Quando conheci o Tóris, ainda éramos do colegial. Eu era novo na sala e ele era novo na cidade. Ficamos amigos imediatamente.

Ambos éramos meio esquisitos, mas ainda assim suprimos nossas diferenças.

Tóris era melhor relacionado do que eu, ele conseguia se adaptar fácil e não era tímido, já eu, pelo contrário, demorava a me adaptar e era meio travado; andava sempre com os mesmos amigos e evitava me expor, mudar de colégio, para mim, foi uma prova árdua.

Nunca fui do tipo popular no colégio. Era muito calado e passava a maior parte do tempo escrevendo no meu diário ou arranjando confusão com garotos mais velhos, porém, nunca tirava notas abaixo da média e sempre estava entre os 20 melhores alunos.

Tóris, pelo contrário, era comunicativo e muito agradável. As pessoas gostavam de ficar perto dele por sua fisionomia gentil e personalidade cativante. Era sempre o primeiro lugar da turma, mas nunca se exibia por isso, talvez porque ele nunca sabia que era o primeiro lugar. Ele era muito desligado. Às vezes, passava a aula inteira viajando, desenhando qualquer rabisco no caderno, ou, simplesmente, não prestando atenção.

Lembro que uma vez estávamos no meio de uma aula de física insuportável. Todos na sala estavam com o cenho franzido, perguntando-se por quê raios alguém teve vontade de medir as vibrações numa corda, menos o Tóris, que parecia compenetrado. Tão compenetrado que me fez sentir remorsos por não estar aprendendo a matéria.

Olhei-o fixamente por alguns segundos, achando-me a pior pessoa do mundo quando, subitamente, Tóris começou a sorrir na direção do professor. Fiquei muito impressionado.

,,Ele é tão gênio que está achando esse assunto ridiculamente fácil!" - pensei.

- Tóris, – cutuquei-o e sussurrei para ele – Tóris!

Lentamente, como se tivesse acordado de um sonho, ele virou para mim.

- Sim, Gilb, o que foi?

- Você está entendendo este assunto de física?

- Assunto? Que assunto? - perguntou parecendo realmente surpreso.

Levei uma mão à testa.

,,Não tem jeito", pensei desolado.

- Ondas...

- Ondas? Vamos à praia depois da aula? Oba!

Levei uma mão à testa novamente.

- Nein! O assunto de física. Ondas.

,,Não temos praia em Berlim", tive vontade de dizer.

- Ah, sim, sim. Essa coisa chata? O que tem ela?

- Eh... Você está entendendo alguma coisa?

,,Ou... Você prestou atenção à alguma coisa?", pensei comigo mesmo.

- Claro que não.

- Achei que estava, porque você estava sorrindo.

- Estava?

Sim. O Tóris era isso. Completamente alienado.

- A-han... Enfim, deixa para lá.

Senti muito a sua falta quando ele teve que voltar para sua cidade natal. O pai do meu amigo era militar, portanto, não se estabeleciam por muito tempo em um canto só. Viviam uma vida itinerante e com poucas raízes, por isso, valorizavam os amigos de verdade que ora conquistavam.

Tóris não tinha irmãos. A família pequenina era composta por sua mãe, seu pai e ele. Meu amigo me disse que, frequentemente, ficava sozinho, pois sua mãe também trabalhava para o exército e mal parava em casa.

Ao longo do tempo, fui percebendo como meu amigo tinha um déficit de atenção, então, o fato de ele sempre estar doente ou sempre querer ser o centro das atenções começou a fazer muito sentido para mim.

Apesar dos pequenos defeitos - quem é que não os tem? - ele era um bom amigo e sempre parecia generoso, me dando presentes sem motivo algum.

,,Ah, sei lá, achei a sua cara, Gilb", dizia.

Mantivemos nossa amizade por cartas, afinal, ele odiava computadores; não sabia mexer direito e nunca se interessou em aprender. Internet para ele era um mal necessário.

Durante o ano que passamos separados – e que eu pensei que fosse morrer no abismo da solidão -, estranhamente, tornei-me mais simpático e as pessoas começaram a se aproximar de mim, a conversar comigo, a perguntar minha opinião; enfim, comecei a me inserir no meio.

