N/A: É importante salientar nesta nota que, apesar de geralmente estarmos de acordo, este final da história não obteve o selo de perfeito da minha beta. Como bem salientado, há algumas disparidades entre o caminho pelo qual segui e a história de Saint Seiya contada pelo autor, Masami Kurumada.

E durante um tempo pensei em mudar mas depois pensei... e SE...? Pois é, para os mais xiitas em relação ao plot original, esta versão pode não ser muito bem vista, mas a minha licença poética permitiu-me expô-la como opção.

É normal que estas palavras não sejam entendidas agora, mas sim no final do texto. Então por essa razão... que siga a leitura!


A Missão


O caminho para a porta aberta encontrava-se empoçado e lamacento devido às chuvadas que tinham caído nos dias anteriores. Não havia crianças a brincar, como era habitual àquela hora; as portas geralmente abertas mantinham-se fechadas evitando que a água inundasse os interiores. Apenas uma casa mantinha-se sempre acessível, sobretudo durante situações de crise.

Sem perder tempo, convergiu naquela direcção e afastou a cortina que pendia do lado de dentro, sendo recebido por um delicioso odor a incenso queimado.

- Tashi deleh – disse alto, esperando ser correspondido.

Demorou alguns minutos antes que o anfitrião aparecesse do interior da casa, limpando as mãos macias num pano branco. Os olhos gentis encararam-no com alguma surpresa inicial que rapidamente se desfez.

- Kbyerang kusu depo yinpe?

O médico sorriu calmamente, aproximando-se dele – O seu regresso estava demorado! – respondeu em tibetano, enquanto pousava o pano sobre a mesa de madeira – Depois da partida de Aldebaran, esperava vê-lo mais cedo.

O homem sorriu, aceitando o convite para entrar. Aquele lugar tinha tido sempre uma aura acolhedora que o deixava confortável – Sabe como é…as tempestades impediram-me de viajar mais cedo…

Tulku Lobsang sorriu de novo, com um ar condescendente – oh… o seu mestre não lhe ensinou que era muito feio mentir? Ambos sabemos que os seus poderes lhe permitem certas facilidades, não é mesmo?

O ferreiro riu, e fez um sinal de rendição com as mãos – verdade… não tenho desculpa… mergulhei no trabalho e perdi a noção do tempo.

A resposta pareceu despertar o instinto do médico, que rapidamente mudou de feições. Aproximando-se do homem que acabava de entrar em sua casa, agarrou-lhe na mão com extrema calma e atenção, e começou a retirar a ligadura que cobria os pulsos.

O outro suspirou, deixando-se fazer, e esperando pelo sermão que sabia não tardar – … em minha defesa, foi apenas uma armadura de bronze…

Tulku Lobsang suspirou, quase como se estivesse a dirigir-se a uma criança – bronze, prata ou ouro não interessa… esse método de restituição das armaduras é desumano. Uma coisa é cada cavaleiro dispensar do seu sangue para reviver a armadura que lhe pertence; outra totalmente diferente é colocar a sua vida em risco para reviver armaduras que nunca serão usadas!

O homem observou o médico atravessar a sala inúmeras vezes, procurando por algo. Quando achou o que queria, regressou na sua direcção agarrando um recipiente cheio de uma mistura pastosa, com um cheiro nauseabundo que o fez torcer o nariz – …nunca disse que as armaduras não seriam usadas… apenas nunca o serão pelo Santuário! – respondeu afastando-se ligeiramente – mas que criação do inferno é essa?!

O médico respirou fundo enfadado, como se fizesse um esforço sobre-humano para manter a paciência – devia passar mais tempo na aldeia e menos tempo em isolamento. Desse modo melhoraria essa sua sensibilidade olfactiva, e talvez se tornasse um homem em vez de agir como uma criança!

O ferreiro encarou-o com os olhos semicerrados e abanou a cabeça – Julguei que enquanto cavaleiro de ouro fosse respeitado e honrado, mas vejo que não é o caso… além disso, tenho uma missão a cumprir…

- Não seja ridículo… - o médico continuou a massajar os cortes no braço do companheiro com o unguento até que este fosse absorvido pela pele clara - …quantas armaduras faltam?

- Foi a última.

Fez-se um longo silêncio entre os dois, enquanto o terapeuta trocava as ligaduras.

Mal tinha terminado, foi o primeiro a rompê-lo.

- Há algo que me atormenta à uns dias, e não consigo arranjar resposta para a questão. Talvez me consiga ajudar.

O ferreiro girou a cabeça e observou o pano vermelho que cobria a porta oscilar com os ventos de norte. Tinha uma pequena ideia do teor da dúvida, mas sabia que estava na hora de respostas. Respirou fundo.

- Diga…

– Se até agora tem vindo a arranjar as armaduras para o Santuário... e oh! Como eu sei que tem! Pois durante anos tratei das suas feridas e anemias devido ao corrimento de sangue… e partindo do princípio que o Santuário é uma instituição inteligente e com recursos eficazes; como só agora eles chegaram à conclusão de onde se escondia? – perguntou com uma genuína expressão intrigada.

O ferreiro encostou-se nas almofadas e respirou de novo profundamente – Simplesmente porque as armaduras que eu passei anos a recuperar nunca chegaram ao Santuário.

Lobsang estagnou, as mãos húmidas acabadas de lavar, digerindo a revelação disparada sem rodeios – Hum… estou a ver… - respondeu – e para onde as tem enviado?

- Depende da armadura… acabo de chegar do Monte dos Cinco-Picos onde deixei a última.

O médico encarou-o com alguma perplexidade – essas foram as ordens de mestre Shion?

O homem assentiu – Reaver a armadura de Aries; Regressar a Jamiel; Recuperar o máximo de armaduras possíveis e distribuí-las ao seu local de origem. – fez uma pausa - Nunca restituí-las ao Santuário.

- E disse-me que acabou de deixar a última armadura em terras chinesas…

- Mais precisamente a armadura de bronze de dragão.

Fez-se um curto silêncio, durante o qual nenhum dos dois homens se encarou, cada um absorto nos seus pensamentos.

- E como sabe que esta é a altura certa para parar?

O ferreiro levantou-se e remexeu os pulsos recém atados – porque o Santuário sabe onde estou. E se a minha intuição não me engana, passarei a ser vigiado de forma oficiosa e em total sigilo; além das visitas oficiais periódicas.

Lobsang forçou-se a fazer um sorriso, sem grande motivação – veja o lado positivo: está livre de uma mutilação forçada!

- Engana-se… - o convidado respondeu, fracassando em retribuir o incentivo - é agora que começa o verdadeiro aprisionamento.

O sorriso no rosto do médico desfez-se, e fitou o companheiro com uma indisfarçável e irreprimível ponta de tristeza.

- A porta desta casa ficará sempre aberta para quando precisar…

O ferreiro mirou-o com uma expressão agradecida. Durante breves segundos encararam-se em silêncio, num respeito mútuo de amigos que se conhecem há muitos anos. Companheiros que apenas necessitam de meias palavras para entender o verdadeiro significado daquela missão.

O ferreiro acabou por consentir com um breve aceno da cabeça, para logo desaparecer num feixe de luz. Murmurado antes da partida, um "Thu dijitchi" pairava suspenso, como se de um ser etéreo tivesse surgido.

Um ser que respondia por vários nomes; Tiejiang; bTsan; Mu, a divindade; ou simplesmente Mu, o ferreiro de Jamiel.

Fim