondia para além deles.
Esperou longos minutos em silêncio, antes de serem formuladas as ultimas palavras.
- Muito bem Aldebaran. Daqui adiante será destacado enquanto emissário do Santuário de forma a manter a ligação com Jamiel e o cavaleiro de Áries. Ser-lhe-ão fornecidas instruções dentro da próxima semana – fez uma pausa para enfatizar as últimas palavras – declaro a sessão encerrada.
A primeira coisa que Aldebaran pensou após o termino do concilio foi, apesar da presença de todos na sala, o quão estranho tinha parecido aquele último gesto do Patriarca, considerando que estava perante os seus homens de maior confiança. Era certo que, devido ao que tinha ocorrido com Aioros, tinha duplicado a sua atenção e suspeita, mesmo no seio da elite. Apesar disso, nunca tinha assistido a uma situação tão directa ao ponto de se sentir descortinado daquela forma.
Quando o brasileiro virou as costas e se preparava para sair com os restantes companheiros, o espírito mergulhado nos últimos acontecimentos e do seu novo cargo, um movimento suspeito chamou-lhe a atenção. Estudou o movimento da sala e apercebeu-se de que todos se dirigiam à saída, excepto um cavaleiro, que permanecia em pé, de frente para o Patriarca. Tomou nesse instante consciência de certas disposições que tinham sido postas em vigor em paralelo com aquela reunião.
Virou o rosto uma última vez, dando uma olhada para as duas figuras que permaneciam junto ao trono do Patriarca: uma, o Grande Mestre, tinha-se voltado a sentar. A outra, de pé, mantinha a postura solene e protocolar digna de um ser etéreo.
Esse ser respondia pelo nome de Shaka de Virgem.