Fiquei tão inserido que o próprio Tóris notou a mudança pelo teor de minhas cartas.

,,Meu amigo, sua mudança me deixou impressionado. Veja só, tenho um amigo popular!", ele me escreveu em uma de suas cartas.

Percebi o quanto mudei em um ano, tudo graças ao Tóris. Ou talvez, graças ao Tóris e a mim mesmo.

O fato é que em um período de pouco mais de 12 meses, o Gilbert Beilschmidt de 15 anos, tímido, com espinha na cara e auto-estima abaixo de zero, tinha dado lugar ao Gilbert Beilschmidt de 16 anos, popular, bonito e muito, muito Awesome e esperava me tornar um Gilbert Beilschmidt de 17 anos muito melhor.

Eu não passava um fim de semana em casa, vivia na rua, escutando música gótica, bebendo vinho barato com meus amigos no cemitério – apesar de preferir cerveja - e fazendo planos de me tornar um músico famoso.

Em casa, meus pais não me suportavam mais. Meu irmão mais novo praticamente me idolatrava, principalmente quando eu chegava à casa com o lábio partido, um olho roxo, camisa rasgada, suja de sangue e umas correntes novas, do pessoal em quem eu havia batido.

Esse instinto violento nunca deixou de me acompanhar e se tornou mais forte quando comecei a andar com o pessoal alternativo do colégio. Geralmente eram pessoas meio diferentes, que não seguiam os padrões instituídos pela sociedade ,,classe dominante", detentora dos meios de produção e, por isso, meus amigos sofriam perseguições estúpidas.

Tudo bem que violência não justifica, mas sou esquentado. Meu signo não me permite ver nenhum amigo meu apanhar enquanto eu fico olhando. Etschuldigung.

Como sempre fui habituado a escrever em diários, escrever cartas para o Tóris, que estava morando 2000km longe, mesmo que demorassem meses para escrevê-las, tornou-se uma prática agradável; ele sempre respondia e isso tornava o processo mais dinâmico.

Um dia, recebi uma mensagem no celular:

,,Gilbo, saca só. Tô voltando pra Berlim no final do ano! Tenho novidades pra você. Ligo à noite. Abraços, Tóris."

Fiquei muito curioso. Tóris raramente mandava SMS para mim. Tudo bem que a notícia era especial e ele queria falar comigo, mas custava dizer um pouco mais sobre o que se tratava?

Aquele dia pareceu se arrastar, só porque eu queria saber o que meu amigo tinha para me contar. Talvez ele estivesse namorando, talvez fosse proposta de emprego de meio expediente ou talvez fosse apenas o Tóris sendo... Tóris (o que era muito provável que fosse).

Às 18h em ponto o telefone tocou. Era meu amigo.

Ele me contou que estava namorando uma menina da Irlanda chamada Mary Jane e ele achava que era o amor da vida dele, que estavam pensando em casar, que a menina era incrível e o que eu achava disso.

Fiquei confuso do outro lado da linha.

,,Como?"

- Bom... Er... Tóris... Tudo bem que você queira casar, mas você não acha que está muito novo para isso, cara? Você ainda nem completou 17 anos. Tem certeza?

- Tenho, Gilbert. A Mary Jane é o amor da minha vida, eu estou certo disso. Meus pais não gostam muito do pai dela. Acham-no muito controlador e ciumento, mas meu sogro me trata muito bem e parece contente com nosso relacionamento. Acho que vou comprar uma aliança de noivado!

- É, pelo visto você já se decidiu. Bom, eu desejo a você toda felicidade e... meus parabéns. Mas, mudando de assunto, você vai vir mesmo pra cá?

- Sim, sim, eu vou. Já conversei com a Mary Jane sobre isso e ela concordou em namorarmos à distância por um tempo. Meu pai foi transferido de novo para Berlim e vou voltar a estudar no mesmo colégio que você. Aliás, você ainda está no St. Hedwig, não é?

- Ja, ich bin. Ou você acha que após aturar todo esse tempo naquela prisão, eu iria embora exatamente no último ano e principalmente agora, que sou o cara mais cobiçado, incrível, popular e foda de todo o colégio?

- Mas é CLARO que não, Gilbo. Além do mais, eu estou voltando mais irresistível do que quando parti. Talvez a minha luz te ofusque!

Rimos com as nossas besteiras.

- Ah! Antes que eu me esqueça, Gil, você está namorando?

- Cara... Sim e não. Eu não namoro. Oresama só fica. Por quê?

- Nada não. É porque eu conheci um cara aqui em Vilna que eu acho que vocês iriam se dar bem.

- Ih... Que merda é essa de me apresentar um CARA, Tóris? - disse fingindo aborrecimento.

- Não é nesse sentido, Gilbert. É porque esse cara é tipo você. Ele é muito inteligente e também gosta de rock, achei que vocês se dariam bem.

- Kesesese, está bem. Onde você o conheceu?

- Bom, a um mês atrás participei de um simulado da ONU. Várias pessoas representando vários países. Conheci ele lá. Ele é russo, de Moscou.

- Olha, comunista.

- Pior é que ele é! Mas vê só, Gil, vou ter que desligar. Vou chegar na próxima sexta-feira, porque minhas aulas aqui só terminam na quinta, mas meu pai chega por aí amanhã.

- Que bom, Tóris! A que horas seu pai chega? E a que horas você chega?

- Surpresa. Quando eu chegar aviso a você.

- Sacanagem!

Com sua risada gentil de costume, meu amigo se despediu de mim e desligamos os telefones. Era uma segunda-feira, só faltavam mais 4 dias para eu ver meu amigo.

A semana se arrastou preguiçosamente como se fizesse de propósito, para me matar de ansiedade. Ainda assim, aproveitei que estava de férias (passei com notas boas) para sair todas as noites com meus amigos.

Meu parceiro de farras se chamava Gregor, ele era dinamarquês, socialista, pegador e muito doido. Adorava se embebedar e curtia música de qualidade. Era o cara mais inteligente e mente aberta que eu conhecia e com ele aprendi que a vida é pra ser vivida e toda forma de amor é válida.

Ele não era gay, mas quando ficava muito bêbado, beijava mulheres e homens sem distinção. Acho que nunca nos beijamos, e aqui enfatizo a palavra ,,acho" porque sempre que eu saía com ele ficávamos tão embriagados que eu não tenho certeza.

Outra parceira de farras era a Elizaveta. Ela era da Hungria e para mim, era a menina mais linda e incrível de todas. A gente tinha ficado algumas vezes e eu realmente gostava dela, mas ela nunca quis ficar comigo à sério. Dizia que comigo era só amizade, muito embora a gente dividia uma intimidade.

Por mais que me doesse o fato de ela me desprezar, no fundo eu ainda tinha esperanças, mesmo sabendo que ela era apaixonada por meu primo, Roderich, que passava mais tempo estudando e tocando piano do que reparando na mulher incrível que dava mole para ele. Viado!

Enquanto sexta-feira não chegava, era assim que eu me divertia e conhecia pessoas, indo à bares e festas alternativas e só voltando depois que o Sol nascia, completamente esgotado.

Quando finalmente o telefone tocou com uma ligação de Tóris, eram 16h. Meu pai entrou no meu quarto e me acordou, escancarando as janelas para o bendito Sol entrar. Como um vampiro prestes a morrer, resmunguei qualquer coisa e me enfiei embaixo dos cobertores.

Minha cabeça pulsava mais do que meu coração e a claridade estava me cegando.

- Acorda, filho, é o Tóris.

- Valeu pai – disse automaticamente.

Peguei o telefone como um zumbi e, com a voz grossa e sonolenta, saudei meu amigo.

- Você já chegou? Tão cedo!

- Cedo? Já são 16h, Gilbert! Eita vontade de me ver, hein? - disse sarcástico.

- Foi mal, cara, é que fui dormir tarde. Bebi pra caralho ontem e estou de ressaca, mas não se preocupe, passo hoje na sua casa.

- Beleza.

Naquele mesmo dia, por volta das 19h horas, fui com meu pai e minha mãe à casa de Tóris para fazermos uma visita. Ludwig, meu irmão, não foi porque estava na casa do amigo, mas ligou para eles desejando boas vindas.

Mal terminei de saudar os pais de meu amigo e conversar qualquer coisa com o casal, Tóris me puxou para seu quarto.

- Mary Jane aceitou meu pedido de compromisso – ele me disse entusiasmado.

- Ah, que ótimo – respondi sem muita emoção. Tóris sabia ser monótono...

- É ela, Gilbert. Eu sei que é.

- Ah se é! - falei revirando os olhos nas órbitas sem que meu amigo percebesse – Aliás, preciso conhecer essa mulher de que tanto você fala. Afinal, não aceito ser menos do que padrinho do casamento.

- É claro que você vai ser. Isso já é certo – ele me disse muito sério.

- Vou mostrar uma foto da minha bebê. Veja como ela é linda!

Meu amigo abriu um álbum enorme. Sem brincadeiras, era enorme. CHEIO de fotos de uma moça completamente normal. Alta, pele branca, cabelos cacheados, cor de mel, olhos castanhos e um nariz levemente aquilino, que não chegava a deixá-la com uma expressão cômica, mas notava-se que era um nariz a ser considerado. Era bonitinha. E só.

- E então? Não é linda? - ele me perguntou cheio de expectativas.

- Uma graça – respondi educado -, muito simpática. Formam um bonito casal.

- Ah! Eu sabia que você ia gostar dela! Aliás, tenho uma ótima notícia!

- Qual? - perguntei entusiasmado. Algo inesperado, dentro de mim, esperava notícias do russo.

- A Mary Jane vai vir para cá me visitar em julho! Não é incrível?

- Sim, é incrível – respondi tentando disfarçar minha decepção.

Comecei a antever que Tóris ia falar mais da namorada e, para não morrer completamente de tédio, perguntei abruptamente:

- Me fala da simulação da ONU e como você conheceu esse russo - fiquei surpreso comigo mesmo.

- Certo, certo! Bom, foi assim. Na metade do ano passado, o colégio onde eu estudava promoveu um simulado da ONU. Foi um evento em escala regional e o número de vagas era limitado, eram 192 vagas, então quem quisesse participar, tinha que se inscrever logo e pagar uma quantia X, que não me lembro.

- Tive muita sorte porque fui o 189º candidato e consegui entrar. Fiquei como delegado dos Estados Unidos.

- Delegado dos Estados Unidos? - perguntei.

- Sim. Por exemplo: quando o candidato participa desse simulado, você meio que age como o diplomata do país. Você tem que estudar a economia do país e a atual política internacional, porque você vai meio que ,,brigar" com os outros delegados dos outros países e tentar estabelecer acordos. É bem interessante. Chamam ,,delegado" por praxe. Na prática é diplomata.

- Ah bom, entendi.

- Bom, eu era delegado dos Estados Unidos e lá estava eu, na minha, quando chega um cara bem altão e assustador, ele começou a me acusar, reclamando da minha política imperialista e neoliberal. Falando da opressão que meu país exercia nos outros e etc, etc, etc. No final, ele disse: ,, Eis aqui a sua política de boa vizinhança!", e colocou 3 cartuchos de balas (vazias) em cima da minha mesa.

- Uau! - exclamei – E para quê ele fez isso?

- Perguntei isso a ele, mas ele me disse que não iria responder a um país imperialista como o meu, depois, ele piscou para mim, sorriu e voltou para a mesa dele.

- Qual era o país que ele representava?

- Cara... era um país da África. Era... Acho que era... O Sudão! Sim, era o Sudão.

- Hmmm.

- Pois é. Aí, fiquei meio intrigado com o cara, porque ele tinha falado que só e não me respondeu o motivo. Então, peguei um papel e escrevi para ele: ,,Senhor Sudão, ao contrário do que o sr. possa imaginar, sou um país democrático e, como em qualquer país democrático, tenho direito à resposta ante às acusações que me foram feitas. Socilito reunião. Delegado dos Estados Unidos"

- Kesesese, foi ótimo, Tóris! E ele?

- Bom, eu vi que ele leu, sorriu e escreveu para mim: ,,Sr. Estados Unidos da América, não me apraz em nada conversar com o sr., mas as regras da boa política tornam impossível recusar sua solicitação. Que nossa reunião se dê no Salão Comunal. Att, Delegado do Sudão". E foi assim que conheci o Ivan. Em poucas horas, conversamos sobre um monte de coisas. Enquanto falávamos de História, eu me situei, mas quando ele começou a falar de política e de bandas de rock, me perdi todo, só não dei vexame maior graças a você, que havia me apresentado várias bandas.

- À noite, o pessoal do Encontro foi todo para um bar e eu fui também – continuou meu amigo -, o Ivan, não sei, pareceu que estava dando em cima de mim! Mas não leve esse meu comentário à sério, eu estava meio alto.

- O segundo dia do Encontro, foi melhor ainda, porque foi quando eu conheci a Mary Jane. Ela era delegada de Honduras e conversamos durante horas. Coincidentemente, ela é amiga do Ivan, então saímos novamente, mas dessa vez fomos apenas nós três.

- Você lembra as bandas que ele curtia, Tóris?

- Não, Gil, desculpa. Ele até me mostrou algumas, mas não lembro. Ah! Ele me deu o e-mail e o MSN dele! E me parece que ele tem um blog também. Vou acessar a internet, talvez ele esteja online, aí posso apresentá-lo.

- Precisa não, Tóris – eu disse sentindo minhas bochechas, estranhamente, ficarem avermelhadas.

- Tem problema não.

Meu amigo ligou o computador e em alguns minutos, acessou o MSN, Ivan não estava. Tóris, meio decepcionado, resolveu me mostrar o blog de Ivan, local onde ele escrevia suas ideias, pensamentos, enfim, local onde ele desabafava.

- Você agora virou fã de internet? - perguntei surpreso.

- Não, mas por mais que eu odeie, admito que o MSN ajuda muito na hora da saudade. Pronto, está aí o blog dele, fica lendo aí enquanto vou pegar algo para a gente comer.

Assim que comecei a ler o blog, havia a seguinte frase:

,,...Por quê é tão difícil? Já estou cansado de as pessoas se declararem, dizerem que querem um relacionamento sério e, quando finalmente eu me envolvo, elas me deixam ou me trocam. Dessa vez foi a pior! Fui trocado pela melhor AMIGA! Puta que pariu! Será tão difícil alguém me amar?"

Estranhamente, após ler a frase, um pensamento esdrúxulo pulou na minha cabeça:

,,Não se preocupe, eu vou amar você."

Balancei a cabeça violentamente. Aquilo NUNCA havia acontecido comigo antes. Eu não era gay para amar outro homem!

Mal terminei de pensar, uma janelinha de MSN pulou, piscando no monitor. Um certo ,,Ivan Braginsky" falou:

,,Oi Tóris, quanto tempo! Já está em Berlim?"

Chamei meu amigo depressa e ele começou a falar com o cara. Eles se escreveram por algum tempo até que o Tóris me chamou, ele havia dito:

,,Hey, Ivan, tenho uma surpresa. Lembra daquele amigo meu de quem eu falei? O rockeiro? Bom, ele está aqui bem do meu lado."

Fiquei vermelho. Meu lado tímido despertou depois de 14 meses de hibernação. No começo hesitei, mas o Tóris me empurrou para falar com o Ivan, visto que seu telefone estava tocando; era a namorada.

Fiquei conversando com Ivan por quase duas horas e, mal nos falamos, começamos a brigar por causa de um poeta de que gostávamos em comum. Eu dizia que o poeta era simbolista e ele, que o poeta era barroco. Na verdade, o poeta não era nem uma coisa e nem outra, ele era moderno, tinha influências tanto simbolistas quanto barrocas, então, ao final das contas, ambos estávamos certos e errados.

Meus pais me chamaram para voltar para casa, pois já era tarde. Despedi-me do Ivan quando, inesperadamente ele disse:

,,Gostei demais de conversar com você, Gilbert, posso adicioná-lo no MSN?"

Como uma garotinha virgem, meu coração deu um pulo.

,,Pode."

Passei-lhe meu e-mail que também é meu MSN.

Despedi-me dele, de Tóris e dos pais de Tóris. Mal cheguei à casa, liguei meu computador e falei mais com o Ivan, na verdade, passamos a madrugada toda falando, trocando músicas, poetas, indicações de livros, etc.

Em poucos dias, o desconhecido russo era O Ivan. Ele começava a fazer parte da minha rotina e a tirar minhas noites de sono e de farra. Nunca havia conhecido alguém tão igual a mim como ele era, parecíamos almas gêmeas ou qualquer dessa baboseira melosa.

Passei meses no mais completo caos mental, porque eu não conseguia parar de pensar naquele cara tão sofrido, tão inteligente e tão... Apaixonante.

Eu havia me apaixonado por um homem e aquilo me pareceu tão errado, tão sujo.

Não pude conversar com o Tóris porque coincidiu que nossas aulas haviam recomeçado, estávamos estudando muito para fazer o teste do final do ano para entrar na Universidade e sem contar que o Tóris só falava da Mary Jane nos momentos de folga.

Passei algumas semanas evitando o Ivan porque eu não queria mais sentir o que estava sentindo.

,,E se ele descobrir que estou sentindo isso por ele e ele não quiser mais falar comigo?", eu pensava.

Contudo, quanto mais tentei esquecer o Ivan, mais ele fazia questão de não me deixar esquecê-lo. Àquela altura, tínhamos trocado números de celular e, diariamente ele me mandava mensagens tipo:

,,Você morreu? Entra no MSN que quero te mostrar um filósofo muito interessante."

Aquilo era um massacre para mim.

Um dia, resolvi me isolar durante o intervalo. Fui a um lugar reservado que poucas pessoas conheciam, ficava por trás da capela do colégio. Sentei-me num batente e joguei a cabeça entre os joelhos e tentei, em vão, resolver meu problema.

- Você não parece bem, Gilbert – disse uma voz atrás de mim.

- Hã?

- O que aconteceu?

Era meu amigo Gregor. Ele estava preocupado comigo havia semanas. Sempre me perguntava o que estava acontecendo e eu nunca lhe dava uma resposta convincente, naquele dia, porém, desabafei.

- Gregor, estou num mato sem cachorro, cara!

- Bom, vamos ver se eu arranjo um para te ajudar – ele disse amistoso, sentando-se ao meu lado, no batente.

Contei a meu amigo tudo o que me vinha acontecendo há algumas semanas. Contei do Tóris, de Ivan, da briga, do MSN, das conversas madrugada a dentro e, pela primeira vez, admiti que estava apaixonado.

- Toda forma de amor, se for sincero, vale a pena, Gilbert. Ninguém escolhe por quem vai se apaixonar, as coisas simplesmente acontecem.

- Mas poderia ser por uma mulher, Gregor! A Elizaveta, por exemplo.

- Podia. Mas podia ser por um homem, no caso, por este homem em particular.

- Gilbert, - continuou ele – isso não faz de você gay, se é o que você está pensando.

- Não? - perguntei surpreso.

- Claro que não. Tanto não é, que você se apaixonou por uma pessoa que está a 2000km de você! Se você fosse realmente gay, teria se apaixonado por mim, que estou bem aqui ao seu lado – ele disse.

Rimos.

- Talvez você tenha razão, Gregor. Talvez eu ficar evitando o cara só piore as coisas.

- Sim. Não só vai piorar como você vai ficar obcecado por ele e vai deixar de sair conosco de vez. Admita logo para você mesmo que você gosta desse cara e vá em frente; deixa rolar para ver o que acontece. Ele gosta de você?

- Eu... Eu não sei. Todos os dias ele me manda mensagens no celular, dizendo para eu entrar no MSN porque ele precisa falar comigo ou qualquer coisa do gênero. Mas ele pode apenas gostar de conversar comigo.

- HAHAHAHA! Gilbert, um homem só insiste muito quando GOSTA de alguém além da pura e inocente amizade. Se ele não sentisse nada por você, você realmente acha que ele estaria fazendo todo esse esforço? Você nem mulher é!

- … Talvez você tenha razão. Afinal, não tem sentido, não é? Tipo, eu e você, nós somos amigos e não ficamos trocando mensagens de texto diariamente.

- De jeito nenhum – ele disse sorridente.

- Pare com isso e responda a esse cara. Diga a ele o que você me disse e deixe rolar. O máximo que pode acontecer é você levar um não pela internet. Que medo, para não dizer ao contrário - ele disse sincero.

- Você está certo, Gregor, vou responder e é agora! - decidi.

,,Ivan, hoje eu entro no MSN às 19h. Não pude entrar esses dias porque estava ocupado. Gilbert."